Twelve Signs
2 A chegada da primavera
Banhando a paisagem com um lindo tom alaranjado, o primeiro por do sol antes da chegada da primavera era aguardado por todos os moradores do vilarejo de Erinn; era um espetáculo natural que dava uma coloração especial ao céu, passando do azul para o laranja, do laranja para o vermelho, do vermelho para o rosa até, finalmente, chegar ao preto, que parecia dar vida a todas as estrelas.
Sentados em frente a uma casa de dois cômodos, feita de pedras cobertas com barro, olhavam encantados para o evento o ancião da vila e um menino. O ancião, sentado em um banquinho de madeira e apoiado com as duas mãos em uma espécie de cajado, levanta seu braço e aponta em direção às montanhas.
— Está vendo essas cores, Kita? Disse o ancião.
— Sim, vovô. Por que não é sempre assim? diz o menino que apoia os cotovelos nos joelhos e repousa a cabeça nos punhos de ambas as mãos.
— Ora, se isso acontecesse sempre deixaria de ser interessante, diz sorrindo e voltando o olhar para seu neto. Principalmente para você...
Kita se levanta ao reconhecer, de longe, as tranças douradas de Ann e corre em sua direção.
— Aproveite esse momento, meu neto, diz o velho erguendo-se do seu banquinho e entrando na casa. Logo teremos muito trabalho pela frente.
Ann estava sentada na grama, em campo aberto, olhando na mesma direção em que o menino olhava. Uma pequena falha nas árvores da floresta fornecia uma visão deslumbrante das montanhas e do por do sol. Kita senta ao seu lado; sorrindo, Ann diz, com olhos distantes:
— Houve uma época em que os deuses habitaram a terra. Sona, a quem chamavam de deusa da luz, era a responsável por levar a luz do sol a cada canto da terra. Ann faz uma breve pausa e Kita se estende no chão, apoia a cabeça no braço direito e se concentra mais na história.
— Não havia controle do tempo; Sona trabalhava por intuição e carregava a luz para todo lugar e a toda hora, conforme achava necessário. E por esse motivo ela e Noto, que levava a escuridão, sempre entravam em conflito. Após anos de desavenças, Sona é pega de surpresa por Noto ao passar por essa região. Ela foi aprisionada e, com o passar do tempo, foi perdendo sua luz que passou do amarelo para o laranja, do laranja para o vermelho, do vermelho para o rosa até, finalmente, chegar ao preto. Sua morte fez com que seu corpo desintegrasse em vários pedaços, que só brilham quando escurece.
Kita senta. Ann olha para ele com uma expressão de dúvida.
— O que acha da história? Disse ela, curiosa.
— Não faz sentido. Diz Kita fazendo uma careta e sorrindo. Como ela poderia levar a luz para vários lugares ao mesmo tempo? Noto poderia muito bem ir para outro lugar quando viu ela e...
— Poxa Kita, é uma lenda. Diz Ann desapontada ao perceber que a história de seu pai não causou em Kita o mesmo efeito que causou a ela.
— Desculpe.
— De qualquer forma, isso poderia acontecer sempre. Disse Ann voltando seu olhar para o horizonte, que agora está tomado de estrelas.
— Se acontecesse sempre não seria interessante.
— Seu humor está terrível, hein? Vou indo para casa. Já está ficando bastante escuro. É melhor você ir também.
— Tudo bem Ann. Até amanhã.
E, como se tivessem ensaiado por anos sua sintonia, eles se levantam, batem as mãos em suas roupas para remover as folhas grudadas, acenam-se e, correndo, um para cada lado, retornam para as suas casas.
A leve brisa, que provoca a oscilação da luz das velas que iluminam as residências do vilarejo, o breu da floresta, o realce do contorno das montanhas provocado pela lua, e um céu limpo e magnificamente estrelado estruturam o palco perfeito para a chegada da primavera e para o fim da vida comum de Kita.
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