Turvos

2 Lucy II


Chego em casa esperando poder enfim ficar sozinha. Iria para meu quarto, choraria um pouco, ouviria umas músicas tristes e depois ficaria bem para jantar e discutir novamente com William sobre quem lavaria a louça.

No entanto, não posso ter esse luxo.

William não vem me buscar. Fico esperando na frente da escola, dou voltas no estacionamento e por meia hora não tenho nenhum sinal de Will.

Irritada, pego um ônibus.

Assim que abro a porta, ouço uma briga. Não umas brigas costumeiras — que todas famílias têm de sobra — mas uma briga de verdade. Barulhenta. Composta de berros, xingamentos, palavras vociferadas rápidas demais para entender, e outras que nem mesmo tinham significado.

É William e minha mãe, discutindo na cozinha. Leonardo está metido lá também, observando, e vez ou outra comenta algo para acalmá-los, que ou é ignorado ou fornece mais lenha para a fogueira.

— Você é uma negação para mim, William! É uma negação para a Austrália! — Minha mãe berra. — Abandonou o nosso país assim, tão belo naturalmente, para ir para aquela porcaria horrorosa e poluída!

— Não tenho problema algum com a Austrália — diz William, aparentando estar mais calmo do que realmente está.

— É um país lindo com certeza, Sra. Devereaux — fala Leonardo, tentando apaziguar os dois.

— E olha que você não viu nada, Leo —diz Will. —Porque, é claro, eu não tive tempo de te mostrar.

— É bom saber que o seu namoradinho é mais importante que a sua família, William — rebate minha mãe.

Leonardo morde o lábio inferior e olha para mim — é o único que notou minha presença até agora. Ele sorri, de modo constrangido, o que me irrita.

Leonardo é a minha família! — berra William. Leo olha para ele, mas Will está olhando para minha mãe, concentrado em transmitir seu ódio. — Ele é o único que me apóia, que me entende. É a única pessoa que eu amo!

Leonardo só não está mais chocado que minha mãe. Ele encosta na mão de Will e sussurra suavemente seu nome, como que o acalentando. Não parecem ser muito abertos em sua relação. Aquilo é um passo enorme.

William arrepia-se todo com o toque de Leonardo e, em seguida, se afasta bruscamente. Leo não parece chateado, provavelmente porque ele já esperava essa reação.

— Apoiar? — indaga a minha mãe. Ela tenta manter a voz firme, embora já fraquejasse um pouco. — Quem foi que pagou suas despesas em Manchester, Will? Foi o Leonardo, por acaso?

— Foi o meu pai. A herança do meu pai. — Will diz isso como se ele não fosse marido de minha mãe, como se ele também não fosse meu pai. Como se apenas Will o conhecesse. — Mesmo depois de morto, meu pai me ajuda mais do que você. Você é inútil, Celine. E uma mãe terrível.

Minha mãe começa a chorar, berrar e em seguida estapeia William. Eles começam a discutir muito rápido, berrando sobre o emprego de Will, sobre como mamãe havia destruído o sonho dele. William diz que ela é um estorvo, fala mais de nosso falecido pai, diz que tem vergonha dela, que ela estraga a relação dele com Leonardo. Minha mãe, por sua vez, berra que ele é imoral, grita o valor de família que ele desconhece, o xinga por sua orientação sexual. Quando chegam ao tópico “Leonardo”, minha mãe xinga Leo sem dó — o xinga como se ele não estivesse ali, porque olha para William o tempo todo — e diz que ele estragou Will. Magoaria qualquer um, mas Leo fica parado, imutável. Não faz menção de retribuir. Só fica quieto e não se mete.

Em toda minha vida, nunca havia visto William tão irritado e nem minha mãe tão desesperada. Chego a envergonhar-me, com medo de que os vizinhos ouvissem tudo.

A discussão enfim termina quando Will berra que a odeia. Todos ficam imediatamente quietos. Consigo até mesmo ouvir o arrependimento de Will depois daquilo. Minha mãe soluça e sobe as escadas, rumo ao seu quarto.

Will fica em torpor. Só se dá por si quando ouve o barulho da porta do quarto batendo.

Nervosamente, ele abre várias gavetas para encontrar um cigarro e um isqueiro. Com as mãos tremendo, o acende e enfia na boca.

— Eu sinto muito — diz Leonardo.

William tira o cigarro da boca e solta a fumaça.

— Eu ferrei tudo, não ferrei?

— Ferrou, sim — respondo sinceramente. Podia ser má com William, mas não tive vontade. Sonhei boa parte da minha vida em vê-lo chorando, mas não tenho coragem para provocar isso. Por isso, não usei malícia em minha fala.

William faz menção em colocar o cigarro novamente na boca, mas desiste. O joga na pia da cozinha e sobe as escadas correndo.

—Vamos ver um filme — diz Leonardo, me conduzindo até a sala. —Will e Celine... Precisam resolver-se. E sem plateia.

///

Leonardo coloca em uma comédia barata para me distrair e talvez arrancar-me alguns risos. Eu cruzo os braços e encaro a tela, não conseguindo prestar atenção em uma só cena. Apenas penso em William, em como ele tratou a minha mãe, e em como eu o tratei. Ele não merecia, mas tinha até mesmo a minha misericórdia. Will, na verdade, não merece nada, mas tem tudo.

— Por que ele é assim? — eu pergunto para Leonardo.

— Ah, eu acho que é porque ele ta completamente chapado.

Eu olho para Leonardo, que ainda presta atenção no filme e pelo jeito pensava que eu estava me referindo a algum personagem. Quando ele nota que eu o encaro, suspira de um modo cansado e desliga a televisão.

— Sua pergunta não tinha nada a ver com o filme... Ela se refere a William, então? — Eu assinto. — Quer saber o porquê de William ser assim... Mas assim como?

Gaguejo um pouco, tentando encontrar uma boa resposta para a pergunta de Leo. Gesticulo, tentando mostrar o que eu sinto, que no final não é uma resposta para pergunta alguma.

—Tão... — Tento encontrar um adjetivo, mas em vez disso encontro vários. — Amargo. Azedo. Imbecil. Grosso. Idiota. Desgraçado.

Leonardo assente, recebendo todos os insultos direcionados a William. Pensou um pouco em uma resposta.

—Will nunca se abriu muito, mas pelo que o conheço... Acho que tudo isso é uma casca. Todos o pressionam, então ele quer... Ser indiferente. Desumano. Como um deus ou um robô. E aconteceu algo no emprego dele que o fez duvidar... — A frase se perde no ar. Leo está tentando juntar todas as suas teorias para formar algo sólido. — William tem dificuldade em demonstrar amor, porque... Porque ele perdeu o pai.

Eu também perdi o pai e nem por isso trato pessoas daquela maneira — retruco.

— É diferente, Lucy. Will é uma incógnita, um enigma... E a única pessoa que conseguia decifrá-lo, creio que era o pai dele. Eles eram muito próximos e com ele William era William de verdade. Will se abria muito com o pai, que o entendia...

— Odeio que você saiba mais de Will do que eu. Odeio que ele te conte mais coisas do que jamais contou para mim. Não precisa me explicar que Will e meu pai eram próximos, porque eu sei disso. Eu estava lá, Leonardo.

— Então você deve entender que o luto muda pessoas. Muda de um jeito diferente cada uma delas, afinal ninguém é igual. Cada um reage ao luto de um modo diferente... Tem pessoas que se fecham e manifestam sua tristeza pela raiva, pela amargura...

— Como Will — eu falo.

Leonardo sorri para mim. Noto que aquilo é mais um hábito do que um gesto verdadeiro.

— Isso mesmo, como Will. — Seus olhos transmitem ternura, o que me acalma. — E tem pessoas que sentem uma dor irremediável. Elas precisam ser fortes pelos outros, por isso vão acumulando e acumulando a dor... E há uma hora que não aguentam mais e ficam doentes.

— Como...?

— Como a sua mãe, Lucy — disse Leo, com suavidade, com calma e compaixão. Sinto vontade de chorar. — Eu percebi que ela sofre há muito tempo, acumulando suas tristezas como uma esponja absorve água, sem contar para ninguém...

— Sofrendo sozinha — eu complemento, triste.

— Até que... — Leonardo continua, mas eu já sei o que ele quer dizer.

Algo a faz explodir.

Ele assente.

— Ela te ama, Lucy. Ficou chateada, sim, por sua orientação sexual, mas não entrou em depressão por isso. Não é, nunca foi ou nunca será culpa sua.

— Pelo menos, não totalmente — retruco. — É culpa de tantas pessoas, de tantos eventos... São parcelas demais de culpa para serem dividas e continuarem significantes. É culpa de todo mundo, mas não é culpa de ninguém.

Leonardo assente, com um orgulho melancólico.

— E Will... Ele não odeia vocês. Will odeia a ideia de amar vocês. De se importar com vocês duas.

— Aquela vez que ele disse para a minha mãe que te amava... Foi a primeira vez que ele disse isso?

Leonardo sorri para mim.

—Foi, sim.

///

Quando subo para dormir, vejo a porta do quarto de minha mãe levemente aberta. Com cautela, olho pela fresta.

Will está ajoelhado, murmurando algo, a cabeça no colo de minha mãe, os olhos vermelhos e as lágrimas molhando as bochechas. Nunca o tinha visto tão frágil e posso entender porque quis esconder isso.

Minha mãe está sentada na cama, os olhos vermelhos, porém calmos, e um sorriso tenro nos lábios. Ela acaricia os cabelos pretos de Will, com um amor que apenas as mães podem transmitir.

Com essa cena fotografada na minha mente para nunca mais ser esquecida, me distancio da porta e vou para o meu quarto. Sonho em ter os meus cabelos acariciados também, em ver o Will verdadeiro e frágil mais uma vez, em ter minha mãe de volta. Sonho com a felicidade.

//

Niene senta-se me comigo no recreio novamente. Não ouso puxar papo com ela, já que eu ainda estou tocada pelos eventos da noite anterior e não seria a melhor das companhias. Na verdade, creio que nunca fui uma pessoa agradável de se conviver.

Como Will.

Balanço a cabeça, me livrando do pensamento. Eu não tenho nada de parecido com William; nem defeitos nem qualidades.

Niene parece um pouco nervosa, talvez por nossa discussão no dia anterior. Ela mexe em sua comida, sem na verdade engolir nada significativo. Percebe que eu olho para ela, então fica ainda mais nervosa e engole uma porção de comida considerável.

— Sobre ontem... — ela começa — me desculpa.

Eu levanto uma sobrancelha.

— Desculpa sobre o quê, exatamente?

— Sobre...

— Querer me impedir de ir à festa de Lola? — eu a interrompo, gesticulando com o garfo.

— Não. Na verdade, ainda mantenho minha opinião sobre isso —Niene responde. — É sobre... Eu ter te abandonado depois de Nick ter falado, bom, aquilo.

— Tá tudo bem — a tranquilizo. — Nick já falou coisas bem piores de mim mesmo.

— Eu conversei com Nick e o fiz jurar nunca mais falar algo assim. — continua Niene. — Desculpa.

Olho para Niene, para seu rosto pequeno e redondo, para seu cabelo loiro preso em um rabo de cavalo, para seus lábios róseos. E, pela primeira vez, eu percebo Niene. Sei porque Nick Levine havia se apaixonado por ela. Encontro a delicadeza e a sinceridade por baixo de sua timidez.

Percebo o quanto tinha a tratado mal por todos esses meses; como havia sido grossa com alguém que não era nada menos do que uma flor de pessoa; como tinha baixado a auto-estima de alguém que só precisava de alguém que a encorajasse. Eu havia privado-a de várias amizades, de um ano feliz e brilhante.

Faço o que preciso fazer para me redimir, para que, pelo menos, ela tenha um resto de ano feliz e brilhante.

— Niene — suspiro. — Se você gosta de Nick, deve ficar com Nick.

— O quê?! — Ela nega fervorosamente com a cabeça. — Eu nunca falei isso, Lucy!

— E nem precisa! — replico. — E lhe garanto que o Nick Levine gosta de você.

Niene olha para Nick, que está virado de costas à nossa mesa, conversando com um colega de classe encostado numa parede. De costas, Nick Levine não parece tão mal. Os cabelos castanhos têm cachos nas pontas e ele usa uma blusa do Guns N’ Roses.

— Como você sabe? — pergunta Niene, e continuou olhando para Nick.

— Todo mundo sabe, Niene.

Ela vira-se para mim e sussurra, como se fosse algum tipo de segredo:

— O Nick não é como ele age com você. O Nick de verdade... O Nick de verdade é sensível, é engraçado sem ser mal... E, apesar do pai dele ser o que é, o Nick nunca usou nenhuma droga. Eu juro que ele é legal, Lucy. — Niene acrescenta, quase implorando. — Queria que vocês parassem de brigar, para verem como é o outro de verdade.

— Eu sou exatamente o que sou com Nick, Niene. E ele tá certo em ser cruel comigo, porque eu também sou cruel com você. Apenas te afundo.

Niene coloca a mão na minha. Ela é macia, aveludada e quente. A mão de Niene consegue ser mais reconfortante do que a voz.

— Não fale assim de si mesma, Lucy — ela pede, com surpreendente firmeza. — Há, sim, dias em que você não é lá muito legal. Mas há muitos dias em que você é engraçada, doce a sua maneira, e essa é você de verdade.

Eu balanço a cabeça, não conseguindo pensar em um só dia que apresentei uma dessas qualidades.

— Me dê um dia como exemplo.

—Hoje — Niene responde, simples e sem hesitar, e sorri para mim. — É difícil de perceber, porque você é tão fechada que nem mesmo se conhece de verdade, mas você é boa, Lucy.

Ela aperta a minha mão. E eu chorei. A primeira vez em que fizera isso por felicidade.

—Você enxerga o que ninguém mais vê, Niene. Enxerga qualidade nas pessoas que parecem ter apenas defeitos. — eu digo. — Muito obrigada, Niene. E desculpe por tudo.

Ela sorri para mim e solta minha mão. Eu enxugo meus olhos e sorrio de volta para ela.

///

Quando eu saio da escola, vou rumo ao estacionamento. William se desculpou por não ter ido me buscar no dia anterior e fez questão de ir me buscar hoje. Nosso relacionamento melhorou claramente — tão claramente que percebi isso em apenas uma manhã. Will parece ter tomado vergonha na cara.

Avisto a picape preta descascada de longe. É herança de nosso pai e nunca tivemos coragem de se livrar dela, no entanto nunca tivemos dinheiro para mantê-la muito bem. Minha mãe tem um 4x4 prateado que requer mais cuidados e, consequentemente, mais dinheiro.

Há uma menina parada na frente do carro, gesticulando com a mão. Reconheço quase que imediatamente a silhueta colorida e magra, com os cabelos pintados. É Lola. E está falando com William.

Will me nota muito antes de Lola. Ele está fumando — como sempre —, mas tira o cigarro da boca para me dar um “oi” esfumaçado.

Lola vira-se lentamente e me dirigi um sorriso um tanto quanto forçado.

—Ei, Lucy. — ela diz. — Convença o seu irmão a ir à minha festa, sim? Ele está se fazendo de difícil.

—Não aceito maconha de menores — William retruca, jogando o cigarro no chão.

—Will? — indago, descrente. — Quer que eu convença Will?

— Isso mesmo, Lucy! — Lola exclama, alegremente sarcástica. — Seus ouvidos funcionam perfeitamente!

—Por que é quê você quer Will na sua festa? Ele tem, tipo, uns dez anos a mais do que nós.

—É por isso mesmo que eu quero — Lola resmunga entre dentes de um sorriso.

— Gente mais velha é mais interessante — afirma William, alegremente. — Agora, uma das queridíssimas pode pisar no meu cigarro, por favor?

Reviro os olhos, apagando o cigarro de Will com a sola da bota. Ele tira outro cigarro do porta-luvas e o acende.

— Isso vai acabar te matando — resmungo.

— Não vou durar tanto para morrer disso. — Will solta fumaça na minha cara. — Devo morrer com uns, sei lá, 30 anos, assassinado por malucos ou fritado por ser um.

— Não me importo com seu bafo de tabaco — diz Lola, cautelosamente. — Apenas quero que vá à minha festa.

Lembro das palavras de Lola, neste mesmo estacionamento.

Então, se você quiser, leve um acompanhante.

Eu pensei que fosse nervosismo, mas quando ela disse isso, Lola não olhava para mim. E sim para um ponto atrás de mim. Ela olhava para Will. Porque ela não queria que eu fosse à festa dela, ela queria que William fosse.

— Pois eu me importo com seu bafo — replica Will. — Bafo de adolescente vadia e nojentinha.

Lola abre a boca, não esperando ser atacada assim. Eu rio.

—Só pode ser irmão da Lucy Devereaux. — ela fala. — São tudo a mesma merda.

William abre a porta para mim e pisca para Lola.

— Eu sou mais bonito.

Corro até o outro lado do carro, gargalhando, enquanto William coloca os óculos escuros. Ele liga o carro, sai da vaga, e vai se distanciando de Lola. Ela berra e esperneia como uma criança — ela pode ter mudado na maioria das coisas, mas continua mimada. Gargalhamos ainda mais alto quando ouvimos os insultos dela. É o primeiro momento irmão/ irmã que Will e eu tivemos, sem tensão alguma, desde muito tempo.

Notas finais
Espero que tenham gostado. A fanfic também está disponível no social spirit, sobre mesmo nome. O próximo capítulo será do Leo, e esse pode/vai demorar um pouco, porque eu ainda tenho que arrumar o tempo verbal e etc.