Turvos

3 Leo I


Gosto do cheiro de bares. Principalmente o dos baratos; algo me atrai naquele cheiro tão humano. Cheiro de suor, cheiro de bebida barata. O odor natural de gente — sem perfumes mascarando nada. E eu gosto de gente.

Vivo zanzando pelas ruas; toda noite vou a um bar diferente. Listo todos em minha mente, seus endereços e as sensações que tenho ao entrar neles. Sabe, eu até tenho um ranker.

Gostaria de ter tanta facilidade de lembrar dos assuntos das provas quanto tenho de lembrar de bares. Seria bom se tivesse faculdade de alcoolismo. Eu seria o primeiro da classe.

Mas um pub em especial de Manchester me chama atenção. Não porque é bonito, tem um letreiro em néon ou algo do tipo — é que ele está em decadência. E — como eu posso dizer isso sem parecer louco? — algo me atrai no decadente.

O bar é uma porcariazinha espremida entre uma barbearia e uma igreja, pintado de verde bem claro. Eu entro. Tem umas cadeiras meio bambas espalhadas aqui e acolá, junto a umas mesinhas. Um balcão se estende quase pela metade da extensão do bar. E todo mundo parece tão triste e solitário. É umas nove e meia da noite e todos já estão tristemente bêbados — digo, o quase ninguém que há no bar. Umas cinco pessoas, cada uma o mais afastada possível da outra, como se tivessem medo de se aproximar e magoar-se de novo. Um velho, um cara de meia idade que parece estar se divorciando, uma piranha com o rímel borrado, um outro que perdeu tudo jogando e um outro que parece passar pelo primeiro porre da vida. Se, claro, eu pudesse chutar.

Vou até o balcão, perto do cara que não sabia beber, para fazer o meu pedido. O olhei com o canto do olho. Ele era bonito. Bonito e jovem demais para estar logo nesse bar se lamentando. Tinha uns cabelos pretos que nem penas de corvo, despenteados. E uns olhos azuis impressionantes.

— O que deseja? — diz o barman, sem entusiasmo. Provavelmente eu também não estaria muito feliz nessa situação, mas não há espaço para tristeza no comércio. Finge-se um sorriso radiante, finge-se que se importa; isso é um bom atendimento.

Peço uma garrafa de cerveja, porque quero começar leve.

Olho para o Virgem de Porre e o reconheço da Universidade. Aquele cara bonito que eu, de vez em quando, cruzo olhares no refeitório ou nos corredores. Seu rosto seria facilmente esquecido se não fosse adorável.

O barman me entrega a cerveja. Eu tomo um gole.

— Ei, eu te conheço — eu digo. — Da universidade.

O garoto, que está encarando a parede como se fosse interessantíssima, vira a cabeça lentamente para mim. Junta as sobrancelhas — como se fosse algum tipo de loucura puxar assunto — e eu sustento seu olhar por um tempinho. Essa típica simpatia britânica.

— Não sei como posso te responder isso — diz ele, cuidadosamente. — Não sei quem você conhece ou não.

— Acho que posso reformular minha frase — sorrio. — Você estuda na Universidade de Manchester?

Ele toma um gole de vodka, depois faz uma careta.

— Estudo.

E vira para frente e fica encarando sei lá-o-quê. Este é o grande problema em pessoas que estão em decadência — não querem conversar, só querem beber e desmaiar e esquecer.

— O que você cursa? — ele pergunta um pouco depois, relutante. Tem uma ruga que aparece entre as sobrancelhas sempre quando franze a testa. E franze tanto a testa que por um momento penso que é permanente.

— Psicologia — respondo alegremente, tomando um gole de cerveja. — E você?

Ele apóia a testa na mão, bagunçando ainda mais os cabelos com os dedos. Com a outra mão, pega o copo de vodka e toma, mordendo os lábios.

— É a coisa mais forte que eu já tomei — revela. — E eu odeio.

Ele tem cheiro de cigarro e chuva. Veste um casaco de moletom escuro e uma calça jeans. O nariz está meio avermelhado; a pele branca parece transparente. Está acabado. Os olhos brilham, escuros, azul cor da tristeza.

— E o que você gosta de tomar?

Eu sempre gostei de azul. Pode ter alguma relação com essa minha atração por pessoas no fundo do poço. Não sei. Mas acho que é porque a cor é bonita.

— Vinho — ele ri. — Mas não posso tomar um porre com vinho. Muito difícil.

— Sei. — Termino a minha cerveja. — Por que justo esse bar? Os universitários geralmente vão ao...

— É perto de casa. Essa porra dessa vizinhança. Não tenho dinheiro pra alguma coisa melhor — reclama. — Sou Will, a propósito.

Sorrio para ele. Certa vez, não sei quem me disse que gosto de coisas bonitas quebradas. De alguma forma, me entretenho em juntar os cacos, em concertar as pessoas. Talvez por isso que esteja fazendo Psicologia; talvez não.

— Leonardo — apresento-me. — Mas me chame de Leo, por favor. Os ingleses têm essa mania de engolir as vogais.

Will sorriu.

— Sou australiano.

Dei de ombros.

— Você também fala inglês. Engole os “o” igualzinho.

— Estou morrendo de fome — comenta. — Você é italiano?

Bato a unha na garrafa de cerveja e fico olhando para os outros clientes. Todos marginalizados no próprio universo particular. E não tenho atração nem compaixão por eles.

— É só vazio. Bebe que passa. — Peço vinho seco para o barman. — Não sou italiano. Sou brasileiro.

— Então você deve saber como é uma merda ficar separado do país e de todo mundo que deixou lá por uma caralhada de mar.

O barman serve vinho em uma taça para mim, quase desajeitadamente. Parece cansado. Da vida.

— Ponha para o Will também, por favor — peço.

O barman pega uma outra taça — os olhos vazios.

— Não ponha nada para mim! — contraria Will — Não gosto que ninguém pague nada para mim. Se eu quiser vinho, compro vinho eu mesmo.

Reviro os olhos.

— Não seja paranóico.

O barman fica parado com a taça na mão.

— Ponho essa porra ou não?

Will ergue a sobrancelha.

— O vinho eu aceito. Já a sua porra, prefiro não.

O barman coloca uma taça para o Will e murmura algo que sai como “é a mesma coisa”. Depois, deixa o vinho e sai para pôr um pouco de conhaque barato para o divorciado.

— A vizinhança — Will justifica. — Ela é uma merda.

Sorri.

— Ah é, notei. — Bebo um gole do vinho. Sinto saudades do vinho da serra gaúcha. Comparado a ele, esse realmente não passa de uma porra. — É por isso que você está em um dia ruim, Will? Está com saudade de casa?

Will suspira, depois enterra a cabeça nas mãos.

— E mais uma caralhada de coisas. Está tudo muito foda. A faculdade de Medicina...

— Você faz Medicina? — o interrompo — Isto é incrível!

Ele vira para mim.

— Não em semana de prova. Com certeza não em semana de prova.

Bebo mais vinho. Que saudade dos meus quinze anos, quando eu roubava vinho dos meus pais e bebia com meus amigos. Vinho de qualidade. Vinho de verdade.

— Se é semana de prova você não deveria estar estudando?

— A semana de prova foi a passada — esclarece Will. — Estou bebendo porque minhas notas provavelmente estão tudo uma grande merda. — Ele bebe um grande gole de vinho. — E eu me considerava inteligente, sabe? Eu vou me foder nesse semestre. Não sei o que está acontecendo comigo.

Ás vezes, me sinto um sociopata. Faria todo o sentido se eu realmente fosse. A atração por pessoas frágeis, o gosto por azul, a insensibilidade, o cinismo, a dissimulação. Explicaria porque eu gosto de cortar gargantas de prostitutas.

Brincadeira.

— Foi por isso justamente que não fiz Medicina — digo. — Você vai conseguir; é inteligente. Já eu sou burro demais.

Ele apóia a cabeça na mão, me observando com a cabeça pendente para um dos lados. É adorável.

— Você queria cursar Medicina? — pergunta.

Dou de ombros, como se fosse algo óbvio.

— É uma desculpa para abrir pessoas, não é?

Will sorri.

— Você está fazendo Psicologia. Vai deixar as pessoas em carne viva, de qualquer maneira.

Franzo a testa.

— Tipo expor suas feridas?

Will toma um gole de vinho.

— Tipo em carne viva.

Eu rio.

— Como é na Austrália? — pergunto.

— Mais ensolarado do que aqui. E com praias melhores. E o bairro em que eu morava lá era umas trezentas vezes melhor do que esse.

— Querido, olha para o bairro que você mora — sorrio. — Qualquer coisa é mais bonita que essa porcaria. Até as favelas do Rio são mais bonitas. E ficam mais perto do centro.

O Will não é tão diferente dos gringos comuns, então fica fascinado com a menção ao Rio de Janeiro na conversa.

— Você é do Rio?

— Não esse Rio. Sou do estado mais ao sul do Brasil. Rio Grande do Sul — explico. — Temos muita influência italiana lá. Imigrantes. Talvez seja por isso que você tenha pensado...

Will sorri, torto.

— Vamos fingir que foi por isso; assim eu pareço mais inteligente.

Coloco mais um pouco de vinho na minha taça.

— É assim que você quer passar em Medicina, Will?

Will toma um gole do vinho.

— Acho que eu vou é dar a bunda para os professores. Eles já enrabam todo mundo mesmo. Não vai custar tomar no cú literalmente.

Eu rio.

— Acho que você já está meio bêbado.

— Não estou “meio bêbado”, Leo — retruca. — Eu estou totalmente bêbado. E já estava assim antes de você chegar.

— A diferença é que você progrediu de um bêbado triste para um bêbado feliz — sorrio.

O Will franze o nariz.

— Acho que é melhor eu ir embora.

— Você não pode mais ir embora! — exclamo. — Vai ser assaltado, estuprado ou algo assim. Quer dizer, olha para o bairro que você mora!

Umas três pessoas olham para mim, meio ofendidas. Não peço desculpas.

Will franze o cenho de novo.

— Para de fazer isso — peço. — Se continuar a fazer isso, vai estar cheio de rugas com uns trinta anos. Vai precisar usar botóx e tudo mais.

Ele sorri tortamente.

— Caralho, você é viado. É muito viado.

— Só porque eu falei de rugas? — perguntei. — Cirurgiões plásticos também falam disso. E dermatologistas.

— E você não é nenhuma dessas porcarias. Está me paquerando a porra da noite toda.

Sorrio tortamente para ele.

— Não estou, não. Pare de ser tão convencido.

— Está tudo bem, porque você não é dermatologista — Ele ergue as mãos, com as palmas voltadas para mim. — Eu com certeza não sairia com um dermatologista.

Franzo a testa. Decido ignorar a pequena indireta naquela frase: “eu não sairia com um dermatologista” antes de ele ter falado que eu não era um dermatologista. As coisas parecem estar promissoras.

— Por que não?

— Ah, é que eles acham que são médicos. Só que não são.

— Tipo dentistas?

— É, só que eles só passam pomadinha e essas porcarias. Chamam retirar um sinal de cirurgia. — Will toma um gole da minha taça de vinho, mas não acho que tenha reparado que não era a dele. — Preciso ir embora agora; antes que eu esqueça onde moro.

Will se levanta e vai andando. Rapidamente, eu pago o vinho e a cerveja. Corro até ele, que já está fora do bar.

— Ei, Will, você quer uma carona?

Ele, que está de costas para mim, se vira. A testa franzida novamente. Há algo de muito bonito em ele andando por aquelas ruas feias; algo de muito artístico na luz dos postes iluminando seus olhos.

— Você tem carro?

Sorrio tortamente.

— Não vim do centro a pé, não é?

Ele suspira; gesticula com as mãos. Iria dizer não, mas muda de ideia.

— Onde está seu carro?

— Vem comigo.

Aceno para ele me seguir. Olho para a rua, para as pessoas apáticas que lá caminhavam, para os carros econômicos ou velhos. Não que eu pudesse falar algo dos carros, afinal o meu não era lá essas coisas. Um carro branco e pequeno, de duas portas. Mas, pelo menos, vinha direto da loja. A mesada que eu recebia dos meus pais não era exatamente ilimitada, então eu não podia ceder a caprichos. Tudo era extremamente prático em morar sozinho, principalmente no exterior.

Virei a esquina e lá estava meu carro. Ele apitou quando o abri. Will sentou-se no assento do passageiro, enquanto eu me ajeitava na direção. Coloco a chave na ignição, mas não chego a de fato ligar o carro.

— Onde você mora? — pergunto. — Tipo, para que lado eu vou? Você vai precisar me orientar. Não conheço esse bairro.

Will ri, seco.

— É óbvio que não.

Viro para ele, meio sorrindo meio indignado.

— Ei, você está insinuando que eu não posso passar por pobre?

A boca de Will se contorce no que eu penso ser um meio sorriso. Ele tem lábios vermelhos e rachados. Parece o tipo de pessoa que gosta de arrancar pedaços de pele da boca.

— Você tem tanta cara de playboy — Will comenta. — Se eu fosse um assaltante, você seria a minha primeira opção. Não consegues nem disfarçar.

Eu rio, jogando a cabeça para trás.

— Berço de ouro, sabe como é.

— Ah, não sei, não.

Viro para ele. Os olhos de Will são quase como chamas, que queimam — não sei bem o que queimam, mas era algo que definitivamente fica dentro de mim. E há algo na curva dos lábios dele que me fazia ser imprudente. O suficiente para beijá-lo. O suficiente para sentir algo quente debaixo de seu moletom, imaginar como é o cheiro de sua pele, apreciar os dedos dele em minha nuca.

— O que você acha de passar essa noite em um bairro decente, Will? — sugiro, depois que nos separamos.

Will pisca, quase como se estivesse saindo de um sonho. Respira fundo e assente lentamente. Há a algo de adorável na fragilidade e inocência de Will depois de um bom beijo. As bochechas ficam coradas, a boca fica entreaberta — eu consigo ver os seus dentes da frente, uma pequena lacuna os separando. Esses detalhes que eu percebo de vez em quando, toda vez que presto atenção em alguém. Um lado da boca de Ted sobe primeiro ao sorrir, as sobrancelhas do James são diferentes, o canino levemente mais afiado da Lea, as cutículas roídas das unhas da Alison.

Dirijo até chegar ao meu apartamento, no centro. Will fuma no carro, com a janela aberta. As luzes da cidade parecem borrões através da fumaça. Eu nunca criticaria o vício de ninguém. Tenho os meus. Sei o quanto são importantes.

É um grande prazer tocar a pele macia de Will, sentir os ossinhos por baixo, ver os diferentes tons da pele dele. Sentir o gosto da vodka que ele tinha tomado, ouvir seus gemidos. O amo muito por alguns instantes. Mas já amei muitas pessoas.

Acredito que, caso o sexo for feito certo, a gente consegue se conectar e amar o parceiro por tempo suficiente para o coração palpitar. Tempo esse pouco para esse se sentir infinito. Mas todo mundo odeia essa teoria — querem se sentir especiais pelo casamento tedioso de vinte anos. Querem ganhar prêmios. Não é justo para eles que, nós, canalhas, que sentimos prazer ao transar, fiquemos com mais opção, mais felicidade e mais moralidade.

Mas não podem me fazer acreditar nessa asneira, muito embora pressionem tanto. Porque eu amo gente; eu amo quando elas têm fé, quando têm desejo, até mesmo quando odeiam. Acredito nas pessoas, de verdade. É tanta diversidade e complexidade para apenas uma espécie. Tantas cores quanto a pele de Will. Tantos sentimentos misturados à carne.

///

Acordo com um raio de sol que escapa por uma fresta da cortina escura. Adoro sol quando estou na praia, passeando — mas definitivamente não quando estou dormindo. Ele cisma em bater bem no meu olho.

A cama está bem bagunçada, mas o Will já não está mais dormindo ao meu lado há bastante tempo — embora eu ainda sentisse o cheiro de cigarro. Ele acendeu alguns depois da foda. Não vejo sentido em tal ato, mas isso não é coisa que se critica. Ele adormeceu junto comigo, disso eu tenho certeza — acordei de madrugada e ele ainda estava lá —, então deve ter saído ao amanhecer.

Levanto-me e deixo meu quarto. Vou ao banheiro e lavo meu rosto. Encaro-me no espelho por um momento só — o suficiente para ser vaidoso, mas não o bastante para ser narcisista. Odeio meus olhos de manhã — as pálpebras ficam tão caídas que os deixam murchos. Ajeito os cabelos parcialmente; dou um tapa na cara pra ver se consigo passar por alguém que havia dormido de noite.

Mas, vamos, quem é que eu ia enganar? Ted?

Ele está sentado à mesa, com uma caneca de chocolate quente na mão. Mexe, mexe e mexe. O marshmallow vai e volta. A nossa cozinha é até bem grande, assim como os quartos. Temos uma mesa redonda de granito — e mesas redondas são tão melhores do que as quadradas.

— Bom dia — saudo.

O Ted para de olhar para a caneca e olha para mim. Deu um sorrisinho bobo.

— Qual era o nome desse?

O Ted é o cara com quem eu divido o apartamento. Os pais dele enviam dinheiro todo mês para pagar o apartamento e a faculdade de engenharia — só que ele largou a faculdade há alguns meses para ter mais tempo para “vender a sua arte”. Seus pais moram longe, em cidade pequena, e não souberam.

— Will — respondo, dando de ombros e sentando em uma das cadeiras. Não há mais nada na mesa que não fosse a caneca verde do Ted e um saco de marshmallow. — Cadê todo o resto?

— São quase onze horas. Já tirei a mesa — responde ele, desinteressadamente. — O tal de Will tem cara de ser um pouquinho mais decente do que a maioria da gente que você trás aqui. Mas, claro, ninguém muito decente transa com você.

Decido ignorar. O Ted não sabe usar gel de cabelo — tem uns cabelos marrons escuros, que estão sempre bagunçados. Em vez de arrumá-los, Ted eterniza o ninho que tem na cabeça com gel. Antes eu achava estranho, depois achei engraçado e agora considero adorável. Estou com mania do adorável — tudo que é ligeiramente indie eu acho adorável.

— Estou com fome — resmungo.

O Ted larga a caneca, pega o saquinho de marshmallow e joga para mim.

— Sirva-se.

Eu bufo, mas pego um marshmallow do saco.

— Você vai pra feirinha hoje à tarde? — pergunto. O Ted vende seus produtos de artesanato na rua. São pulseiras, filtros dos sonhos, cestos feitos de palha e ícones em argila.

Ele dá de ombros.

— Cansei de disputar com os ciganos. — Ele sorri quando eu começo a rir. — Você deve ter um sono muito pesado mesmo pra não ter escutado o berro do Will.

— O quê?

O Ted bebe um pouco do chocolate quente.

— Eu acordei e fui preparar o café na cozinha. O cara tava lá, ocupado demais resmungando consigo mesmo pra me perceber chegando. Daí ele me viu e levou um cagaço. — O Ted ri. — Ficava berrando: “Eu não sou ladrão! Não encostei em nada, juro”, e mostrava as mãos como se eu fosse tira.

Caio na gargalhada.

— E o que você fez?

Ted não para de rir.

— Disse que em alguma coisa tinha encostado. Os sapatos no chão, pelo menos. Ou a bunda na cama do Leo.

Eu rio.

— Meu Deus.

O Ted pega o marshmallow da caneca e engole.

— Mas eu preferia aquele outro cara. (Como era mesmo o nome dele?) Ele fazia ótimas panquecas.

Sorrio; memórias e imagens vindo como uma enxurrada em minha mente, quase que aleatórias. É uma das coisas que eu mais gostava em mim — as lembranças boas vem antes das ruins. Conseguem me causar regozijo. Tudo é tão nítido — meus pelos se arrepiavam com as sensações das noites em que não dormi. Cada centímetro do corpo dele eternizado em minha mente. O sorriso, a risada, a voz.

— Era o Alex. — Alargo o sorriso. — E ele fazia muito mais que ótimas panquecas.

Ted gargalha alto. Prendo o riso entre os lábios, mas ele escapa pelas frestas.

— Ele também fazia um ótimo suco de limão!

Ted gargalha ainda mais, escandaloso. Esperneia, estapeia a mesa. Pego um marshmallow.

— E tinha aquela asiática também — lembra Ted. — Ela vinha até a cozinha completamente nua!

— Ah, a Jill. — Sorrio ainda mais, meio nostálgico. Ah, a Jill, suspirei. Tento encontrar alguma palavra para todo o meu corpo vibrando; a sensação fantasma do cabelo dela roçando no meu rosto. Mas só saiu um: — Ela era demais.

Ted assentiu.

— Eu admirava muito a sua... confiança. O modo como ela se sentia segura e confortável no próprio corpo.

Ei. Novo código para nudez: confiança. Rio só um pouquinho.

— Ela tinha uma personalidade bem forte — observo. — Nunca recuava diante nada. É difícil encontrar alguém que defenda tão fortemente seus ideais.

Eu tenho uma queda por pessoas teimosas. Acho um charme alguém lutando com unhas e dentes por sua vontade. Como sempre, o que a maioria das pessoas acha irritante eu acho excitante.

Ted assente, tomou um gole de chocolate quente.

— Ela era atriz? — pergunta. — Porque, cara, que presença de palco!

— Não. Era estudante de Direito. Quarto ano.

Ted faz uma careta. Não gosta de falar de faculdade. Principalmente de Direito. Não sei qual é o problema daquele garoto, mas ele odeia advogados. Eu já acho super sexy qualquer um que usa terno e tem um emprego sério.

(As pessoas me acham fútil; até mesmo eu me acho fútil de vez em quando... Mas daí eu lembro que eu transo mais do que essas pessoas e esqueço disso logo).

///

Mergulho a batata frita no catchup. O ruído da lanchonete é alto. Estudantes de várias matérias se reúnem ali para comer um pouco, conversar com os amigos e dar um tempinho dos estudos. Flagro vários conhecidos com o canto do olho — conheço alguns até mesmo pelas costas, os cabelos, as roupas, as vozes. Eu pertenço a aquele lugar. É como a minha casa, só que a lanchonete tem até um aspecto mais coletivo. Ela é uma partezinha de mim.

— O que você fez esse final de semana? — pergunta James.

O James é, atualmente, meu melhor amigo. Ele faz Psicologia comigo. Tem notas melhores e é mais inteligente — pudera mais: fica o dia todo em casa estudando, desenhando, assistindo algo... É magro feito palito, mas come feito um bicho. Raspou o cabelo — eu ainda lembro dos seus cabelos grossos.

Como minha batata frita. Pego outra e fico dançando com ela pelo ar, em gestos de maestro. Só para fazer um suspense, um pequeno charme.

— Ah, você sabe... Maratona de Friends, fui ao cinema domingo com o GeoGeo... E uma boa foda sexta à noite.

James dá uma mordida do cachorro quente. O molho escorrega pelos dois lados, pingando na mesa. Eu pego um guardanapo e limpo.

— Com mulher ou com cara?

O rosto de James está sujo de molho — tudo espalhado bem aleatoriamente: um pinguinho no nariz, uma mancha abaixo da boca. Ofereço um guardanapo.

— Com um cara — respondo.

James limpou o rosto, depois jogou o guardanapo na mesa.

— Porra!

Eu ri.

— E foi uma ótima foda, se você quer saber.

— Não quero.

Ignoro, com um sorriso no rosto.

— Ele era tão gostoso — brinco, alongando a palavra. — Tinha uma bunda quadradinha que eu adorei apertar.

— Cala a boca — ele resmunga, o rosto ficando meio vermelho.

— E o pacote... Além de grande, era demais!

James fica roxo, as narinas incham.

— Caralho, Leo! Cala a porra da tua boca. Eu tô comendo um cachorro quente!

Eu gargalho. O James é um cara tão sério, um cara que fica irado tão facilmente. Uma brincadeirinha e ele se zanga. Eu adoro brincar com isso; zoar com ele tinha se tornado o meu passa-tempo favorito.

— Mas... Esse cara era alguém que eu conheço? — ele pergunta, depois de um tempinho. — Alguém aqui da universidade?

— Essa universidade tá cheia de viado — comento. — Já devo ter comido...

— Qual era o curso dele? — James pergunta, apressadamente, para não me ouvir falar alguma merda.

O James não se incomoda com o fato de eu transar com caras. Mas sim o fato de eu falar sobre a minha transa com caras. Na verdade, ele se incomoda se eu falasse de foda em geral — moças, bodes, gente morta. Falar de safadeza o irrita. E provavelmente fazer também, afinal James eé bem virgem.

— Medicina — respondo.

— Medicina? — James ecoa.

— Medicina — confirmo.

GeoGeo joga o sanduíche natural envolto em plástico na mesa e senta-se ao meu lado.

— Que houve? — pergunta, retirando o plástico do sanduíche com as mãos grandes.

GeoGeo tem um rosto comprido e cheio. Seus olhos são grandes e verdes. Parece um esquilo quando come — as bochechas cheias — ou um cachorrinho quando pede por algo. George, ou GeoGeo, é americano. Vinha de algum estado do norte, algo como Michigan ou Oregon. A universidade de Manchester está lotada de estrangeiros.

— Leo fodeu com um médico — dispara James, com bastante delicadeza.

George começa a rir.

— Era estudante de Medicina, na verdade — corrijo, com um dedo levantado que eu uso logo depois para pegar uma batata frita. Enxergo Will por atrás da cabeça de James, saindo da cantina com um copo de café na mão. O vapor que sai do café me lembra a fumaça do cigarro de Will. Todas aquelas espirais, aquela névoa espessa, que tornava tudo mais turvo e mágico. — E ele vem vindo ali, com um café na mão.

George segue meu olhar.

— O de olhos claros? — pergunta.

Eu faço que sim.

Will passa pela nossa mesa. Por um momento, nossos olhares se cruzam e o mundo para. Eu sorri. Ele, não. O mundo volta a girar como sempre.

— Wow! — faz GeoGeo, quando Will já está longe da gente. — Ele te deu um fora.

James começa a rir que nem hiena.

— Bah, eu sempre sorrio para todo mundo com quem eu transei! — explico-me. E é verdade: eu não sou um desses babacas que fica com alguém e depois finge que não conhece. Posso não ligar de volta, mas ignorar eu não faço nunca (até quando a foda é uma bela merda). — Não foi um fora, porque aquele sorriso não foi uma proposta de segundo encontro.

— O médico te deu um fora! — cantarola James, depois ri.

— Pelo menos eu como alguém! — rosno. GeoGeo começa a rir. James fica roxo. — E, sei lá, vai que ele não lembra de mim. Will estava muito bêbado.

— Tem que beber muito pra encarar uma foda com você — retruca James.

George ri.

— Ou ser maluco. Tipo aquela japa. A Jill.

— Sem falar naquele que tinha cara de ator de pornô gay — lembra James.

Eu ergo as sobrancelhas.

— E como é que você sabe como é a cara de um ator de pornô gay?

James infla as narinas e trinca os dentes.

— Esse seu médico fez toque retal em você?

George gargalha alto.

Nesse momento, uma mulata alta passa perto de nossa mesa. Ela vai quase rebolando, os cabelos pretos ondulados. Chama-se Kelsey; ela tem uma das melhores notas de toda a nossa classe.

— Ei, você deveria ficar com ela — sugiro para James.

Ele bufa.

— Só porque nós dois somos negros?

Engulo uma batata frita.

— Não — respondo, meio contrariado — É porque ela é muito gostosa!

— E por que você não fica?

Bufo.

— E tu acha que eu não tentei? — Bato na mesa. — Mas ela me acha um canalha, porque eu não liguei de volta pra amiga dela.

— Que coisa ridícula! — bufa George, depois dá uma mordida enorme no sanduíche.

— Pois é! — Mergulho uma batata frita no catchup com uma mão; a outra eu levanto, indignado. — O sexo com a Angie foi um saco. Cheguei a fingir orgasmo pra acabar mais rápido.

Sério. (Suspiro). Sério.

Assistimos a um filme de comédia no cinema e jantamos juntos. Foi até bem legal; Angela tinha uma risada adorável. Daí fomos pra casa dela, tomamos uma cervejinha e fomos pra cama.

Pior. Sexo. Da. História. Da. Minha. Vida.

Tudo era muito duro — menos o meu pau. Foi bem mecânico. Ela gritava alto que era o Diabo e me cobria de saliva de um jeito não muito sexy. Falava umas coisas bem sem noção — me chamava de puto cachorro e depois dizia que a gente ia casar.

GeoGeo ri.

— Não, obrigado — eu digo. — Não estou disposto a repetir aquela coisa. Era algo próximo ao Inferno de Dante.

George solta uma gargalhada.

— E ainda reclama que a Kelsey não quer ficar com você — retruca James, os lábios grossos pra baixo em uma carranca. — Caramba, Leonardo, isso foi uma puta falta de respeito.

Eu sorrio para ele.

— Você é uma pessoa tão decente! Fique com a Kelsey. Vocês combinam. São inteligentes e esforçados e... Caraca, vê se perde a virgindade.

James se levanta.

— Você é muito idiota. Não me admira que o médico não queira repetir a dose.

E vai embora.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.