Turvos

1 Lucy I


Notas iniciais
Olá! Fico feliz que a minha fanfic tenha te atraído até aqui. Eu realmente espero que você goste dela.
Cada capítulo será narrado por um personagem. Essa é a primeira parte do capítulo de Lucy.

Acordo com o barulho de vozes lá embaixo. Éramos apenas mamãe e eu, mas meu irmão e seu namorado voltaram da Inglaterra e decidiram passar férias aqui, na Tasmânia — chamamos a situação de férias, para não magoar minha mãe ainda mais. Na realidade, Will teve que vir à Austrália cuidar dela, que já há algum tempo apresentava sintomas de depressão e era incapaz de cuidar de mim ou da casa.

Como tenho que acordar cedo para ir à escola, livro-me dos cobertores e me visto. É uma luta para encontrar uma roupa limpa, já que minha mãe, no estado em que está, não lava mais roupa alguma. Tenho que cheirar umas três calças jeans até achar alguma razoável para ir à escola. Penteio o cabelo e desço para tomar café e usar o banheiro lá embaixo.

A escada não está em seu melhor estado — como quase tudo onde eu moro — e range um bocado. Nossa casa está inteiramente bagunçada e suja. Minha mãe não comprou móveis novos por pura preguiça, porque dinheiro nós temos — Will manda dinheiro da Inglaterra todo mês.

Leonardo, o namorado do meu irmão, está servindo café para a minha mãe. Eu não consigo pensar em como William — o bonito, porém azedo e irritante William — havia conseguido um namorado sério como o Leo. O Leonardo é vibrante, bem-humorado, simpático, lindo.

Minha mãe, quase catatônica sentada naquela cadeira, não pode fazer mais contraste com ele. A pele, pálida de quem não pega sol há meses, contrasta com a pele bronzeada do Leo. Ela está com a testa franzida, os olhos pretos vazios, os cabelos emaranhados. Usa um roupão velho por cima do pijama, enquanto Leo já está bem disposto e bem-vestido.

O mais assustador de tudo é o fato de eu ser uma cópia idêntica dela. E nunca fomos tão parecidas quanto somos agora.

—Bom-dia, Lucy — Leo me sauda, sorrindo. — Como foi a sua noite? Boa, eu espero.

Eu assinto com a cabeça, sem coragem de dizer para ele que acordei várias vezes, em decorrência dos meus pesadelos. E que demorei mais de três horas para dormir. Tudo por causa de consciência pesada — embora eu negasse com todas as minhas forças, meu subconsciente sabe que é minha culpa mamãe estar em depressão.

Pego uma xícara e a encho do café recém-feito por Leonardo. Depois que minha mãe entrou em depressão, virou meu trabalho fazer o café, no entanto ele nunca foi um dos melhores. Coloco um pouco de açúcar e beberico um gole.

— E então? — perguntou Leonardo, com uma curiosidade casual.

— Bom — eu dou o meu veredicto. — Está bom. Muito bom, na verdade.

Leo assente e sorri para mim.

— Talvez seja uma especialidade brasileira.

— Acho que deve ser. Nunca provei um café tão bom quanto o seu.

Ele sorri de novo para mim, agradecido — Leonardo é o único que sorri nesse poço escuro. Ele vem de uma família riquíssima no Brasil, para estudar Psicologia em Manchester. Hoje já está formado em Psicologia e já exerce sua profissão há alguns anos, mas nunca falou em retornar para o Brasil.

Tomo o café rapidamente, louca para comer alguma coisa. Quase corro até o armário, onde guardamos nossos biscoitos. Quando abro as portas, vejo que ele está vazio. Viro-me, olhando para Leonardo com a testa franzida. Ele me alcança quase instantaneamente, com seus passos compridos de homem alto.

— Estava tudo vencido — ele explica. —Só hoje, depois de fazer o café, percebi isso. Will e eu jogamos tudo fora. Sinceramente, não sei como vocês duas comiam isso sem ficar doentes.

— Eu já estou doente — retruca minha mãe.

Leo fica embaraçado.

— Não foi isso que eu quis dizer, Sra. Devereaux.

Ouvimos um barulho de tranca da porta do banheiro e Will sai de lá, com o cabelo escuro — da cor do meu e da minha mãe, talvez a única coisa que William herdou dela e não do meu pai — molhado e a toalha branca na mão.

— Aleluia! — exclama Leo. — Pensei que você tinha morrido lá dentro, Will.

—Bem que você gostaria que eu morresse lá dentro — retruca Will, enquanto Leonardo revira os olhos. — Tive que limpar cada centímetro daquele banheiro cheio de bolor. Parece que ninguém nessa casa tem a capacidade de fazer isso, aliás. O nosso apartamento, meu e do Leo, é muito mais limpo do que isso. E nós trabalhamos o dia inteiro para pagar as nossas contas e as de vocês.

— Will! — repreende Leonardo, entre dentes. — Sua mãe está passando por uma fase difícil...

— Não fale de mim como seu eu não estivesse aqui, Leonardo —interrompe minha mãe, sendo totalmente ignorada por William, que atropela suas palavras.

— Está com depressão, eu sei — retruca Will. — Mas eu não acho que Lucy está. Está? Caso esteja, fale-me logo para eu gastar mais dinheiro te entupindo de remédios. Eles são caros; acho que já era boa parte do meu salário.

— Eu não preciso da merda dos anti-depressivos. Parem de me dopar como se eu fosse um bicho — fala a minha mãe, novamente sendo interrompida; dessa vez por mim.

—Vai se foder, Will! — eu grito, e corro até o banheiro.

Tenho ciência que a minha atitude foi idiota e infantil, mas também sei que o que Will fez também foi idiotice. Além disso, não quero chorar na frente dele. Pensamentos me remoem, o meu subconsciente entrando em cena. A minha mãe ficou em depressão por minha causa. Will não a daria um neto, assim como eu. Mas Will escolheu não casar com uma menina, já eu — eu já havia tentado ficar com um menino, mas nunca consegui. E, quando admiti isso para a minha mãe, foi aí que tudo piorou e foi assim que ela ficou nesse estado. Ela nunca foi a mãe mais feliz do mundo, pois Will fazia questão de aprontar, indo morar bem longe, sendo insensível e ficando com o Leo, apenas para provoca-la. Mas, enfim, sem esperanças dos dois filhos, ela finalmente sucumbiu à melancolia.

Lavo o rosto e escovo meus dentes. O tempo todo ouço as discussões provenientes da cozinha: minha mãe sendo ignorada completamente, enquanto William e Leonardo discutem.

Quando saio do banheiro, os três estão em um silêncio mortal. Olho para a minha mãe, percebendo que ela chorou. No entanto, é só isso que ela sabe fazer — chorar, em vez de controlar os filhos. Talvez por isso que nós dois nos tornamos tão errados e tão dissimulados. Minha mãe nunca fez um bom trabalho, e tudo que eu sou é culpa dela.

O William está com uma expressão morta, franzida e afiada — quando ele está com raiva, é assim que se comporta. E talvez, o mais normal ou mais maluco, é o Leonardo, que tenta um sorriso indecifrável — não um afável como sempre.

— Lucy, querida, você perdeu o seu ônibus escolar — informa Leonardo, com a expressão congelada, e uma suavidade na voz cantarolada e demasiada fingida. — Mas não se preocupe, pois Will te levará até a escola! — Leo cutuca William com o cotovelo; é aí que eu percebo que o sorriso era aqueles que filhos da puta dão antes de ferrar com a sua vida.

Will solta um resmungo, mas pega a chave do carro e sai pela porta. Fico congelada na minha posição, surpresa em como alguém como Leonardo — uma pessoa teoricamente tão otimista, tão indefesa — conseguiu controlar a situação, conseguiu controlar William.

— C-como? — eu gaguejo.

Leo dá de ombros.

— Ele não é tão difícil quanto você acha que é.

Eu iria perguntar por mais detalhes — mesmo sabendo que não ia ganhar mais nenhum — só que Will berra lá de fora que precisamos ir.

Não creio que tenha falado isso ainda, mas eu odeio Will. Com todas as minhas forças. Eu o odeio, mas nunca falaria isso em voz alta para ninguém.

Entro no carro e sento no banco de trás, para ficar o mais longe possível de Will.

— Ótimo; agora virei motorista de madame — ele brinca. Eu não rio. E ele também não sorri. Will quase nunca sorri. E, quando sorri, é um sorriso malvado, irônico, monstruoso. Sei que ele força seu sorriso assustador e sei que, se ele sorrisse de modo espontâneo, seu sorriso seria bonito. Mas ele simplesmente não quer fazer isso, embora ele possa. William pode fazer tudo que alguém deseja fazer, mas nunca faz. Ele desperdiça tudo. E eu sei que Will adora fazer isso, porque é assim que ele brinca com as pessoas. É assim que ele brinca comigo, desperdiçando tudo que ele tem, eu não tenho e quero ter. É por isso que eu odeio Will. E é por isso que eu me odeio.

— Como se eu fosse uma madame — eu sussurro.

— Ah, você é. — Eu olho o reflexo dos olhos azuis dele no espelho. Olhos herdados de meu pai, olhos que todos desejariam ter; olhos que Will desperdiça com tanta facilidade. — Não trabalha, tira umas notas miseráveis, sequer varre a cozinha. É uma madame, sim, e ainda uma princesinha mimada. Preguiçosa pra caralho.

— Pelo menos eu não sou uma desgraçada que deixou a mamãe aqui sozinha. E também não a culpo por ter depressão.

William liga o carro.

—Ah, você culpa, sim.

Não falo mais nada pela viagem inteira. Embora eu quisesse negar, sei que é verdade: eu a culpo por ter depressão. A culpo por tornar ainda mais difícil meu terceiro ano, a culpo por tornar ainda mais difícil ser lésbica. Podia odiar-me ainda mais, mas, em vez disso, odeio Will. Por ser tudo o que eu quero ser, ter tudo o que eu quero ter, desperdiçar isso e ainda fazer tudo o que eu desejo fazer — ser muito mais corajoso que eu e tornar isso fácil.

Em vez de deixar-me na frente do colégio, William estaciona o carro no estacionamento. Ele abre a porta e sai do carro. Eu faço o mesmo, apressada.

— Aonde você vai?

— Ao seu colégio, óbvio — ele retruca, indo em direção ao prédio escolar. — Preciso conversar com o seu diretor. Tenho que dizer que um responsável já está cuidando de você. Ele está preocupado, aquele bastardo intrometido.

Will tira um maço de cigarros do bolso e coloca um dentro da boca. Entramos dentro do prédio quando ele pega o isqueiro.

—Não pode fumar aqui dentro — eu retruco.

— Foda-se — Will rebate e acende seu cigarro. Ele guarda o isqueiro no bolso e solta uma baforada, fazendo-me tossir um pouquinho. — Isso é para os pirralhos.

Paro de andar e observo Will desaparecer no corredor, procurando a sala do diretor. Ele não parece interessado em pedir informações para mim e de certo vai achar a sala sozinho. Fica neste mesmo corredor. Todos abriram espaço para ele passar, um cara de vinte e sete anos fumando em um lugar que ninguém fuma. Um tipo interessante, com certeza as pessoas pensam enquanto olham para ele.

Bando de idiotas.

///

Quando a aula termina, pego a minha bolsa e vou para o estacionamento da escola. Vejo a nossa caminhonete preta de longe, e junto com ela está Will, fumando no banco do motorista. Quando ele ainda morava com a gente, nunca havia mostrado interesse nenhum em fumar. No entanto, na primeira vez que ele veio da Inglaterra, já estava com o seu vício.

— Ei, Lucy — chama uma voz atrás de mim. Viro.

É Lola, uma garota que cursa algumas matérias comigo. No fundamental 1, éramos melhores amigas. Depois fomos nos afastando gradativamente, e agora nem mesmo nos cumprimentamos no corredor. Por isso estranho ela me chamando.

— Ei — respondo baixinho.

Vez ou outra, eu flagro minha mãe olhando minhas fotos de infância. Em muitas delas, Lola aparece. Era uma menina miudinha, cheia de dentes faltando. Mas ela sempre sorria com vontade, como uma estrela. Olhando para ela agora e relembrando minhas memórias com ela, sinto um enjôo. Lola mudou demais para meu gosto; pintou até várias mechas do cabelo de rosa e azul. Ficou mais alta e magra e começou a andar com um pessoal popular, ficando idiota igual a eles. Lola me esqueceu completamente.

— Vou fazer uma festa depois de amanhã, na minha casa — anuncia ela. — Eu não mudei de endereço, então você deve saber aonde é.

— Sim, sei sim.

Olho para as mãos de Lola apertando a saia xadrez de rosa e preto, e para suas unhas, cada uma pintada de uma cor diferente.

— Então, se você quiser, leve um acompanhante.

Ela não olha para meus olhos, e sim para um ponto atrás de mim. Está nervosa. Talvez arrependida de ter parado de andar comigo —provavelmente está infeliz naquele grupinho de merda —, por isso decido aceitar.

— Que horas vai ser?

— Lá pelas oito e meia, sei lá.

— O.K. Talvez eu apareça por lá, então.

Viro para trás e ando até o carro. Não olho para trás, para dar o ar de não me importar nem um pouquinho com ela. Quando entro no carro, ao lado de Will, flagro Lola olhando para mim. Aceno com a cabeça; ela retribui o aceno depois de um tempo, sorrindo. Apesar de todo esse tempo, Lola continua abobalhada.

Will dá partida no carro e coloca os óculos escuros, enquanto joga o cigarro pela janela. Faço uma careta, incomodada, mas ele não parece notar — ou se importar. Ficamos em silêncio até ele sair do estacionamento da escola.

— Conheço essa garota — ele comenta. — É aquela garota que ia sempre à nossa casa, não? Uma amiga sua.

Surpreendi-me com a sua memória. Fazia uns sete anos que Will não a vira, e Lola havia mudado bastante.

— Lola — eu resmungo.

Will arqueia as sobrancelhas por cima dos óculos.

— Vocês ainda são amigas?

— Isso não te interessa — rebato.

— Então, não —Will conclui. — Mas você fez amizades novas, não fez? Porque Lola fez.

— Mas você não fez psicologia, então pare de tentar entender as pessoas.

— Não tenho interesse em entender adolescentes e seus problemas medíocres.

O interrompo antes que ele fizesse uma imitação medíocre dos tais adolescentes medíocres.

— Claro que não; você quer tratar loucos neuróticos e psicopatas que nem você!

— Eu poderia discutir com você — ele, pela primeira vez na discussão, olha para mim —, mas não pretendo fazer isso com alguém que nem faz ideia do conceito de psicopata, muito menos o de neurótico.

Will volta a olhar para frente e não fala mais nada. Ele quer se formar em Psiquiatria e para isso cursava Medicina, mas teve que adiar a especialização porque Mamãe ficou com depressão e teve que ser sustentada por William e seu emprego como médico. Acho que ele a odeia por causa disso.

—Will — eu começo —, você tem ideia de que vai ter que trabalhar com depressivos se for psiquiatra, né?

William fica em silêncio por alguns segundos, em um suspiro longo.

— Mas não vou ter que ser parente de um, Lucie. — Me surpreendo com tamanha ternura, tristeza e suavidade em sua voz. Parece-me um floco de neve, frágil, voando pelo vento.

Caindo, na verdade.

É aí que percebo que William teme estar envolvido em problemas sérios, ser vulnerável. É por isso que examina tudo de modo frio, calculista. Quer ser profissional, mas não consegue ser assim com alguém tão próximo como mamãe. E se afastou por isso — para não ter nenhum ponto fraco.

Olho para William, para suas maçãs do rosto altas, para seus olhos azuis e cabelos cor de pixe. Compreendo que aquilo nada mais passa de uma máscara, assim como sua amargura nada passa de uma armadura. Enxergo o frágil William por um instante.

Mas ele logo desaparece, porque a minha visão nada passa de uma miragem. William é cruel, e adora projetar profundidade (um motivo para ele ser assim tão amargo) por onde passa — mas a verdade é: todos os atos de maldade que ele faz, faz por pura diversão.

///

O resto do meu dia foi limpar a casa com William. Leonardo saiu para fazer compras, mas o tempo exorbitante que demorou fez-me pensar que ele não fez apenas isso.

Foi o inferno estar sozinha com Will — minha mãe dormiu a tarde toda por causa dos remédios — e principalmente limpar a casa com ele. William é, sem exagero, um maníaco por limpeza. Nada que eu faço está bom para ele, nem mesmo se esfregasse o mesmo lugar uma centena de vezes. Meu irmão sempre acaba ralhando comigo e sempre limpa novamente o que eu limpo.

—Will, notei que apenas te atrapalho — eu começo. Will resmunga algo que eu não entendo, mas com certeza foi um ruído de concordância. — Você parece estar se virando bem sem mim, então...

— Nem pense em escapar para o quarto. Larga essa preguiça; vou te ensinar o conceito de higiene — Will diz, enquanto passa o pano na mesa da cozinha.

— Eu sei o conceito de higiene.

— Não parece — Will retruca.

—Tá me chamando de porca?

—Não. Estou te chamando de imunda. Agora vá tirar o pó da estante; parece que ninguém toca nela há décadas.

Cruzo os braços.

— Você não manda em mim. Não é minha mãe.

William para de passar o pano na mesa.

— Eu não sou a sua mãe. E é justamente por isso que mando. Agora vá tirar a porcaria do pó dessa estante, porque não fui eu que o deixei lá. E larga de ser folgada.

— Você que é folgado. Você abandonou essa casa, William — Minha voz rasgava a minha garganta, rouca —, e agora ela não é mais sua. Você não tem mais direito nenhum sobre ela...

— Como se eu quisesse ter direito algum sobre esse lixo. A casa me dá nojo. Nunca quis voltar para cá; só o fiz por solidariedade.

Eu gargalho.

— Chama isso de solidariedade?

— Chamo. Não há outra palavra para o meu ato. Podia deixar as duas morrerem aqui, mortas de fome, comendo comida com merda de rato; mas, em vez disso, tive que, eu mesmo, me sujar de fluído o dia inteiro para sustentar vocês duas. E o que recebo em troca? Uma casa imunda e uma irmã malandra, que vai ser uma fracassada no futuro. E, quando minha mãe morrer, ainda vou ter que sustentar a vagabunda!

Fico sem palavras. William não conhece a palavra família. Nos enxerga apenas como peso morto, apenas como uma coisa irritante para atrapalhar sua vida, manchar sua carreira. Lembro das inúmeras desculpas que Will com certeza inventou para não trazer Leonardo aqui — coisas sobre preço, disponibilidade, vôos. Tudo mentira. Ele apenas tem vergonha da família.

— Você tem vergonha da gente.

Will levanta uma sobrancelha.

—A Mãe está doente. E não posso culpá-la por isso.

Entendo imediatamente. Will não tem vergonha da família. Tem vergonha de mim, porque não nasci como ele. Porque nunca fui inteligente, bonita. Nunca fui motivo de orgulho como Will é.

Não choro. Na realidade, não tenho nem vontade disso. Tenho é vontade de vomitar, porque sinto nojo de William.

—Vou varrer a sala — eu anuncio. Sei que, se dissesse que não iria fazer nada, William iria me xingar ainda mais. No entanto, optando por fazer algo assim, ele não pode me chamar de preguiçosa. Nem de princesinha. Mas sei que, se não fizesse o que ele tinha mandado, iria o irritar bastante, porque William é controlador.

Ele cerra o maxilar, o tencionando.

— Em algumas épocas, adolescentes faziam protestos para acabar com a guerra. Por causas nobres — ele comenta, lançando-me uma indireta pois achava a minha atitude infantil.

— Eles fumavam maconha.

— Queria que você fumasse maconha; pelo menos, não ia me encher tanto o saco.

///

No dia seguinte, na escola, todas as minhas palavras eram sobre William. Conversei com Niene, a única amiga que tenho, em todas as oportunidades que tive. Estou farta de William e preciso falar isso para alguém. Preciso desabafar.

Não sei se ela entendeu tudo o que eu disse. Niene é holandesa, está aqui há menos de um ano e se encrenca com o nosso sotaque australiano. Ela entende a maioria do que dizemos, mas se falamos muito rápido — e era o que eu estava fazendo — não tinha como a pobre coitada compreender.

—Mas, espera — ela me corta. Estamos no refeitório, lanchando. Dessa forma, podemos conversar sem interrupções (os professores) — Como ele pode ser folgado na própria casa, Lucy?

Eu reviro os olhos. Estou cansada de conversar com ela; Niene nunca me entende.

— Não é mais a casa dele — eu retruco. — Podemos conversar sobre outra coisa agora, não é?

Ela assente, embora tenha hesitado. Neste momento, Lola passa junto com suas amigas (umas vadias patricinhas quaisquer) e me murmura um oi, sorrindo para mim. Até tinha me esquecido do quanto o sorriso de Lola era bonito — quando verdadeiro —, incomparável com o sorriso deprimente de Niene, com os seus dentinhos de rata.

— O que foi isso? — Niene pergunta. Balança os cabelos loiros de um lado para outro, inclusive a franja reta na testa miúda. Não tinha sutileza o suficiente para disfarçar. — Desde quando você fala com a Lola?

— Ela é uma amiga de longa data — respondo. Niene faz uma careta de descrença, por isso resolvo me gabar. — Ela me convidou para uma festa na casa dela, amanhã à noite.

—Lucie, você tem certeza? — Niene pergunta, com um falso tom de preocupação na voz. Ela é invejosa, porém eu gosto dela. — Lola sempre te ignorou totalmente... Além disso, ela tem fama de fazer brincadeiras de mau gosto com meninas como a gente... Acho melhor você não ir.

—Meninas como você, só se for. Não somos parecidas, nem um pouco.

Niene olha para mim, fixamente. Soluça. Abaixa a cabeça. Eu pisei no seu calo. Estou começando a me sentir mal, quando o Nick Levine aparece. Ele está atrás da Niene, olhando para mim com desprezo.

— Não sei como você anda com a Devereaux — ele fala, se dirigindo à Niene. —Você é muito melhor do que isso — (eu).

Niene levanta a cabeça e murmura qualquer coisa doce para o Levine. Ela é apaixonada por ele, e ele tem algum tipo de obsessão por ela ou alguma outra coisa doentia. Cismava comigo desde então, dizendo que eu era má com a Niene, o Diabo encarnado ou coisa que o valha.

Nunca dei ouvidos a Nick. Ele não vale nem isso. É apenas um pobre coitado, que usa o mesmo all-star surrado há uns três anos. Rola um boato de que Nick rouba heroína do pai (um usuário/aspirante a traficante) e usa. Não pode-se esperar nada melhor de alguém que cresceu naquele ambiente, afinal de contas.

— Podia lanchar conosco, Niene — sugere Levine. — Não precisa ficar nessa mesa, só com pena da Praga lanchar sozinha.

— Você acha que ela vai lanchar com você e seu grupo de vagabundos drogados? Eles vão começar pedindo para você comprar um doce para eles, Niene, e você vai acabar pagando o baseado deles!

Niene fica nervosa, pedindo para pararmos de discutir.

— Cala a boca, sua sapatona! — Nick grita comigo.

— Iria até perguntar se os teus pais te deram alguma educação, mas tenho certeza que não.

Nick coça o pulso, que sempre está tampado, ou pela manga de alguma roupa ou por alguma pulseira. Aquilo é uma espécie de tique —sempre que mencionam o pai de Nick, ele coça sempre o maldito pulso.

— Tem razão — Nick concorda, entre dentes. Seus olhos são selvagens, escurecidos pelo ódio, pretos como os olhos de um tubarão. O rancor desfigura seu rosto. — Meu velho só me ensinou a destruir.

— Destruir? Você vai bater em uma garota? —indago, com acidez.

— Você não é uma garota.

Nicholas vira-se bruscamente e vai embora. Niene olha para mim, como se conferindo o meu estado ou pedindo desculpas por Nick, e enfim o segue.

Nick Levine nunca me magoou tanto.

Notas finais
O próximo capítulo não vai tardar a vir. Na realidade, ele já está pronto. Talvez eu o poste semana que vem.
Vocês não são obrigados a nada, óbvio, mas os comentários de vocês serão muito importantes para mim.
Bye!