Turquesa fantasiosa

2 Ida aos Estados Unidos


Notas iniciais
Josh é um garoto que convivi diariamente apenas com seus pensamentos. Diálogos são poucos, a vida dele se resume em pensar e tentar entender a si próprio e a quem o cerca, o que torna tudo mais difícil pra ele. Neste capitulo coisas estranhas acontecem com ele, e tudo começa a ficar embaralhado em sua mente.

Faltam apenas dois dias para minha viagem aos estados unidos, as únicas coisas que faltavam eram minha mala pronta e minha paciência, odeio viajar de avião.

O apartamento onde eu e meu pai moramos é um lugar bem aconchegante. Sou obrigado a viver sozinho quase que sempre, o que seria uma grande realização para um jovem, pra mim é só solidão. Na época em que o colégio ainda estava funcionando era até legal fazer atividades, ou conversar com Ísis, mas nem isso é possível. Ísis e sua família viajaram até o Canadá no inicio das férias, me lembro bem da grande foto estampada no mural de seu perfil em algumas redes sócias, todos bem parecidos, olhos mel, pele meio morena e cabelos castanhos. Estavam bem sorridentes.

Hoje tive que sair um pouco pra caminhar. Sempre que dá, vou até o jardim gigante do lado de fora do apartamento ou em algum lugar em que o ar não esteja sufocado pelos meus pensamentos angustiantes. Realmente, não tem do que reclamar, era muito lindo aquele lugar. Meus dedos tocavam as folhas da passagem de árvores, havia bancos de madeira em todo local. Tinha pontos onde não se encontrava ninguém, lugar perfeito para mim. Fui até o mais longe da pequena floresta e tento me aconchegar ao máximo, começo a fazer rabiscos de pessoas que vejo na pequena vila do apartamento. Desde meus quatorze anos sou viciado em olhar para as pessoas, guardar pequenos traços de seus rostos e desenha-los como se já conhecesse a história. É muito engraçado o jeito como meu estomago é visitado por borboletas quando acumulo muitos traços. Nenhum desenho meu é feito sem antes uma história criada, cada partícula de seus rostos me trazem a forma de como vivem, seus segredos. De algumas pessoas eu junto características físicas, como os grandes lábios da Sra. Gurrie que está sempre coberto do vivo batom vermelho, os olhos da pequena Jade do quarto numero dez, está sempre brincando, sempre sorrindo, o que deixa seus olhos verdes de um tom meio acinzentado cada vez mais contagiantes. Já de outras eu pego gestos bonitos, gentis, delicados. Como a tia Maria que cuidava das rosas com muito amor, sempre conversava com elas, as molhava com muito carinho e afeto, a delicadeza dela me fazia ama-la sem mesmo a ter conhecido. Era bem velhinha, cabelos brancos e bochechas bem rosadas, foi deixada pelos seus filhos que insistiram levar ela para um asilo, eram bem importantes no ramo da jardinagem pelo o que eu escuto de meu pai. Fico pensando no tanto que aquela doce senhora ensinou a eles a como cuidar de uma planta e depois o que fazem no final. Prefiro criar pessoas, criar histórias ha vivê-las e telas. Odeio quase todos que vivem aqui, sempre tomo como ofensa o que dizem, e quando tento melhorar sou obrigado a admitir que sou assim, e os defeitos vistos pelos "perfeitos" vem de minha natureza. Sempre imagino o que as pessoas desse apartamento pensam sobre mim, há também gente que ama, a palavra “exceções” esta ai pra defender esses casos, mas, a maioria dos que vivem aqui são gananciosos. Meu pai esta se tornando um desses, e não me intimido de declarar a ele tudo que penso sobre esse assunto. Acho que os perfeitos devem dizer, “nossa que menino estranho”, “esse ai não vai longe”. Sou assim porque tenho medo de me tornar um deles, tenho vergonha de como se tornaram tão pretensiosos, tenho medo de ser mais um robô idealizado pelos perfeitos.

Minhas mãos já estavam tremulas, meus rabiscos já estavam tortos de tantos pensamentos negativos sobre como meu pai estava perdendo o amor pela ganância, ainda o amo muito, pena que não ouço isso dele. Um casal de italianos me encontraram desenhando, olhei para eles, coloquei meu capuz negro de malha, fechei meu caderno e fui em direção ao meu quarto, não sei direito o que eles estavam pensando de mim, olharam, sorrirão olhando uns pros outros e sentaram no banco. Eu apenas dei um sorriso no canto da boca e dei de ombros. Sou um pouco sombrio quando me sinto só, meus cabelos escuros e minha pele pálida só faz piorar, pareço um vampiro magrelo. Entre passagens de pedras e areia, comecei a pensar nos Estados Unidos e na faculdade de direito em que irei cursar, não quero mesmo refletir em um dia ser avarento, quero viver e pronto, principalmente fazendo algo que amo de verdade.

Meus pés estavam cheios de terra quando cheguei em meu quarto, meu pai já havia chegado, e tinha ido direto para a cama, era sete horas da noite, fui direto para o banheiro fazer minha seção de limpeza antes do café, meus olhos estavam cansados mas meu corpo pedia mais tempo. Fui pra cozinha depois do banho procurar algo energético, o sofá quente e a grande televisão me chamava, atravessei a sala e fui para a varanda, o frio fazia parte daquela noite, a lua estava cheia, sentei num banco branco que parecia um pequeno divã, perto das palmeiras, peguei algumas cobertas e respirei a procura de calor, até que o sono tomou conta dos meus olhos enfraquecidos.

O sol brilhava, e um som do celular me incomodou, o que me fez acordar um pouco assustado, o rosto no visor era familiar, Ísis havia acabado de mandar uma mensagem onde dizia que passou pra mesma faculdade onde eu irei, e que tinha chegado aqui no Brasil hoje, a algumas horas, lá também explicava que não teve como me ligar antes avisando porque foi de ultima hora, além do mais, ela só foi saber disso ontem pela manhã. Disse que a faculdade deu uma explicação louca sobre a validade de algum documento do ultimo da lista que havia passado. A vida dela se tornou uma agonia, tinha que passar aqui pra pegar algumas coisas e depois ir pra o aeroporto, e quem sabe, ir no mesmo voo que irei.

Após a mensagem, corri para meu quarto e tentei me arrumar rápido para passar na casa dela, vi meu pai todo elegante saindo de casa sem nem dar um tchau. Continuei, o quarto estava uma bagunça, e eu parecia um palito num turbilhão de roupas. A maioria das roupas estavam limpas por causa de Lúcia –empregada contratada por meu pai- que passa pelo quarto todos os dias e coloca minha roupa pra lavar, o problema é que quando vou procurar não tenho paciência pra deslizar a mão delicadamente a ponto de tudo ficar do mesmo jeito, pareço um cavalo quando estou impaciente. Coloquei brutalmente minha camiseta marrom com pontos negros que formavam o rosto do pac-man, rapidamente ajustei minha bermuda jeans clara, tomei uma maçã coloquei em minha mochila de couro escuro. Fui em direção a porta, minha visão estava muito embaçada, um pequeno resquício de minha miopia foi lembrada, corri feito um louco pra procurar meu óculos geek –indagava Ísis sempre que me via com ele- que estava em cima de um armário rústico na sala, abri a porta e dei de cara com a irmã mais velha de jade, parecia com ela, só que com um belo corpo violão e cabelos longos cheios de voltas.

– Oi, é Josh né? – Diz ela meio acanhada.

– Sim. – Digo frio.

– Sou Jasmin, filha do Sr. Colombo do dez. É que a internet do meu quarto parou, e eu tenho que fazer algumas pesquisas, será que eu posso usar a sua? – Diz ela enquanto percebo Ísis andando em direção ao meu quarto.

– Ata, ok, tudo bem, pode entrar. – Digo com as mesmas palavras engasgadas de sempre, sem nem olhar pra Jasmin. Fiquei feliz em ver Ísis depois de alguns meses. Abri um grande sorriso de orelha a orelha.

Estava bem apreensiva, achava que não iria dar tempo até porque o voo de hoje é financiado pela faculdade, caso não viesse por esse voo, perderia dinheiro pagando um.

– Quem é essa? – Ísis diz com aquele sorrisinho irônico de, “aham”, “sei”, “tá pegando né?”. Sorri e ajudei ela a carregar suas malas.

– Afinal, o que veio fazer aqui? Pensei que iria a sua casa. – Digo enquanto abro a porta de meu quarto ardendo em ansiedade agora pela viagem. Dou uma espiadinha na sala e em Jasmin que estava uma gracinha naquela blusa verde e aquele short jeans.

As malas estavam cheias de roupas sujas, bem pesadas e ainda com duas ou três roupas úmidas. Jogou todas sem nem pensar na maquina de lavar e pediu um pouco de café, parecia ofegar e suar muito. Fui até a cozinha, peguei um pouco de água e a jarra de café. Jasmin havia desligado o computador, veio até mim e disse que já tinha feito sua pesquisa, agradeceu e foi embora. O engraçado é que não vi Pen-drive nenhum em suas mãos e as pesquisa durou apenas cinco minutos, ela não seria capaz de roubar nada, ninguém do prédio roubaria, todos aqui tem uma reputação e zelam por ela. Então, o que ela queria?

– Cadê Jasmin Josh? – Pergunta ísis que estava só com sutiã e uma pequena saia short.

– Acabou de sair. – Digo.

– Eu acho que ela esta afim de você, a tempo venho reparando isso. – Diz Ísis soltando uns risinhos.

Dou o café a ela, que coloca uma camiseta branca escrito “Canadá” em vermelho. Ainda parecia aflita, tentei fazer ela pensar em outras coisas, e não só na viagem.

– Vamos até a biblioteca, sei que só assim você se acalma. – Digo tentando tirar um sorriso enquanto percebo um longo gole do café.

– Se conseguisse me tirar daqui com minhas malas prontas. – Diz ela dando um pequeno sorriso.

– Vamos vai ser legal, e pra que tanta bagagem? Não precisa de tantas coisas. – Digo, pensando em receber uma indireta.

– Tudo bem, eu vou. – Diz ela surpreendentemente calma.

A livraria ficava a poucos minutos do edifício, dava pra ir a pé. O cheiro dos livros e de café fazia ela se sentir melhor, duas coisas que ela ama no mesmo lugar era como o paraíso, o lugar em que ela mais sentia paz e prazer. Dentro da própria livraria, tinha uma pequena loja de doces onde vendia bolos, cupcakes, sucos, café, leite e outros que ficava no segundo andar da biblioteca. Era até sofisticada, bem trabalhada no verde e abusava nos vidros, as escadas, e algumas paredes da livraria eram de vidro. Quem me fazia sentir o que o arquiteto queria passar era minha mãe, ela era tão doce quanto a senhora Maria. Sentamos para tomar um café, junto a um livro em que escolhera.

– Ísis, como estava o Canadá? – Pergunto.

– Está tudo ótimo, minha família adorou o país, meus tios Augusto e Paula estão pensando em morar lá. O clima também é muito bom, não é esse calor que se chama Brasil. – Diz Ísis enquanto lê o prefácio do livro.

Uma sensação estava atraindo minha atenção, as afeições de olhos azuis e claros me faziam refletir, e saiam do nada, eram olhos lindos, os mais perfeitos em que já tinha reparado, formavam rostos exuberantes, me sentia fora da biblioteca em algum sonho desconhecido ou um filme de terror preso sem poder me mexer. Ísis parecia estar comentando algo, mas não a escutava. Toda hora alguém passava por nós dois e aqueles mesmos olhos perfeitos estavam cobrindo os das pessoas, como se todos fossem os mesmos, olhavam pra mim, pareciam me encarar e depois saiam, estava tudo confuso, levantei e fui em direção as escadas, estava sentindo náuseas, meu corpo pinicava em terror, porque não conseguia escutar ninguém, todos estavam com os mesmos rostos perfeitos porém já assustadores, meu corpo estava tremendo muito e tentei mover todas as minhas forças pra sair dali, estava no segundo andar, tropecei e cai até o meio do pequeno corredor de degraus, meu nariz escorria sangue, e sentia uma queimação explodir minha menti, depois, apenas uma dor te cabeça que ficava cada vez menos presente. Quando recordei meus sentidos, Ísis gritava meu nome, e olhava para mim.

– Alguém pode me ajudar, por favor! — Uma onda súbita de medo e pânico invadiram meu coração depois dos gritos barulhentos de Ísis.

Notas finais
Meus textos são grandes, espero tentar diminuir eles, mas obrigado por ter lido!