Tudo que a gente tem de errado

2 Capítulo 2 - Será que vamos conseguir vencer?


Notas iniciais
Música do título: Será - Legião Urbana Aesthetic: Paulo Rezende

Camila roía as unhas de nervosismo. Não via Paulo desde que ele saiu da sala quando o sinal de intervalo tocou.

Certo, seu irmão sumia muitas vezes todos os dias, sempre aprontando por aí, aparecia logo depois com um sorriso no rosto, muitas vezes de satisfação e outras vezes safado.

Só que havia aquela aposta boba com Fernanda.

Camila queria gritar lá no pátio para todo mundo ouvir que eles estavam sendo idiotas e que aquilo tudo iria dar errado.

Se a diretora descobrisse daquela besteira... Eles iriam se ferrar. Tudo que acontecesse seria considerado culpa deles mesmo que a mulher não conseguisse provar o contrário.

Com sorte, os alunos não iriam contar para os professores ou para a diretora por pura curiosidade em ver até onde aquilo iria.

Observou novamente os meninos do segundo ano organizando um rápido jogo de futebol, só que agora Fernanda estava no meio provavelmente tentando convencê-los a deixarem jogar também.

Alguns meninos não se importavam, outros ficaram irritados. Depois de algum tempo discutindo, e de Bento sussurrar algo em seu ouvido, Fernanda saiu da quadra irritada em direção a Camila.

Sentou-se na arquibancada ao lado da baixinha, bufando.

—Relaxa, amiga — Falou a morena de cabelos curtos — Eles só estão irritados porque já sabem que você é melhor que eles.

—Não todos — Comentou a outra.

—É... Mas um boa parte deles, o resto se sente ameaçado.

E ela conseguiu, Fernanda deu uma risada. Se deitou na arquibancada olhando em direção ao céu, com a testa franzida.

—Sabe onde está seu irmão? — Perguntou

—Não... Estou preocupada com isso.

—Ele some toda hora, Camila — Fernanda balançou a mão em direção à escola — Daqui a pouco aparece com um chupão no pescoço e um sorriso idiota no rosto.

—Não é só isso... Eu estou preocupada com vocês dois.

Fernanda lhe lançou um olhar confuso.

—A aposta — Explicou — Fico com medo no que isso pode dar...

—Umas boas advertências e algumas suspensões — Ela riu.

—Não brinca com isso, Fer!

—Estou falando sério, não é como se isso fosse novidade se tratando de mim e do Paulo.

—Meu pai vai matar ele.

Ela percebeu o rosto de Fernanda mudar de descontraído para preocupado, logo depois ela voltou ao normal e deu os ombros.

Estranho, pensou Camila.

—Foi ideia dele

—O quê?

—Foi ideia do Paulo — Fernanda explicou novamente — A aposta.

Camila respirou fundo e olhou pra os meninos já jogando futebol. Encontrou Paulo sentado do outro lado comendo salgadinhos, o sorriso? Satisfação.

•••

—A professora já está 3 minutos atrasada — Comentou Bento batendo o lápis na mesa.

—Para com isso, pelo amor de Deus — Reclamou Fernanda, batendo na mão dele.

—Não diga o nome de Deus em vão!

Ela revirou os olhos, olhando para os corredores mais uma vez.

—Se não fosse a Sara, tenho certeza que você não tava nem aí pro atraso.

—Qual é, gatinha — Ele sorriu bagunçando os próprios cabelos cacheados — Todo mundo gosta da Sara.

A sala estava inquieta, alguns conversavam e outros estavam ansiosos para ter aula com Sara. Era estranho pensar que a professora de literatura era a favorita da sala, sendo que quase ninguém ali gostava de ler antes de começar a estudar com a mulher.

Uma movimentação estranha mais à frente a chamou atenção. Renata tentava abrir sua caderno, mas sem resultado nenhum, além disso ele parecia pregado na mesa. Foi quando um dos garotos tentou, e usou muita força, que ele se abriu, mas todas as folhas foram rasgadas, é um pedaço dele ainda ficou na carteira.

A morena choramingou, enquanto o garoto pediu mil desculpas pelo acontecimento.

Quando a garota foi mexer no próprio estojo, ele também estava colado na mesa, até mesmo o zíper estava sendo quase impossível de abrir.

Algumas pessoas já prestavam atenção na cena, a maioria dando risadinhas.

—Super cola? — Perguntou Bento baixinho.

—Não fui eu — Fernanda se defendeu e logo em seguida já sabia quem tinha sido.

Ela não tinha inventado a fórmula da super cola, e sempre ficava com preguiça de fazer.

Quando estavam no quarto ano, Paulo veio com a maravilhosa ideia de fazer uma cola super forte e que secaria rápido para ajudar em suas pegadinhas.

Ele misturou um monte de tipos de colas diferentes, a maioria com secagem rápida e espalhou a fórmula para os amigos, Fernanda na época só conseguiu a fórmula quando Camila entrou sorrateiramente no quarto do garoto e copiou as anotações de uma folha.

Fernanda olhou para trás, em direção a cadeira de Paulo, o mesmo tinha um sorriso enorme no rosto direcionado a ela.

"Empatamos" ele moveu a boca, sem deixar que saísse som, sabendo que ela era boa com leitura labial.

—Bom dia, turma! — Exclamou Sara abrindo a porta de uma só vez, surpreendendo todos.

Aí a algazarra começou, todo mundo começou a bater palmas e assobiar, com exceção, é claro, dos novatos que não entenderam nada.

—Calma, calma! — A mulher pediu rindo.

Poucos segundos depois todos estavam calados, ninguém gostava de perder tempo da aula de Sara.

—Primeiramente, desculpa o atraso, estava conversando com a professora de Artes.

Fernanda se remexeu na cadeira, Sara havia olhado em sua direção e depois moveu o olhar para o fundão, onde Paulo se encontrava.

—Paulo, meu parça! — Exclamou a mulher fazendo a dança de "Tá tranquilo, tá favorável" fazendo todos rirem.

O garoto fez de volta, mesmo percebendo o olhar de advertência da mulher.

Ela conhecia Fernanda e Paulo tão bem que já sabia que havia sido um deles que colocou um sapo na sala da professora de Artes, mas por sorte ela nunca "dedurava" ninguém.

—E aí, 'fessora? — Perguntou entrando na brincadeira — Tudo na paz?

—Vai estar assim que você tirar esse seu gorro da cabeça.

A sala riu de novo, Leonardo puxou o gorro do amigo e o escondeu na própria mochila em meio a protestos do moreno e risadas dos colegas de classe.

Fernanda percebeu que Paulo tinha mudado o corte de cabelo durante as férias. Eram raros os momentos em que ela o via sem gorro, os professores até desistiram de pedir que ele tirasse o gorro, mas ela sabia como ele costumava corta-lo.

Assim como a irmã, seu cabelo era castanho claro e liso, ele costumava a cortar curtinho, mas agora estava no penteado que todos os meninos cortavam, grande no meio e curto nas beiradas, só que mais discreto na questão da diferença de tamanhos. Quando ele passou as mãos na parte de cima do cabelo para ajeita-lo, Fernanda prendeu a respiração por alguns segundos.

Por que ele tinha que ser tão bonito?

A professora perguntou o nomes do novatos, que se apresentaram, e fez algumas outras perguntas sobre a vida deles, dessa vez eles estavam bem mais relaxados do que nas aulas anteriores.

—Não vou pedir pro pessoal que já está aqui faz tempo ficar falando da vida deles, porque já estou cansada de saber das palhaçadas que eles fazem.

A turma riu de novo, enquanto a mulher morena andava entre as carteiras.

—O que aconteceu aqui, Renata? — Ela perguntou.

—Não sei... — Resmungou a menina, tentando arrancar os pedaços de papel presos na mesa.

—Paulo e Fernanda! — A mulher chamou os dois irritada.

—Não fui eu — A garota disse levantando as mãos em rendimento.

Paulo revirou os olhos e levantou uma das mãos.

—Fui eu!

Silêncio.

—Desculpa, Renata!

Sara fez como se fosse brigar com ele, mas pensou em uma coisa e deu um sorriso.

—Leonardo, vá até as moças da limpeza e pega um balde com água e um pano, por favor.

—Por que eu? O Paulo que fez isso! — O garoto reclamou.

—Você não é o galã de rodoviária daqui? Pro Paulo eu tenho outra ideia.

Leonardo saiu em meio aos assobios dos meninos, enquanto Paulo dirigiu seu olhar em direção a Fernanda, a garota sorria novamente com as mãos como antes.

1 a 0 novamente.

Afinal de contas, as pegadinhas só contariam se não fossem pegos como responsáveis por professores e pela diretora.

Paulo se afundou um pouco na carteira soltando um gemido.

—Então, queridos alunos... Como vocês sabem, se não sabem vai saber agora, todos os anos eu faço algum projeto com vocês. Esse ano eu resolvi fazer um teatro!

A maioria dos alunos olharam confundis uns para os outros, Paulo se afundou mais na carteira já imaginando onde aquilo iria dar.

—Cada sala minha vai apresentar um teatro numa época do ano. E as primeiras turmas as se apresentarem vão ser as dos segundos anos!

Resmungos foram ouvidos, mas a professora não se intimidou:

—Vocês vão escrever, dirigir, atuar, montar o cenário e os figurinos, com minha ajuda e a de outros professores! E vai valer como nota total para esse trimestre.

A sala virou uma algazarra, todo mundo tinha algo para reclamar. Sara respirou fundo, esperando todos relaxarem.

Leonardo abriu a porta, já sem a cara feia de antes e agora com o sorriso galanteador de sempre.

Foi até a mesa de Renata, perguntou se ela queria ajuda e após a garota recusar, entregou os matérias de limpeza e se sentou no seu lugar ao lado de Paulo.

—Então... O que aconteceu? — Perguntou para o amigo que parecia inquieto.

—Vamos fazer uma peça de teatro que vai valer como nota do trimestre.

—Caralho, eu saio por 5 minutos e quando eu volto a professora jogou uma bomba?

—Basicamente, mas eu quero saber mesmo é qual a minha punição.

Sara bateu no quadro, chamando a atenção de todos.

—Nós temos que nos organizar... — Respirou fundo perguntando a si mesma onde foi se meter — Vamos decidir primeiro o tema da peça.

—Romance! — Ana Clara gritou.

—Deus me livre! — Fernanda reclamou.

Os meninos concordaram com Fernanda enquanto a maioria das meninas concordaram com Ana Clara.

—Eu prefiro terror!

—Comédia!

—Suspense!

—Suspense e terror são a mesma coisa, ô bocó!

—Claro que não!

—Calma, gente! — Pediu Sara — vamos começar com outra coisa então, quem gostaria de escrever?

Camila levantou a mão.

—Alguém mais? — Esperou alguns segundos — Acho que ela vai precisar de ajuda, então se alguém quiser ajudá-la com algo, é só pedir.

Renata levantou a mão.

—Posso falar, professora?

—Claro, Renata.

—Todo mundo aqui sabe que a Camila escreve bem pra caral... — Sara lhe deu um olhar de advertência — Caramba, principalmente porque ela tem o blog dela e tudo mais. Então nada mais justo do que deixar ela escrever algo que a deixe confortável.

Camila sorriu para a amiga em agradecimento e disse um tanto nervosa:

—Eu até poderia tentar escrever suspense ou terror... Mas acho que vai ser difícil botar em pratica e nunca escrevi nada disso... Mesmo com ajuda...

—Então vai ter que ser romance? — Luiz reclamou em tom de deboche — Que coisa de mulherzinha!

—Olha lá como fala da minha irmã, mané! — Paulo advertiu, se ajeitando na cadeira.

—Calma, Paulo... — Pediu Sara — E Luiz... Se você quiser escrever a história ou tiver uma ideia brilhante, pode falar.

—Não... — Luiz falou abaixando a cabeça — Pode deixar.

—E não é coisa de mulherzinha, não senhor! — Ana Clara falou mascando chiclete — Ou vai falar que nunca viu um homem apaixonado? Chega até a ser patético!

—Patética é essa discussão! — Fernanda tomou frente cansada daquilo — Vamos fazer logo romance, quem não quiser ajudar já vai juntando dinheiro pra pagar a recuperação e pronto!

—Obrigada, Fernanda — Agradeceu a professora — Então... Alguma ideia de como pode ser a história?

—Que tal uma garota nerd e um cara popular? — Uma garota falou.

—Tem coisa mais clichê que isso? — Fernanda fez uma careta

—Cinderela nos tempos modernos — Caçoou Bento entrando na onda da amiga.

—Fernanda! Bento! — Ana Clara os repreendeu.

—O que foi? Não é porque vai ser um romance que tem que ser chato!

—Na verdade... Um clichê bem trabalhado pode ser muito bom, já viram como a maior parte das comédias românticas são parecidas?

—Por isso são ruins! — Leonardo falou causando a risada de alguns meninos.

Sara adorava seus alunos, ainda por cima aquela sala, mas já estava mais do que na hora de dar uma lição e um choque de realidade neles.

—Como eu gosto de causar discórdia alheia... — Fez-se silêncio- Vamos fazer um romance e clichê, com o Paulo como protagonista!

Paulo tomou um susto tão grande que quase caiu da cadeira. O comentário da professora pegou a turma tão de surpresa, que ninguém nem teve coragem de rir quando a professora falou aquilo, exceto é claro...

—Agora a coisa tá ficando interessante! — Fernanda disse, para logo depois continuar a rir igual uma maluca.

—Não, não, não e não! — Paulo reclamou — Eu definitivamente me recuso a fazer isso!

—Já está decidido! — Sara falou — Ou isso ou você vai ficar com 0.

Paulo afundou a cabeça nos braços, enquanto os cruzava sobre a mesa.

Ele odiava quando as pessoas decidiam sobre a vida dele.

Notas finais
Yaaay, mais um! A arte imita a vida, "galã de rodoviária" é uma das pérolas da minha professora de Interpretação de Texto. PAULO SE F U D E O, pegadinha deu fail! Fernanda continua na frente! Próximo capítulo já vão ter se passado alguns dias... ~spoiler~ vai ter uma festinha!! SERÁ QUE A FERNANDA VAI FAZER A MOCINHA DA PEÇA JUNTO COM O PAULO?????? OU ELA VAI FICAR SE CORROENDO DE CIÚMES????? Espero que tenham gostado, me avisem qualquer erro!