Tudo que a gente tem de errado
3 Capítulo 3 - O que eu bebi por você
Notas iniciais

Alguns dias depois, Fernanda estava parada na frente da casa da família Rezende, tentando entender no que diabos ela pensou quando disse para Camila que iria na festa de aniversário de Paulo.
O garoto resolveu chamar vários amigos, da escola e de fora para uma festa na sua casa depois de ter convencido os pais que entregaria o local inteiro. Mas Fernanda conhecia Paulo tão bem que sabia que algo iria dar errado só pelo fato de ser uma festa na casa dele com os amigos dele.
Talvez fosse melhor ela dar meia volta e voltar para casa.
Voltar para sua cama quentinha, sua blusa velha e larga, seu netflix e sua pipoca sabor manteiga.
Sim, ela iria voltar.
—Fê! — Chamou uma voz conhecida.
Talvez, pensou, se continuasse a andar como se não tivesse ouvindo, não a chamariam de novo.
—Fernanda!
Mais um pouco e ela chegaria no fim do quarteirão.
—Fernanda Cavalcanti, eu sei que você está me ouvindo!
—Puta que pariu, Bento! Tu é muito chato! — Ela gritou dando meia volta e olhando para o moreno que estava parado na frente do gramado da casa de Paulo.
—Vai embora sem nem aproveitar a festa?
—Esse era minha meta, mas pelo visto você não vai me deixar atingi-la.
—Adoro quando você mostra que me conhece tão bem.
Bento esticou o cotovelo como um cavalheiro e ela segurou caminhando com o garoto em direção à porta de entrada da casa dos Rezende.
Fernanda já ouvia um pouco da música, sabendo que a festa não poderia ter um som muito alto pela casa ser dentro de um condomínio fechado.
Assim que Bento abriu a porta para ela, causando uma risada da morena, Fernanda avistou Paulo no meio da sala.
Ele estava virado em sua direção e assim como a garota, no mesmo instante a notou.
Paulo estava bonito, como sempre. Era estranho para Fernanda o quanto ele conseguia ser bonito e manter aquele visual mais largado como se não ligasse realmente para a aparência, ainda mais por sempre enfiar na cabeça um de seus gorros quebrando qualquer sinal de algo mais arrumado.
Mas havia algo diferente nele, pelo menos foi o que ela achou. Algo no olhar... No sorriso de lado que ele a lançou, um sorriso diferente dos que ele dava normalmente, algo... Simplesmente diferente. E bonito. Muito bonito. Tão bonito que ela sentiu seu estômago revirar e as pernas ficarem bambas.
Céus! O que ela estava pensando? Estava parecendo uma garotinha idiota!
E a situação só piorou, o garoto veio em sua direção, colocando a mão no ombro de quem quer que estivesse conversando e vindo em sua direção.
Paulo usava uma camisa de manga curta azul, uma calça jeans rasgada, um tênis preto e claro, seu gorro cinza.
—Buscou a fujona?
Fernanda levantou uma sobrancelha.
—Eu falei que ia te arrastar pra cá quando vi que você ficava encarando a casa, mas ele falou que se eu fosse aí mesmo que você não iria entrar — Explicou ele sorrindo.
Fernanda gargalhou.
Paulo e ela às vezes tinham aqueles momentos de paz e tranquilidade. Sempre que aquilo acontecia, a garota se sentia extremamente bem. Mas aquilo não acontecia sempre, eles passavam boa parte de seu tempo juntos discutindo ou fazendo brincadeiras, e quando tinham momentos descontraídos, eram ótimos.
O pior, ou melhor talvez, era que aquilo chegava a ser tão normal para os dois que nem estranhavam quando um deles já não vinha com pedras na mão e prontos para dar umas boas tiradas. Era bom e descontraído, e fazia Fernanda sentir uma sensação gostosa na barriga.
—Feliz aniversário, Paulo — Ela sorriu esticando o embrulho.
—Valeu.
O moreno aceitou o presente com uma mão se aproximou para cumprimentá-lo corretamente. Fernanda sentiu a mão direita do garoto ir em direção à sua cintura e depois costas deixando um rastro de fogo, o rosto dele se aproximou do dela e depois mudou de direção baixando sua bochecha de um lado e do outro, não sem encostar como era de costume, mas realmente tocando a pele, a fazendo sentir seu rosto ficar quente.
A genética e o blush rosinha que tinha passado com sorte iriam salvá-la.
Quando ele se afastou, Fernanda deixou cair seu skate, que até então estava sendo retirado firmemente com uma das mãos.
—Droga — Ela resmungou pelo barulho, que chamou a atenção de algumas poucas pessoas e se abaixou — É melhor eu guardar isso... posso deixar no quarto da sua irmã?
—Claro, ela subiu pra lá agorinha na verdade.
—Valeu.
Se virou correndo escada a cima, já sabia onde ficava o quarto da menina.
—Sério, eu não sei como vocês dois não se tocam — Comentou Bento, que até então só assistia a cena curioso.
—Como? — Paulo realmente estava confuso, mais pelo rastro de perfume que Fernanda havia deixado no ar.
—Nada não, esquece.
•••
—Puta que pariu, qual o meu problema? — Reclamou Fernanda escorregando um pouco na porta do quarto de Camila.
A outra que antes andava de um lado pra o outro arrancando o esmalte como sempre, a encarou.
—O que foi?
—Seu irmão...
E foi apenas com essas duas palavras que Camila simplesmente soube o que estava acontecendo. Então ela deu pulinhos de alegria, mesmo de salto, e veio em sua direção.
—Eu sabia! Sempre soube!
—Soube o que?
—Que você gostava dele, sua boba.
A mente de Fernanda pareceu gritar "ALERTA" e ela se abrigou a fazer uma careta de desgosto.
—Claro que eu não gosto do seu irmão, ele só esta... — Fez uma pausada pensando — Gostoso?
—Aham, sei...
—Para com isso, Camila! — Reclamou irritada
—Viu? Agora você já está normal.
—Você nem tanto, por que não está lá em baixo?
A expressão no rosto da menina mudou de descontraída para preocupada.
—Promete que não vai rir?
—Faça-me o favor, Camila! — Reclamou a outra morena se sentando num banquinho cor de rosa.
—Eu... Digamos que eu estou afim de alguém e não sei como me aproximar dessa pessoa.
—Certo... Mas quem é?
Camila olhou pra os próprios pés e disse baixinho:
—O Bento.
Fernanda franziu o cenho. O Bento? Aquilo sim era algo que ela não esperava. Tinha certeza que eles só se falavam por culpa dela, Bento era seu melhor amigo e Camila era o mais próximo que ela tinha disso com uma menina mesmo com as confusões com seu irmão.
Os dois eram aquele tipo de pessoa que se formassem um casal iriam dar certo, não eram como fogo e gasolina, como Paulo e ela.
E por que ela estava pensando nela e Paulo como um casal?
Balançou a cabeça e disse:
—Ele te acha bonita.
—Que? — Camila arregalou os olhos.
—A gente estava conversando um dia sobre o pessoal da sala e ele me disse que te achava bonita, mas não arriscava nada com você por causa do Paulo.
Arrumar um melhor amigo que era amigo de Paulo também, Fernanda às vezes nem acredita nas coisas que fazia.
—Isso é sério? — Perguntou Camila esperançosa.
—Não, estou só te falando isso para você ficar imaginando coisas e se foder — Ironizou a outra revirando os olhos.
—Fernanda!
Ela riu, mas disse:
—Sério, você devia jogar um charme sei la, aproveita que seu irmão vai ficar correndo atrás de um rabo de saia.
—Você deveria ter vindo de saia...
Fernanda lhe lançou um olhar indignado fazendo a amiga rir.
—Qual o seu problema?
—Vocês dariam um bom casal, só isso.
—Exceto pelo o fato da gente não se suportar!
—Isso é só uma brincadeira boba... Vocês superariam isso.
—Parabéns, agora eu estou começando a não suportar você!
—Fê!
—Que tal voltarmos ao assunto Bento?
—Deixa, Fê.
—Olha, larga de palhaçada e vamos lá em baixo... — Fernanda se levantou empurrando a amiga em direção à porta -Vou dar um jeito dele ir falar com você.
—Fernanda, espera!
—O que?
—Ele disse mesmo que me acha bonita?
—É claro que sim! E você é! Muito! É só que os caras preferem a Ana Clara e a Renata porque elas usam roupas curtas e tudo mais. Não que isso as tornem más pessoas, mas você é bonita de uma forma diferente.
Camila não tinha o corpo mais bonito da sala, ela cuidava de sua saúde, mas não gostava de passar horas na academia pra conseguir um corpo "maravilhoso" como as outras garotas. Seu cabelo era curto destacando seu rosto com traços delicado e as maçãs do rosto coradas. Ela tinha um jeito só dela, meio tímida, mas conversava com todos os amigos com bastante naturalidade, e ela estava ainda mais linda naquela noite, ainda mais com aquele brilho no olhar. Um brilho muito parecido com o de Paulo quando ela chegou.
—Se o Bento não quiser nem sequer dar um selinho em você ele é um completo idiota.
•••
Paulo deveria estar curtindo sua festa. Leonardo, apesar de ser um dos seus amigos mais "atentados", odiava dançar e aquela barulheira toda de festa, por isso ficava na cozinha fazendo batidas e drinks para todo mundo. As garotas de sua escola e do clube que seu pai era sócio estava no meio da sala dançando na pista de dança improvisada, a saias coladas e curtas mostravam bastante de seus pernas, seus amigos iam e vinham conseguindo beijos. O álcool já estava fazendo efeito em quase todo mundo, Ana Clara já havia jogado os saltos no canto da sala, que estava sem móveis, e balançava o corpo de uma maneira estranha.
Mas desde que Fernanda chegou tudo que Paulo conseguia fazer era ficar sentado olhando em direção a escada perguntando a si mesmo o que diabos estava acontecendo.
Ela estava linda. Na verdade, Paulo sempre achou Fernanda bonita, de uma maneira ousada, única e totalmente diferente, o que o assustava, pois não se interessava por garotas daquele jeito. Mas naquela noite estava ainda mais bonita, não usava uma roupa de festa como as outras garotas, estava com aquelas calça jeans claras que estavam na moda atualmente rasgadas, com o cós até na cintura e dobradas quase no meio da canela, não mostrava nada de suas pernas bonitas, mas dava aquele ar de mistério como se convidasse qualquer um para descobrir o que ela escondia, a blusa colada que ela usava era curta e deixava um pedaço da barriga exposta, e como se não bastasse havia o batom. Ela estava com um batom vermelho que chamava muita atenção para seus lábios, lábios cheios e totalmente beijáveis.
Aquela garota estava sendo sua ruína. De todas as formas possíveis.
Estava ganhando na aposta e ainda estava o distraindo de um monte de garotas bonitas que poderia beijar.
Tinha que tirá-la da cabeça.
Olhou para a batida de limão em sua mão, tinha pedido para Leonardo colocar bastante wisky nela.
Em menos de 10 segundos já havia engolido tudo.
E saiu em direção à cozinha.
Precisa de mais.
Muito mais.
•••
—Licença, meninos! Vou ter que roubar o Bento uns minutinhos.
Em meio aos olhares maliciosos dos amigos, o garoto deixou ser guiado pela melhor amiga até um canto da casa.
—O que foi? — Perguntou quando percebeu que pararam.
—Lembra quando você disse na festa de dezesseis anos da Ana Clara no ano passado que queria ficar com a Camila, mas tinha medo do Paulo ficar chateado com você?
—Que papo doido é esse, Fernanda? Você bebeu?
—Só responda!
—Lembro, claro que eu lembro... Ainda acho isso na verdade.
—Ótimo! Hoje é o dia de você ignorar isso.
—Você quer que eu dê em cima da Camila?
—Eu quero que você faça isso, se você e ela quiserem.
Bento hesitou por um momento.
—Não é uma pegadinha pra você ganhar mais um ponto pra aposta?
—Assim você me ofende! — Ela lhe deu um soco no braço — Eu não iria fazer uma coisa dessas com vocês dois!
—Ok, desculpa!
Fernanda ficou olhando para ele impaciente, até que Bento levantou as mãos em rendição e falou:
—Se o Paulo tentar me matar, a culpa é sua.
—Eu sei.
•••
Fernanda circulava na festa, Camila e Bento já conversavam em um canto da sala, agora ela só tinha que achar Paulo.
Pensou na cozinha, se ele não estava ali engolindo a boca de uma menina, de certo estava bebendo.
—Leo, você viu o...
O barulho de vidro quebrando e algo batendo contra um móvel fez a garota desviar a atenção de Leonardo para o outro lado da cozinha.
Paulo havia batido o braço em uma prateleira baixa deixando o copo de vidro se espatifar no chão ao seu lado.
—Porra! — Reclamou Leonardo indo na dispensa provavelmente para pegar algo para limpar o chão.
—Paulo? Você tá bem?
O garoto estava parado olhando para Fernanda, ela desviou o próprio olhar do rosto dele para o braço que havia batido.
—Puta merda, você está sangrando!
Ela correu em sua direção, pegando o braço dele para analisar o ferimento, Era um corte razoável, não algo que resultaria em pontos, mas o bastante para fazer o sangue escorrer.
—Droga! Por que você tem que ser tão estupido?
A morena o olhou esperando uma resposta e percebeu que o olhar de Paulo dirigido para seus lábios.
Fernanda sentiu o coração martelar contra o peito, e involuntariamente molhou os próprios lábios com a língua.
Paulo estava bem ali na frente dela com o braço sangrando e tudo que ela conseguia pensar era que a boca dele era muito atrativa.
—Achei! — Gritou Leonardo voltando com um pano molhado e uma sacola.
Fernanda se afastou para o outro garoto se abaixar e começar a juntar os cacos de vidro.
—Eu vou levar ele lá para cima, ele cortou o braço — A morena disse
—É muito sério? — Leonardo se colocou de pé olhando o braço do amigo.
—Nem tá doendo — Ele respondeu.
—Com certeza tá doendo, Paulo, para de gracinha e vem comigo.
Ele não estava em um estado tão grave após beber, cambaleava um pouco, mas seguiu a menina sem protesto e quase sem tropeçar nos próprios pés escada acima, e ainda contava com o apoio dela que havia colocado seu braço ao redor dos próprios ombros. Todos estavam preocupado demais com a própria vida e com bocas alheias para prestar atenção nos dois subindo em direção aos quartos.
Abriu a porta do quarto do garoto, e acendeu a luz o guiando até a cama de casal dele que ficava no meio do cômodo.
—Vamos cuidar desse dodói, criança.
—Tem umas coisas de remédio no banheiro — Ele resmungou arrastando os "s" das palavras, dando uma risada.
Fernanda riu internamente, nem sabia dizer o porquê de estar ajudando o garoto, ela podia muito bem achar Camila e fazer o que queria desde que chegou: sair dali. Mas não queria, estava preocupada com Paulo.
Voltou ao quarto depois de abrir o armário do banheiro do garoto, com uma caixa cheia de coisas de primeiro socorros e uma tolha, mas parou no meio do caminho.
O sangue havia manchado uma parte da camisa do garoto, então ele havia tirado, mordendo o lábio inferior pela dor.
Paulo estava sangrando, sem camisa e sem gorro em cima da cama do quarto dele mordendo os lábios. E ela estava ali.
Aquilo trazia sensações tão erradas nela.
Se forçou a ir na direção usando a toalha molhada para limpar o ferimento. Ela sentiu os músculos da parte de cima do braço do garoto.
Maldita academia, pensou.
Ele reclamou quando ela passou remédio e quando apertou o curativo feito de esparadrapo e algodão, mas ela continuou mesmo aos protestos dele.
—Prontinho — Ela disse se afastando para analisar o resultado.
Paulo abaixou o olhar em direção ao próprio braço e disse:
—Eu tô com sono.
—Sua cama — Ela abriu os braços gesticulando para o móvel que estava ajoelhada em cima — Toda sua.
O garoto desviou o olhar em sua direção e disse de maneira suplicante:
—Fica comigo?
Fernanda engoliu seco, não fazia ideia no que responder.
—Eu... Ãh... Eu — Respirou fundo — Eu não acho uma boa ideia.
A expressão do rosto do garoto ficou tão triste que ela sentiu uma vontade enorme de pedir desculpas e dizer que podia ficar.
—Mas eu posso... Te ajudar a dormir.
—Bom... — Ele resmungou já quase fechando os olhos — Muito bom.
Como prometido, ela tirou os objetos da cama e o ajudou a deitar no meio dela. Mas quando foi se afastar sentiu um dos braços do garoto a puxar delicadamente para perto dele.
—Obrigado — Sussurrou com olhos fechados e depois afrouxou ainda mais o braço deixando cair na cama em seguida.
Fernanda engoliu seco, puxando o cobertor azul escuro até os ombros dele.
Antes de ir, encarou por alguns segundos o rosto sereno do moreno prestes a dormir. Balançou a cabeça para retirar seus pensamentos absurdos da mesma e quando estava prestes a fechar a porta do quarto dele, ouviu a voz rouca e sonolenta de Paulo:
—Eu tenho muita sorte de ter você na minha vida.
Sem responder, Fernanda correu até a saída sem nem lembrar de pegar seu skate.
Precisava de pegar um táxi o mais rápido o possível e chegar em seu apartamento.
Queria gritar contra seu travesseiro e ficar encarando as estrelas que brilhavam no escuro do teto de seu quarto se perguntando o que diabos estava acontecendo com sua vida.
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