Tudo que Poderia ter Acontecido
39 A garota trazida por uma folha
Notas iniciais

O cenário mudou, o Doctor Invisível e a Garota Bad Wolf estavam em outro tempo e em outro espaço. Estavam em um lugar temporalmente muito distante do que haviam visto por último e isso de alguma forma consolou profundamente o Doctor Insivível.
—Onde e quando estamos? — Questionou ele se atentando para o apartamento no qual estavam.
—Estamos no tempo da sua Décima Segunda Regeneração, você voltou a viajar com Clara Oswald após uma breve separação devido ao ataque de Missy com o exército cyberman pelo mundo — Explicou a Garota Bad Wolf.
—Nós voltaremos para o passado? — O Doctor invisível não queria algo assim.
—Sim, nós voltaremos para o lugar onde o deixamos — Garantiu a Garota Bad Wolf.
Agora os olhos de ambos se voltaram para o apartamento. Havia algo que o Doctor em seu julgamento precisava ver. E ele assistiu tudo que se seguiu.
Clara Oswald adentrou o apartamento, suspirou profundamente, segurou o telefone com ansiedade e lançou o casaco no sofá de seu apartamento. Voltou seus olhos para o céu estrelado através da janela e novamente para as provas que teria de corrigir colocadas sob a mesa. Depois do retorno do Mestre, através da figura de Missy, tudo havia ficado mais e mais confuso. Todas as pessoas mortas gritando e ela ainda assim não havia perdido ninguém. Naquela realidade não havia um Danny Pink para morrer, não havia ninguém para morrer por uma professora.
Clara Oswald vivia sua vida, mas a melhor parte dela era o Doctor. A garota trazida no mundo por uma folha, pela folha mais importante do universo, era apenas uma mulher solitária e aparentemente cheia de inseguranças cruéis.
Ela colocou o celular sob a mesa, pegou o exame que ainda permanecia na escrivaninha e decidiu que deveria abri-lo e aceitar o que viria. Tantas coisas haviam mudado: havia vivido mil vidas para salvar o Doctor e agora ele estava velho, sombrio e cheio de assuntos inacabados. Como uma garota impossível pôde persegui-lo por tanto tempo para que no final não soubesse nada sobre ele?
Clara se aproximou da escrivaninha e repentinamente o Doctor em sua Décima Segunda Regeneração emergiu pela porta da cozinha. Clara pulou para trás se assustando, o velho homem carregava um pequeno e estranho objeto em suas mãos.
—Doctor! — Clara deu dois passos para trás — Não podia bater na porta?
—Você me perguntou se eu achava que iria chover — Começou o Doctor com suas mãos ansiosas entregando o objeto para Clara — Fui até um planeta alienígena e consegui isto: ele muda de cor quando há indicação de chuvas, tornados ou nevascas.
—Não temos tornados aqui e eu perguntei isso há quatro dias — Respondeu Clara colocando a mão na cintura e colocando o objeto da mesa de centro da sala. — Inclusive, choveu naquele dia.
—Tenho certeza que sim, venha! — O Doctor segurou o braço de Clara.
A garota não o acompanhou, ele voltou os olhos para a humana e se encararam quase em desafio por alguns instantes. O Doctor compreendeu que ele deveria ser sociável, que ele deveria encontrar os grandes olhos de Clara Oswald e dizer algo verdadeiramente gentil mesmo que não soubesse como fazê-lo. Como ele havia se tornado tão frio? Quando havia começado a abandonar as pessoas para morrerem?
—Eu preciso abrir isso — Disse Clara com os olhos cheios de ansiedade.
Clara caminhou até a escrivaninha e segurou o grande envelope para o Doctor. As mãos dela estavam trêmulas, o olhar distante e a ansiedade cada vez mais assustadora.
—Sua saúde está ótima! — Assegurou o Doctor segurando novamente no braço dela parecendo cada vez mais apressado — Baixinha, rechonchuda e com grandes olhos.
—Se lembra de nossa aventura com Julio César? — Questionou Clara novamente se afastando.
—Sim, péssimo homem. — Começou o Doctor — Péssimo general, péssimo estrategista e...
—Ótimo amante — Completou Clara com um leve sorriso recebendo um olhar de total desaprovação por parte do Doctor — E talvez nosso caso tenha sido um pouco mais frutífero do que eu poderia desejar. — Ela acenou com o exame.
—Qual é o problema de vocês humanos? Por que estão sempre procriando? — O Doctor cruzou os braços. — Julio César gosta de homens!
—Não apenas, pelo visto — Completou Clara com algum divertimento. — Eu não quero filhos, não quero dar continuidade a nenhuma loucura e definitivamente eu não quero que o pai do meu filho tenha milênios…ele tecnicamente já está morto.
—Você poderia leva-lo ao museu onde verá os restos mortais do grande pai geral morto — Retrucou o Doctor com ironia.
Clara abaixou os olhos preocupada, mas abriu o exame. O resultado era negativo e a garota suspirou aliviada. O Doctor tomou o papel da garota e olhou o resultado também sentindo uma ponta de gratidão por Clara Oswald não estar grávida de um romano.
—Podemos ir agora — Respondeu Clara com um sorriso.
O Doctor foi em direção a Tardis que estava no closet da Clara Oswald. Adentraram o local rapidamente e puxaram a alavanca juntos de modo que não disseram nada um para o outro. Apenas a certeza de que mais uma aventura já seria o bastante. A TARDIS, contudo não se moveu de modo habitual. Havia algo puxando a máquina do tempo para algum lugar, como se nada mais no universo importasse.
—Onde ou melhor quando estamos? — Questionou Clara com um sorriso quando a máquina pousou.
—Estamos no mesmo tempo, fomos movidos para outro lugar — Respondeu o Doctor olhando para o painel e fechando a expressão.
O Senhor do Tempo saiu da TARDIS ainda olhando para baixo, como se não quisesse encarar Clara Oswald. A garota impossível permaneceu imóvel quando a porta se fechou a deixando para trás. Ela hesitou por um instante, sabia que alguns segredos não são feitos para serem revelados.
Clara havia estado com o Doctor quando a Guerra do Tempo terminou, esteve ao lado do Doctor em Trenzalore e afinal esteve com ele quando Gallifrey retornou e enfrentaram juntos tudo que ela não conhecia antes. Eles estavam lado a lado quando Rose Tyler ressurgiu em Gallifrey e lutaram, lutaram em um lugar no qual apenas fantasmas poderiam estar. Clara Oswald sabia tudo sobre o Doctor. Clara Oswald não sabia absolutamente nada sobre o Doctor.
A garota abriu a porta da TARDIS decida a se juntar a ele, afinal ela tinha muito para saber, muito para descobrir. Sabia que precisava ouvir, ouvir tudo que tinha para ser dito. O cenário que encontrou era o mais surpreendente possível: se tratava de um cemitério e distante cinco metros da maquina do tempo estava o Doctor ajoelhado sob uma lápide encarando o túmulo singelo de alguém.
Clara Oswald se aproximou e se sentou ao lado dele e leu o que estava escrito na lápide: “Rose Tyler — esposa, mãe, filha e defensora da Terra”. A garota imediatamente segurou uma das mãos do Doctor pousada sob o a grama e se fitaram por um segundo com toda a tristeza, toda a nostalgia e toda a incerteza do universo.
—A jornada em Gallifrey aconteceu há muito tempo para mim — Começou Clara se lembrando da Décima Primeira regeneração do Doctor — Mas acabou de acontecer para você, não é mesmo?
—Sim, ela aconteceu depois que nos separamos devido aos cybermans e devido as ameaças de Missy- Respondeu o Doctor — Eu não estava pronto para vê-la, não estava pronto para reconhecer tudo que foi perdido. Não sabia como eu era jovem e tolo, o quanto errei com Rose Tyler.
—Todos erramos com quem amamos, isso é o sinônimo mais claro da humanidade.- Clara pousou a cabeça no ombro dele — Ela o amou.
—A morte é o maior sinónimo da humanidade, eu pensei que havia perdido você também — Declarou o Doctor com os olhos voltados para a garota.
Clara Oswald tinha o pressentimento que essa seria sua última vida. Que esse era o último sopro da Garota Impossível e que não havia mais onde se infiltrar, que o Doctor já estava a salvo e que outras protetoras viriam. Ela havia sido soprada para esse mundo por uma folha, como seria levada?
—Sinto muito por sua filha, sinto muito por ter perdido Susan duas vezes. — Garantiu Clara com os olhos cheios de pesar.
—O dia do julgamento está chegando Clara — Declarou o Doctor com os olhos na lápide de Rose Tyler.
—O julgamento? — Questionou a garota agora mais preocupada.
—O dia que meus pecados serão mostrados, o dia que sentirei a dor que causei a todos que amava. — Começou o Doctor com o olhar distante — O dia que serei confrontado e o dia no qual perderei tudo.
—Você sobreviveu a Trenzalore, você nunca chegará lá — Clara Oswald tinha a voz cheia de confiança — Você nunca chegará ao dia do julgamento.
—Eu preciso chegar — Assegurou o Doctor com os olhos cheios de compreensão
— Eu fiz coisas pelas quais não mereço perdão Clara, eu fiz coisas que nunca serão reparadas.
—O que está dizendo? — Clara Oswald estava cada vez mais confusa.
—Estou adiando o dia desse julgamento há tempo demais — Declarou o Doctor cheio de convicção, cheio de lástima e carregando uma dor que ela era incapaz de compreender. — Rose Tyler não teria orgulho daquilo que fiz, não teria orgulho de como me esqueci.
—Tenho certeza que tem muito o que falar para ela, eu esperarei na TARDIS — Explicou Clara se colocando de pé e deixando o Doctor sentado encarando a lápide, a garota se virou rapidamente pronta para questionar — Doctor, por que ela nos trouxe aqui?
—A TARDIS? — Clara assentiu e o Doctor complementou — Porque ela está me lembrando que o tempo está acabando e que o relógio diz que é tempo. É tempo de aceitar meu julgamento e apenas aceito essa verdade perante a lápide de Rose Tyler.
Clara Oswald se afastou, abriu a porta da TARDIS ainda olhando para baixo e não pôde acreditar no que seus olhos viam: diante dela estava Missy. Clara abriu a boca rapidamente, mas não houve tempo de reagir porque alguém puxou uma alavanca levando a TARDIS para longe. Esse alguém era Ashildr.
Missy. Ashildr. Um julgamento. Um segredo terrível. Algo que precisava ser feito, algo que precisava ser revelado. Um mar profundo de dúvidas e segredos impossíveis.
Clara Oswald refez sua postura, encarou as adversárias com firmeza e fechou os olhos por um instante. Naquele exato segundo, por apenas um momento, tanto Clara Oswald quanto o Doctor ouviram uma voz distante que dizia “O tempo faz tick, o tempo faz tock, o tempo voa, o tempo engana, o tempo mata, o tempo retira, o tempo paga. O relógio faz tick e tock — É a hora do Doctor”.
A voz que entoava a canção era a voz de um Lobo. A voz do grande e terrível Lobo Mal.
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