Tudo que Poderia ter Acontecido
40 A garota levada nas asas de um corvo
Notas iniciais

Clara Oswald se silenciou. Não proferiu nenhuma palavra enquanto Missy e Ashildr levavam a TARDIS para longe, mas imediatamente a garota ligou o rastreador do próprio telefone. Agora ela poderia ser detectada pela UNIT e pelo Doctor. A garota impossível fez isso em silêncio, guardou o celular no bolso do casaco e encarou as mulheres que pareciam guardar um segredo muito importante.
—Me diga Clarinha, o que eu estou planejando? — Missy agora se aproximava de Clara e a TARDIS havia se materializado em algum lugar.
—Tenho certeza que envolve aquela vidente — Rebateu Clara se lembrando que a visita a Gallifrey havia ocorrido há pouco tempo para Missy e para o Doctor em sua decima segunda regeneração.
—Muito esperta — Missy sorriu levemente tocando o rosto de Clara — Tenho certeza que será ainda mais divertido agora.
—O que a vidente disse? — Clara precisava ser muito mais direta se desejava respostas.
—Aquilo que eu precisava saber — Respondeu Missy agora cambaleando rumo a porta da máquina do tempo — Mas disse que muito em breve você estaria morta.
—É uma ameaça? — Clara se virou na direção de Missy com sua feição mais destemida.
—Não serei eu a mata-la, a vidente garantiu que a responsável será outra garota levada — Respondeu Missy agora abrindo a porta da TARDIS.
—A vidente disse que seríamos a ruína uma da outra — Explicou Ashildr com o olhar distante — Mas você deixará esse mundo nas asas de um corvo.
Clara franziu as sobrancelhas perplexa. O que significava ser levada desse
mundo pelas asas de um corvo? A estrada dela já estaria no fim? Clara Oswald não sabia, mas algo dentro dela dizia que ainda restavam aventuras, que ainda havia muito para ser visto e para que fosse lembrado. Talvez fosse o fim, mas ele não precisa estar tão próximo. Talvez, ainda houvesse esperança em algum lugar.
Mas não foi esperança aquilo que Clara Oswald, a garota levada desse mundo nas asas de um corvo, viu ao sair da TARDIS.
Eles estavam em um grande salão absolutamente negro e no meio havia uma caixa. Uma caixa grande o bastante para ocupar metade do salão e algo dentro de Clara disse que a caixa continha algum terrível segredo.
—O Doctor chamou esse grande recipiente de “Caixa de Pássaros” — Explicou Missy se recostando na caixa — Mas muitos chamam apenas de Caixa de Pandora.
—Não há uma Caixa de Pandora — Assegurou Clara ainda seriamente.
—Não seja tão cética Clara, essa caixa guarda um segredo — Começou Ashildr — Contém algo que devolveremos para o seu precioso Doutor.
—A vidente revelou que seria necessário um Senhor do Tempo, Um imortal, Um humano comum e Uma enorme anomalia temporal — Começou Missy pegando um punhal — Para que essa caixa fosse aberta.
—Somos apenas três pessoas — Assinalou Clara como se o erro de calculo fosse obvio — Você espera que eu seja a anomalia temporal ou a humana?
—A anomalia temporal — Garantiu Missy com um leve sorriso — Temos uma humana para cumprir o outro papel.
Foi então que Jane, esposa de Madame Vastra, surgiu atrás da caixa. Ela tinha um olhar cheio de culpa, cheio do peso de algo que Clara Oswald era incapaz de compreender. Todos guardavam segredos afinal?
—Jane — Clara pronunciou as palavras compreendendo que Madame Vastra estaria furiosa com a ausência de sua humana — O que está acontecendo?
—Nós abriremos a caixa de pássaros — Assegurou Ashildr.
Clara Oswald se aproximou de Jane e elas se fitaram preocupadas. Perceberam que cada lado do quadrado da caixa tinha o formato de uma mão e que elas teriam que tocar cada lado ao mesmo tempo para libertar o conteúdo. Missy se aproximou de Clara e cortou a palma da mão esquerda da garota e repetiu o gesto com Ashildr, Jenny e com ela própria. Foi então Ashildr e Missy se posicionaram cada uma em um lado da caixa e Clara e Jane fizeram o mesmo ao notarem o olhar ameaçador das outras duas mulheres.
Elas tocaram o local e então a caixa começou a ser aberta. Clara deu alguns passos para trás cheia de culpa pela ameaça que estava permitindo que fosse liberada. Ela jamais quis que algo assim fosse iniciado, nunca quis libertar nada que havia sido aprisionado.
—Disseram que era um presente para o Doctor, um presente que irá mata-lo? — Clara esperava o conteúdo se revelar.
—Um presente que irá liberta-lo seria melhor colocado — Missy tinha todo o divertimento na voz. — Algo como esperança.
—Jamais capturaria uma vidente para conseguir uma localização, encontraria Ashildr, sequestraria a mim e a Jane para oferecer esperança ao Doutor- A voz de Clara Oswald era cheia de uma certeza infeliz.
—Não em outras circunstancias, mas ele precisará de muita esperança em um futuro próximo — Assegurou Missy.
A caixa de pássaros finalmente se abriu: sentada no chão absolutamente imóvel havia uma garota. Cabelos castanhos claros, olhar perdido como quem acaba de despertar e braços acorrentados. Clara hesitou em se aproximar, mas Jane agiu como se a conhecesse em absoluto e se aproximou da prisioneira imediatamente segurando o rosto da jovem mulher.
—O que está acontecendo? Quem é a garota? — Clara agora perguntava de modo desafiador para Missy.
—Não compreendeu ainda? — Missy ria e então segurou os ombros de Clara — É a filha perdida do Doctor, a filha perdida condenada.
—Não…Susan — Sussurrou Clara voltando os olhos para a garota imóvel e acorrentada.
Clara Oswald virou a face em direção a Susan quando o lampejo do teletransporte atingiu seus olhos. Madame Vastra tinha uma espada contra o pescoço de Missy e o Doctor estava logo a frente encarando a mesma pessoa pela qual os olhos de Clara haviam alcançado. Missy segurou imediatamente a mão de Ashildr e se teletransportaram. Elas haviam partido.
—Ela está livre…finalmente livre. — O Doctor parecia falar consigo mesmo.
—Por que não podia liberta-la antes? A única coisa difícil de se achar é um Senhor do Tempo e você é um deles! — Questionou Clara enquanto o homem ainda imóvel encarava a filha perdida.
—A caixa não poderia ser aberta se qualquer um dos indivíduos responsáveis tivesse um laço de sangue com o prisioneiro, logo eu não seria capaz de abri-la. A questão é que nunca pedi a Missy que ela abrisse a caixa. — Explicou o Doctor em voz baixa.
—Ela é sua filha, Susan finalmente retornou — Clara agora estava frente a frente ao Doctor e segurava o rosto do Senhor do Tempo com as duas mãos como se isso fosse obriga-lo a não desviar o olhar.
—Eu tenho outros filhos — Respondeu ele fitando Clara — Eu não quero essa pobre alma, eu nunca quis essa pobre criança porque sei que ela será minha ruína.
—Como pode dizer isso? Ela é parte de você, parte da mulher que amou — Clara estava perplexa demais para dizer qualquer outra coisa que não fosse acusatória.
—A mulher que outro rosto amou — Relembrou o Doctor como se isso fosse tudo.
—Vá até aquela garota, a abrace e diga a ela que tudo ficará bem — Clara agora não tinha mais as mãos no rosto do Doctor — Não seja um covarde, não agora. Ela é apenas uma garota que nunca conheceu o pai.
O Doctor hesitou por um instante, mas então os olhos dele estavam em Susan. Ele caminhou em direção a garota — ainda imóvel na caixa encarando o piso incapaz de olhar para qualquer outra direção — as correntes haviam sido quebradas, mas ela era incapaz de deixar o local no qual estava aprisionada como se estivesse inerte em sua dor particular.
—Susan — O Doctor agora estava ajoelhado diante dela — Por favor, fale comigo.
—Pai, eu sei que é meu pai — Respondeu ela finalmente erguendo a cabeça, a garota tinha os olhos de Rose Tyler — Quanto tempo se passou?
—Muito tempo — Respondeu ele seriamente e com uma tranquilidade quase cruel — Eu sinto muito, mas posso garantir que nunca mais estará aprisionada novamente.
A garota Bad Wolf segurou a mão do Doctor invisível e deixaram o local. Estavam de volta ao apartamento de Clara Oswald onde tudo havia começado. Claramente, algumas coisas estavam diferentes o que indicava a passagem do tempo; o Doctor Invisível olhou o calendário e notou que haviam se passado seis meses desde a abertura da caixa de pássaros.
Clara Oswald abriu a porta do apartamento adentrando o local com Susan. A garota antes perdida tinha agora cabelos castanhos quase loiros e os fios eram longos e lisos, ela era alta e algo em seus trejeitos lembravam o Doctor. Talvez fosse a inteligência alucinante, talvez fossem os grandes óculos ou a magreza. Ela segurava a mão de Clara e elas se sentaram lado a lado no sofá segurando um só pote de sorvete.
—Não demore — Pediu Susan caminhando até a TV e buscando um filme em meio aos canais.
Clara retornou com pressa se sentando ao lado de Susan e a primeira carregava a colher que havia ido buscar. Susan finalmente encontrou o canal e abriram o pote de sorvete com algum contentamento. Clara Oswald não se lembrava de ter sido tão feliz antes durante toda sua vida, foi em meio ao primeiro pedaço de sorvete que Susan a beijou fortemente. Elas sempre terminavam se beijando, viviam juntas há dois meses agora e talvez tudo tenha sido perfeitamente rápido.
Susan segurou o rosto de Clara e já estavam deitadas no sofá. Clara estava por cima e lançou para longe os óculos de Susan e elas sorriram como se pensassem o que deveriam fazer.
—Clara, eu preciso te dizer… — Começou Susan com o olhar preocupado — Eu te amo.
—Eu sei que ama, eu também te amo Susan — Respondeu Clara com um sorriso
— Você foi a primeira pessoa e provavelmente será a última pela qual direi essas palavras.
—Obrigada por me salvar daquela caixa de pássaros, obrigada por ser a criatura mais corajosa e mais.. — Susan teve suas palavras interrompidas por um beijo de Clara Oswald.
—Você poderá se declarar para mim quantas vezes quiser essa noite — Garantiu Clara retirando a própria blusa. — Tenho certeza que repetiremos o nome uma da outra várias vezes.
—Há algo que preciso te dizer, algo que nunca disse — Pediu Susan agora detendo as mãos de Clara Oswald e as segurando — Preciso te dizer como acabei naquela caixa.
—Não precisamos falar sobre isso Susan — Respondeu Clara compreendendo que o assunto era sempre muito difícil.
—Foi ele, foi o meu pai, foi o Doctor — Garantiu Susan imediatamente.
Clara Oswald ficou imóvel por um instante. Por um momento o próprio coração pareceu parar de bater e ela sentiu todo aquele amor por Susan e toda a amizade que o coração dela tinha pelo Doctor. Tentou deter a sensação de que talvez tudo acabasse. Clara Oswald sabia que seria levada desse mundo pelas asas de um corvo, mas como isso pode estar tão próximo se ela gostaria de ter toda uma vida ao lado de Susan? Como isso poderia ser meramente justo?
Talvez para a garota que fora presa pelo próprio pai em uma caixa de pássaros não houvesse um final verdadeiramente justo. Talvez a garota presa em uma caixa de pássaros veria a garota que ama ser levada desse mundo nas asas de um corvo. Simetria perfeita, tragédia perfeita, caixa e conteúdo.
Fale com o autor