Tudo que Poderia ter Acontecido
19 A garota que esperou, o último centurião e o décimo primeiro
Notas iniciais
"E as vezes eu fico nervoso
Quando eu vejo uma porta aberta
Feche os olhos
Limpe seu coração
Corte o cordão
Somos humanos?
Ou somos fantoches?
Meu sinal é vital
Minhas mãos estão geladas
Eu estou de joelhos
Esperando a resposta
Somos humanos?
Ou somos fantoches?
Quando sonhar com o lar hoje à noite
Não há mensagem que estamos recebendo
Deixe-me saber, seu coração ainda bate?”
(Tradução livre da música “Human” – The Killers)
A garota Bad Wolf não esperou mais tempo, apenas segurou a mão do Doctor invisível o encarando levemente preocupada, como se realmente desejasse saber se ele estaria pronto para tudo que seria vivido, foi então que o cenário mudou completamente. O Doutor engoliu em seco ao perceber que estava em um quarto grande encarando uma enorme cama de casal. A cama de casal, contudo não estava vazia. Acolhia uma velha mulher com mais de oitenta anos que dormia tranquilamente. Imediatamente ele soube que a casa de dois andares, a cidade de Nova York e o cenário não tão antigo demonstravam o fim e o verdadeiro destino de Amélia Pond, da garota que esperou por ele, da garota do último centurião. Ao saber disso seus corações se fecharam. Dessa vez não se tratava do que podia ter acontecido e sim do que de fato aconteceu. A verdade era cruel e o mundo parecia implacável agora. O Doctor fechou os olhos após encarar uma Amy Pond idosa deitada em sua cama solitária, fechou os olhos desejando profundamente que aquele fosse qualquer outro lugar em todo o universo.
–Ela tem oitenta e oito anos agora, Rory Willians já se foi – A garota Bad Wolf começou se colocando mais próxima do Doutor – Eles adotaram um filho, anos atrás, mas ele é um homem muito ocupado que está se esforçando para chegar aqui a tempo.
–Rory morreu há quatro anos? – O Doctor mais afirmava do que perguntava, ele tinha a idade da morte de ambos gravada em sua memória.
–Sim, foi a primeira vez que ele deixou Amy – Garantiu o Lobo Mal – Ela tinha de esperar, ela tinha de esperar a própria morte. Hoje é a noite em que Amy Pond morre e ela não deve morrer sozinha, isso é o que realmente aconteceu Doctor. Você precisa ver isso de frente, não apenas a possibilidade, mas também o caminho de suas decisões.
–Fará com que ela possa me ver? – Perguntou o Doutor sabendo que aquela era uma pequena alteração inofensiva na linha do tempo de ambos.
–Sim, caso queira dizer adeus a ela – Garantiu a garota finalmente segurando a mão do Doutor.
–Ela está lúcida? – A voz do Doutor era tão sombria quanto seu olhar.
–Ela ficará lúcida até o último momento, ela saberá que esteve aqui de fato e não que foi uma ilusão – Garantiu a Bad Wolf finalmente deixando de segurar a mão do Senhor do Tempo.
–Creio que ela poderá ver nós dois... – Começou o Doutor e a Bad Wolf assentiu.
–Estamos conectados, nós dois seremos visíveis agora. Nesse momento iremos existir nesse espaço, nesse tempo em algo que já aconteceu. – Reafirmou o Lobo Mal.
O Doutor sabia que o passado era tão maleável quanto o futuro. E soube naquele momento que estava visível, se sentiu novamente pertencendo a aquele universo e ficou rapidamente satisfeito de poder ver Amy Pond mais uma vez, pela última vez finalmente. Ele se aproximou se sentou na poltrona ao lado da cama e segurou a mão da velha amiga que assistira crescer, a garota que esperou por ele. Pareceu cruel ver uma criança crescer, se casar, perder tudo e afinal viver para depois morrer; pensou o quanto isso era humano e quanto isso fazia da vida humana uma imensa crueldade. Encarou Amélia Pond para sentir que aquele lago jamais seria grande o suficiente para toda a vida que deveria ser reservada a ela. Como dizer adeus a uma velha mulher que você viu como uma jovem criança? Os corações dele se perguntavam isso nesse momento e seus olhos pagavam uma penitencia silenciosa, os anos o fazia cada vez mais silencioso também. A velha senhora abriu os olhos tranquilamente ao sentir a mão de um homem jovem e então ela arregalou os grandes olhos cansados ao ver o homem maltrapilho. Amy sorriu levemente, ainda eram os mesmos cabelos ruivos.
–Amy, sou eu...é o Doutor – Garantiu o Senhor do Tempo ao perceber que novamente tinha a aparência de sua décima primeira regeneração e olhou grato para a garota Bad Wolf ainda parada no canto mais distante do aposento.
–Homem maltrapilho – Disse Amy com a voz frágil mas segurando com força a mão do Doutor – A garota, ela é sua companhia agora?
–Ela é uma companhia do passado, se chama Rose Tyler – Disse o Doutor calmamente sabendo que não havia tempo para explicar sobre o Lobo Mau.
–Eu sabia que não deveria viajar sozinho – Garantiu Amy altiva – E você sobreviveu, você sobreviveu apesar de tudo. Você tem o superpoder de todos os humanos Doctor, o superpoder de sobreviver enquanto assim for justo.
O Doctor se aproximou tocando levemente o rosto de Amy que sorriu amplamente mas ainda cansada e ela tinha alguma coisa diferente nos olhos. Algo que ele havia visto rapidamente no dia que ela foi tirada dele pelos anjos: aquela compreensão. A sabedoria é uma coisa estranha de se ver nascer em alguém e ele havia visto isso em Amélia de forma definitiva.
–Como foi a sua vida Amy Pond? – O Doutor podia perceber que a força dela estava acabando, já vira tantos morrerem.
–Foi incrível e feliz – Garantiu Amy que ainda usava a aliança – Rory se foi e depois que ele partiu restou apenas meu filho adotivo. Ele gostaria de poder chegar agora, mas está preso em algum aeroporto. Eu não quero que ele me veja partir.
–Senti sua falta – O Doutor sentiu que estava finalmente se saindo bem em segurar as próprias lágrimas – Teria chegado até aqui antes se tivesse sido possível, mas meus corações nunca poderão se esquecer da minha doce Amélia.
–O meu jamais se esqueceu ou se esquecerá, homem maltrapilho – Amélia respirou profundamente – Adeus, Doctor.
Os olhos dela se fecharam e toda a força se foi. Ela havia sido feliz, adotado um filho, vivido ao lado de Rory Willians e morrido por causas naturais, mas ainda assim o Doutor não conseguia compreender como se sentia absolutamente culpado, como sentia que Amélia Pond merecia mais do que no final teve. Talvez ele soubesse que ela acreditava que tinha tido muito mais do que merecia. Naquele instante desejou não ter saído daquilo que poderia ter acontecido para partir para aquilo que de fato aconteceu. Anteriormente assistir uma Amélia que teria tido uma vida normal parecia muito mais justo; do que de fato ter tido pela última vez nos braços uma velha amiga agora perdida.
–Ela se foi – Disse a garota Bad Wolf pousando a mão no ombro do Doutor que permanecia sentado e secava uma lágrima solitária e respirava fundo. – Ela foi extraordinária.
–Eu sei que foi, todos que escolhi foram – Garantiu o Doutor se colocando de pé. – Por que escolheu minha décima regeneração como aparência e a mudou por Amy Pond?
–Porque ela nunca havia precisado tanto de seu Doutor maltrapilho e eu acreditei que não poderia ser outro rosto, apenas o rosto da sua décima primeira regeneração seria o bastante para Amélia Pond, para a garota que sempre te esperou – Respondeu a Garota Bad Wolf calmamente segurando mão do Doutor e fazendo-o aparentar novamente sua décima regeneração – Eu te trouxe aqui Doctor, porque Amy estava esperando por você pela última vez. Ela precisava de você nesse momento final mais do que de qualquer um e o universo deve a ela. Estou pagando a dívida.
–O universo não deve nada a mim? – O Doctor estava furioso ainda.
–Deve o bastante para que esse julgamento exista ao invés de uma condenação absoluta – Respondeu a garota Bad Wolf ainda séria – O universo te deu uma chance, agora precisa dar uma chance a si mesmo.
–Por que minha décima regeneração importa tanto para você? – Perguntou o Doctor.
–Eu prefiro sua décima regeneração porque Rose Tyler o amou – Explicou a garota Bad Wolf – Rose Tyler foi a primeira coisa e a última coisa que sua décima regeneração viu e eu estou ligada a ela, logo as preferencias dela também são as minhas
Ainda assim foi com o rosto de sua décima regeneração que o Doctor encarou mais uma vez Amélia Pond morta em uma cama comum em uma NY há muito tempo esquecida. Foi com o rosto dessa mesma décima regeneração que ele continuava a sentir seus corações partidos. A dor que sentiu ao ver Amélia Pond morrer era exatamente igual, foi exatamente igual em ambas as formas. Talvez nem mesmo a garota Bad Wolf soubesse que aqueles que realmente importam, que todos que realmente importaram, jamais são esquecidos por nenhuma de suas formas, por nenhuma de suas regenerações. Eles permanecem ali cravados em seus corações para sempre.
Fale com o autor