Tudo que Poderia ter Acontecido
52 A garota, o guerreiro e somos todos histórias no final
Notas iniciais

Todo caminho é o caminho certo. Tudo poderia ter sido qualquer outra coisa e teria sido igualmente importante.
(Mr. Nobody).
O Doctor encarou a garota Bad Wolf compreendendo que estava diante de uma escolha impossível, afinal precisava olhar para as duas histórias através dos olhos cheios de condenações dos Senhores do Tempo e tentar presumir um resultado no qual ele não seria condenado. Como ele poderia fazer tal escolha? Qual escolha salvaria o universo? Qual realidade ele deveria escolher? Em qual realidade Valeyard não emergiria?
—Já ouviu falar na Teia do Tempo? — Questionou a Garota Bad Wolf ainda seriamente.
—Sim, a coexistência ordenada dos eventos no Tempo — Disse o Doctor agora mexendo as mãos — É a ideia de que evitar grandes desastres pode acabar ocasionando desastres ainda maiores…Também é isso que garante que não importa em que realidade estejamos, quais escolhas sejam feitas já que muitas vezes o final permanece o mesmo.
—Foi devido a Teia do Tempo que os Senhores do Tempo em ambas as realidades o salvaram em Trenzalore oferecendo mais regenerações, eles poderiam não ter feito isso e acabado com a ameaça de Valeyard, contudo te salvar era um ponto fixo. Eles eram obrigados a fazer o que fizeram. — Assegurou a Garota Bad Wolf esclarecendo as igualdades em ambas as realidades.
—Você também esteve lá no meu dia mais sombrio em ambas as realidades — Acrescentou o Doutor — Você levou as outras duas versões de mim junto com Clara Oswald para que Gallifrey jamais caísse.
—Foi isso que salvou Gallifrey e permitiu que os Senhores do Tempo ficassem à espreita por tanto tempo, esperando em qualquer realidade o dia de seu Julgamento — A Garota Bad Wolf ainda tinha o olhar cheio de seriedade — Você precisa fazer uma escolha.
—Uma caixa, uma garota…uma escolha. A história de minha vida. — Disse o Doctor ironicamente consciente de que apenas uma coisa poderia ajuda-lo a escolher. -Me leve até Rose Tyler na realidade em que a deixei em um Universo Paralelo. Preciso saber se ela foi feliz com a minha copia, preciso saber se ela teve um final feliz.
—Por que Rose Tyler? — Questionou a Garota Bad Wolf franzindo a sobrancelha.
—Porque ela mudou tudo, escolhe-la muda tudo — O Doctor tinha a voz cheia de severidade e então completou — Estou disposto a sacrificar a infância de Melody Pond, se Rose Tyler ganhar um final feliz.
O Doctor sabia que dentre tantos efeitos colaterais negativos presentes na realidade em que escolhia permanecer com Rose Tyler havia, também, a absoluta vantagem de que Melody Pond jamais se transformaria em uma assassina, era um mundo mais justo no qual uma criança não é tomada de seus pais. Ele estaria pronto para sacrificar a felicidade dos Pond? Estaria pronto para condenar uma criança ao Silêncio?
A Garota Bad Wolf segurou a mão do Doctor e então estavam em outro lugar. Era uma casa comum, de tamanho médio e com um céu cheio de zepelins, evidentemente eles estavam no universo paralelo em que Rose Tyler havia sido deixada. O Doctor caminhou pela sala de estar e observou as fotografias colocadas acima da lareira, ele reconheceu as crianças: eram exatamente iguais a Evey, John e Gabrielle na infância. As coisas podiam mudar, mas sempre permanecem, intrinsecamente, as mesmas. Essa é a teia do tempo.
—Deixe que ela me veja, por favor — Pediu o Doctor recebendo apenas um olhar afirmativo por parte da Bad Wolf.
O Doctor, vestindo sua décima face, caminhou até a cozinha onde Rose Tyler organizava furiosamente uma grande mochila. Ela não notou que alguém a observava e então por um segundo voltou os olhos para o homem. Rose sorriu, tinha os cabelos loiros já longos presos, vestia algo comum.
—Rose — Disse o Doctor colocando as mãos nos bolsos da calça.
—Por que não está deixando as crianças na escola, John? — Questionou a mulher fechando a mochila indo até a bancada da cozinha e pegando uma caneca cheia de chá.
O silêncio que se seguiu explicou tudo. Rose Tyler repentinamente compreendeu e a caneca caiu de sua mão se quebrando e produzindo um grande barulho, a garota abriu os olhos assustada, voltou a atenção para o Doctor ainda surpresa e soube com absoluta certeza que diante dela não havia a cópia do Doutor e sim o Doutor em carne e osso. A garota de cabelos loiros ainda carregava o mesmo olhar confuso quando caminhou vagarosamente em direção à ele e então eles se fitaram com alegria, tristeza, ressentimento, dúvidas infinitas e perguntas que nunca seriam respondidas. Ainda assim, se abraçaram em um ímpeto, como nos velhos tempos. Como nos velhos dias.
—Achei que nunca mais o veria — Disse ela com os olhos cheios de lágrimas — Faz dez anos, mais de dez anos.
—Sinto muito, eu não pude voltar antes — Assegurou ele segurando o rosto dela e sorrindo. — Você teve filhos…
—Sim, Ivy, Galadriel, Susanna e Jonathan — Recitou ela o nome dos filhos com um sorriso. — Você veio até mim para uma simples visita?
—Preciso que me ajude a fazer a uma escolha — Disse ele sabendo que não poderia contar a ela todos os elementos — Se eu escolher errado o resultado será o fim do universo, será algo conhecido como Valeyard.
—Suponho que não pode me explicar quais são as duas opções de escolha- Disse Rose Tyler seriamente estreitando os olhos e recebendo um aceno afirmativo por parte do Doctor — Eu diria para escolher a vida.
—Não entendo — Disse ele estreitando os olhos de volta.
—Escolha a opção em que mais pessoas sobrevivem, na qual mais pessoas conseguem sair com vida — Disse Rose Tyler agora gesticulando — Você é o Doutor e isso significa salvar pessoas…então as salve.
—Do que adianta viver se não há felicidade? — Questionou ele sabendo que não falava tanto sobre os outros e mais sobre si mesmo.
—Se houver vida, se estamos vivos encontramos uma maneira de achar a felicidade. Enquanto se está vivo há a possibilidade de haver felicidade, porque a única coisa definitiva no universo, para quase todos, é a morte. — Explicou Rose ainda seriamente — Não há como reverter a morte, não há como dar felicidade para a morte, não há como ter esperança na morte. É apenas o fim.
—Quando se tornou tão sábia? — Questionou o Doctor sorrindo levemente.
—Eu, Rose Tyler como humana egoísta que sou, escolheria aquilo que me faria mais feliz, aquilo que fosse mais fácil e aquilo que doeria menos em minha consciência e coração — Explicou ela pegando uma das mãos do Doutor e a segurando com força — Mas você, Senhor do Tempo conhecido como Doctor, deve escolher a vida.
—Obrigado — Disse ele puxando Rose Tyler em um abraço — Obrigado porque você me ofereceu esperança.
O Doctor segurou o rosto da garota beijando a testa dela e então sussurrou adeus antes de se virar e caminhar sozinho até a sala de estar. Ele assentiu para a Garota Bad Wolf e então desapareceram…desapareceram para Rose Tyler como se nunca antes estivessem estado naquele lugar.
O Doctor se viu de mãos dadas com a Garota Bad Wolf na estranha cela em que tudo começara. Ele estava novamente naquele pequeno cárcere, encarando as correntes que antes o prendiam e observando pela primeira vez que aquele local era típico de Gallifrey, ele provavelmente não notara porque a Garota Bad Wolf aparecera antes que ele tivesse tempo de observar qualquer outra coisa.
—Eu faço minha escolha, escolho a realidade em que mais pessoas sobrevivem. Escolho deixar Rose Tyler naquele universo paralelo — Disse ele com a voz cheia de peso, cheio de culpa, cheio de coisas que estavam dentro dele.
—Está feito, você será julgado pela realidade que todo o universo acredita agora que você viveu. Será julgado pelos seus atos em uma realidade na qual Rose Tyler fica na baía Bad Wolf — Assegurou a Garota Bad Wolf ao fechar os olhos.
—O universo acreditará que essa foi minha escolha, mas agora eu compreendo que não foi. Nunca seria — Disse o Doctor sabendo finalmente que aquilo que havia de fato vivido; a realidade na qual Rose Tyler permanece ao seu lado, na qual ela nunca é deixada para trás era verdadeira — O universo contará algo diferente sobre mim, escolho essa realidade agora não porque me arrependo de ter vivido ao lado de Rose e sim porque acredito que isso poderá condenar o universo a Valeyard, mas eu não me arrependo e não me esquecerei de nenhuma sílaba do que foi realmente vivido.
—Ainda pode ser que essa seja a realidade em que você seja sentenciado a morte pelos Senhores do Tempo e Valeyard surja — Disse a garota Bad Wolf seriamente.
—Se Valeyard surgir após esse julgamento haverá um universo cheio de meus amigos vivos para proteger as galáxias de minha ameaça. — Disse o Doctor com o a voz cheia de peso — Posso me tornar o Valeyard hoje, mas eles protegerão o universo.
—Possui muita fé em seus companheiros- Assinalou a garota Bad Wolf com um sorriso.
O Doctor assentiu segurando as duas mãos da garota Bad Wolf e as beijando gentilmente. O Lobo Mal em resposta fez com que o Doctor voltasse a ter a aparência de sua Décima Segunda Regeneração e então ambos sorriram um para o outro como se fossem crianças que tinham acabado de cometer uma grande travessura. De fato haviam mudado toda uma realidade, na tentativa de salvar o universo, na tentativa de evitar Valeyard.
—Não pode contar para os Senhores do Tempo que estive aqui — Pediu ela com a voz gentil — Eles jamais poderão saber que mudamos toda uma realidade.
O Senhor do Tempo conhecido como o Doutor apenas assentiu dizendo “obrigado” e então a Garota Bad Wolf desapereceu. Era o fim e o começo, era a escolha pela vida, era o tempo de um milagre e a hora em que todas as coisas convergem. O dia de um julgamento, o dia de um Valeyard, o dia de deixar morrer, o dia de deixar ser. Era o fim e também o começo de tudo.
Ele sabia que talvez seria condenado, mas todos somos histórias no final. O universo acreditaria em uma história diferente, mas o que realmente importava era que o Doctor sabia perante o fim do universo, perante um lobo mal, que ele jamais havia de fato deixado Rose Tyler para trás em um outro universo. E apenas isso importa. Que mal faria o universo se convencer de outra história? Somos todos histórias afinal.
O Doctor finalmente ouviu a porta automática da tecnológica cela se abrir e então um homem vestido tal qual os Senhores do Tempo o encarou por alguns breves instantes estreitando os olhos em uma espécie de julgamento silencioso.
—Vejo que se desfez das correntes — Disse o desconhecido com certa ironia — Uma vez Doutor, sempre Doutor.
—Estou pronto para o julgamento — Assegurou o Doctor em resposta assentindo e deixando a cela.
Caminharam pelo longo corredor rumo à enorme cúpula em que o Julgamento aconteceria, em que a sentença finalmente seria dada e o universo seria ou não sentenciado junto. Os Senhores do Tempo o julgariam com justiça e essa justiça talvez resultasse na morte do Doutor e a morte do Doutor seria igual o nascimento do Valeyard. Ainda assim os Senhores do Tempo que tanto temiam, temeram e continuaram temendo o Valeyard jamais poderiam inocenta-lo caso o Doutor não fosse de fato inocente porque todo o nexo temporal se alteraria. Deveria haver justiça.
Ao caminhar rumo à a cúpula o Doctor não pôde ignorar que ele próprio um dia fora um guerreiro, se o tempo do guerreiro já havia chegado ao fim, talvez agora fosse também o tempo de Valeyard. Talvez fosse afinal o Tempo de Valeyard.
CONTINUA...
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