Tudo que Poderia ter Acontecido
53 A garota partida, um homem cruel e o final dos tempos
Notas iniciais

Me dá um segundo que eu
Eu preciso contar a minha história direito
Meu amor, ela está esperando por mim
Do outro lado do bar
Meu lugar foi tomado por alguém com óculos escuros
Perguntando sobre uma cicatriz
E eu sei que te deixei meses atrás
Eu sei que você está tentando esquecer
Mas entre bebidas e coisas sutis
Os furos em minhas desculpas
Você sabe que eu estou tentando tê-la de volta
Portanto, se no momento em que o bar fechar
E você sentir que está caindo
Eu te levarei pra casa
Agora sei que não sou tudo o que você tem
Acho que só pensava nisso para talvez podermos encontrar um jeito de nos separar
Mas têm amigos em volta
Então, vamos levantar uma taça
Porque eu encontrei alguém para me levar pra casa
A lua está do meu lado
Eu não tenho razão para fugir
Então, alguém venha e me leve para casa esta noite
Os anjos nunca chegaram
Mas eu posso ouvir o coro
Então que alguém venha e me leve para casa
Hoje à noite
Nós somos jovens
Então vamos deixar o mundo em chamas
Nós podemos queimar mais brilhante
Que o sol.
(Tradução livre da música — We are young)
O Doctor caminhava rigidamente rumo à cúpula dos Senhores do Tempo, em Gallifrey afinal onde tudo havia começado e onde tudo também terminaria. Era um mundo curioso esse que obriga tudo a encontrar seu devido e derradeiro final. Agora ele seguia um carrasco, tinha as mãos presas e não sabia se sobreviveria, contudo sabia que havia desistido de uma longa história para que outra mais justa emergisse. Seus corações ainda não compreendiam como ele havia chegado tão longe para proteger o universo de si mesmo, mas ele havia realizado a única coisa que no final ainda parecia certo.
O Doctor chegou ao final do corredor e então pôde ver o Capitel de Gallifrey, onde o julgamento já estava em curso há muito tempo, mesmo que com a exigida ausência do acusado. Eram assim os julgamentos em Gallifrey, o acusado jamais o assistia por completo, apenas se apresentava para a sentença. Havia um grande círculo cheio de confortáveis cadeiras nas quais inúmeros Senhores do Tempo se sentavam, no centro havia um local reservado para o Doctor e para aquele que o defendia há horas nesse julgamento: Lorde Vael. Diante deles a alguns poucos metros estava sentado em um local mais imponente Rassilon, aquele que afinal realizaria a sentença considerada mais justa.
Quando o Doctor finalmente emergiu se aproximando de Vael todos os outros Senhores do Tempo se colocaram de pé como que para visualizar mais claramente a figura que estava sendo julgada. O Doctor sabia que enquanto viajava entre realidades com a garota Bad Wolf em segredo, o julgamento estava em curso e os Senhores do Tempo haviam assistido tudo que aconteceu, tudo que está para acontecer, tudo que poderia ter acontecido.
Eles haviam visto absolutamente tudo sobre o Doctor, mas enquanto o faziam a Garota Bad Wolf ofereceu ao Doctor uma escolha e nessa escolha estava guardada a possível salvação. Agora todos que se faziam presentes no Capitel conheciam os pecados daquele que fugiu sem jamais olhar para trás.
—O Senhor do Tempo conhecido como o Doctor está presente — Disse Rassilon ainda de pé enquanto fitava o Doctor de modo muito severo. — Esse tribunal está julgando seus atos como Senhor do Tempo, sobre as interferências que realizou e o caminho que têm seguido desde o fim da Última Guerra do Tempo.
—Sim, eu sei — Assegurou o Doctor ainda seriamente.
O Doctor olhou para o lado encontrando o olhar tranquilo do seu velho amigo Lord Vael e de certa forma havia algo dentro dele muito grato por alguém se dispor a defende-lo. Ainda assim, aquela regeneração, de grandes olhos azuis e sobrancelhas poderosas, era também um corpo incapaz de agradecer explicitamente, haviam coisas sombrias dentro dele. Vidas inteiras prestes a serem tiradas para que Valeyard emergisse, então o Doctor foi incapaz de agradecer. Apenas decidiu voltar a atenção para o cenário que o cercava, voltou atenção para o homem ao lado de Vael: olhos azuis, cabeça abaixada e braços que seguravam um casaco e a chave de fenda sônica do Doctor, provavelmente os itens haviam sido confiscados e Vael os deixou aos cuidados de seu aprendiz enquanto o julgamento estava em curso.
—Estamos quase prontos para dizer o veredicto, porém ainda esperamos a sua declaração sobre seus atos pretéritos. — Afirmou Rassilon com a voz ainda imperativa.
—Pertenço a Gallifrey, pertenço a uma raça que jurou olhar o universo de longe e jamais intervir — Começou o Doctor com a voz poderosa de sua décima segunda regeneração — Porém, tudo que tenho feito nos últimos séculos é intervir. Quebrei as regras de meu planeta, trai as crenças de meu povo e corri por mais tempo do que posso me lembrar, vivi mais vidas do que posso contar. Ignorei as Leis do Tempo, alterei a Teia do Tempo, fiz tudo aquilo que julguei correto. Fiz pelos bons, pelos melhores, pelos justos…por aqueles que mereciam ser salvos. — O Doctor respirou profundamente e então acrescentou de modo impaciente perante o silêncio que o circundava — Não há nada que eu possa dizer que será capaz de mudar isso. Eu sou o Doutor, isso é tudo que sempre poderão saber sobre mim.
Lord Vael assentiu, ele havia defendido o Doctor e estava grato por estar correto em defende-lo. Já os outros Senhores do Tempo apenas murmuraram como se expressassem suas opiniões enquanto que Rassilon estreitou os olhos. Cada um tinha sua própria reação e todos tinham os olhos voltados para o homem que mudara absolutamente tudo. Todos encaravam o Doctor cheios de curiosidade, dúvida e estranha compreensão.
—As leis que quebrou, as regras que desobedeceu para que pudesse viajar por todo o tempo e espaço agindo como um verdadeiro justiceiro são imperdoáveis. — Começou Rassilon com a voz severa, agora de pé e prestes a oferecer a sentença — E embora suas ações tenham sido repletas de boas intenções, a teia do tempo foi comprometida por suas interferências maciças.
Compreendemos que suas ações não foram suficientemente graves para condena-lo à morte. Desse modo, Lord Doctor o sentenciamos ao exílio. Nunca mais poderá voltar a Gallifrey, nunca mais poderá retornar ao seu planeta natal e se juntar novamente ao seu povo, está exilado para sempre.
O Doctor assentiu. O que seria o exílio de Gallifrey após toda a perca? Após toda a dor? Após todas as coisas que foram tiradas dele há tanto tempo? Ele deixara Gallifrey para trás vidas antes, não porque estava entediado e sim porque precisava fugir. Precisava deixar um planeta de injustiças, dores e guerras. Ele era o Doutor, aquele que continuava correndo sem jamais olhar para trás e agora que havia escolhido outra realidade graças a Garota Bad Wolf, havia sido inocentado de seus pecados. Ele não morreria hoje, Valeyard não emergiria. Não ainda.
O breve momento de tranquilidade foi brutalmente quebrado pelo instante seguinte. O instante em que tudo mudou, primeiramente algo caiu sobre o Capitólio dos Senhores do Tempo, algo que simplesmente causou uma enorme explosão. O Doctor caiu no chão ao lado de Vael, ambos cobriam as próprias cabeças e se encaravam no mínimo surpresos. No momento seguinte, os sons da guerra se iniciaram, do lado de fora tropas já lutavam e o Doctor se colocou de pé caminhando entre os escombros e ajudando Rassilon a se colocar de pé.
—Deixe Gallifrey, deixe esse planeta e não olhe para trás — Disse Rassilon para o Doctor de modo muito mais enfático do que ele poderia esperar — Esse não é mais seu povo.
O Doctor estava prestes a responder quando foi puxado por Lord Vael que em meio a confusão absoluta que se assolara apenas guiava o Doctor para um dos corredores laterais.
—Sua TARDIS está no final do corredor, deixe Gallifrey e o faça antes que os Senhores do Tempo mudem a sentença e o condenem a morte — Pediu Vael de forma enfática e então ele emocionalmente abraçou o Doctor em um impulso e então o soltou.
O Doctor não pôde corresponder o abraço, contudo foi capaz de seguir pelo corredor rumo à TARDIS. Ele já tinha as mãos na porta da velha máquina do tempo quando notou que não tinha mais seu casaco, a chave de fenda sônica ou até mesmo a chave da TARDIS. Foi então que ouviu passos ansiosos correndo em sua direção, era o jovem Senhor do Tempo que se colocara ao lado de Vael durante o julgamento, ele ainda tinha a cabeça abaixada de forma subserviente e carregava o casaco, a chave de fenda sônica e a chave da máquina do tempo. Ele entregou tudo para o Doctor imediatamente.
—Obrigado — Disse o Doctor sabendo que Rose Tyler diria para ele agradecer.
O rapaz ainda com a cabeça abaixada apenas assentiu e se virou, mas algo dentro do Doctor parecia indicar que havia algo muito errado.
—Já o vi antes? — Questionou o Doctor quase em um grito enquanto o capaz seguia o caminho de volta pelo corredor.
O homem ergueu a cabeça ainda de costas, se virou e caminhou na direção do Doctor com um olhar ameaçador, cruel, impreciso, impossível.
—Eu já o vi, mas acredito que essa é a primeira vez que me verá — Disse ele com um leve sorriso erguendo o dedo indicador — Eu sou o monstro no escuro, a face oculta, aquele que você sempre desejou esquecer, o que sempre esteve a espera para emergir.
—Valeyard — Sussurrou o Doctor ainda assombrado ao encarar aquele que seria sua décima terceira regeneração.
—Eu estou aqui Doutor, eu sempre estive aqui e agora tudo começou. É o fim, é o fim dos tempos — Garantiu Valeyard sorrindo e unindo as mãos enquanto o Doctor apenas abria a TARDIS entrando na velha máquina do tempo com pressa.
Enquanto adentrava a TARDIS, o Doctor ainda pôde ouvir a voz daquele que o seguiria no futuro. Valeyard dizia: “Ninguém pode correr para sempre, eu finalmente o alcancei”.
O Doctor mexeu nos controles da máquina do tempo, colocou no aleatório e fechou os olhos compreendendo que Valeyard havia causado a explosão e que ele havia achado uma brecha para invadir a linha do tempo do Doutor quando as realidades foram alteradas graças a Garota Bad Wolf. Esse era o problema do tempo: ele zomba e vence a todos. Absolutamente todos são vencidos.
Para que o julgamento não o condenasse a morte fazendo emergir Valeyard, o Doctor fez uma escolha que mudou a realidade que de fato havia escolhido. Ao fazer essa mudança, também abriu espaço para que Valeyard invadisse sua linha do tempo e começasse a mudar tudo. Esse era o problema do tempo: ele não pode ser completamente mudado. As coisas sempre permanecem as mesmas no fim. Tudo é exatamente como deveria ser.
A TARDIS finalmente se materializou, o Doctor saiba que precisava caminhar e lidar com a nova realidade que havia escolhido. Não haviam mais filhos, River Song morrera na biblioteca, Amy e Rory partiram cedo demais, Jack Harkness se afastou para sempre, Rose Tyler ficou presa em um universo paralelo, Donna Noble se esquecera, Martha Jones fora viver uma vida de aventuras impossíveis, Clara Oswald era uma lembrança estranha e distante…ele não sabia exatamente quem ela fora. Agora, enquanto abria a TARDIS conseguia perceber todos aqueles cruéis, terríveis e abertos finais. Se perguntou, onde todos estariam e percebeu que estava sozinho.
O Doctor abriu a porta da TARDIS, olhou para a neve que caia sobre Londres e encarou a montanha russa londrina do outro lado do rio e soube que havia sido assim que sua verdadeira história começara depois da Guerra do Tempo. Naquele mesmo lugar, tudo poderia ter sido exatamente como fora ou tudo poderia ter sido perfeitamente distinto.
Foi então, olhando para montanha russa, que em um piscar de olhos havia alguém ao seu lado. Era River Song.
—River — O Doctor estava perplexo e então notou que era apenas uma sombra, ainda estava guardada na biblioteca e ainda poderia aparecer quando desejasse.
—Olá docinho — Respondeu ela com o sorriso ousado de sempre.
—Sabe que não deveria estar aqui — Disse o Doctor agora se virando na direção dela e a encarando com alguma severa preocupação.
—Como eu poderia não estar aqui? Se agora todos nós estamos? — Questionou ela com um sorriso olhando para algo atrás do Doctor.
O Doutor se virou e então percebeu que próximos a TARDIS estavam todos eles: Jack Harkness, Gwen Cooper, Martha Jones, Jackie Tyler, Pete Tyler, Amy Pond, Rory Willians, Donna Noble, Mickey Smith, Rose Tyler. Eles haviam voltado, eles estavam ali observando o Doctor e River Song conversarem.
Todos eles, lado a lado, enquanto uma outra figura mais próxima ao Doctor também havia surgido: uma garota vestida como garçonete que sorria amplamente. O Doctor de alguma forma estranha soube que aquela garota era Clara Oswald.
—Estamos todos juntos no final — Assegurou River Song ainda sorrindo — Não está sozinho e não estará sozinho quando for o tempo de derrota-lo, você vencerá Valeyard e lutará ao lado de todos nós.
O Doctor permaneceu imóvel, em seus corações cheios de dores e impossibilidades ele entendeu que talvez aquela regeneração não fosse de fato tão insensível e cruel como ele gostaria de acreditar. Talvez ele apenas sentisse muito mais do que todas as outras e por isso era incapaz de expressar. O Doctor sabia que perdera Gallifrey, sabia que havia sido exilado e que era culpado de muitos crimes.
Contudo pela primeira vez, pela primeira vez em muitos séculos, teve a absoluta certeza que jamais estaria sozinho.
Todos aqueles que ele tanto conhecia caminharam na direção dele e o sufocaram em longos, terríveis e adoráveis abraços. Pela primeira vez, aquela regeneração quis abraçar todas aquelas pessoas infinitas vezes e ele as abraçou. O Doctor sorriu naquela noite, todos os outros sorriram também. Em algum momento os sorrisos eram também lágrimas e a ausência não mais existia, todos estavam juntos e todos estavam bem.
O Doctor ao encarar a TARDIS que agora estava distante do grande grupo pôde ver a garota Bad Wolf sorrindo e acenando para ele. Ela sussurrou algo como “Nos vemos em breve” e então desapareceu deixando todas aquelas pessoas junto ao velho Senhor do Tempo. Deixando todos aqueles presentes, toda aquela aventura.
Tudo poderia ter sido diferente. Tudo poderia ter sido exatamente como foi. Tudo poderia ter sido uma outra vida inteira. Porém, o Doutor sabia, sabia que nada poderia ter sido melhor do que aquele momento. Tudo, afinal e no fim dos tempos, era aquele singelo e eterno momento.
FIM
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