Tudo que Poderia ter Acontecido
16 A garota, o doutor e um muro de dez metros de altura
Notas iniciais
"Luz do sol vem se arrastando
Iluminando a nossa pele
Vimos o dia passar
Histórias do que fizemos
Isso me fez pensar em você
Oh, luzes se apagam
No momento estamos perdidos e achados
Eu apenas quero estar ao seu lado
Se essas asas pudessem voar
Oh, droga, essas paredes
No momento nós temos 3 metros de altura
E como você me disse, depois de tudo
Nós lembraríamos desta noite
Para o resto de nossas vidas"
(Tradução livre da música "Wings" — Birdy)
Rose Tyler ao sair da TARDIS e encontrar o planeta dos Ood não esperava toda aquela beleza, era outono e a paisagem era magnífica. Ela caminhou em meio as flores e folhas por cinco minutos até chegar finalmente na pequena estrutura de palha e folhas que formava um corredor que a separava em dez passos do Doctor. A direita e a esquerda estavam os poucos amigos que sabiam, mas ali reunidos pareciam tantos. Rose apenas conseguiu sorrir extasiada. Deixando o buque com a mãe e se colocando diante do Doctor que vestia seu smoking e segurava um tecido vermelho em uma das mãos, eram cerca de doze centímetros de um tecido fino.
–Faremos isso como em Gallifrey – Disse o Doctor fazendo Rose erguer uma de suas mãos e erguendo sua própria colocando o tecido primeiro envolto em sua própria mão e depois envolto nas mãos de Rose, finalmente unidos por doze centímetros de tecido.
–Eu permito – Disse Jackie já sabendo como seria a cerimonia – De livre e espontânea vontade.
–Eu permito de livre e espontânea vontade – Repetiu Pete.
–Rose Tyler – Começou o Doctor – Eu sei que não poderei envelhecer ou passar todos os dias da minha vida ao seu lado até que seja o último, mas eu quero que fique comigo até que seja seu último dia. Quero que tenha todas as aventuras e todo o amor que merece, que não perca nada e veja tudo...que voe sobre tudo.
–Doctor – Havia um sorriso na voz de Rose – Me lembrarei desse dia pelo resto da minha vida. Nunca haverá um tempo, uma realidade ou um universo no qual eu não o tenha amado e não estaria grata de estar aqui agora.
O Doctor a puxou para perto e finalmente se beijaram longamente enquanto todos aplaudiam sorrindo. Jackie chorava emocionada enquanto Mickey olhava orgulhosamente para o final feliz que ambos haviam tido afinal. Rose seguiu a tradição e jogou o buquê para que Sarah-Jane o pegasse. Os Ood estavam presentes como velhos amigos juntamente com os outros humanos, foi assim por horas até que finalmente anoitecesse. Rose se perguntou por algum tempo porque o Doctor havia escolhido aquele planeta e então entendeu que era pela canção dos Ood que nunca parava, dessa vez eles estavam em uma canção feliz, era sobre coisas finalmente completas. A paisagem era bonita o bastante para que ao final da celebração todos simplesmente olhassem o céu e a própria aurora boreal daquele estranho planeta, o Doctor segurou forte a mão de Rose nesse momento, estavam felizes. Finalmente acharam algo que precisavam.
A celebração chegou ao fim, todos foram deixados em seus respectivos destinos. A TARDIS parou muitas vezes naquele dia, mas o Doctor tinha mais um lugar para parar, quando Rose abriu a porta e se viu no meio de Londres encarando a roda gigante como na primeira vez que viveram uma aventura anos antes ela apenas sorriu se aproximando da ponte e cruzando os próprios braços em silencio. Os anos a fizeram mais silenciosa.
–Nossa primeira vez – Disse Rose sorrindo para o Doctor se aproximava com duas taças e champanhe, aparentemente ele tinha planejado tudo.
–Por todas as vezes que ainda virão – Disse o Doctor colocando o champanhe na taça que Rose segurava enquanto Londres dormia – Por nós, Doctor e Rose Tyler na TARDIS.
Rose brindou rindo enquanto bebia um longo gole e percebia a cara insatisfeita do Doctor por ter se esquecido que não gostava de champanhe. Ela o abraçou com força e sentiu sendo girada por ele, Rose não pensou que poderia ser mais feliz do que isso. Era um daqueles raros momentos na vida em que a felicidade é absoluta, em que nada parece impossível e que as realizações se concretizaram. Naquele abraço sincero havia um estranho muro, o muro das coisas que eles sabiam que jamais seriam concretizadas, o muro da vida eterna e da vida humana. Nesse momento para Rose Tyler o muro que sempre teve dez metros de altura parecia muito mais singelo, mas horas antes quando estava diante de um Doctor futuro as coisas pareciam mais difíceis. É difícil amar, é difícil quando as noites são longas e os homens são apenas estranhos.
–Onde será nossa lua de mel? – Perguntou Rose sorrindo.
–Qualquer tempo, qualquer planeta perante tudo que já aconteceu e ainda está para acontecer – Disse o Doutor em seu tom exibido de sempre.
–Acho que pode ser na TARDIS – Disse Rose bocejando levemente – Estou cansada.
–Eu teria gostado mais se não tivesse se casado cheia de marcas – Assinalou o Doctor tocando levemente a sobrancelha de Rose coberta de maquiagem, mas que ainda denunciava o corte devido a agressão de Danny Pink no futuro – Tenho certeza que não foi apenas uma queda.
–Não foi seu eu do futuro que me bateu – Disse Rose colocando as mãos envolta do pescoço do Doctor – Espero que minha mãe não tenha notado nada.
O Doctor estava prestes a dizer algo quando um grito feminino estridente ecoou do outro lado da rua, a uns cinco metros. Rose olhou para trás assustada enquanto o Doctor compreendia que teria de prestar socorro a situação, seja ela qual fosse. A dupla deu as mãos e correu na direção da mulher que segurava a própria barriga de grávida e era apoiada por um homem franzino. Era evidente que a pobre mulher estava prestes a ter a criança e que as ruas desertas da madrugada não ajudavam em nada a chegada ao hospital.
–Calma, calma – Disse o Doctor se aproximando da garota e encarando o homem que a acompanhava, claramente mais desesperado do que a garota.
–Eu vou ter essa criança no meio das ruas de Londres! – Gritou a jovem mulher furiosa.
–Estamos aqui para ajudar... – Disse Rose se aproximando – Qual o nome de vocês?
–Rory Willians – Garantiu o homem ainda apoiando a esposa – Ela é...
–Me chamo Amélia Pond – Respondeu a garota e em seguida mais um grito.
–Não se preocupe Amélia Pond – Começou o Doctor olhando para a garota ruiva – Você esperou por um longo tempo, já não precisará esperar mais.
O Doctor invisível olhou estarrecido para a cena. Amélia Pond e Rory Willians teriam se casado, sido felizes, ela teria ficado grávida de Melody Pond que jamais seria separada dos pais. Finalmente, toda aquela realidade começava a se encaixar e ele se questionava decepcionado se não fizera afinal todas as escolhas erradas. Ele destruiu tantos, salvou tantos e agora tudo que poderia acontecer era também um muro de dez metros de altura intransponível, porém muito melhor.
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