Tudo que Poderia ter Acontecido

27 A garota na zona da morte


Notas iniciais
Olá meus queridos. Aqui está o terceiro episódio desse arco acompnhado com o mais profundo pedido que se manifestem de alguma forma: comentem, favoritem e recomendem por favor. Vocês sabem como é essencial manter os autores escrevendo e preciso que me digam o que estão pensando. Elogios, críticas, pedidos, sugestões...manifestações em geral são necessárias tudo isso é muito importante. Estão gostando? Querem saber algo mais sobre o passado do Doctor? O que estão achando desse arco? Ah sim e finalmente todas as capas dos devidos episódios foram acrescentadas.

“Eu não me lembro do momento que eu tentei esquecer. Eu me perdi, e é melhor não dizer. Agora que estou mais perto do limite.”

(Tradução livre da música Closer to the edge — 30 seconds to mars)

A garota Bad Wolf havia dito muitas coisas para o Doctor desde que haviam começado aquela longa jornada de observação acerca de tudo que poderia ter acontecido. Agora invisíveis o Doctor e o Lobo Mau observavam essa mesma realidade e o quão complexa era ela. Afinal um universo no qual o Doctor e Rose Tyler continuaram juntos apenas poderia ser assim: caos e maravilha ao mesmo tempo.

—Donna jamais perdeu a memória nessa realidade, eu jamais apaguei as lembranças da mulher mais importante — Assinalou o Doctor invisível enquanto continuavam seguindo Rose, Donna e sua Décima Regeneração. — Isso significa que nunca houve metra-crise Senhor do Tempo e Humana.

—Exatamente, como a metra-crise jamais ocorreu também nunca houve uma cópia com a qual pôde deixar Rose Tyler no universo paralelo — Explicou a Garota Bad Wolf levemente entediada — Você não foi capaz de abandonar Rose Tyler em um universo paralelo, por isso continuou ao lado dela e levou Pete Tyler, Jackie e Tony de volta para o seu universo.

—Eu nunca teria abandonado Rose Tyler sozinha naquela praia se não soubesse que havia algo melhor para ela com a minha meta-crise — Garantiu o Doctor invisível — É um fato pequeno entre o que de fato aconteceu e o que poderia ter acontecido...

—Mas esse pequeno fato teria mudado tudo — Completou a Bad Wolf, as vezes ela era dura demais com as palavras — Teria ficado com Rose, jamais teria perdido Donna Noble.

—Estamos vendo que o preço por isso teria sido alto demais — Essa era a única certeza que prevalecia sobre o Doctor invisível agora.

Instantes depois o Doctor invisível franziu as sobrancelhas ao lado da garota Bad Wolf ao ver Donna Noble roubando de uma tenda, com excessiva maestria e discrição, três grandes capaz vermelhas tipicamente usadas por todos que caminhavam pela capital de Gallifrey. Agora enquanto Rose, Donna e o Doctor adentravam no Capitólio tinham a sensação de estarem invisíveis e seguiam assim obstinadamente em meio a beleza há tanto esquecida daquela velha cidade regida por leis perdidas pelo tempo. Rose e Donna estavam fascinadas, mas o velho Time Lord observava tudo que o cercava como um terrível espectro de um passado que deveria permanecer distante.

Caminharam por muito tempo em meio aos indivíduos apressados que traçavam seus próprios caminhos, as crianças tinham algo de excessivamente reservado e lhes faltava alegria – isso fez Rose questionar o peso de ser um Senhor do Tempo. Finalmente estavam mais ao oeste da Cidadela e o Doctor se colocou na frente de uma porta, para Donna e Rose aquilo era algo como madeira, contudo havia algo estranho na coloração: provavelmente se tratava de um material desconhecido no planeta Terra.

—Sim? – Um homem abriu a porta do local que evidentemente era sua casa.

—Vael? – Questionou o Doctor para o velho homem recebendo um olhar surpreso.

O homem era alto, não possuía cabelos, tinha idade já avançada e usava a mesma capa vermelha/dourada de Gallifrey. Ele arregalou os olhos e então abraçou o Doctor com um reconhecimento quase inesperado. Fazia muito tempo para os dois e diante daquele abraço Rose Tyler apenas percebeu como sabia pouco, como nem mesmo sabia o verdadeiro nome do próprio marido e o quanto não desejava descobrir nenhuma dessas respostas. O fato é que o desconhecido pode ser muito mais seguro do que o peso aterrador da verdade.

—Entre Doutor, entre com suas amigas – Donna e Rose assentiram e entraram na casa de estilo provincial que muito lembrava o quarto do Doctor na TARDIS, talvez as coisas em Gallifrey tivessem essa estranha capacidade de parecerem novas e ao mesmo tempo milenares.

O Doctor ajudou Rose a se sentar enquanto que a garota se sentia excessivamente tímida mediante o teto enorme da sala de estar abarrotada de instrumentos espaciais e livros volumosos. A casa de algum modo era maior por dentro quando se olhava para o teto, mas pareceu para Rose que se tratava de um homem que preferia ver as estrelas à distância do que necessariamente ir até elas.

—Donna e Rose conheçam Lord Vael – Começou Doctor enquanto Donna acenava e Rose assentia com um leve sorriso – Um dos meus mais antigos amigos, de tempos em que eu não estava fugindo ou correndo.

—Faz muito tempo Lord Doctor, quase não o reconheci nessa regeneração tão jovem– Respondeu Vael ainda empolgado entregando as duas visitantes um estranho copo com um liquido dentro. – Vejo que pelas batidas do coração de suas amigas que se trata da espécie humana. Nunca irá parar de salva-los não é mesmo?

—Sim, humanas da primeira Terra – Garantiu o Doctor enquanto Rose tocava incomodada a própria barriga de grávida.

—Vejo que está grávida – Disse Vael se aproximando fascinado – É casada com ela? – Perguntou Vael para Rose se referindo a Donna.

Rose abriu a boca e então Donna a olhou com certa tristeza. Ambas sabiam que dizer que o Doctor havia procriado com uma humana seria como humilha-lo e isso as fez ficar em absoluto silencio. Não responderam e Rose encarou a própria barriga com tamanha desolação que o Doctor não conseguia desviar os olhos da própria esposa. Ele entendia que Donna teria dito imediatamente sobre como não há espécies superiores, mas se calou muito provavelmente pela injustiça de tentar se dizer qualquer outra coisa naquele momento.

—Rose é minha esposa – Disse o Doctor recebendo um olhar surpreso de Vael e então o velho homem assentiu – Ela é humana e eu sou um Senhor do Tempo, mas as espécies são suficientemente compatíveis para que possamos ter filhos.

—É uma nova espécie – Vael parecia ainda mais interessado – Eu sempre soube Doutor que se passássemos muito tempo entre os humanos nos tornaríamos muito parecidos com eles, que extrairíamos da humanidade o que há de melhor.

—Não se importa com as Antigas Leis do Tempo? – Questionou Rose surpresa demais pela aceitação.

—Houve um tempo em que até mesmo o Lord Doctor se considerava superior a espécie humana – Disse Vael pedindo permissão para tocar a barriga da garota – Nesse tempo haviam poucos Senhores do Tempo que negavam a superioridade de nossa espécie, contudo eu era um deles. Um Lord que não se considerava superior a nada nesse universo.

—Faz muito tempo – Assinalou Rose.

—Agora me diga...vocês já possuem algum filho? – Rose sorriu, não havia nada que adorava mais do que falar de seu filho.

O Doctor sorriu levemente ao perceber que Rose Tyler era ainda mais luminosa quando se tratava da criança que tiveram. Talvez as coisas fossem exatas quando havia uma família e tudo de algum modo estava bem, o Doctor caminhou pela sala de estar enquanto sorria ao ouvir as explicações de Rose e o interesse fascinado de Vael. Era estranho como a morte, o medo e o retorno para casa não pareciam mais tão importantes, havia luz demais para qualquer outra coisa.

***

A garota Bad Wolf segurou na mão do Doctor invisível e então o cenário mudou. Estavam agora na presença do Décimo Primeiro Doutor, Amy Pond e Rory Willians. O manipulador de vortex temporal os levou para a Zona da Morte e agora que haviam acabado de se materializar observavam quase desolados o cenário: havia uma luz branca e fantasmagórica em meio ao solo pantanoso enquanto uma neblina desagradavelmente sombria percorria todo o território que parecia grande demais para ser justo.

—Já esteve aqui antes? – Perguntou Amy com a testa franzida.

—Diga que sim – Rory pediu com o olhar levemente assustado.

—É claro que já estive – Garantiu o Doctor apontando a chave de fenda sônica para frente em um giro de 360 graus – Faz muito tempo, mas estive.

—E...? – Começou Amy recebendo um olhar de incompreensão do Doutor – O que devemos esperar?

—A Zona da Morte era usada como uma espécie de... campo de gladiadores durante a Idade das Trevas de Gallifrey. – Começou o Doctor caminhando para o sul enquanto Amy e Rory o seguiam – Indivíduos eram aqui colocados para duelar e isso era chamado de Jogo de Rassilon.

—Era? – Questionou Rory recebendo um olhar empolgado do Doctor, ele adorava quando faziam as perguntas corretas. – Ainda há algo com o que se preocupar?

—Os jogos foram cancelados há muito tempo, mas a Zona da Morte nunca deixou de existir – Explicou o Doctor apontando uma enorme torre mais a frente – Talvez porque seja um lugar muito intimidador.

—O que acontece aqui exatamente? Vemos pessoas mortas? – Brincou Amy.

—Exatamente, como sabia? – O Doctor estreitou os olhos se virando para Amy e tocando intrigado no nariz da garota.

—O que? – Amy arregalou os olhos – Vamos ver pessoas mortas?

—Não seja supersticiosa Amélia – Rebateu o Doctor voltando a caminhar ainda em sua postura curvada – A Zona da Morte apenas é capaz de sequestrar projeções mentais acerca das pessoas perdidas de seu passado, ou seja, ela acessa a memória superficial referente a perda e ao luto. Isso causa grandes efeitos naqueles que aqui caminham porque se por acaso tocarmos o espectro projetado pela nossa perda acabamos...

—Mortos – Completou Amélia quase irônica – Não tocar os espectros de pessoas mortas que nos tentarão através das imagens de nosso passado. Anotado.

—Ninguém próximo a nós jamais morreu – Assinalou Rory como que para reconfortar Amy.

—Então acho que lidaremos apenas com o meu passado. Que sorte a nossa – Garantiu o Doctor com o olhar preocupado. – Não há escuridão ou trevas em vocês, talvez tenhamos que correr, mas o que realmente importa é chegarmos a Torre.

—O que ocorre quando chegarmos? – Questionou Rory.

—Rory Willians, o homem que sabe fazer as perguntas certas! – Respondeu o Doctor empolgado – Teremos de responder uma charada para entrarmos na torre e então o dispositivo estará lá, ao menos prefiro acreditar que será simples assim...

Rory e Amy assentiram e então aconteceu. A neblina ficou ainda mais forte, o bastante para que Amélia sentisse apenas a mão de Rory e agarrasse rapidamente a mão do Doctor na tentativa de não perdê-lo em meio a ausência de visão. De repente alguma luz voltou e a névoa se desfez levemente parecendo apenas brincar através de incontáveis sombras que projetavam a imagem de uma garota. Ela tinha cabelos castanhos, usava uma grande jaqueta, as roupas eram negras e o espectro carregava também uma pesada arma. O Doctor reconheceu Ace imediatamente, fazia muito tempo.

—Quem é ela? – Perguntou Amélia enquanto todos começavam a correr se afastando da visão.

—Se chama Ace – Explicou o Doctor e então gritou em resposta – Apenas mais uma mulher na longa lista de vidas que eu arruinei. Ela morreu recentemente, mas teve uma vida fantástica longe de mim.

—Então por que se sente tão culpado? – Questionou Rory se assustando ao ter o espectro na sua frente.

—Porque jamais nos despedimos da melhor maneira, jamais dissemos adeus! – Respondeu o Doctor.

O espectro ao ouvir a admissão do Doctor apenas parou na frente do velho Senhor do Tempo e a imagem se ajustou. Ela o encarou com alguma compreensão e seu olhar zombeteiro apenas sorria respostas a perguntas que o Doutor jamais havia parado de fazer àquela velha companheira. Ela estendeu a mão e então assentiu desparecendo: uma culpa a menos através do perdão oferecido por uma Zona da Morte. Quando o Doutor respirou aliviado percebeu que Amy estava de costas para ele e que olhava perplexa uma nova imagem que havia surgido em meio ao pântano cheio de neblina.

O Doutor se virou e então viu o mesmo que Amélia. O Senhor do Tempo deu um passo para trás assustado demais para dizer qualquer coisa enquanto Rory parecia hipnotizado por aquela presença. A mulher tinha longos cabelos ruivos com as pontas loiras, era alta, vestia as roupas típicas de Gallifrey e os cabelos cacheados emolduravam um rosto impossível. Amy encarou os dois homens ao lado dela e então entendeu que o Doctor estava excessivamente abalado e permanecia incapaz de dizer qualquer coisa ou de praticar qualquer ação de auto perdão.

—Quem é ela? – Perguntou Amy tentando se desviar da imagem da mulher.

—Minha esposa – Disse o Doctor após alguns minutos se aproximando do espectro – A minha primeira esposa...ela morreu há muito tempo.

Atrás do longo vestido e capa da mulher outros três jovens surgiram segurando as mãos da mulher e o Doctor sentiu seus corações serem estraçalhados pela imagem. O Doctor invisível encarava aquilo com extremo pavor e a garota Bad Wolf apenas segurava sua mão como se tentasse aliviar a dor pela imagem.

—Meus filhos – O Décimo Primeiro Doctor tinha os olhos cheios de lágrimas – Eles morreram junto com a mãe, minha esposa, em meio a uma das infinitas guerras de Gallifrey...eles se foram para sempre e eu fugi.

—Depois disso Gallifrey nunca mais foi seu lar porque se tornou o lugar em que perdeu sua família – Completou Amélia com compreensão – Mas eles estão bem...Sua esposa e seus filhos. Eles partiram, mas estão bem.

—Não existe nada bom na morte – Garantiu o Doctor se aproximando da mulher que um dia foi sua esposa – Eu senti tanta falta dela, eu senti tanta falta de meus filhos.

A Time Lady que um dia fora esposa do Doctor estendeu a mão e assentiu como se pedisse para que ele se aproximasse. O Doctor caminhou rumo a ela incapaz de negar o toque impossível e a tentação evidente. Aquela Senhora do Tempo representava tudo aquilo que havia acabado há tanto tempo: a superioridade, a felicidade em Gallifrey, a luta em incontáveis guerras. Ela era a realização de uma vida em que ele não precisava ser o Doutor, a realização de algo muito mais elevado e incompreensível para qualquer humano. Os cabelos cacheados da mulher voavam no vento da Zona da Morte e seu olhar vazio era um lembrete evidente de uma visão mortal, de uma visão irreal retirada de uma memória que permanecia perfeita, intocada e cheia de ilusão.

—Não toque nela! – Gritou Amy em desespero tentando alcançar o Doctor– Se tocar em algum espectro estará morto! Até mesmo um Senhor do Tempo pode morrer na Zona da Morte!

Ainda assim o Doctor em sua Décima Primeira Regeneração caminhava incapaz de se controlar rumo a Time Lady de nome desconhecido. Rumo à única da qual ele não podia desviar os olhos; o Doctor não conseguia desviar o olhar daquilo que o havia feito abandonar tudo, abandonar seu antigo lar e seguir rumo a uma vida que na qual ele seria apenas o Doutor. Ele queria tocar naquela que o fizera através da perda fugir e nunca mais retornar. A Time Lady que mudou tudo. A Time Lady agora na Zona da Morte.

Notas finais
Favoritações? Recomendações? Comentários? Falem comigo, digam o que querem para esse arco. Beijos meus queridos. P.S. A Zona da Morte e o Capitólio bem como suas finalidades elucidadas no enredo da fanfic realmente existem no Classic Who, acrescentei alguns aspectos completamente originais, contudo estou tentando preservar a geografia original de Gallifrey. P.S.2. Estou pensando em fazer uma segunda temporada da fic, como um spin off, na qual o Doctor e a Garota Bad Wolf visitam ainda outras realidades alternativas. Claro que desvendaria tudo acerca do julgamento ainda nessa temporada, contudo o que pensam sobre visitarmos outras realidades?