Tudo que Poderia ter Acontecido

42 A garota na primeira onda


Notas iniciais
Olá meus queridos, aqui iniciamos mais um arco. Será um arco mais introspectivo então espero que não me detestem, digam se gostam desse modelo de escrita ou se preferem algo muito mais dinâmico. Além disso já aviso que o dinamismo já retorna no próximo capítulo mesmo que em pequenas doses. Por favor, me digam se odiaram ou se gostaram. Também gostaria de ressaltar que a revelação no final do capítulo anterior que mostrou a verdade a alguns e confundiu outras voltará a tona em breve então não pensem muito nisso agora. Gostaria também de agradecer imensamente Ayla pela recomendação, obrigada mesmo. Fiquei muito feliz. Enfim queridos não se esqueçam por favor de recomendar, favoritar e comentar. Preciso saber o que estão achando, são vocês responsáveis por cada capítulo que posto então não me abandonem. Boa leitura queridos.

A vida é uma simples sombra que passa (...); é uma história contada por um idiota, cheia de ruído e de furor e que nada significa.
(William Shakespeare)

O Doctor ainda estava na TARDIS, ainda tinha a inconformidade, a raiva, a infelicidade dentro de seus corações. Se sentia humano em sua perca, mas se sentia mais humano do que todos os outros porque não conseguia acreditar. Apenas conseguia pensar que Rose Tyler se levantaria, que ela se aproximaria e perguntaria onde deixariam a TARDIS. Onde iriam, como as crianças estavam e se havia algum novo lugar que ambos desconheciam. Ela faria todas essas perguntas e daria um sorriso tolo.

Deveria ser assim, mas dessa vez não seria. A TARDIS finalmente estava pousada na casa de Jackie Tyler. O grande apartamento era o local no qual Pete, Tony e Jackie vivam e era também um dos lugares favoritos de John, Evey e Gabrielle. O Doctor caminhou até o quarto no qual havia deixado o corpo de Rose Tyler e a segurou nos braços mais uma vez, pela última vez, e a carregou de volta para sala de controle central.

Ele não disse nada, seu rosto estava cheio do luto mas não havia nenhuma lágrima em seus olhos. Ele carregava a mulher com a qual compartilhou uma vida com todas as forças que podia reunir para caminhar até a porta da TARDIS e ele por fim a alcançou e a abriu com todas as forças que restaram dentro dele.

O Doctor ao se encontrar na sala de estar da casa da família da mulher que ele jurou proteger com a própria vida sentiu o peso de sua própria negação. Ao notar que segurava a mulher que amou nos braços e que ele devolveria essa mulher morta para junto da família sentiu a culpa. Ele entregaria uma criança morta para Jackie Tyler e ele sentiu essa dor, sentiu a dor de quando os filhos partem antes dos pais e soube o quão injusto e cruel isso era. Era a pior coisa que poderia acontecer, era o pior destino de qualquer um. Nenhum pai ou mãe deveria sentir isso e ainda tantos sentiriam, ainda assim Jackie Tyler sentiria.

Jackie Tyler ao ouvir o barulho da TARDIS correu rumo a sala de estar, encontrou o Doctor de pé segurando Rose Tyler nos braços e soube imediatamente que a filha estava morta. Soube tão firmemente isso que nem mesmo deu mais um passo e isso foi o pior. Aquela certeza, como se esperasse por isso há muito tempo, como se soubesse que a dor viria. Como o Doctor poderia entender aquela dor? Como ele saberia o quanto era terrível? Foi o pior peso da vida de Jackie Tyler sentir que caia no chão em choque e sem esperança, ela se apoiou imediatamente em uma mesa lateral e caminhou cambaleante até o sofá onde o Doctor deixava o corpo de Rose.

Jackie Tyler surpreendentemente não disse nada, apenas chorou. Apenas se entregou e fez daquela dor a única morada de seu coração enquanto segurava as mãos de Rose e chorava ainda de joelhos. Pete Tyler apareceu em seguida, encarou o corpo da filha e se sentou colocando as mãos no rosto. Aquela era a filha dele em outro universo, mas desde que tudo começara acabou aceitando que Rose era a melhor coisa que ele poderia possuir e o luto o assolou plenamente.

O Doctor queria se sentir um estranho, mas não se sentia. Depois de todos aqueles anos, dos filhos e do neto não conseguia se sentir um estranho. Pela primeira vez, em séculos não pôde entrar em sua cabine e fugir, pela primeira vez ele teria de encarar tudo aquilo como a única verdade que poderia possuir. Ele não seria o Senhor do Tempo conhecido como Doutor, ele seria apenas o homem responsável pela morte da esposa.

Foi então que alguém girou a maçaneta da sala de estar. Alguém estava chegando na casa, alguém tão familiar que tinha as chaves. Pela porta entrou John Tyler, o primeiro filho de Rose e aquele que tanto idolatrava a mãe.

John encarou a cena diante dele. O próprio pai parado diante da TARDIS, o avô chorando com as mãos no rosto, Jackie Tyler em prantos segurando uma das mãos de Rose Tyler e aquela mulher loira deitada morta no sofá da casa era sua mãe e isso o partiu ao meio. John correu na direção do próprio pai, correu na direção do Doctor tomado pela fúria e colocou o Senhor do Tempo contra a parede cheio de violência.

—O que fez com ela? O que fez com ela? — As mãos de John contra o casaco do Doctor o forçando a ficar parado e o forçando a olha-lo nos olhos eram firmes.

—Eu sinto muito, ela morreu em batalha — Respondeu o Doctor pausadamente, com os olhos cheios de dor e emoção — Eu não pude fazer nada.

—Ela estava cansada, ela queria parar! Mas você nunca abandonaria suas aventuras por ela não é mesmo? — John gritava, enfurecido pela raiva. — Ela morreu em batalha como foi profetizado há tanto tempo quando encontraram o diabo!

—Rose nunca quis parar, ela nem mesmo uma vez hesitou! Ela não era como você, ela não tinha medo! — Gritou o Doctor de volta como se isso fosse o bastante.

—Minha mãe sabia que no dia que desejasse parar você a abandonaria! É isso que faz, você abandona todos, você deixa todos para trás! Você abandona os fracos, os doentes e os que não podem mais te alcançar. — John estava chorando, estava desesperado em sua dor e isso era evidente. — Você a matou.

—Eu não pude salva-la! Eu não consegui! — Gritou o Doctor de volta como se quisesse fazer o filho acreditar em algo que nem mesmo ele acreditava.

Nesse momento Tony Tyler abriu a porta acompanhado pelo Capitão Jack, ambos correram rumo ao Doctor e ao John tendo consciência que eles eram os únicos em condição de interromper aquela briga. Tony já sabia sobre a morte da irmã porque Jack havia dado a notícia minutos antes durante o encontro que deveriam ter aquela tarde.

—John, John! — Pediu Jack segurando os ombros do rapaz e o afastando do Doctor — Ele é o seu pai e ele não teve culpa. Ninguém podia salva-la, ela se sacrificou por todos vocês e não iria gostar de assistir isso.

—Ela não iria gostar de assistir pai e filho brigando — Garantiu Tony.

—Eu sinto muito, eu sinto tanto — Foi tudo que o Doctor conseguiu dizer enquanto se aproximava novamente de John.

John Tyler apenas olhou para trás, olhou para o sofá no qual o corpo de Rose Tyler permanecia desfalecido e imediatamente abraçou o pai. Eles se abraçaram como há muito tempo não acontecia e de algum modo a dor de ambos foi partilhada, era sempre sobre dividir. Uma família sempre seria sobre dividir coisas que não poderiam ser divididas, era sobre encontrar algo que estava perdido.

Mas para o Doctor era tudo sobre a negação. Isso poderia ser mesmo real? Isso não era um pesadelo? Porque mesmo encarando o corpo de Rose e sabendo que ela havia partido para sempre não quis acreditar que isso de fato era a única verdade.

O Doctor sentiu John se afastando ainda chorando, viu o garoto se aproximar de Jackie e assistiu estarrecido ele se juntar a avó ao lado do corpo de Rose.

O Senhor do Tempo permaneceu no mesmo local, se aproximou da TARDIS e se isolou recostado naquela cabine de polícia, se recostou na única coisa que sempre permaneceu e fechou seus olhos tentando acordar daquele pesadelo.

Ele tentou acordar mas as lágrimas dos outros que o cercavam não permitia o silêncio. Como ele havia chegado tão longe? Como isso poderia ser real? Não compreendeu como o medo poderia ser terrivelmente cruel, não compreendeu como havia se afastado tanto do caminho. Ainda assim caminhou para o antigo quarto de Rose Tyler, abriu a porta e viu o reflexo em cada detalhe do aposento de uma jovem mulher de vinte anos, sob a cama havia um envelope e o Doctor o segurou com força lendo o que estava escrito atrás na letra de Rose: “Para aquele que foi o último quando for a primeiro dia”.

O Doctor sorriu levemente com a ironia e abriu o envelope cuidadosamente, como se temesse rasgar seu conteúdo e primeiramente havia uma breve carta:

“Para o Senhor do Tempo que todos chamam de Doctor.

Se está lendo isso agora, significa que estou morta e se isso lhe foi entregue significa não apenas minha morte, significa também que você ainda se importa. Sim, porque algumas vezes sabemos que as pessoas precisam partir, que elas precisam nos deixar, contudo em outros momentos ainda mais cruéis não aceitamos a partida daqueles que amamos. Se está lendo isso é porque ainda me ama e ainda não compreendeu que acabou. Mas fique bem, resista, viaje, encontre seus companheiros, sorria muito mais do que sorrimos quando estavámos juntos. Não deixe a negação suprimir tudo que importa, não faça da perca a única coisa que significa. Siga em frente, siga rumo a algo incrível e encontrará suas aventuras. Sentirei saudades de cada parte de você, sentirei saudades de cada aventura que tivemos, mas vá para a próxima parada e sobreviva. Não apenas sobreviva, mas sim viva como precisa ser e isso bastará.

Com todo o amor do meu coração.
Adeus, Rose Tyler.”

O Doctor leu a carta diversas vezes ainda de pé, leu o adeus de Rose Tyler e se perguntou quem teria sido designado para entregar aquela carta. Talvez tenha sido Pete, talvez tenha sido Jack. Era como se Rose soubesse já há muito tempo que esse dia chegaria e que ela seria a única capaz de faze-lo seguir em frente rumo a alguma coisa que ele ainda não conhecia. E foi isso que ocorreu, atrás do envelope haviam duas coordenadas, duas instruções indiretas para que ele fosse rumo a algum lugar. E ele iria, ele sempre iria rumo a descoberta de segredos que ele não sabia que podia lidar.

Ainda assim para o Senhor do Tempo nada estava solucionado, nenhuma resposta havia sido encontrada. Era sobre como ela o havia deixado: sem glória, sem esperança e sem nenhum final feliz. Era sobre como parecia que era para sempre e agora ele teria o resto da vida, mas ela não estaria ali. O Doctor fechou os olhos e se lembrou do dia no qual John havia nascido, se lembrou de como ela caminhou por aquele mesmo aposento exausta e ele segurou aquela criança pela primeira vez cheio de temor, cheio de esquecimento sobre tudo que havia visto antes. Naquele dia ele se sentiu humano pela primeira vez porque sentiu que havia iniciado algo lindo e fantástico, o dia em que iniciou mais uma família.

Essa seria a mais terrível e triste história que contaria um dia, mas para ele naquele singelo momento a lembrança de segurar John foi tudo, a risada de Rose foi a única coisa a ser ouvida e a esperança de que não não podia ser o fim era tudo que havia restado.

Era a primeira onda de seu luto: a negação.

Agora viria a segunda onda.

Notas finais
O que acharam? Gostaram? Foi um capítulo pelo menos emocionante? Foi muito odiável? Eu não sei o que pensar desse capítulo então me ajudem e me digam se gostaram ou o que precisa melhorar/mudar. Comentem, favoritem e recomendem por favor. Não deixem de falar comigo. Beijos queridos e aguardo vocês.