Tudo que Poderia ter Acontecido
43 A garota em meio a segunda onda
Notas iniciais

Você morre no meio da vida, no meio de uma frase.
(John Green)
A TARDIS havia pousado onde as coordenadas indicavam. O Doctor deixou a máquina do tempo e olhou por um instante para tudo que o cercava: se tratava do planeta Terra, uma rua comum movimentada em Cardiff sendo que logo a frente havia um restaurante no qual Mickey, Rose, Jack e o Doctor se reuniam para conversar. Fizeram isso por muitos anos depois que Rose retornara e agora o Doctor se encontrava diante de um lugar tão familiar e tão cruelmente distante.
Ele fechou a porta da TARDIS e caminhou com as mãos nos bolsos do sobretudo até o restaurante observando todas aquelas pessoas felizes, tristes, preocupadas e zangadas tentando compreender em qual grupo se encaixava mesmo que não fosse capaz de encontrar essa resposta desejou profundamente saber o que fazer. Ao lado do restaurante havia uma casa azul e vermelha de dois andares e por um instante o Doctor quis bater na porta e perguntar a um desconhecido sobre suas dores, seus enfrentamentos, suas dificuldades. Quis questiona-lo sobre como havia superado a dor e o luto de suas percas.
O Doctor adentrou o restaurante e se sentou de frente para a bancada onde serviam a comida e as bebidas. Dessa vez ele estava sozinho demais para se sentar em uma mesa.
—O que deseja senhor? — Perguntou uma garçonete do outro lado do balcão com um leve sorriso.
O Doctor a encarou por um instante sendo tirado de seus pensamentos. A garota tinha cabelos volumosos, lábios grandes e alguma genuína paz dentro de si segurando aquele bloco como se a vida humana pudesse ser fácil.
—Apenas um café — Respondeu o Doctor cerrando os dentes e encarando a bancada.
—Tudo bem senhor “apenas café” — Respondeu ela com um sorriso.
A garota retornou com o café e por alguma razão desconhecida para ela própria permaneceu encarando o homem desconhecido que parecia extremamente triste, zangado, infeliz…ela o viu como algo que não podia compreender. O que ele tinha perdido? Como ela poderia dizer que com o tempo tudo ficaria melhor?
—O que o Senhor perdeu? — Questionou a garota entregando o café para o Doctor.
—Como? — O Doctor a fitou assombrado por um segundo, surpreso com a capacidade humana de detectar a dor — Qual o seu nome criança?
—Bill — Respondeu ela seriamente — Eu sinto muito, sinto muito por aquilo que foi perdido.
—Eu estive com ela por muitos anos, eu a vi crescer — Começou o Doctor ainda sentado, ainda falando com Bill, ainda olhando para a expressão de tristeza da garota de pele negra — Esqueci como a vida poderia ser cruel sem ela.
—A vida um dia voltará a ser incrível — Garantiu a garota com o olhar de tristeza — Um dia perceberá que a alma dela ainda está aqui vivendo aventuras com você.
—Obrigado por dizer isso Bill — Respondeu o Doctor engolindo em seco — Obrigada por tentar.
—Eu estou aqui substituindo uma amiga — Explicou Bill — Espero que o café não esteja muito ruim.
—Estava ótimo — Assegurou o Doctor sorrindo levemente e deixando dinheiro sobre a bancada — Obrigada Bill.
O Doctor assentiu para a garota, se virou e caminhou rumo a porta sentindo que havia encontrado e perdido algo ao mesmo tempo. Não pôde compreender que havia encontrado o próprio futuro e que havia perdido a mulher de seu passado… ele não entendeu que o tempo seguia seu curso e dizia sempre que tudo ficaria melhor de alguma maneira.
—Ei! — Gritou Bill quando o Doctor segurava a maçaneta da porta do restaurante e o Senhor do Tempo imediatamente se virou inundado por uma esperança que ele não compreendia e a garota complementou — Qual era o nome dela?
—O nome dela era Rose — Respondeu o Doctor com uma profunda tristeza e então se virou novamente abrindo a porta do restaurante e deixando o local.
O Doctor caminhou rumo a TARDIS e se surpreendeu por encontrar um envelope logo na frente da máquina do tempo. Era um envelope branco, não havia nada escrito contudo quando ele abriu e encontrou uma foto de Rose Tyler ao lado de sua nona regeneração nos primeiros tempos apenas sorriu. Havia sido uma fotografia tirada enquanto comiam naquele mesmo lugar tantos anos antes, ele apenas sorriu com isso e olhou atrás da foto onde a letra de Rose Tyler dizia “Volte para o começo, volte mais uma vez para onde começamos”.
O Senhor do Tempo entrou na TARDIS e imediatamente o celular que estava no painel de controle tocou e ele soube que seria um de seus filhos o convocando para o momento que ele não queria ter que viver. Ainda assim ignorou o telefonema e decidiu pousar a máquina do tempo no lugar em que sua família queria que ele estivesse por mais doloroso que fosse. Ele trocou de roupas, fechou os olhos antes de deixar a sala de controle central e caminhou pelo cemitério.
Logo a frente havia uma igreja onde seria a cerimonia de adeus para Rose Tyler, todos estavam adentrando o lugar e o grande número de pessoas presentes deixou claro que ela vivera pouco mas acumulara um numero significativo de amigo durante os anos que sorriu. Por melhores ou piores que esses anos podem ter sido ainda assim foram claramente significativos.
—Pai — Disse Evey se aproximando do Doctor e o abraçando com força — Pensei que não viria.
—Eu estou com tanta raiva Evey — Sussurrou o Doctor fechando os olhos nos ombros da filha — Nunca odiei tanto o mundo, o universo e as leis do tempo como odeio agora.
—Estamos juntos ainda — Assegurou Evey com os lábios tremendo e se afastando o pai.
Gabrielle e John se aproximaram e os três abraçaram o Doctor. Eles estavam juntos mesmo com as roupas negras, com a igreja lotada de pessoas partilhando algum nível de dor. Eles estavam juntos e por um segundo isso foi tudo que importou. Os quatro adentraram a igreja, se sentaram na primeira fileira lado a lado e assistiriam o caixão ser carregado por quatro pessoas que amavam e eram amados por Rose Tyler: Jack, Mickey, Pete e Tony.
Houveram vários discursos, várias palavras e assistir a partida daquela mulher foi mais e mais doloroso para o Doctor a cada palavra. Ainda assim ele assistiu toda a cerimônia olhando para a foto da garota deixada diante do caixão em meio as flores e ele sentiu raiva por não te-la salvado, sentiu raiva por não ser capaz de compreender as armadilhas da morte, sentiu raiva porque a vida humana acaba em um sopro e nada mais fica para trás além daqueles que realmente se importavam.
O Doctor sabia que precisava dizer algumas palavras e ele caminhou vagarosamente já que era a última pessoa a dizer qualquer coisa e quando chegou ao microfone olhou para frente. Olhou para o rosto de cada uma daquelas pessoas e tentou encontrar dentro de si uma força que ele sempre soube que possuía.
—Como todos aqui sabem eu sou o marido de Rose Tyler — Começou ele com a voz calma, mas seu rosto denunciava a raiva e a tristeza — Eu poderia dizer muitas coisas sobre minha esposa e ainda assim não seria o bastante porque ela não tinha ideia sobre o efeito que causava. Quando eu olho para tudo que construímos juntos eu sinto a ausência dela, mas sinto a ausência dela especialmente quando vejo um apanhador de sonhos, uma música que dançávamos, uma risada que daríamos juntos. Quando vejo um livro aberto na metade, uma maça deixada para trás e uma jaqueta abandonada em uma cadeira. — O Doctor respirou profundamente fechando os olhos — Eu sinto falta dela em cada pequena coisa porque ela era grande demais para que cada pequena coisa não pertencesse a ela. Gostaria de dizer que o mundo vai continuar e que o tempo passará e tudo será como foi um dia antes mas não acho que poderia ser verdade porque Rose Tyler sabia que ninguém deve ficar parado, que você precisa tomar uma atitude, que você precisa fazer algo a respeito porque a vida se interrompe no meio de uma frase. A canção dela, a canção de uma mulher que morreu em batalha nunca será esquecida enquanto eu viver.
—E isso fará Rose Tyler eterna, isso a fará a viver para sempre — Completou Evey em um sussurro que foi alto o suficiente para que seus irmãos e seus avós pudessem ouvir.
Rose Tyler viveria para sempre. Para o Doctor tudo por um instante era a raiva, a inconformidade, o desejo de destruir.
Essa foi a Segunda Onda. Era o tempo de conhecer a terceira.
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