Tudo que Poderia ter Acontecido

22 A garota impossível


Notas iniciais
Olá meus queridos. Mais um capítulo desse arco da fic lembrando que todo o arco é dedicado a Clara Oswald, todos os personagens de Doctor Who têm vez logo deixem seus pedidos e sugestões. Além disso gostaria de agradecer todos que comentam e gostaria de pedir que os leitores fantasmas se manifestem. Comentem, favoritem e recomendem - é realmente muito importante e motivador. Beijos

O Doctor encarava o “dono” de Rose Tyler, ele havia respirado profundamente e retornado para o lugar em que esteve antes, dessa vez, com Clara Oswin Oswald. Agora ele tirava do bolso de seu sobretudo algumas notas, a TARDIS possuía dinheiro para emergências — dinheiro esse extremamente difícil de ser encontrado — mais uma vez a velha máquina do tempo ajudava em tudo que podia. A garota Bad Wolf encarava tudo aquilo mais desolada do que o próprio Doctor invisível que possuído por uma estranha dor não entendia mais se deveria ou não invejar aquela estranha realidade. Talvez tudo tenha sido melhor do modo que realmente foi.

–Creio que isso seja o bastante – Disse o Doctor jogando o dinheiro para o homem.

–Qual das garotas prefere? – Questionou o homem quase pronto para apresentar todas as opções.

–A garota loira, Rosalie Smith – Respondeu o Doctor sério.

–Ela não vale tudo isso – Garantiu o homem recebendo um olhar de absoluta fúria do Doctor – Terá a tarde toda com ela senhor.

–Não tente me dizer quanto ela vale – A fúria não saia da voz do Doctor.

Clara assentiu para o Doctor pronto para leva-lo até o aposento onde Rose o receberia. O Doctor passou pelo homem que vendia o corpo de Rose, os ombros tão próximos que se bateram, era um aviso de fúria para alguém que não merecia mais viver. Que muito dificilmente viveria mais um dia, ele faria qualquer coisa para vingar Rose Tyler, qualquer coisa para vingar a alma daquela garota quebrada. Oswin finalmente parou na frente de um quarto e assentiu novamente para o Doctor que agora precisaria apenas abrir a porta para finalmente falar com Rose. Ele abriu a porta e adentrou o quarto.

O aposento era mediano, a cama grande, havia uma mesa com cadeiras e do outro lado o pequeno balcão de um bar. As cortinas eram antigas, o ar desagradável e claustrofóbico enquanto que Rose Tyler parada na frente da porta, do outro lado do aposento, usava um vestido vermelho rodado que tinha um amplo decote. Cabelos soltos, saltos altos e olhar vazio; ao ver o Doctor ela apenas pegou o copo de uísque que mantinha na mesa ao lado e bebeu um longo e terrível gole.

–Rose – Começou o Doctor ainda parado no mesmo lugar analisando a garota, o corpo praticamente descoberto revelava alguns hematomas – O que houve com você?

–Algumas vezes eles batem em mim – Explicou Rose indiferente e então levantou o cabelo mostrando as marcas dos dedos em seu pescoço – Há quatro dias um deles me enforcou, felizmente ele terminou e por isso me soltou.

O Doctor olhava para o chão, dessa vez tinha vergonha demais para encarar Rose Tyler; a culpa devastou seu coração em tal intensidade que por algum tempo a mente dele se esvaziou em uma desolação absoluta. O que havia acontecido com ela era grave demais, humano demais e terrivelmente cruel, o que Rose Tyler viu foi o pior da humanidade.

–Oswin me disse que um homem havia me comprado para toda a tarde e eu suspeitei que era você – Explicou Rose ainda de pé com a voz impetuosa e então completou de forma cruel– O que deseja que eu faça senhor? Meu corpo pertence a você.

–Rose por favor – O olhar do Doctor implorava que ela não fosse irônica agora.

–Por que está aqui? Eu não quero vê-lo – Garantiu Rose servindo mais uísque para si mesma.

–Estou aqui para te salvar, para mim foram apenas três dias – Começou o Doctor se explicando e finalmente se aproximando de Rose em uma súplica silenciosa – A anomalia temporal era tão forte que a TARDIS não queria retornar, eu a obriguei a vir aqui e mesmo assim essa foi a data mais próxima que consegui. Nunca pude prever que teria se passado...

–Um ano! – Rose gritou com o copo de uísque balançando em suas mãos trêmulas – Eu esperei por um ano nessa maldita cidade...eu passei fome, eu fui espancada...aconteceram tantas coisas terríveis comigo.

–Rose, eu nunca quis deixa-la para trás – O Doctor tocou levemente nos ombros dela a fitando, os olhos dele diziam a honestidade de suas palavras – Eu nunca quis abandona-la. Eu nunca quis que nada disso acontecesse.

–Mas aconteceu! – Rose estava furiosa, ela estava dura e vazia de um modo que ele não era capaz de compreender – O que foi feito, não pode ser desfeito.

–Eu sei! – O Doctor não era capaz de gritar com Rose Tyler, ela se libertou das mãos dele e serviu um pouco mais de uísque enquanto recebia um olhar preocupado dele.

–Todas nós temos vícios – Explicou Rose em voz baixa, porém dura – Nenhuma mulher que se vende nesse lugar consegue fazer isso sem um vício. Oswin tem os cigarros, eu tenho o uísque, Mary tem os charutos....

–Sempre um modo de viverem menos tempo – Assentiu o Doctor fechando os olhos e compreendendo a lógica dos vícios – Para que não façam isso até a velhice.

–Para que possamos morrer logo – Completou Rose colocando o copo na mesa. – O uísque me ajudou a aguentar todas aquelas terríveis noites com aqueles homens repugnantes.

–Precisa sair daqui Rose, eu farei o que desejar – Começou o Doctor com as mãos agora na parede encarando o chão desolado – Farei o que você quiser, mas precisa sair daqui.

–Doctor – Começou Rose o chamando, ele se virou para a garota que se aproximou tocando o rosto dele – Na minha primeira vez aqui, eu não consegui concordar em dormir com o homem que me comprou...como punição o homem que pagou minha dívida me espancou. Ele me espancou e me violentou para que eu nunca mais desobedecesse.

–Rose, eu posso te fazer esquecer – Garantiu o Doctor, ambos tinham os olhos cheios de lágrimas.

–Ele me bateu por tanto tempo que eu pensei que morreria, eu quis tanto morrer – Rose tentava manter a voz firme – Antes disso eu matei um homem.

–Eu sei – Explicou o Doctor ainda a fitando – Eu sei que não teve escolha.

–Sim eu tive e escolhi mata-lo – Garantiu Rose Tyler – A mulher que fui, a mulher que merecia o universo e o amor já não existe mais. Ela morreu junto com o homem que eu assassinei, ela foi enterrada no dia que fui espancada e ela foi velada no momento em que fui obrigada a me vender nesse lugar. Rose Tyler está morta.

–Não – A voz do Doctor era cheia de determinação – Sua mãe, sua família...

–Não sou digna de nada disso, não desejo mais viver Doutor – Rose finalmente se afastou do Doctor – Se apagar minha memória eu me esquecerei das coisas terríveis, mas nunca poderei me perdoar pelo que fiz, nunca poderei perdoar ninguém pelo que me fizeram. Se apagar minha memória tudo que eu passei terá sido em vão, eu deixarei de existir.

–Rose não faça isso – O Doctor ainda tentava ser paciente.

–Me pagou para que eu dormisse com você e não para que eu conversasse, eu não tenho mais nada a dizer – Garantiu Rose Tyler se sentando na cama – Deseja algo mais?

–Eu não posso permitir que fique aqui – Havia determinação na voz do Doctor.

–Vai me obrigar como todos os outros? Do mesmo modo que fui obrigada a servir? Do mesmo modo que fui obrigada a me vender? – A voz de Rose tinha raiva.

O Doctor negou absolutamente desolado e se afastou rumo a porta deixando finalmente o quarto. Ele saiu pelos fundos, mas Clara Oswin o esperava com o olhar preocupado e então o seguiu pelas ruas como uma garota que já previa o desastre daquele diálogo e desejasse honestamente reverter o quadro. O Doctor não conseguia pensar com clareza, não conseguia encontrar uma resposta exata.

–Por que está me seguindo? – Questionou o Doctor irritado para Clara.

–Eu posso ajudar – A garota tinha confiança – Eu posso trazer Rosalie de volta para você, mas precisa me contar tudo que tem nas mãos, tudo que pode fazer para que possamos avaliar nossas opções.

Normalmente o Doctor não confiaria na estranha garota, mas nesse momento ela parecia a única que talvez encontrasse alternativas. Ela tinha uma vivacidade, uma vida e uma inteligência determinada difícil de se encontrar especialmente depois de tudo que ela havia passado. A vida terrível daquela jovem meretriz não havia arrancado a força dela, o desejo cego de fazer algo por alguém. Clara acreditou em cada palavra do Doctor sobre viagem no tempo, Senhor do Tempo, regeneração, Gallyfrei e acreditou com maior intensidade ainda quando ele mostrou a TARDIS. A garota em seguida pediu que ele narrasse toda sua longa história com Rose Tyler desde o princípio. Estavam sentados em um café vazio falando aos sussurros há três horas. Finalmente o Doctor havia contado tudo que era verdadeiramente relevante.

–Eu já sei! – Clara parecia empolgada – Você me disse que o tempo não é algo linear, que o tempo é como uma bolha...

–Não é uma bolha, mas você pode pensar em uma bolha – Corrigiu o Doctor percorrendo os dedos pelo próprio cabelo.

–Você me disse também que pode receber mensagens de ajuda pelo papel psíquico – Continuou Clara com a voz ainda empolgada.

–Sim posso – O Doctor agora estreitava os olhos tentando compreender onde a garota queria chegar.

–Rose se apaixonou primeiramente pelo homem que você era... pelo seu outro rosto – Começou Clara enquanto o Doctor abria os olhos como quem se dá conta da estranha sensação de reconhecimento acerca daquele lugar – Mande um recado para o seu eu do passado, ele está nesse momento vivendo grandes aventuras, mas pode parar aqui por algum tempo e falar com Rosalie Smith e faze-la se lembrar que ela é na verdade Rose Tyler. Ele pode mesmo sem conhecer Rose ainda fazer uma pobre garota perdida se lembrar do porque ela começou tudo isso, tenho certeza que seu outro rosto lembrará tudo que ela precisa, lembrará de tudo que ela fugiu.

–Eu estive aqui, eu falei com uma Senhora Smith – O Doctor batia na própria cabeça – Como sou burro, burro, burro...

–Se você se lembra de ter estado aqui, de receber um sinal pelo papel psíquico significa....

–Que recebi a mensagem de mim mesmo – Completou o Doctor empolgado – Recebi essa mensagem desse momento, enviada através de mim mesmo.

A garota Bad Wolf sorriu ao perceber que finalmente seria a vez do nono. Graças a Clara Oswald seria o momento do primeiro rosto que fez Rose Tyler se apaixonar. O rosto que começou tudo aquilo, o rosto da guerra, da desilusão e da total ausência de esperança teria de resgatar uma companheira ainda desconhecida. Teria de trazer de volta Rose Tyler, uma mulher que ele ainda não conhecia. Porque tudo começou assim...tudo começou com sua regeneração mais fantástica, quando foi sua nona vez.

Notas finais
Estão gostando? Comentem, favoritem e por favor recomendem caso estejam gostando. Beijos