Tudo que Poderia ter Acontecido
23 A garota na vez do nono
Notas iniciais
A TARDIS havia acabado de se materializar atrás do bar em que Rose e Oswin eram obrigadas a trabalhar. A garota impossível seguiu as instruções, correu até a cabine azul colocando o papel escrito em caligrafia vermelha na porta da frente e em seguida saiu em disparada se escondendo. O Doctor enviou a mensagem para si mesmo em sua nona regeneração através do papel psíquico em um pedido de ajuda juntamente com as coordenadas. A única coisa que permitiria que o nono Doctor soubesse o que fazer seria o papel deixado em sua porta. Para evitar anomalias ainda mais graves o Doctor que enviou a mensagem decidiu que Oswin deveria colar o bilhete na porta da TARDIS e o resto aconteceria sem que precisassem se preocupar.
Clara ainda assim permaneceu espiando a cabine azul até que um estranho homem de grandes orelhas e jaqueta preta irrompeu da nave espacial com certa alegria inesperada como se aventura fosse a única coisa que pudesse satisfazer meramente seu espírito. Ele respirou profundamente como se isso fosse indicar o local em que estava e quando se virou prestes a trancar a TARDIS viu o bilhete que dizia: “Encontre Rosalie Smith, ela precisa voltar a acreditar. Convence-la salvará o universo de toda a fúria de uma tempestade eminente”. O Doctor guardou o papel no bolso e pareceu levemente insatisfeito, odiava quando ele enviava mensagens para si mesmo do futuro e a caligrafia daquele bilhete mesmo diferente não podia pertencer a outro homem. O tempo precisava ser sempre tão horrivelmente complexo?
O homem atravessou o beco lateral do estabelecimento e finalmente se viu na frente do estabelecimento. Suspirou profundamente de novo e abriu a porta. O lugar estava cheio de homens com chapéus sentados em suas mesas; nos pequenos palcos haviam garotas jovens demais dançando e enquanto seus olhos procuravam alguém que pudesse ajudar apenas viu uma garota morena no bar: ela estava servindo bebidas. Felizmente aquela pequena parte do bar não estava muito cheia e a garota com o crachá escrito Oswin parecia desesperada para se desviar de um dos clientes.
–Deseja algo senhor? – Perguntou Oswin com um leve sorriso, era estranho encarar uma versão diferente do Doctor.
–Sim – Disse o Doctor encarando perplexo toda a promiscuidade do ambiente – Rosalie Smith é uma das garotas que trabalha aqui?
–Ela acabou de sair pela porta dos fundos para tomar algum ar – Explicou Oswin que estava observando Rose desde que retornou para o bar – Talvez um cliente a tenha seguido
O Doctor assentiu com as sobrancelhas franzidas como sempre fazia. Ele caminhou até a parte de trás e não viu nada além da TARDIS, foi até o beco lateral e então pôde ver em meio a escuridão da noite a sombra de uma garota de saltos altos, vestido curto que talvez brilhasse e cabelos longos cacheados. Ainda assim ela não estava sozinha, havia um homem muito próximo segurando seus braços.
–Rosalie... – Disse o homem desconhecido – Eu irei te pagar.
–Não faço isso por diversão – Começou Rose quase furiosa e cambaleante pela bebida – Se quer algo, pague!
O homem a empurrou furioso e Rose bateu contra a parede do beco com um forte impacto e então o desconhecido se afastou. Rose encostada na parede segurando sua garrafa de uísque apenas se abaixou ficando sentada contra a parede. Nesse momento o Doctor achou que deveria se aproximar, ele não podia ver o rosto da garota no beco escuro, mas se sentou ao lado dela com certa distância e então percebeu que ela movia a cabeça para olha-lo. O rosto do Doutor recebia alguma iluminação advinda da parte dos fundos do bar, contudo o rosto de Rosalie era apenas sombras. O Senhor do Tempo tinha certeza que a garota era loira, mas nada além disso podia ser revelado.
–Você... – Rose estreitou os olhos reconhecendo o Doctor, reconhecendo o primeiro homem que tomou seu coração de forma tão definitiva.
–Olá, eu sou o Doctor – Explicou o homem com a voz tranquila – Você... é Rosalie Smith.
Rose assentiu compreendendo que o Doctor havia chamado sua regeneração anterior, antes mesmo de conhece-la, para convence-la de algo que ela não faria. O que um homem que ainda não a conhece poderia dizer de reconfortante? Por que tinha de ser sempre o rosto do nono homem a salva-la? Rose deixou a garrafa de uísque ao lado e sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas pelas coisas que havia passado, pelas coisas que havia visto e perdido. Era sempre assim o êxtase e então o caos.
–Sim, sou eu – Respondeu a garota com a voz pesada pela bebida.
–O que houve com você? – Perguntou o homem com seus grandes olhos azuis.
–Eu me casei com um homem...com um aventureiro – Começou Rose respirando profundamente – Ele era exatamente como todos os aventureiros...inconsequente, maravilhoso e imprevisível, mas me amava. Deus como ele me amava e isso era tudo que eu precisava, nada mais no meu mundo poderia ser mais importante do aquele homem.
–A mesma velha história de amor – Continuou o Doctor.
–Erámos felizes até que um dia viemos até essa cidade, mais uma aventura – Rose secou as lágrimas – Mas ele me deixou para trás, ele se foi e eu esperei por ele até que eu cai...eu cai rumo a essa sarjeta...eu estou no fundo do poço Doutor.
–Ele jamais voltou por você? – Perguntou o Senhor do Tempo.
–Sim, ele voltou – Garantiu Rose respirando profundamente – Mas eu não sei se devo aceitar a minha velha vida de volta...eu deveria?
–Algumas vezes na vida... – Começou o Doctor engolindo em seco – As pessoas que amamos nos decepcionam, algumas vezes mesmo quando desejamos profundamente fazer a coisa certa...não conseguimos.
–Eu deveria...compreender? – Rose ainda encarava a parede na frente dela.
–Talvez precise desfocar e reavaliar o mundo que tem agora – Começou o Doctor agora gesticulando com as mãos – O mundo é lindo, o universo é fantástico, mas nada nunca será mais poderoso do que o amor, do que a compaixão e do que uma vida humana plena. Olhe para você agora e me diga...está desperdiçando seu tempo nesse mundo? A vida humana é extremamente curta Rosalie Smith, o que está fazendo com a sua?
–Mas ele é tudo...ele é tudo que há de terrível, tudo que há de bom – Começou Rose colocando a mão sobre o próprio peito – Eu já não lembro mais como é não o amar.
–Então o ame – Completou o Doctor sorrindo.
–Deus, só podia ser você – Rose sorriu levemente – Obrigada por isso.
–Recebi esse bilhete – Começou o Doctor entregando o papel para Rose que o segurou – Você não pode enxergar mas tenho certeza que é a minha própria caligrafia.
–Como isso poderia ser possível? – Questionou Rose como quem não entende devolvendo o papel.
–Eu acho que compreende muito bem como é possível – Respondeu o Doctor sorrindo e finalmente se colocando de pé oferecendo a mão para Rose Tyler se levantar – Adeus Rosalie Smith.
Rose aceitou a mão do Doctor sabendo que se levantaria e estaria protegida pelas sombras; ainda não era o tempo daquele rosto conhecer o rosto de Rose Tyler. Ele ainda tinha uma longa jornada até ela e juntos eles teriam uma longa jornada até aquele momento e isso era inevitável. O caminho mais longo seria dele, daquele que sempre retornaria para salva-la da mediocridade de uma vida sem sentido. Ainda assim Rose Tyler ao aceitar a mão do Doctor e se colocar de pé não resistiu ao ímpeto e o empurrou contra a parede segurando no casaco dele e o beijando fortemente. Rose se surpreendeu com a retribuição, com o modo pelo qual ele segurou a cabeça dela durante o beijo, do modo pelo qual ele pareceu sentir cada coisa e o modo pelo qual ele parecia simplesmente compreender.
–Adeus Doutor – Respondeu Rose com um leve sorriso quando o beijo terminou.
–Não vejo a hora de conhece-la – Ainda na escuridão os olhos azuis dele pareciam brilhar – Eu tenho certeza que será fantástico.
–Será minha maior aventura – Garantiu Rose permanecendo parada na escuridão enquanto o homem hesitante tomava o caminho de sua TARDIS.
Rose colocou a mão sobre os lábios, afastou o cabelo do rosto e sentiu o peito doer de saudades daquele rosto. Era sempre o mesmo homem, mesmo com rostos diferentes, mas agora podendo ouvir a TARDIS se desmaterializar sentiu que ainda assim os velhos tempos de quando ela era tão jovem faziam falta. Ela havia se acostumado com o rosto daquele que veio depois, contudo nada teria sido possível sem a vez do nono.
A garota saiu do beco e caminhou para a rua gritando em plenos pulmões “Doctor!”, a noite era escura e Rose ainda estava cambaleante pelo álcool, contudo a garrafa havia ficado para trás e não deveria mais voltar. Não foi surpresa quando o Doctor surgiu do outro lado da rua com um sorriso, ali em sua decima regeneração como havia começado a ser em algum momento. Ele estava na calçada e então Rose caminhou rapidamente até o meio da rua e então parou sorrindo para retirar os sapatos de salto alto que a impediam de correr, foi então que a garota viu a expressão assustada do Senhor do Tempo.
–Rose! – Ele gritou em plenos pulmões.
Rose apenas olhou para trás e então notou o carro em alta velocidade que surgiu do outro lado da rua. Ela sabia que o impacto viria, que tudo se perderia, que a vida seria cruel e que o destino seria inevitável. Sentiu que ela era só uma garota de programa, sem telefone e sem rumo presa em um sonho desde os dezenove anos. Sentiu que o nono a havia libertado antes que fosse tarde demais e que seria o decimo a segura-la no final. Ela não queria ir, mas era uma noite fria demais para que qualquer outra coisa fosse possível.
Fale com o autor