Tudo que Poderia ter Acontecido
33 A garota exemplar
Notas iniciais
Rose Tyler estava escondida no closet escuro, da casa de sua mãe, ao lado do Doctor. O espaço era grande o bastante para que respirassem, contudo pequeno demais para que seus corpos não se tocassem. Os dois estavam fugindo de toda a gritaria, caos e histeria do lado de fora, afinal toda a família estava reunida: Jackie Tyler, Pete, Tony, Evey e John. E quando todos se unem para uma viagem de carro quase sempre a consequência é o caos.
—Eles nunca vão parar de gritar? — Sussurrou Rose — Nunca?
—Sua mãe não tem essa habilidade — Disse o Doctor com um suspiro tocando na grande barriga de Rose, agora gravida pela terceira vez — Tem certeza que se sente bem para essa viagem?
—Quer que eu te deixe ir, sozinho, com a Jackie e as crianças? Vocês dois irão se matar!- Rose o encarava desafiadora. — E o retiro não pode acontecer sem mim, eu sou o propósito de entrarmos em um carro e viajarmos por quase dois dias para um local que nunca somos capazes de lembrar o nome.
—Sua falta de fé em mim é realmente muito…muito…injusta Rose! Eu me lembro do nome!- O Doctor suspirou. — É…Cana..Nutha..Ok! Eu não me lembro realmente do nome.
Rose começou a rir compulsivamente e o Doctor a acompanhou. Eles eram felizes e eram ainda mais felizes quando simplesmente se escondiam em closets, fugiam da própria família, dormiam ao lado das crianças e seguravam a mão um do outro. Mais uma vez Rose estava grávida, agora com sete meses, e ela sabia que uma gravidez era sempre um desafio, contudo se sentia feliz. Se sentia feliz por aumentar a família em mais um membro. John tem quase onze anos agora e Evey quase dez.
—Você nunca compreendeu a tradição do “retiro”, tem certeza que deseja ir pela terceira vez? — Rose disse tocando a própria barriga.
—Eu estive no retiro nas últimas duas vezes — O Doctor arqueou as sobrancelhas — Estarei novamente mesmo que agora isso inclua mais uma criança e Jack Harkness no carro.
—Jack Harkness? Chamou o Jack para o retiro familiar? — Rose abriu a boca perplexa e zangada — Jack foi imediatamente anexado assim que teve um encontro com o Tony? Eles não tem nada realmente sério!
O retiro havia sido uma das brilhantes ideias de Jackie Tyler quando estava grávida de Rose e depois de Tony. A tradição consistia em uma viagem de carro de um dia e meio rumo a uma cidade pacífica nas imediações de Londres, segundo uma superstição maluca de Jackie isso ajudaria a criança a nascer saudável e ser feliz por todos os anos que virão. Claro que o lugar tinha sua beleza, contudo Jackie não precisava realmente obrigar Rose a continuar a tradição e ainda assim o fez. Desse modo, mediante a obrigação inevitável, todas as vezes que Rose ficou grávida e completava sete meses precisava realizar o retiro junto aos familiares próximos a fim de prover condições quase místicas para que a crianças seja feliz. O retiro era divertido eventualmente, mas quase sempre terrivelmente barulhento.
Felizmente o retiro jamais havia sido entediante apenas para o Doctor. Todos os outros membros da família, com excessão de Jackie, concordavam quanto a monotonia mortal.
—Temos que sair daqui e aceitar a viagem — Garantiu o Doctor tocando na maçaneta do closet — Não vamos convencer a Jackie a usar a TARDIS não é mesmo?
—O um dia e meio de carro com a família conta como parte do “retiro”, ou eu deveria chamar isso de “tortura”? — Respondeu Rose ironicamente rindo levemente.
Ambos deixaram o closet derrotados pelos gritos de Jackie, desceram as escadas e encontraram todo o caos habitual de quando tantas pessoas se reuniam. Rose caminhou até o grande carro que abrigaria a família, se sentou no lugar do motorista e aguardou a família, afinal ela já havia desistido da batalha de trazer todos para o carro. Em algum momento, após longos minutos todos estavam dentro do grande carro azul.
O Doctor se sentou ao lado de Rose; Pete e Jackie logo atrás e nos últimos três outros lugares estavam Evey, Tony e John. Rose suspirou profundamente, perguntou se todos estavam prontos, ligou o carro e então notou que o Capitão Jack ainda não havia chegado e ele deveria ocupar o lugar ao lado de Pete e Jackie.
—Por que você nunca me deixa dirigir Rose? — Questionou o Doctor assim que a garota desligou o carro.
—Já viu como pilota a TARDIS? Eu não quero matar todos nós em um maldito acidente de transito — Respondeu Rose entre dentes com um leve sorriso. — Aqui na Terra deixamos mulheres dirigir.
—Posso dirigir caso não se sinta bem querida — Garantiu Pete.
—Eu ainda me lembro de como se dirige — Rose se virou na direção do próprio pai — Jack Harkness foi convidado para ir conosco.
—Convidaram mesmo o Jack? — Havia uma excessiva alegria na voz de Tony.
Rose arqueou a sobrancelha, abriu a garagem e retirou o carro. Assim que alcançaram a rua, logo em frente a casa, a garota se preparava para aguardar o Capitão Jack. Foi quando o líder da Torchwood se materializou. Rose suspirou aliviada, deixou o carro ligado, retirou o cinto de segurança, saiu do banco de motorista e caminhou rumo ao Capitão Jack Harkness.
—Rose! — Disse o capitão com alguma satisfação — Vejo que em breve teremos mais um Tyler.
—Se eles não me matarem nessa viagem antes — Disse Rose sorrindo — Vim até aqui te oferecer algumas instruções básicas de sobrevivência já que estaremos na presença de Jackie e do Doctor juntos e ao mesmo tempo.
—Tem certeza que eles deveriam dividir um carro por um dia e meio? — Questionou Jack encarando o carro e notando que Jackie e Doctor pareciam estar eufóricos por uma discussão.
—Não converse, não se intrometa nas discussões, não tome partido e diga “por favor fiquem calmos” a maior parte do tempo possível. Nunca diga nada no singular porque eles vão realmente acreditar que você tomou partido na discussão e bem…tente dormir ou usar fones de ouvido ou ignorar completamente…é o que as crianças fazem — Instruiu Rose finalmente caminhando, junto com o Jack, de volta para o carro e assim que abriu a porta acrescentou para o Capitão — E não se esqueça que precisará de remédios para dor de cabeça. Eu posso te dar algumas aspirinas se quiser.
O Doctor invisível e a garota Bad Wolf viram o carro partir. E o Doctor soube que aquilo era injusto porque era feliz, era cruel porque era melhor e era afinal uma punição terrivelmente exemplar. Uma punição exemplar para um homem que nunca foi bom. O Doctor invisível sentiu o peso da punição, o peso daquela dor exemplar que se apossou dentro dele por nunca poder ter toda aquela felicidade, toda aquela banalidade e toda aquela segurança gerada por uma família feliz. Em outra realidade ele teria embarcado em um mundo marcado por uma aventura que ele nunca pôde ter e agora ele sabe como teria sido. Haveria uma outra garota, que não a lobo mau, capaz de ser tão exemplar em mostrar as desgraças de sua existência como Senhor do Tempo? Haveria outra garota, exemplar o bastante, para puni-lo com o peso de dois corações? Ele, o Doctor que agora era julgado, queria honestamente que sua realidade não fosse verdadeira e sim que as imagens mostradas para ele como num filme fossem a única verdade possível. Porque isso bastaria. Isso seria exemplar.

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