Tudo que Poderia ter Acontecido
26 A garota em Gallifrey
Notas iniciais
Rory Willians ouvia agora pela terceira vez a explicação acerca da sobrevivência de Gallifrey, o Décimo Primeiro tentava demonstrar alguma calma na explanação. Honestamente ainda parecia difícil para Rose, Amy e o Décimo Doutor acreditar que Gallifrey jamais foi perdida e sim que havia sido salva em um universo de bolso permanecendo perdida e isolada de todo o universo. Aparentemente o Décimo Primeiro acabara de viver essa aventura de resgate de Gallifrey com Clara Oswald, já o Décimo Segundo viajava sozinho e parecia aceitar o fato de que jamais retornaria para o planeta perdido. Ainda assim estavam todos naquela terrível constelação, junto a uma galáxia que até então estava destruída. Rose Tyler sorriu por dentro, sorriu porque finalmente o Doctor não carregaria mais o fardo de ter destruído mais vidas do que se pode contar. Clara Oswald também auxiliou na impaciente explicação do Décimo Segundo Doctor, durante as duas primeiras vezes, contudo a garota parecia mais preocupada com algo que seria um dia interrompido. Rose compreendeu imediatamente que a Garota Impossível temia a morte, já que Clara fitava pesadamente o Décimo Segundo Doutor — um rosto completamente desconhecido ainda, mas que um seria a mais pura personificação do Doutor. Todos na TARDIS sabiam intimamente e quase de modo intuitivo que o Décimo Segundo havia perdido Clara recentemente, provavelmente a perdeu para a morte.
Rose segurava a própria barriga sabendo que agora o Décimo Doctor também via o futuro e que esse futuro não era composto por Rose Tyler. As três linhas temporais do Doutor gritavam que no fim ele sempre era o único a sobreviver.
***
A garota Bad Wolf e o Doctor invisíveis observavam em uma das extremidades da sala de controles da TARDIS. A nave estava claramente conturbada devido a presença das três linhas temporais distintas que dividiam o espaço: décimo, décimo primeiro e décimo segundo doutor. Rose Tyler bebia um suco enquanto conversava animadamente com Amy Pond e Rory Willians já Clara Oswald estava muito concentrada no telefone.
—O que descobriram garotos? – Perguntou Rose agora apreensiva.
—As três linhas temporais colidiram – Garantiu o Décimo Primeiro – Não vamos encontrar uma saída fácil para isso, temos apenas uma TARDIS e precisamos que seja uma nave para cada linha temporal, ou seja, precisamos que sejam três TARDIS. Cada uma correspondente a cada um de nossos momentos na linha do tempo.
—Se partirmos com apenas uma TARDIS metade do universo irá explodir – Assegurou o Décimo.
—Precisamos camuflar a TARDIS que possuímos porque quando encontrarmos o que precisamos para separar as linhas temporais devemos aplicar a tecnologia neste painel de controle – Havia tanta impaciência na voz do Décimo Segundo que Rose notou que ele de fato era um homem em continua transição – E então teremos novamente três TARDIS...
—E poderemos descobrir como chegamos aqui – Completou Clara.
—Não! – A voz do Décimo Doutor foi quase violenta – Iremos separar as TARDIS e sair desse planeta maldito antes que se torne impossível.
—Mas não deseja descobrir por que fomos trazidos até aqui? – Amy Pond questionou.
—Rose está grávida e prestes a ter esse filho, não vou coloca-la em risco pelo simples desejo de descoberta – Assegurou o Décimo Doutor finalmente abrindo a porta da TARDIS e todos se retiraram.
O local em que estavam era ligeiramente elevado e era possível ver a beleza alaranjada de Gallifrey. O Capitólio – centro político e de moradia dos Time Lord — as flores, as árvores feitas de prata e os dois sóis. Rose Tyler sentia que podia perder o fôlego a qualquer momento e o bebe estava agitado dentro dela, como se pedisse para ver aquela beleza perdida. A garota gostava daquela eterna sensação de pôr-do-sol, contudo a expressão do Doctor revelava uma total aversão a isso; todo o cenário de Gallifrey o incomodava profundamente.
—Do que precisamos para separar as TARDIS e sair daqui? – Questionou Rory Willians
—Finalmente alguém fez a pergunta certa – Disse o Décimo Segundo quase empolgado se aproximando de Rory e levantando o dedo indicador – Precisamos de três itens.
—Quais itens? – Pergutnou Amy animada.
—Ainda não concluímos quais – Respondeu o Décimo Primeiro olhando para os próprios pés e caminhando de um lado para o outro.
—Mas vocês já viveram isso – Disse Rose perplexa caminhando em direção ao Décimo Segundo e ao Décimo Primeiro – Basta usarem as memórias que possuem.
—Deveria ser novidade apenas para você – Garantiu Clara Oswald apontando para o Décimo Doctor.
—Não é exatamente assim que funciona – Assegurou o Décimo Doctor ainda contemplando a paisagem – O tempo costuma resolver todos os paradoxos, é uma anomalia ter três de nós aqui e agora.
—Exatamente por isso levaremos dessa jornada apenas aquilo que é mais importante, aquilo que não pode ser mudado – Completou o Décimo Primeiro.
—Felizmente para mim – Começou o Decimo Segundo – Que estou no final dessa linha do tempo, quando tudo isso acabar, poderei ter a lembrança de cada coisa que fizemos. Finalmente haverá um conjunto.
—Enfim...vocês simplesmente não se lembram do que precisam? – Rory parecia decepcionado.
—Não – Rebateu o Décimo Primeiro – Porque haverá alguém para nos dizer, exatamente por isso não precisamos nos lembrar.
—Quem? – Perguntou Rose.
—Deve estar prestes a chegar – O Decimo Segundo parecia um pouco ansioso.
O Décimo Primeiro Doctor se aproximou de Rose e a abraçou com delicadeza tocando na barriga dela. Ele estava nostálgico, já o Décimo Segundo a encarou com certa dor por um instante antes de caminhar em direção a Clara Oswald e a abraçar com hesitação. Foi então que Rose Tyler compreendeu que aquela décima segunda regeneração não aprecia abraços, mas que diferentemente a todas as expectativas abraçava Clara com o olhar de um homem que sente saudades. Provavelmente a Garota Impossível iria morrer em algum momento do futuro e ele, agora viajante solitário, ainda sentia falta dela.
O momento era esse quando uma luz repentina se fez ao lado deles e uma mulher vestida de púrpura surgiu segurando Donna Noble pela cintura e com um dispositivo apontado para o pescoço dela. O Doctor invisível a reconheceu imediatamente: Missy. Aparentemente as coisas não estavam ruins o suficiente, sempre podiam piorar.
—Donna! – Rose quase gritou dando um passo para frente antes de receber um olhar de censura por parte da desconhecida.
—Pelo amor de Deus – O Décimo Segundo Doctor estava irritado – Pare com isso Missy.
—Missy? – Perguntou o Décimo com uma careta – Quem é Missy?
—Não me lembro de nenhuma Missy – Assegurou o Decimo Primeiro.
—Oh vejo que seu bichinho de estimação está viva aqui, que sorte tê-la reencontrado com sua regeneração anterior – Disse Missy se referindo claramente a Clara Oswald mas limitando a conversa com o Décimo Segundo Doctor – Diga a eles quem sou querido.
—Eu vou morrer? – Clara olhava para o Décimo Segundo Doutor.
—É o Mestre – O Decimo Segundo estava desesperado para fugir logo do assunto referente a morte de Clara Oswald – Se regenerou como mulher e agora se chama Missy.
—Mestre – Rose Tyler sabia a ameaça que ele havia representado na Terra sob o nome de Saxon. – Ele sobreviveu.
—Ela – Garantiu Missy finalmente libertando Donna que estava claramente furiosa – Há uma coisa querida que precisa compreender sobre mim e o seu Doutor: nós sempre voltamos um para o outro. Sempre sobrevivemos. Sempre estaremos acima de qualquer coisa humana.
—Deixe-a em paz – O Decimo Primeiro entrou na frente de Rose Tyler. – Diga o que deseja.
—Salva-lo é claro – Missy estava simulando ofensa com a pergunta – Vou tira-los daqui e como prova da minha boa vontade trouxe Donna Noble.
—Minha presença aqui prova sua insanidade e não seu desejo de ajudar! – O tom enfático de Donna Noble estava de volta.
—Precisamos de três objetos em três lugares diferentes e para isso precisamos de três times – Respondeu Missy irritada arqueando a sobrancelha e caminhando cambaleante em círculos.
—A trouxe para Gallifrey para todos os times terem a mesma quantidade de pessoas? – Clara questionou estreitando os olhos – Você é louca.
—Mais respeito bichinho – Missy apontou o dispositivo que carregava para Clara.
—Parem! – Foi Amélia Pond aquela a gritar. – Vamos separar a droga desses times e sair desse lugar antes que seja tarde demais!
O Décimo Doctor abriu a boca prestes a falar e então a fechou novamente notando que talvez o silêncio fosse uma atividade muito mais sábia. Rose Tyler segurou a mão dele e Donna Noble se colocou também ao lado esquerdo do Décimo Doutor – aparentemente o primeiro time havia se formado. Amy Pond deu as mãos a Rory Willians percebendo com surpresa que o Décimo Primeiro assentia para Clara Oswald se juntar ao Decimo Segundo – aparentemente o outro time seria composto por Rory, Amy e o Décimo Primeiro Doutor enquanto que o último time seria aquele formado por Clara Oswald, Missy e o Décimo Segundo Doutor.
—Agora que formamos os times – Começou Rose olhando para Missy – O que devemos procurar e onde?
—Antes... – Começou o décimo Doutor – Como podemos confiar em você Missy? Por que está fazendo isso?
—Pode confiar em mim porque suas próximas regenerações se lembram de deixar Gallifrey em segurança, logo mesmo que o tempo possa ser reescrito caso um dos times falharem é evidente que se não houver falhas estou indicando o caminho correto – Missy disse cada palavra pausadamente com sua estranha voz – Estou fazendo isso porque sei os motivos que fizeram os Senhores do Tempo se esforçarem para ter você aqui Doutor e quero salva-lo. Se não fugirmos eles não tirarão sua vida e sim sua sanidade.
—Devemos confiar nela – Assegurou o Decimo Primeiro.
—Há três dispositivos temporais muito raros, difíceis de serem encontrados e que foram devidamente escondidos para evitar que avarias temporais sejam corrigidas facilmente – Começou Missy – Esses dispositivos quando conectados a TARDIS irão separar as linhas temporais e proporcionar uma saída segura de Gallifrey.
—Onde se localizam? – Questionou Clara.
—No Capitólio – Começou Missy apontando para a Cidadela dos Time Lords – Onde o alto concelho se reúne.
—Será a minha missão – Interrompeu o Décimo Doctor –Entrarei na sala do alto concelho e pegarei o dispositivo. Em seguida teremos de deixar o local...
—Felizmente eu tenho isso – Disse Missy entregando para o Decimo Doutor e o Décimo Primeiro um manipulador de vortex temporal – Ele não consegue nos tirar de Gallifrey, esses dispositivos não funcionam aqui.
—Mas ele pode permitir nossa locomoção dentro dos limites de Gallifrey – Deduziu Rose recebendo um olhar de aprovação do Doctor.
—Exatamente – Completou o Decimo Segundo – Assim que completarmos nossas missões nos reunimos aqui, todos têm de ser rápidos. Na Sala do Alto Concelho nenhum manipulador de vortex funciona, mas vocês serão capazes de se materializarem na Cidadela, poderão se infiltrar e depois sair utilizando o manipulador quando deixarem a sala principal.
—O segundo local é chamado de Zona da Morte – Explicou Missy – Está para além dos limites da Cidadela, mas é um dos locais mais aterrorizantes de Gallifrey.
—Será minha missão – Pronunciou o Decimo Primeiro recebendo uma confirmação de Amy e Rory – Encontraremos o dispositivo e voltaremos aqui.
—O terceiro local – Assegurou Missy com a expressão sombria – É a Casa das Sombras onde os Senhores do Tempo que tiveram problemas em uma de suas regenerações são condenados a permanecer.
—Talvez você devesse estar lá – Assinalou Donna de mal humor.
—Tudo bem! – O Décimo Doutor usou seu tom de liderança – Todos nós conhecemos a aparência de um dispositivo temporal então vamos encontrar e retornar.
—Esperem! – Pediu Rose quando O décimo primeiro, Missy e o Décimo Doctor já ajustavam o manipulador de vortex prestes a partirem – Por que os Senhores do Tempo nos trouxeram até aqui? Por que ainda não vieram nos buscar se foram os responsáveis?
—Eles pretendiam trazer apenas um de nós – Assegurou o Décimo Segundo Doutor – Apenas minha décima regeneração e Rose Tyler, mas algo deu errado com o dispositivo de captura, acabou assim por misturar nossas linhas do tempo e nos trouxe aqui cerca de nove meses depois que nossa presença foi requisitada. Estamos muito atrasados para os Senhores do Tempo ainda estarem em alerta, apenas acreditam que falharam.
—Podemos sair daqui com poucos danos – Afirmou o Décimo Doutor.
—Há coisas que acontecerão aqui; que para mim já aconteceram aqui – Corrigiu o Décimo Primeiro com a voz melancólica e pausada – Que não podem ser desfeitas.
—Um ponto fixo será criado nessa jornada para você – Garantiu o Decimo Segundo franzindo as sobrancelhas e usando seu tom sombrio fitando mesmo que a distância sua décima regeneração – Um ponto fixo que precisa ser aceito e que não pode ser revertido. Algo que cumpre um destino e não pode ser evitado.
—Aceitem esse destino – Pediu Clara Oswald.
O time composto pelo Décimo Segundo, Clara e Missy foram os primeiros a se desmaterializarem com o manipulador de vortex. Em seguida Amy, Rory e o Décimo Primeiro partiram e por último o Décimo Doctor usou o manipulador escrevendo as coordenadas para a Cidadela que, um dia, tanto conhecera. Rose Tyler olhou em direção a TARDIS agora invisível e camuflada com o temor latente de que Gallifrey fosse também sua última parada, seu lugar final e o destino de seu descanso eterno. Temeu que o lar pelo qual o Doctor fugiu todos aqueles anos fosse também o lar que a tiraria para sempre daquele que deveria ter continuado como o Último dos Senhores do Tempo.
Fale com o autor