Tudo que Poderia ter Acontecido
45 A garota depois da escuridão perante a quarta onda
Notas iniciais

A verdade pode ser intrigante. Pode dar algum trabalho lidar com ela. Pode ser contra-intuitiva. Ela pode contradizer preconceitos profundamente enraizados. Pode não se coadunar com o que queremos desesperadamente que seja verdade. Mas nossas preferências não determinam o que é verdade.
(Carl Sagan)
A garota tinha olhos e cabelos castanhos. Vestia roupas negras que definiam perfeitamente seu corpo, tinha um colete também negro em que algumas armas poderiam ser avistadas e usava botas de salto médio. Havia algo familiar e ao mesmo tempo estranho e distante no rosto daquela jovem mulher, ela era forte e determinada contudo parecia estranhamente perdida. Como alguém que não possui absolutamente nada a perder.
Ao menos esses foram os pensamentos do Doctor ao encarar a filha crescida mais de vinte anos depois de perde-la.
—Susan…Nêmesis — Começou o Doctor ainda imóvel — O que está fazendo?
—Estou apenas começando — Garantiu ela se aproximando do Doctor e ficando apenas há alguns centímetros dele — Me diga…você ainda escuta o som dos tambores?
O Doctor havia começado a ouvir uma batida continua dos tambores no dia em que perdeu Susan. Quando deixaram Gallifrey levando apenas Evey de volta para casa ele se lembrava de começar a ouvir a batida singular e única de um tambor, contudo ele afastou esse pensamento, prendeu essas ideias em uma porta e escolheu ignorar o som.
—Ainda está aqui, está aqui desde o dia em que você foi tirada de nós — Garantiu o Doctor em voz baixa cauteloso em relação a garota e tocando a própria cabeça.
—Imagino que saiba o que significa — Assegurou Susan sorrindo levemente.
—É uma maneira dos senhores do tempo me conectarem a você e especialmente a Gallifrey…um caminho de volta para você caso um dia fosse enviada de volta — O Doctor se esforçava imensamente para conceber essa resposta.
—É difícil para você responder essa pergunta porque apenas sua Décima Segunda regeneração terá plena noção de todos os fatos que ocorreram nas três linhas temporais — Explicou Nêmesis recebendo um leve assentir por parte do Doctor.
—Você voltou, voltou depois de todos esses anos — Disse o Doctor ainda perplexo.
—Esse é o problema Doutor, eu voltei — Assegurou Nêmesis caminhando na direção ao Senhor do Tempo — Porque agora…agora os tambores irão bater quatro vezes.
—O que está falando? Eu não sou o Mestre — Assegurou o Doctor agora a encarando preocupado.
—Você o derrotou, mas a ideia sobre os tambores continuou com todos os senhores do tempo; por isso eles colaram o barulho de um tambor na sua mente simplesmente para que eu pudesse ser trazida de volta — Garantiu Nêmesis como se suas palavras fossem óbvias.
—Não..não… — O Doctor começou a sussurrar agora olhando perplexo para Nêmesis.
—Você ouve agora o som de quatro tambores porque você acabou de perder seus outros três filhos — Garantiu Nêmesis com um dissimulado olhar de culpa
— Creio que seja minha responsabilidade.
—Por que meus filhos? Por que está fazendo isso? — O Doctor tinha a testa franzida e a perplexidade evidente.
—Você não entendeu Doutor? — Nêmesis sorriu e então começou a gargalhar.
O Doctor agora ouvia o barulho de quatro batidas, o barulho de quatro coisas tomadas, o barulho de quatro pessoas perdidas. Ouvia o som que ele próprio havia trazido de volta para sua mente quando Susan mencionara. Aquele barulho denunciava que tudo já poderia estar perdido para sempre, que seus outros três filhos poderiam ter sido tomados da pior maneira possível. O Senhor do Tempo agarrou violentamente o braço de Nêmesis que em retribuição apenas segurou a lapela do terno do Doctor com força.
—Por que?! — O Doutor agora gritava.
—Você irá para a Proclamação das Sombras e eles te julgarão perante todo o universo pelos seus pecados. Infelizmente, seus pecados eram muito escassos, para uma condenação permanente, até poucos dias atrás…os pecados de um Senhor do Tempo conhecido como Doutor que percorre o universo salvando os oprimidos, os fracos e os doentes — Começou Nêmesis como quem conta uma história extremamente chata — Mas imagine que grande virada seria se agora eles não julgassem mais um Senhor do Tempo que tenta ser bom e sim julgassem um Senhor do Tempo que não possui regras ou limites? O que eles fariam com um indivíduo que tenta trazer os mortos de volta a vida? O que fariam perante a imagem de alguém que ao invés de salvar planetas apenas interviu tão impetuosamente que acabou por destrui-los nas mãos de pessoas injustas? O que eles fariam com toda essa salvação que se tornou caos? Com um Senhor do Tempo capaz das piores loucuras, das maiores violências?
O Doctor imediatamente soltou a filha notando que os braços da garota estavam sendo cruelmente segurados. Ainda assim Nêmesis nem mesmo piscou, apenas se aproximou mais um pouco e pousou uma das mãos no rosto do pai mordendo os lábios.
—Isso não seria o bastante para que a Proclamação das Sombras e todos outros me condenassem — O Doctor tinha a voz cheia de segurança e raiva.
—E se descobrissem que esse Senhor do Tempo conhecido apenas como o Doutor fora capaz de condenar a própria esposa a morte? E se ele foi capaz de matar uma de suas filhas e condenou os outros três filhos a um destino cheio de violência? Imagine o que fariam com um Senhor do Tempo avariado que ouve o som de tambores e se torna cada vez mais imparável? — Questionou Nêmesis primeiramente séria e depois sorrindo — Acha que sobreviverá quando todo o universo se voltar contra você?
—Isso não é verdade, você fabricou provas contra mim…você criou esse plano para que todos acreditassem que não há limites para o que eu possa fazer! Para que acreditassem que não há limites para o meu poder!- O Doctor tinha agora muita raiva e cada sílaba evidenciava isso — Você forjou sua morte, você capturou e provavelmente matou seus irmãos…você arquitetou a morte de Rose Tyler. Você fez tudo isso acontecer, você me fez um vilão perante o universo.
—Ainda que não seja culpado por matar a mim ou a minha mãe ou aos meus irmãos…você tem outros débitos — Assegurou Susan como em um lembrete — O mais insolente entre todos os senhores do tempo…é hora do universo puni-lo.
—Meu julgamento não é esse Nêmesis! Meu julgamento é perante os Senhores do Tempo, perante todo o universo e perante todos os tempos! — O Doctor estava cheio de raiva.
—Doutor…a Proclamação das Sombras já o julgou, você já foi condenado! Você caminha rumo à sua condenado, condenado à Caixa de Pássaros — Explicou Nemesis ainda sorrindo, mas finalmente se afastando do Senhor do Tempo. — Você não verá o suficiente do universo para ser julgado por todo o tempo e espaço.
—Eu não irei até a proclamação das sombras para que possam me condenar — Assegurou o Doctor.
—Se você não ir até a proclamação das sombras todos os seus amigos serão capturados e provavelmente também torturados pelos judons. Seus amigos pagarão pela sua covardia — Garantiu Nêmesis ainda cheia de impetuosidade.
—Por que? — Dessa vez o Doctor não estava gritando, apenas perguntava com os olhos cheios de tristeza e ressaca.
—Porque eu também ouvi os tambores durante toda a minha vida e porque eu não tenho nada a perder — Assegurou Nêmesis se aproximando do Doctor e beijando sua face de modo provocativo antes de desaparecer com o manipulador de vórtice.
Nêmesis desapareceu e o Doctor imediatamente em choque adentrou a TARDIS. Ficou em silêncio por algum tempo ainda imóvel pela perplexidade do retorno da filha e pela raiva perante o plano que havia sido concebido enquanto ele mesmo estava muito preocupado com a dor do luto e com as aventuras triviais ao lado de Donna Noble. Ele poderia ter evitado, mas agora era tarde demais porque o Doctor teria de caminhar rumo à Proclamação das Sombras para que seus amigos não fossem condenados e ainda restariam seus filhos perdidos para serem resgatados. Como ele poderia fazer isso? Como um Senhor do Tempo poderia enganar o tempo? Como todos seriam resgatados? Ele ainda não sabia, mas precisava pensar em uma resposta antes que fosse tarde demais.
Sentia intensamente o vazio dentro de si mesmo. Sentia a ausência de Rose Tyler porque agora compreendia mais do que nunca que havia acabado, compreendia a dimensão do espaço vazio que ela deixara e sentia mais do que antes aquela necessidade do isolamento, queria mais do que nunca virar as costas para o universo e ignorar todo o resto porque era muito tarde, muito difícil, muito injusto. Ele quis todas essas coisas, mas sabia que não poderia. Sabia que tinha uma dívida com os amigos, um dever com os filhos.Ninguém deveria ser condenado além de ele próprio.
O Senhor do Tempo usou o painel de controle para enviar uma mensagem para todos os amigos pedindo que se encontrassem em duas horas na base de Torchwood, também pediu para que tentassem localizar John, Evey e Gabrielle, afinal poderia não ser tarde demais. Era uma esperança vã.
Agora o Doctor sabia exatamente para onde deveria ir, já tinha seu próximo destino em mente. Ele pegou no bolso do sobretudo a foto que havia sido deixada pelo emissário misterioso de Rose Tyler meses antes. Aquele mesmo recado que dizia para ele voltar ao princípio e o Senhor do Tempo o fez, o fez na esperança de que começando novamente talvez encontrasse algo que não fora visto, algo que havia sido perdido com o soar dos tambores. A TARDIS se materializou naquela noite londrina comum na qual Rose Tyler derrotou ao lado do Doctor as criaturas de plástico, mas dessa vez enquanto sua outra versão vivia essa aventura ele iria apenas ficar para apreciar a roda gigante.
O Doctor se sentou perante a roda gigante, perante aqueles que a observavam e a encarou com igual atenção, tentou através daquele circulo compreender para onde ele estava caminhando e onde iria acabar. Ele não sabia ainda e temeu que aquela desolação dentro de si nunca fosse embora. O Senhor do Tempo após algum tempo, após olhar toda a beleza daquelas vidas humanas comuns apenas se colocou de pé e andava distraído em meio ao cenário quando sentiu algo bater fortemente em suas pernas.
Havia sido uma pequena garota ruiva segurando um saco com pipocas enquanto corria e havia batido no homem de sobretudo. O Doctor imediatamente se abaixou ajudando a garota; ele havia aprendido a gostar muito de crianças.
—Você está bem? — Questionou o Doctor segurando os ombros da menina que tinha cerca de treze anos.
—Sim — Afirmou ela olhando um tanto quanto preocupada para o Doctor.
—Qual o seu nome? — O Doctor estava ainda preocupada com a garota.
—Amélia..Amélia Pond — A expressão do Doctor imediatamente se transformou, ele não podia acreditar que suas viagens no tempo poderiam ser tão perigosas.
—Eu preciso ir Amélia Pond — Garantiu o Doctor agora se colocando de pé e seguindo o próprio caminho rapidamente.
—Espere! — Pediu a garota correndo atrás dele — Eu tenho algo para você!
O Doctor se virou, a garota segurava uma caixa de tamanho médio e a balançava como se fosse algo verdadeiramente importante. O Doctor se aproximou curioso mediante os olhos cheios de aventuras e sonhos de Amy.
—Por que você teria algo para me entregar? — Questionou o Doctor ainda com a testa franzida.
—Quando eu tinha dez anos de idade uma mulher loira veio até mim…ela disse que eu deveria deixar quatro itens na frente de uma cabine azul de polícia. Ela me entregou as datas, os lugares e os itens e me pediu para deixar cada um dos pacotes nesta cabine porque um dia eu compreenderia — Assegurou Amy Pond com a voz cheia de segurança — Disse que chegaria um dia no qual não teria mais que esperar.
—Qual era o nome dessa garota? — Questionou o Doctor finalmente segurando o pacote.
—Ela me disse que o universo a conhecia como Lobo Mal…mas que ela era apenas Rose — Explicou Amy com a voz cheia de hesitação — Ela disse que um dia você deveria saber que sou eu…mas não deveria ser tão cedo.
—Foi cedo para você, mas não foi cedo para mim — Assegurou o Doctor com um sorriso — Obrigada Amy Pond, obrigada e continue esperando porque valerá a pena.
Amélia Pond assentiu e o Senhor do Tempo apenas se virou retornando para a TARDIS. Havia sido Amy todo o tempo e ela ainda esperava, continuaria esperando por muito tempo? Ele ainda não sabia que em meio ao seu pior momento havia encontrado também sua maior esperança, aquele velho Senhor do Tempo não desconfiava que havia estado diante daquela que o salvaria.
Por um instante aquilo foi tudo. A tristeza, a depressão, o vazio e a incerteza.
Aquela fora a quarta onda, era tempo de conhecer a quinta.
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