Tudo por causa do Luigi
3 A jaqueta estragada
– Acorda! — levantei assustada com o grito, minha cabeça deu um 360 graus mas fora isso eu estava bem, só não garantiria que Louis ficaria.
– Ficou louco? — gritei olhando para o rapaz que não tinha uma expressão agradável.
– Eu não, só quero saber o que raios aconteceu com minha jaqueta — ele apontou para a jaqueta que estava jogada ao pé da minha cama juntamente ao pijama sujo.
Ops...
– Eu posso explicar — me levantei colocando as minhas mãos em sinal de rendição — Luigi fugiu fui atrás dele e acabei parando em um monte de lama com porcos. — é impressão minha ou isso parece mais nojento agora?
– Tia Anna não tem porcos — falou Louis cruzando os braços ainda não convencido. Olhei para o lado sussurrando mais para mim do que para o meu irmão:
– O vizinho tem... — Louis começou a rir alto do nada me fazendo dar um pulo com um susto.
– Então você foi na fazenda dos Hanks? Tia Anna surtaria se soubesse. — e assim ele continuou sendo uma hiena pelos próximos 5 minutos quando se engasgou com a própria saliva e parou de rir.
– É por isso que ela nem deve saber, assim como a mamãe da filha da melhor amiga dela e um certo alguém, hein meu querido irmão? — ameacei com um sorriso cínico no rosto. Louis parou de rir me lançando um último olhar antes de sair.
– Eu só quero minha jaqueta novinha em folha — disse ele do corredor. Acenei para a porta antes de me jogar na cama e voltar a dormir.
...
Agora era a hora do almoço e parecia que não era só a galinha do ensopado que havia morrido. Todos os presentes na mesa estavam calados quase em um clima fúnebre que estava deixando meu estômago revirado.
– Amélia — me chamou tia Anna.
– Quem morreu? — foi minha resposta imediata, só depois de ela me olhar com uma expressão confusa foi que me dei conta do que havia falado. — desculpe. Senhora tia?
– Seus pais ligaram — eu e Louis nos entreolhamos. — parece que vocês realmente terão de ficar aqui.
– Tanto faz — dei uma colherada na comida, e então lembrei de algo — Peraí e a escola?
– Vocês vão estudar na cidade. — depois disso ninguém mais se pronunciou até o final do almoço.
...
– Por que acha que mamãe e papai deixaram nós ficarmos aqui? — questionei a Louis enquanto estendia meu pijama no varal, Louis estava sentado em uma cadeira ali perto enquanto lia um livro. Ele deu de ombros.
– Sei lá, quem sabe o que se passa na cabeça daqueles dois. — terminei de estender o meu pijama, enxugando minhas mãos na blusa. Louis me olhou — o que a tia disse sobre o pijama?
– Nada, ela não viu.
– Hum. — voltou sua atenção para o livro novamente — e a minha jaqueta? — não sei se eu devo citar que eu comecei a suar frio, mas eu comecei e não só isso comecei a tremer também. Louis percebeu isso e desviou o olhar das páginas para mim.
Sabe aquela frase de que todo mundo tem o gêmeo que merece? Sim, aquele filme também vale. Pois bem, eu realmente não sei o que eu fiz ou que irei fazer para merecer Louis. Bem, ele não é meu gêmeo, na verdade, ele é um ano mais velho, mas podemos dizer que em uma coisa somos bem parecidos, o temperamento ruim, e o de Louis é muito pior que o meu, e...
– Amélia, e a minha jaqueta?
"Droga nem ficar em devaneios eu posso?"
Quando finalmente voltei a mim vi que Louis já tinha deixado o livro da cadeira e estava em pé caminhando lentamente na minha direção.
– Sua jaqueta? — me fiz de desentendida.
– Sim
– Aquela que estava no quarto?
– Sim
– Ah — dei uma risada nervosa — você sabe que eu não sou muito boa com tarefas domésticas. — ele parou a alguns metros cruzando os braços com uma cara de "sei".- e aí eu estava tentando lavar meu pijama e a sua jaqueta, mas a mancha da sua jaqueta não saía então eu comecei a colocar aqueles troços da titia para lavar roupas. — continuei, ele voltou a andar, a cada passo que ele dava para frente eu dava três para trás — e a sua jaqueta ficou uma droga, então eu a joguei fora antes que a tia Anna visse.
– Você o quê? — ele gritou, a essa altura eu já estava pronta para dar uma de Bolt e alcançar não sei quantos metros em poucos segundos.
– Desculpa, maninho. Se quiser eu te compro outra — nunca estive frente a frente com um assassino prestes a matar alguém, mas eu acho que essa expressão homicida no rosto de Louis não é porque ele gostou da ideia.
– Amélia — ele fechou os olhos possivelmente contando até 10 mentalmente — você sabia o quanto eu gostava daquela jaqueta? Pedir desculpas não vai adiantar. — falou com os dentes cerrados e em seguida abriu os olhos, suas íris claras direcionadas a mim.
– Que tal meus pêsames? — falei com um sorriso forçado.
– Eu vou te pegar sua pirralha — gritou Louis começando a correr atrás de mim.
Acho que vou me inscrever para as próximas olimpíadas na modalidade de corrida. Sério, desde que me entendo por gente eu tenho que correr, seja atrás do Luigi, atrás do ônibus da escola que sempre parecia esquecer de mim, seja fazendo uma competição silênciosa com o carteiro enquanto os cachorros da rua nos perseguiam e etc. Mas sem dúvidas de quem mais eu corria era do Louis principalmente quando eu quebrava ou estragava algum brinquedo dele — o que sempre ocorreu com uma frequência incrível — ele me perseguia e quando conseguia me alcançar sempre eu chegava na hora do jantar com algum hematoma ou com alguma coisa constrangedora que me faria pensar seriamente sobre nunca mais ir para a escola, tipo a vez que ele me derrubou no pátio da escola na frente de alunos de todas as séries. É, ele tem um espírito vingativo, mas é um bom homem só que é uma pena isso ser uma coisa muito difícil de se acreditar quando ele está lhe perseguindo com uma pá tirada sabe se lá de onde enquanto grita os palavrões desde os mais conhecidos até os não catalogados, para ele vale também até os em lingua estrangeira.
– Amélia, que as fúrias vão atrás de você! — e mais um xingamento para a lista dos que não fiz a miníma questão de contar ou memorizar e muito menos entender, afinal o que raios são fúrias? Acho que vi isso em um filme.
Já estava cansada de correr e toda vez que eu olhava para trás encontrava um par de olhos azuis me olhando ainda com tanta raiva que se colocasse uma vaca na frente deles sairia um bife bem passado. Continuei correndo embora meu fôlego estivesse na estratosfera e mais uma vez olhei para trás. Louis continuava correndo e não dava pinta de que iria parar tão cedo, mas algo diferente aconteceu.
Louis tropeçou em algo que não reconheci de imediato até escutar um miado.
– Luigi? — parei de correr e observei a cena. Louis havia tropeçado em Luigi e caiu, Luigi depois de ter feito Louis tropeçar miou e saiu dali só após arranhar a perna de Louis.
– Gato do mal — resmungou Louis se levantando e tirando a terra da bermuda. Ele se virou para ir embora, mas parou virando para mim e apontando o dedo indicador de maneira ameaçadora. — e quanto a você, isso não termina aqui. — e foi embora.
Em um primeiro momento eu engoli em seco tendo em vista o que eu já passei pelas mãos dele nesses meus 16 anos de existência, mas logo depois comecei a rir sozinha imaginando a cena em uma versão meio " exterminador do futuro ".
– Está tudo bem Amélia? — questionou tia Anna que passava por ali.
– Está tia — falei ainda rindo. Senti alguma coisa na minha perna baixei meu olhar e vi Luigi. O peguei no colo acariciando levemente os pêlos de sua cabeça. — tudo isso é por sua culpa sua não é? — cutuquei o focinho dele com o dedo indicador.
– Miau.
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