Tudo o que se quer
8 Capítulo 8 - Levemente alterada
Notas iniciais
– Eu posso entrar? — perguntou Arthur com os olhos queimando com um brilho escuro que eu não conseguia compreender.
Apesar no nosso beijo e do desejo forte que senti por ele, — sim, eu senti — naquele momento não conseguia pensar em nada além da cena de Robin e Marian que martelava em minha cabeça e fazia um caminho perfeito até chegar ao meu coração para então perfurá-lo sem piedade. Naquele momento, nem a sede de vingança era maior que o vazio que começava a retornar ao meu peito.
– Melhor não. Preciso ficar sozinha. — não o olhei nos olhos ao responder.
– Tudo bem. — senti sua mão tocar meu queixo, obrigando-me a encará-lo. — Sabe que quando precisar, estarei do outro lado da rua. — ele completou, tomando-me em seus braços para mais um beijo cheio de luxúria.
Eu não revidei, mas também não correspondi como na primeira vez, eu estava inerte, sentia-me como uma marionete.
Arthur se foi, eu subi as escadas e me encaminhei ao quarto de Henry, ele estava adormecido, com um livro sobre o tronco. Entrei, guardei o livro e ajeitei suas cobertas lhe dando um beijo de boa noite. Senti uma lágrima solitária escorrer por minha bochecha.
– Ainda bem que eu tenho você, meu amor. — sussurrei e saí de lá indo direto para o meu quarto.
Logo recorri a um banho daqueles que deixam o ambiente tomado pelo vapor, onde as lágrimas não poderiam ser vistas ou sentidas. Tudo o que eu quis naquele momento foi desparecer ou simplesmente cortar Robin Hood da minha memória.
Ele fez a pior coisa que se pode fazer a alguém: deu-me esperanças e depois acabou com todas elas.
A possibilidade de uma palavrinha de quatro letras havia arruinado todas as minhas barreiras, mas agora, elas seriam reerguidas definitivamente , no que dependesse de mim.
***
Passaram-se seis semanas, mas foi como se tivessem se passado seis décadas para mim. Os ponteiros do relógio pareciam ter preguiça de percorrer sua circunferência. Minhas noites era intermináveis e arrastadas por terríveis pesadelos, aliás, o que havia de mais terrível neles era eu. Robin não apareceu mais. Sua traição e seu sumiço haviam levado qualquer empatia ou alegria que eu fui capaz de sentir. Passei a reparar no quanto estava amarga com o passar dos dias e isso não me incomodava nenhum pouco.
Meu próprio filho preferiu passar seu período de férias num passeio com Swan, o que me deixou ainda mais chateada e irritada. Agora restava nada menos que uma casa vazia que retornava os ecos de minha frustração.
Resolvi que trabalhar mais e mais no fim de semana não era a melhor opção, então resolvi fazer o que qualquer pessoa já teria feito. Beber.
Minha adega, modéstia a parte, era admirável, com os melhores vinhos, champanhes, whiskys e claro, minha magnífica cidra de maçã. Peguei as melhores garrafas e uma taça grande antes de ligar o antigo aparelho de som que eu não me lembrava de quando havia comprado. Tive algumas dificuldades técnicas, mas em fim sintonizei em alguma espécie de estação onde era reproduzida uma música vibrante.
Não sei quanto tempo devia ter durado a primeira garrafa de vinho, mas quando notei ela já estava na metade. Olhei bem para o rótulo e notei que aquela era exatamente a garrafa que Arthur me dera de presente na primeira semana depois do "acontecido".
Fazer o nome Dele soar mesmo que apenas em minha mente não era exatamente suportável.
Ri alto, um tanto histérica, virando a garrafa na boca, tudo o que eu queria era acabar com cada gota dela. Aumentei a música e tirei meu casaco. O som era extremamente alegre e contagiante, comecei a dançar no ritmo.
A garrafa já estava no fim, minha cabeça dava voltas e voltas, e assim que tomei a última gota apenas um homem vinha à minha cabeça.
Arthur.
Apanhei a garrafa de whisky e cambaleei até o outro lado da rua. Bati à porta dele.
O moreno de olhos azuis já estava com um sorriso malicioso nos lábios ao me atender e me puxar pela mão.
– Já faz alguns dias que a espero, Regina. — ele disse acariciando meus cabelos.
– É? — ri — Eu estava muito ocupada, você sabe... Sou a prefeita e tenho que colocar as coisas em ordem. — disse traçando os lábios dele com a ponta de minha unha do dedo mindinho, dei um gole na bebida.
– Mandar um bando de crianças órfãs choronas para um reformatório longe de Storybrooke, tirar o emprego de Mary Margaret, aumentar os impostos, mandar prender um anão bêbado e manter seu filho de castigo pelo maior tempo que conseguiu deve ter lhe dado muito trabalho mesmo. — ele disse e nós dois rimos juntos.
– Você estava listando? Anão? — perguntei perdida e sentindo tudo girar ao meu redor enquanto os braços fortes de Arthur envolviam-me.
– Você me deixa fascinado. — ele sussurrou passando provocantemente a língua por toda extensão de meu pescoço.
Senti meu corpo se ascender naquele minuto. Olhei nos olhos de Arthur e tudo o que eu queria era me aprofundar na escuridão que havia neles. Entrelacei os dedos em seus cabelos e puxei sua boca para a minha enquanto ele se apressava em desabotoar minha blusa de seda.
– Nós nem va... vamos — minhas palavras já saiam emboladas e arrastadas, minha cabeça estava pesada, mas o desejo que se instalou em mim era forte. Eu queria aquilo. — para o quarto?
– Quem precisa de uma cama quando se tem um sofá? — dizendo isso ele me empurrou para o estofado vermelho e macio e quando percebi, o homem já havia se livrado de minha saia marinho.
Arthur atacou meu pescoço com avidez, senti uma mordida e soltei um grito alto, mas não queria que ele parasse. Inclinei a cabeça com a intensão de dar-lhe mais espaço e suas mãos deslizaram pelo meu corpo com habilidade, até chegarem em minhas coxas.
Eu queria Arthur.
Eu não queria Arthur.
Algo me fazia querer Arthur.
Eu estava muito confusa.
Ouvi um baque forte na porta.
– Não toque nela, seu desgraçado! — aquela voz eu conhecia muito bem.
Robin irrompeu porta a dentro e tudo aconteceu tão rápido que só percebi que Arthur já não estava sobre mim quando o barulho de uma mesa de centro estilhaçada estrondou.
Minha cabeça não funcionava da maneira como deveria, de modo que eu estava extremamente lenta. Levantei-me do sofá e vi os dois homens rolando no chão. Alguém estava apanhando muito mas, não consegui distinguir por conta de minha visão turva.
– Parem! Parem! — gritei e tentei me aproximar, mas tropecei com meu salto quinze.
– Eu sei que você não está aqui por coincidência! — um soco foi dado. — Se chegar perto dela mais uma vez, irá receber uma flecha no meio da sua cara e outro no seu peito, para não dizer outras partes! Canalha! — outro soco.
– Venha. — era Robin. Ele me puxou pelo braço e me cobriu com alguma coisa enquanto me arrastava para fora.
Eu tentei me livrar dele, em vão.
– Vá embora! Eu não quero ver você nunca mais seu cafajeste! Você não tem esse direito! — algo me dizia que minhas palavras não estava saindo de forma clara.
– Você bebeu demais, não está em condições de ficar sozinha, Regina. — o tom de Robin era conciliador.
Desvencilhei-me dos braços dele e me sentei no chão.
– Estou apenas levemente alterada e prefiro ficar aqui a ir com você.
Sim, eu estava no meio da rua e tudo ainda girava a minha volta. Dane-se.
Robin Hood então me ergueu e me colocou em seu ombro. Balancei as pernas e dei vários golpes em suas costas no intuito de me soltar, mas era como se eu lutasse com uma estátua de pedra.
O homem entrou em minha casa, ouvi o som das chaves e então ele já estava subindo as escadas.
– Já disse pra me deixar. — nesse momento eu me sentia cansada e com o corpo mole, não tinha mais forças para reclamar, tudo o que eu queria era dormir.
Para minha surpresa, Robin me levou direto para o banheiro, tirando o casaco e me colocando em baixo no chuveiro.
Abracei a mim mesma sentindo a água quente tocar minha pele e mal conseguindo ver apenas um dos meus sapatos no chão.
– Meu outro sapato. — murmurei. — Eu quero meu sapato.
Porque a droga do sapato era a única coisa que vinha à minha cabeça naquele instante? Odiei não possuir uma linha de pensamentos lógicos para descontar em Robin tudo o que sofri.
– Depois a gente procura. — ele disse e sua voz soou divertida. — Você está muito bêbada.
– Levemente alterada, canalha. — fechei meus olhos enquanto mãos habilidosas trabalharam com algo macio sobre meu corpo.
Em seguida eu já estava sendo carregada para fora e pude finalmente deixar minha mente se apagar por completo.
Não houve sonhos pela primeira vez em semanas.
***
Acordei com uma dor de cabeça absurda e me recusei a abrir os olhos por alguns instantes. Eu havia tido sonhos completamente diferentes do que costumava ter. Tinham Arthur e o Robin, e este último trazendo-me para casa… Apenas loucuras…
Por fim, levantei-me e olhei no relógio, eram três da manhã.
Fui até o banheiro. Olhei meu rosto no espelho e vi o quanto estava horrível, minha cabeça latejou de dor. Tomei um remédio deixado na pia e inspecionei novamente o rosto refletido.
– Droga. — disse e levei a mão ao pescoço que possuía uma marca de mordida.
– É uma pena eu não poder apagar isso.
– Puta merda. — xinguei ao levar um susto grande, me recostei na pia.
– Como se sente? — ele se aproximou devagar.
– Vá embora. — apontei para a porta.
– Não até você me ouvir. — ele afirmou, petulante.
– Você acha que está no direito de reivindicar algo?
– Considerando que eu te trouxe antes que… — sua expressão tornou-se dura, os punhos se fechando. — Em fim, você deve se lembrar vagamente.
Coloquei a mão sobre a cabeça sentindo uma pontada.
As memórias eram trazidas aos poucos. Eu havia bebido e ido até Arthur e depois… Toda a noite anterior voltou a mim claramente.
– Você me arrastou da casa do Arthur… Trouxe-me… Você deu um banho em mim? — empurrei- o forte, fazendo-lhe sair do caminho. — Vá embora, agora!
– Regina, eu tenho que lhe explicar muitas coisas. — falou Robin.
– Não interessa! Não quero saber! Tudo o que você faz é mentir! Tem noção do que eu passei depois que o vi com aquela mulher? Você tem alguma noção? Você é um cretino! Um verme! Eu não o quero mais em minha vida, muito menos em minha cidade. — virei-me de costas para que ele não visse as lágrimas traiçoeiras que começaram a borrar minha visão.
– Por favor. — uma mão acariciou ao longo do meu braço.
– Não quero ouvir. — disse firme e dando um passo em direção à janela.
– Por favor. — agora ele estava bem atrás de mim, sua voz soou como uma súplica em meus ouvidos e então ele me abraçou, naquela posição.
Eu fiquei parada, inerte, sentido seus braços calorosos e tão conhecidos me envolverem. Uma mão de Robin pousou em minha barriga, a outra subiu até meu rosto. — Por favor.
Uma lágrima caiu. Era meu muro desmoronando novamente.
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