Tudo o que não superamos
1 Um sonho
O ventilador velho fazia mais barulho do que vento naquela tarde quente no Rio de Janeiro. Da cozinha vinha cheiro de alho dourando na panela e o som baixo de um violão tocando num vídeo qualquer que a mãe de Hanna deixava aberto enquanto terminava o almoço.
Hanna estava largada no sofá, ainda de uniforme do curso de dança, mexendo no celular sem muita esperança. Já tinha olhado o e-mail umas quinze vezes naquele dia.
Nada.
Suspirou.
Atualizou de novo.
E então congelou.
Os olhos claros arregalaram tanto que por um segundo ela esqueceu até de respirar.
— Não…
Ela sentou direito no sofá.
Leu outra vez.
E outra.
As mãos começaram a tremer.
“Congratulations.”
O coração bateu tão forte que parecia querer sair pela garganta.
— NÃO!
Ela levantou num pulo.
— EU CONSEGUI! EU CONSEGUI!
Saiu correndo pela sala quase escorregando no tapete.
— MÃÃÃÃE!
Na cozinha, a mãe virou assustada com a colher de pau na mão.
— Menina, que gritaria é essa?! Tá pegando fogo?!
Hanna apareceu ofegante na porta, o celular tremendo na mão.
— Mãe… mãe… eu fui aceita!
— O quê?
— A agência! Eles responderam! Eu passei! Eu fui escolhida!
A mãe piscou sem entender por dois segundos. Então largou a colher em cima da pia.
— Hanna…
A garota atravessou a cozinha e praticamente se jogou nela.
— Eu consegui… eu consegui mesmo…
A mãe segurou o rosto da filha entre as mãos, os olhos já brilhando.
— Deixa eu ver isso.
Hanna mostrou o e-mail quase esmagando o celular na cara dela.
A mulher leu em silêncio.
E aí veio aquele sorriso estranho de mãe: orgulho misturado com medo.
Porque sonho de filho é bonito… até virar passagem só de ida.
— Seul… — ela murmurou baixo.
Seoul.
Hanna ainda pulava de nervoso.
— Eles gostaram do vídeo! Mãe, eles gostaram de mim! Eu vou virar trainee de verdade!
— Calma, respira primeiro, menina.
— Como eu vou respirar?!
Ela ria sem conseguir parar. O rosto inteiro iluminado de felicidade adolescente. Tão feliz que nem parecia real.
A mãe passou a mão nos cabelos claros e ondulados dela devagar.
— Você sabe que isso muda tudo, né?
Hanna assentiu rápido demais.
Porque ainda não entendia.
Na cabeça dela, aquilo era música, palco e sonho.
Ainda não conhecia o peso das salas de treino, dos espelhos frios, da solidão.
Naquele momento ela era só uma menina de 14 anos explodindo de felicidade na cozinha de casa.
O arroz quase queimando no fogo.
O ventilador reclamando no canto.
E o mundo inteiro aberto na frente dela.
— Liga pro pai, liga!
Hanna praticamente pulava pela cozinha, o celular apertado contra o peito. O sorriso dela parecia grande demais pro rosto magro cheio de sardinhas claras.
A mãe soltou uma risada curta enquanto voltava correndo pro fogão antes que o arroz queimasse de vez.
— Calma, menina! Seu pai tá trabalhando.
— Mas ele precisa saber!
— E vai saber. Quando chegar em casa.
Hanna fez uma careta impaciente.
— Mãe!
— Hanna. — Ela apontou a colher de pau como aviso. — Uma notícia dessa não se dá pelo telefone.
A garota bufou, andando de um lado pro outro na cozinha estreita.
— Ele vai ficar bravo?
A pergunta saiu mais baixa dessa vez.
A mãe ficou em silêncio por um instante.
Só o barulho do óleo chiando preenchia o ambiente.
— Seu pai não tá bravo — ela respondeu por fim. — Ele só… conhece a Coreia melhor que você.
Hanna abraçou o próprio corpo sem perceber.
O entusiasmo ainda estava ali, mas agora misturado com ansiedade.
— Eu também conheço.
A mãe olhou pra ela com carinho.
— Conhece as férias. Os dramas. As músicas. Seus avós. Isso é diferente de viver lá.
Aquilo deu uma pequena fisgada nela.
Porque no fundo Hanna sabia.
Sabia que o pai evitava aquele assunto sempre que ela falava sobre virar idol.
Ele nunca ria do sonho dela.
Nunca dizia que era impossível.
Mas também nunca parecia feliz.
— Ele acha que eu não consigo?
— Não é isso.
— Então o quê?
A mãe desligou o fogo devagar antes de responder.
— Seu pai sabe como os coreanos podem ser exigentes. Principalmente nesse meio artístico.
Hanna desviou os olhos.
Ela já tinha visto comentários na internet.
Dietas absurdas.
Treinos intermináveis.
Idols desmaiando de cansaço.
Mas tudo parecia distante atrás da tela.
Um preço pequeno perto do sonho.
— Eu consigo aguentar — ela murmurou.
A mãe observou a filha por alguns segundos.
Tão magra.
Tão nova.
Cabelo claro preso de qualquer jeito.
As pernas longas ainda de criança.
E ainda assim teimosa igual o pai.
— Eu sei que consegue — ela disse baixinho. — Seu pai também sabe. Acho que isso assusta mais ainda.
Hanna ficou quieta.
Porque agora a felicidade começava a ganhar peso real.
Seoul já não parecia só palco e luz.
Parecia longe.
Muito longe.
Mesmo assim, um sorriso pequeno nasceu no canto da boca dela.
— Mas eu passei…
A mãe acabou sorrindo também, sem conseguir evitar.
— Passou.
E naquele instante as duas ficaram ali, no meio da cozinha quente do Rio de Janeiro, olhando o e-mail aberto na tela como quem encara uma porta enorme se abrindo.
Bonita.
E assustadora.
A chave girou na porta no começo da noite.
Hanna, que estava fingindo assistir televisão havia quase uma hora, levantou tão rápido do sofá que quase derrubou o controle.
— PAI!
A porta mal tinha aberto direito e ela já estava agarrada nele.
O homem soltou um “opa” surpreso, quase perdendo o equilíbrio enquanto tentava entrar ainda com a mochila no ombro.
— Ei, ei… o que aconteceu aqui?
Hanna o abraçou pelo pescoço, praticamente pendurada nele.
— Eu consegui!
— Conseguiu o quê, meu docinho?
O apelido saiu automático, daquele jeito velho e acostumado que ele usava desde que ela era pequena. E por um segundo Hanna voltou a ter seis anos correndo pela casa.
Ela se afastou só o suficiente pra olhar pra ele, os olhos brilhando.
— Eu vou pra Seul.
Silêncio.
O pai ainda segurava a maçaneta.
O sorriso dele desapareceu devagar.
As sobrancelhas franziram quase imediatamente enquanto os olhos buscavam a esposa na cozinha.
A mãe de Hanna, encostada na bancada, apenas confirmou com a cabeça.
Uma vez.
Devagar.
Sim.
Ela passou.
O homem soltou o ar pelo nariz, cansado.
Então fechou a porta atrás de si sem pressa.
Hanna percebeu a mudança na mesma hora. A animação dela vacilou um pouco.
— Pai…
Ele tirou os sapatos em silêncio.
— Qual agência?
Ela respondeu rápido, tentando soar confiante.
O pai assentiu devagar ao reconhecer o nome. E isso foi pior do que se ele tivesse ficado bravo.
Porque ele conhecia.
Conhecia o tamanho.
A reputação.
A pressão.
— Eles mandaram contrato?
— Ainda vão mandar tudo certinho mas eu fui aceita como trainee oficial!
Hanna sorria de novo, tentando puxá-lo junto naquela felicidade.
Mas o pai apenas passou a mão no rosto cansado antes de encarar a filha.
— Você tem catorze anos.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Aquilo bateu diferente.
Ela cruzou os braços na defensiva.
— Você acha que eu não consigo.
— Não coloca palavras na minha boca.
— Então fala logo.
A mãe suspirou baixinho na cozinha. Já conhecia os dois.
Pai e filha eram iguais quando ficavam nervosos: orgulhosos demais pra recuar.
O homem caminhou até a sala finalmente.
— Hanna… a Coreia não é férias na casa dos seus avós.
Ela ficou em silêncio.
— Ainda mais esse mercado idol. Você sabe quantas crianças entram nisso? E quantas conseguem debutar?
— Mas eu fui escolhida!
— Escolhida pra tentar. Não pra vencer.
A frase caiu pesada.
Hanna sentiu o peito apertar.
— Você sempre faz isso.
— Isso o quê?
— Age como se eu fosse quebrar.
O pai olhou pra ela por alguns segundos.
E aí veio aquela expressão triste que machuca mais que grito.
— Porque eu sei o quanto aquele lugar pode ser cruel com alguém diferente.
Os olhos dela vacilaram por um instante.
Pequeno.
Quase imperceptível.
Mas ele viu.
Claro que viu.
Era pai dela.
— Você acha que eu sou fraca?
— Não. — A resposta veio rápida. — Esse é exatamente o problema.
Silêncio outra vez.
O ventilador girava no teto fazendo barulho velho.
Da rua vinha som de moto subindo o morro ao longe.
Então o pai finalmente se aproximou dela.
Segurou o rosto da filha entre as mãos com cuidado.
— Meu docinho… você sente tudo demais.
Aquilo desmontou Hanna mais do que qualquer bronca teria desmontado.
Porque era verdade.
Ela engoliu seco tentando sustentar o olhar dele.
Mas mesmo assim disse:
— Eu ainda quero ir.
O pai fechou os olhos por um segundo curto.
Como quem já sabia que perderia essa batalha desde o começo.
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