Tudo o que não superamos

2 A chegada em Seoul


O frio de Seoul bateu no rosto de Hanna assim que as portas do aeroporto se abriram.

Ela parou por um segundo.

Os olhos claros arregalados observando tudo:

as placas em coreano,

as pessoas andando rápido,

as vozes,

o cheiro diferente do ar.

Era estranho.

Familiar e desconhecido ao mesmo tempo.

— Hanna.

A mãe tocou o ombro dela de leve.

A garota piscou, despertando do transe.

— É maior do que eu imaginava…

A mãe soltou um pequeno riso cansado enquanto empurrava as malas.

— Bem-vinda à Coreia de verdade.

Hanna quase parecia flutuar de ansiedade durante o caminho inteiro. Encostava no vidro do carro olhando os prédios altos, as luzes, os cruzamentos lotados.

Tudo parecia cena de drama coreano.

Só que real.

E muito mais frio.

Ela falava sem parar:

— Mãe olha aquilo.

— Meu Deus aquele café.

— As pessoas são tão estilosas.

— Você viu aquela loja?

— Mãe eu tô mesmo aqui.

A mãe apenas observava.

Tentando guardar cada detalhe da filha antes de deixá-la naquele mundo novo.

Os dias em Busan antes da mudança definitiva foram quase um último respiro.

A avó chorou quando viu Hanna no portão.

O avô fingiu firmeza mas abraçou a neta por tempo demais.

Naquela casa, Hanna voltou a dormir até tarde.

Voltou a comer direito.

Voltou a rir sem pensar em avaliação.

A avó reclamava do cabelo claro dela estar ressecado.

O avô perguntava mil vezes se ela tinha levado casaco suficiente pra Seoul.

E à noite Hanna deitava no futon olhando o teto antigo do quarto.

Escutando o som distante do mar.

Pensando:

“Minha vida tá realmente mudando.”

Ela sentia medo.

Mas ainda era um medo bonito.

Ainda não conhecia o peso real daquilo tudo.

Em Seoul, o dormitório parecia muito menor do que Hanna imaginou.

Limpo.

Organizado.

Frio.

Duas beliches.

Armários apertados.

Espelhos.

Muitos espelhos.

Uma das trainees levantou os olhos rapidamente quando Hanna entrou com as malas.

E Hanna percebeu na hora.

O olhar.

A análise silenciosa.

Cabelo claro.

Olhos diferentes.

Estrangeira?

Coreana?

Mestiça?

A garota fez uma reverência rápida.

— Prazer… sou Hanna.

O sotaque dela em coreano era perfeito demais pra parecer estrangeiro… mas suave demais pra soar totalmente local.

Aquilo confundia as pessoas imediatamente.

A mãe percebeu o desconforto antes da filha.

Claro que percebeu.

Mas Hanna ainda estava encantada demais pra notar tudo.

Nos dias seguintes veio a correria:

matrícula na escola;

assinatura de documentos;

exames;

reuniões;

orientações;

regras do dormitório;

horários absurdos.

A agência parecia outro planeta.

Elegante.

Silenciosa.

Intimidante.

Hanna tentava parecer madura enquanto assinava papéis que mal entendia completamente.

A mãe fazia perguntas.

Lia cláusulas.

Observava os funcionários.

Já Hanna…

Hanna só conseguia olhar os pôsteres dos idols nas paredes pensando:

“Um dia pode ser eu.”

Foi numa das últimas noites antes da mãe voltar pro Rio de Janeiro que a realidade finalmente bateu.

As duas estavam no pequeno quarto alugado temporariamente.

Malas abertas.

Roupas espalhadas.

Luzes da cidade entrando pela janela.

A mãe dobrava algumas roupas em silêncio quando percebeu Hanna quieta demais.

— O que foi?

A garota demorou alguns segundos pra responder.

— Você vai embora amanhã.

A voz saiu pequena.

Muito menor do que ela queria.

A mãe parou imediatamente.

Hanna tentou sorrir.

Tentou mesmo.

— Eu tô feliz. Só que…

Os olhos começaram a encher antes que ela conseguisse terminar.

E pela primeira vez desde que chegaram na Coreia…

ela parecia ter catorze anos de verdade.

A porta automática do aeroporto se fechou.

E pronto.

A mãe tinha ido embora.

Hanna ficou parada alguns segundos segurando o celular contra o peito depois da última mensagem:

“Me liga quando chegar no dormitório. Te amo.”

O movimento das pessoas ao redor continuava normal.

Malas.

Passos rápidos.

Anúncios no alto-falante.

Mas dentro dela alguma coisa afundava devagar.

Até então tudo parecia aventura.

Agora parecia solidão.