Tudo o que não superamos
18 O que os olhos veem, o coração sente
Foi a última noite de Hanna naquele hotel.
Na manhã seguinte… vida nova.
Apartamento novo.
Mesmo prédio.
Mesmo mundo.
Mais perto dele do que nunca.
E ainda assim… tão longe.
Hanna entrou no novo apartamento.
Parou logo na porta.
Olhou ao redor.
Tudo no lugar.
Móveis escolhidos.
Decoração neutra.
Organizado demais… como tudo que vem pronto.
Bonito. Mas ainda sem alma.
Ela caminhou devagar.
Passou a mão pelo encosto do sofá.
Olhou a cozinha. O quarto.
Tudo certo.
Tudo… distante.
Foi até a janela. Abriu.
O ar da manhã ainda estava ali.
Frio leve. Limpo.
Lá embaixo… uma pequena praça.
Gente começando o dia.
Vida seguindo.
Ela apoiou as mãos no parapeito.
Respirou fundo.
— Recomeço… — murmurou.
Mas nem ela acreditou totalmente.
O celular vibrou.
Quebrou o momento.
Ela pegou.
Agenda da semana.
Ensaios. Entrevistas. Reuniões.
E então… um programa de variedades.
Com Cha Eun-woo.
Hanna soltou um pequeno suspiro.
— Tá… bom.
Não era entusiasmo.
Era alívio.
Porque não tinha 3Racha.
Nem Stray Kids.
Nem ele.
— Pelo menos isso…
Ela encostou a cabeça de leve no vidro.
Mais tempo.
Mais alguns dias… antes de encarar de novo o Chris. O Chan.
Os dois ao mesmo tempo.
Ela fechou os olhos por um instante.
Porque agora era isso:
Não dava mais pra separar.
O passado voltou com nome e rosto.
E ela ia ter que aprender a lidar com ele… no presente.
O celular ainda na mão.
Ela travou o olhar na agenda.
Mas não lia mais.
A mente já estava em outro lugar.
— Tempo… — sussurrou.
Como se aquilo fosse resolver.
Mas no fundo… ela sabia.
Tempo não apaga.
Só prepara.
E o reencontro?
Esse já tinha começado.
A agenda de Chan estava lotada.
Como sempre.
Ensaios.
Entrevistas.
Gravações.
Reuniões.
Programas.
Preparação pra show.
Coreografia.
Mais reuniões.
A vida de idol nunca desacelera de verdade.
Ela só muda o tipo de cansaço.
E talvez aquilo fosse bom.
Porque manter a cabeça ocupada era mais fácil do que pensar.
Mais fácil do que lembrar.
Mais fácil do que sentir.
Os dias começaram a passar num ritmo quase automático.
Ele acordava cedo. Dormia tarde. Comia quando dava.
Respondia no piloto automático.
Sorria quando precisava.
Profissional impecável.
Como sempre foi.
Mas quem conhecia Chan de verdade… percebia.
Os mais próximos sentiram rápido.
Han Jisung percebeu primeiro.
Chan estava mais quieto.
Menos irritado do que antes.
O que era estranho.
Porque o silêncio dele nunca significava calma.
Significava excesso.
Changbin notou depois.
As pausas ficaram mais longas.
Os olhares mais distantes.
Às vezes alguém falava com ele… e Chan demorava um segundo além do normal pra voltar.
Como se a cabeça estivesse em outro lugar.
E provavelmente estava.
Mas ninguém comentou.
Não diretamente.
Porque amizade antiga também é isso: saber quando insistir… e quando só ficar por perto.
Numa sala de espera entre uma gravação e outra, Han jogou uma garrafa de água pra ele.
— Você tá com cara de quem dormiu duas horas.
Chan abriu a tampa sem nem olhar direito.
— Dormi quatro.
Han soltou um riso curto.
— Uau. Evolução.
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
Fraco. Mas real.
Changbin observou de longe por um instante antes de falar:
— Você anda pensando demais.
Aquilo fez Chan erguer os olhos.
— Eu sempre penso demais.
— É — Changbin respondeu, tranquilo. — Mas antes você brigava com o mundo quando tava assim.
Pausa.
— Agora só fica quieto.
Silêncio curto.
Chan desviou o olhar.
Porque eles estavam certos.
E isso irritava.
Han se recostou no sofá.
— Ela mexeu contigo mesmo, né?
Direto. Como sempre.
Chan soltou um pequeno suspiro pelo nariz.
Cansado.
Sem força pra negar.
E talvez… pela primeira vez em muito tempo… sem vontade de fingir que não.
Hanna agora ocupava o tempo com seus compromissos profissionais.
O estúdio do programa estava iluminado demais.
Colorido. Leve.
Quase o oposto completo das últimas semanas dela.
E talvez por isso… ela finalmente conseguiu respirar um pouco.
Quando entrou no palco ao lado de Cha Eun-woo, a reação foi imediata.
O público vibrou.
Os flashes aumentaram.
Até a equipe pareceu despertar um pouco mais.
Porque juntos… os dois eram visual puro impacto.
Cha Eun-woo impecável como sempre.
Elegante sem esforço.
Sorriso fácil.
Beleza daquela que chega antes da pessoa.
E Hanna… calma.
Sofisticada.
Daquelas presenças que não precisam chamar atenção pra dominar um ambiente.
A apresentadora abriu um sorriso enorme assim que eles sentaram.
— Acho que metade da audiência esqueceu como respirar agora.
O público riu na mesma hora.
Cha Eun-woo abaixou a cabeça dando uma risada tímida.
Hanna sorriu também, mais leve do que vinha sendo nos últimos dias.
E aquilo já fez diferença.
A entrevista começou fluindo fácil.
Trabalho. Projetos. Música. Atuação. Bastidores.
A apresentadora conduzia bem.
Sem forçar. Sem invadir demais.
E Cha Eun-woo ajudava naturalmente.
Ele era confortável de conversar.
Gentil. Atento.
Do tipo que escuta antes de responder.
Uma raridade naquele meio.
— Ouvi dizer que você é perfeccionista no estúdio — a apresentadora comentou olhando pra Hanna.
Ela soltou um pequeno riso.
— “Perfeccionista” é a palavra educada que usam.
O público riu.
Cha Eun-woo entrou na brincadeira:
— Então existe a versão não educada?
— Existe. E normalmente aparece depois de oito horas sem comer.
Mais risos.
Leve. Fácil.
Sem tensão escondida em cada frase.
E aquilo… aquilo foi um alívio.
Depois de dias andando emocionalmente na ponta de faca, estar ali parecia quase férias.
Cha Eun-woo olhou pra ela em determinado momento e comentou:
— Você parece diferente dos bastidores que me contaram.
Hanna arqueou levemente a sobrancelha.
— Isso foi um elogio?
Ele riu.
Bonito daquele jeito irritantemente perfeito que câmera ama.
— Elogio. Você parece mais tranquila pessoalmente.
Aquilo pegou Hanna desprevenida por meio segundo.
Porque fazia tempo que ninguém usava aquela palavra pra descrever ela.
Tranquila.
Ela sustentou o sorriso.
Mas dessa vez… mais verdadeiro.
E por algumas horas… entre luzes, risadas e perguntas bobas…
Hanna conseguiu esquecer.
Ou pelo menos fingir muito bem que esqueceu.
O problema?
Seoul é pequena demais pra gente famosa.
E internet rápida demais.
Em algum lugar da cidade… alguém já estava assistindo aquilo também.
O dormitório estava mais barulhento do que o normal.
Televisão ligada.
Gente entrando e saindo.
Embalagem de comida espalhada pela mesa.
Rotina comum. Caos comum.
Chan estava sentado no sofá mexendo distraidamente no celular, tentando aproveitar os poucos minutos de silêncio mental que tinha conseguido naquele dia.
Tentando.
Porque paz ultimamente parecia artigo de luxo.
Do outro lado da sala, Felix estava jogado no tapete enquanto I.N mexia na TV.
— Ah, coloca de novo aquela parte — Felix falou, rindo. — A química deles tava absurda.
Chan não levantou o olhar.
Mas ouviu.
I.N deu replay sem perceber o perigo que aquilo representava.
Na tela, Hanna aparecia rindo de alguma coisa que Cha Eun-woo tinha falado.
Solta. Leve. Confortável.
Felix apoiou o queixo na mão.
— Eles ficaram bonitos juntos, né?
Erro.
Silêncio.
Pequeno.
Mas perceptível.
I.N finalmente percebeu tarde demais e virou o rosto devagar na direção de Chan.
Felix também.
Chan continuava olhando o celular.
Imóvel.
Expressão neutra demais.
O tipo de neutro perigoso.
— É só programa — I.N falou rápido, tentando aliviar.
Chan assentiu uma vez.
Curto.
— Eu sei.
A voz saiu calma. Controlada.
Até demais.
Felix trocou um olhar rápido com I.N.
Porque agora eles conheciam aquele tom.
Era o tom que Chan usava quando estava segurando coisa demais.
Minutos depois, ele levantou.
— Vou pro estúdio um pouco.
Mentira fraca.
Mas ninguém impediu.
Porque às vezes deixar alguém sozinho é mais gentil.
O corredor ficou silencioso atrás dele.
Chan entrou numa sala vazia e fechou a porta.
Só então pegou o celular de novo.
Idiota.
Ele já sabia que não devia procurar.
Mesmo assim… procurou.
Clipes da entrevista começaram a aparecer na tela.
Título chamativo.
Cortes rápidos.
Comentários surtando pela aparência dos dois.
Piores combinações possíveis pro estado mental dele.
Ele clicou.
E viu.
Hanna sorrindo.
Rindo sem esforço.
O olhar leve.
A postura relaxada.
O jeito que ela olhava pra Cha Eun-woo enquanto conversavam.
Natural. Confortável.
Como se não carregasse o peso do mundo nas costas.
Chan travou o maxilar.
Passou pro próximo vídeo.
Outro sorriso dela.
Outro momento leve.
Outro comentário falando sobre “química”.
Aquilo incomodou mais do que deveria.
Muito mais.
Porque fazia dias que ele só via Hanna cansada.
Tensa. Em alerta.
Mas ali… ela parecia bem.
E uma parte dele ficou feliz por isso.
A outra?
A outra odiou o aperto que veio junto.
O ciúme.
Feio. Infantil. Desnecessário.
Mas vivo.
Chan bloqueou o celular e jogou a cabeça pra trás no sofá.
Soltou o ar devagar.
— Ridículo… — murmurou pra si mesmo.
Mas o coração não escuta lógica quando resolve doer.
E o pior?
Não era só ciúme do ator.
Era da versão dela que apareceu ali.
Leve. Solta.
Uma versão que um dia… foi dele também.
Fale com o autor