Tudo o que não superamos
14 Atrás do Silêncio
No dia seguinte, o estúdio parecia exatamente igual.
Os mesmos cabos espalhados.
O mesmo cheiro de café frio.
As mesmas luzes artificiais cansando os olhos cedo demais.
Mas alguma coisa estava diferente.
E Hanna sentiu isso antes mesmo de entender o quê.
Chegou como sempre: Pontual. Preparada. Impecável.
Mesmo depois de quase não dormir.
Só que havia uma sensação estranha no ar.
Aquela mudança silenciosa que antecede tempestade.
Changbin e Han entraram primeiro.
O clima entre os dois continuava leve, profissional, normal.
— Bom dia — Han disse com um sorriso fácil.
— Dormiu pelo menos um pouco? — Changbin perguntou enquanto abria uma garrafa de água.
— O suficiente.
Educada. Controlada.
Mas os olhos dela já tinham ido para a porta.
Esperando.
Então ele entrou.
Bang Chan.
Sem pressa. Sem tensão aparente.
Sem sequer olhar ao redor antes de falar:
— Bom dia.
Simples.
Igual para todo mundo.
Igual demais.
Nenhum olhar demorando nela.
Nenhuma pausa estranha.
Nenhuma rachadura visível.
Nada.
Hanna sentiu alguma coisa travar dentro dela.
Só um pouco. Mas o bastante.
Porque ontem existia tensão.
Existia história.
Existia alguma coisa viva respirando entre os dois.
Hoje?
Nada.
Chan sentou-se. Abriu o notebook.
Ligou o sistema de áudio.
— Vamos focar na estrutura da faixa.
Direto ao ponto.
— A base tá boa, mas dá pra deixar mais comercial sem perder identidade.
Profissional. Limpo. Frio.
Hanna observava em silêncio.
Tentando entender o que exatamente tinha mudado da noite pro dia.
— Sobre a letra… — ela começou cuidadosamente. — Acho que a gente ainda precisa alinhar o tom emocional com a produção.
Os dedos dele continuavam digitando.
Nem levantou os olhos.
— Isso a gente resolve depois.
Curto. Seco.
Han percebeu imediatamente.
Changbin também.
Porque aquilo não parecia normal nem pra alguém reservado como Chan.
— Ei… sobre ontem… — Han tentou entrar no assunto.
— Já passou.
Chan cortou na mesma hora. Sem irritação. Sem peso. Sem emoção nenhuma.
Como se realmente tivesse passado.
Mas não tinha.
Hanna inclinou levemente a cabeça.
— Passou?
Agora ele olhou.
Pela primeira vez naquela manhã.
Mas o olhar dela encontrou uma coisa pior do que raiva.
Pior do que mágoa.
Distância. Fria. Organizada.
— A gente tá trabalhando.
A voz saiu calma. Quase indiferente.
— É isso que importa.
Aquilo atingiu Hanna mais forte do que qualquer discussão do dia anterior.
Porque não deixava espaço.
Não deixava abertura.
Não deixava nem ferida aparente para tocar.
Ele simplesmente voltou para o notebook.
— Se ajustar esse arranjo antes do refrão, o build fica mais forte.
E continuou falando normalmente.
Como se nada tivesse acontecido.
Changbin entrou na conversa técnica.
Han também.
A reunião voltou a fluir.
Batidas. Camadas. Produção. Mixagem.
Tudo funcionando.
E Hanna permaneceu ali.
Participando. Respondendo. Trabalhando.
Mas com uma sensação estranha crescendo lentamente dentro do peito.
Porque aquilo não era profissionalismo.
Ela conhecia profissionalismo.
Aquilo era afastamento emocional.
Era alguém decidindo apagar a própria reação antes que ela pudesse machucar de novo.
E o pior?
Hanna conhecia aquele mecanismo perfeitamente.
Porque foi exatamente o que ela fez anos atrás.
Ela foi embora. Ela cortou contato.
Ela fingiu que sobreviver significava seguir em frente rápido demais.
Agora estava vendo o mesmo movimento acontecer do outro lado.
E talvez essa fosse a parte mais cruel.
A vida sempre encontra formas elegantes de cobrar dívidas emocionais.
Sem aviso.
Sem pressa.
Ali, no meio daquele estúdio gelado, Hanna finalmente percebeu uma coisa que não queria admitir nem para si mesma: era muito mais fácil lidar com a raiva dele.
Porque raiva ainda cria vínculo.
Raiva ainda olha.
Ainda reage.
Mas aquilo?
Aquilo parecia o começo do esquecimento.
Como se ela nunca tivesse ocupado espaço real dentro dele.
E pela primeira vez desde que voltou para JYP Entertainment…
Hanna sentiu medo de verdade.
A sessão continuou.
Batida. Camadas. Ajustes finos.
Por fora, tudo parecia funcionar.
Por dentro…nem perto disso.
Hanna falava apenas quando necessário.
Precisa. Objetiva. Profissional.
Bang Chan respondia da mesma forma.
Direto. Frio. Sem conflito. Sem emoção.
Sem nada sobrando.
E aquilo começou a incomodar mais do que a tensão do dia anterior.
Porque discussão ainda cria energia.
Mas ausência?
Ausência mata qualquer criação.
Changbin bateu duas vezes na mesa e se levantou.
— Vou pegar algo para beber.
Han levantou imediatamente. Arrastando o Chan junto.
— Nós também.
Natural demais.
Quase ensaiado.
— A gente já volta — Han avisou, olhando rapidamente para Hanna.
Ela apenas assentiu.
A porta se fechou.
Silêncio.
Mas não por muito tempo.
No corredor, Changbin parou de andar e virou diretamente para Chan.
Sem introdução. Sem suavizar.
— Tá bom. O que tá acontecendo?
Chan franziu levemente a testa.
— Nada.
Resposta automática.
Rápida demais para soar verdadeira.
Han cruzou os braços.
— Ah, para.
O olhar dele ficou sério pela primeira vez desde o começo da sessão.
— A gente não começou ontem nessa indústria. Isso aí não é “nada”.
Changbin assentiu.
— Ontem você tava quase explodindo. Hoje tá tratando ela como se fosse qualquer pessoa.
Pausa.
Olhar firme.
— E ela claramente não é qualquer pessoa.
Aquilo acertou.
Chan desviou os olhos primeiro, passando a mão pela nuca.
— Não tem problema nenhum.
Mentira mal construída.
Han soltou um riso curto.
Sem humor.
— Tem sim. E tá afetando o clima inteiro lá dentro.
Silêncio.
Changbin deu um passo mais perto.
Mais sério agora.
— A gente não precisa saber da tua vida pessoal.
Pausa.
— Mas precisa saber se isso vai ferrar o trabalho.
Agora tinha ido exatamente no ponto certo.
Chan ficou quieto.
Pensando. Segurando.
E então finalmente soltou alguma coisa.
Só não soltou tudo.
— A gente se conhecia.
Han ergueu uma sobrancelha.
— Isso já tava bem óbvio.
Chan respirou fundo antes de continuar.
— Ela foi embora.
Simples. Seco. Cru.
Changbin cruzou os braços.
Esperando o resto.
— E?
Silêncio.
— Só isso?
Chan soltou um riso pequeno.
Vazio.
— Pra ela, sim.
Aquilo ficou suspenso no corredor por alguns segundos.
Pesado.
Han e Changbin trocaram um olhar rápido.
Agora começava a fazer sentido de verdade.
— Tá… — Han falou mais baixo. — Então isso não foi só amizade de trainee.
Chan não respondeu.
Mas também não negou.
E aquilo já dizia tudo.
Changbin passou lentamente a mão pelo rosto.
— E você tá fazendo o quê agora?
— Trabalhando.
Resposta rápida.
Defensiva.
Han balançou a cabeça na hora.
— Não.
Pausa.
— Você tá evitando.
O maxilar de Chan travou imediatamente.
Acertou.
Porque era verdade.
Ele soltou o ar devagar.
Cansado.
— Eu ouvi ela ontem.
Pronto.
Agora saiu.
Changbin franziu a testa.
— Ouviu o quê?
Chan demorou um pouco antes de responder.
Como se repetir aquilo em voz alta tornasse tudo mais real.
— Ela disse que foi embora. Que já faz muito tempo. Como se não fosse nada.
Silêncio.
Han fechou os olhos por um instante.
— …puta merda.
Changbin entendeu quase imediatamente.
— Você não ouviu a conversa inteira, ouviu?
Chan não respondeu.
E o silêncio respondeu por ele.
Han passou a mão na nuca lentamente.
— Cara…
Mas nem terminou a frase.
Porque agora o problema finalmente tinha nome.
Mal-entendido.
E dos perigosos.
Changbin respirou fundo antes de falar de novo.
— Então deixa eu te dizer uma coisa.
Ele olhou diretamente para Chan.
Firme. Sério.
— Aquela música não foi escrita por alguém que superou alguma coisa.
Silêncio.
Chan ficou imóvel.
Han completou mais baixo:
— Ninguém escreve daquele jeito quando já esqueceu.
E ali…pela primeira vez desde que tudo começou…a dúvida entrou.
Pequena. Mas suficiente.
Porque dúvida abre rachadura.
E rachaduras deixam sentimento escapar.
Chan desviou o olhar.
Pensando. Processando.
Mas ainda resistindo.
Ainda tentando segurar a própria defesa de pé.
— Isso não muda nada.
Teimosia. Ou medo.
Changbin soltou um meio sorriso cansado.
— Muda sim.
Pausa.
— Você só não quer olhar pra isso ainda.
Silêncio outra vez.
E dentro da sala…Hanna continuava sozinha.
Achando que o problema era frieza.
Sem imaginar que, do lado de fora…o gelo começava a trincar.
A sala de produção parecia silenciosa demais depois que eles saíram.
Tempo demais.
Hanna tentou continuar focando no trabalho.
Abriu o tablet.
Revisou a letra.
Mudou uma palavra.
Voltou atrás.
Fechou o arquivo.
Abriu de novo.
Mas a cabeça já não obedecia mais.
A ausência deles incomodava.
Mas não tanto quanto aquilo que ficou antes.
O olhar dele.
Frio. Distante.
Como se ela tivesse deixado de ocupar qualquer espaço emocional ali.
Aquilo apertava de um jeito estranho.
Mais do que a raiva.
Mais do que as discussões.
Porque raiva ainda significa que alguém sente.
Aquilo parecia descarte.
Ela soltou o ar lentamente.
— Que ótimo…
Baixo.
Só pra si mesma.
Aquilo não era profissionalismo.
Ela conhecia profissionalismo.
Aquilo parecia punição.
E Hanna conhecia silêncios assim bem demais.
Ficar ali esperando o clima piorar lentamente?
Não dava.
Ela fechou o tablet com calma.
Sem pressa.
Guardou tudo na bolsa em movimentos organizados demais.
Como alguém tentando controlar o caos pelo lado de fora.
Quando a porta finalmente abriu, ela já estava de pé.
Han e Changbin entraram primeiro, conversando baixo.
Os dois pararam imediatamente ao perceber.
— Ei… já voltamos — Han falou, estranhando a cena.
Hanna forçou um pequeno sorriso educado.
Distante.
— Eu preciso resolver uma coisa. A gente continua depois.
Simples.
Rápido.
Sem espaço para perguntas.
Changbin tentou interromper:
— Hanna, espera, a gente—
— Depois. Ela cortou com firmeza.
Ainda educada.
Mas já emocionalmente longe dali.
Então saiu.
Passos rápidos. Sem olhar para trás.
A porta fechou.
Silêncio.
Han passou a mão pelos cabelos.
— …ok.
Changbin virou diretamente para Bang Chan.
Sério.
— Isso foi por tua causa.
Chan não respondeu.
Mas também não tentou negar.
Porque sabia.
Claro que sabia.
O problema já não estava mais contido entre os dois.
Agora começava a respingar no trabalho.
E ambiente rachado destrói criação rápido.
Han suspirou fundo.
— A gente não consegue produzir um álbum inteiro assim.
— Nem ferrando — Changbin concordou imediatamente.
Silêncio.
Chan permaneceu parado por alguns segundos.
Pensando. Pesando.
Aquilo nunca tinha sido sobre vingança.
Nem orgulho puro.
Era bagunça emocional demais acumulada por tempo demais.
Só que agora existia consequência concreta.
Ele passou a mão lentamente pelo rosto.
Cansado.
Respirou fundo.
Então decidiu.
— Eu resolvo.
Han e Changbin olharam para ele ao mesmo tempo.
— Como? — Han perguntou.
Chan pegou o celular.
Já decidido antes mesmo de responder.
— A gente precisa terminar esse álbum.
Pausa.
— E desse jeito não vai funcionar.
Objetivo. Direto. Sem dramatização.
Changbin assentiu devagar.
— Só tenta não piorar mais.
Chan soltou um riso curto.
Sem humor algum.
— Já passou desse ponto faz tempo.
Então digitou.
A mensagem saiu objetiva.
Profissional demais para esconder o que realmente era.
"Precisamos conversar. Fora do estúdio.
Sem equipe. Sem música.
Só pra alinhar o trabalho."
Sem pergunta.
Sem resistência.
Porque no fundo Hanna sabia: aquilo não era exatamente um convite.
Era inevitável.
Mais tarde…um lugar simples.
Sem luxo.
Sem plateia.
Duas cadeiras.
Dois copos esquecidos sobre a mesa.
E dez anos inteiros sentados entre eles.
Só que agora…não existia música para esconder atrás.
Por um momento…nenhum dos dois falou.
E talvez essa fosse a pior parte.
Porque dez anos cabem facilmente dentro de um silêncio entre duas pessoas.
— Obrigado por vir.
Simples. Direto.
Hanna assentiu levemente.
— Você pediu.
Outro silêncio.
Mas agora não existia plateia.
Nem Han. Nem Changbin.
Nem música para transformar sentimento em trabalho.
Só eles.
Chan respirou fundo antes de continuar.
— Eu não vou enrolar.
Claro que não ia.
Ele nunca foi homem de decorar dor com palavras bonitas.
— A gente precisa terminar esse álbum.
Ela sustentou o olhar dele.
— Eu sei.
— E desse jeito não vai funcionar.
Cru. Objetivo. Fato.
Hanna cruzou os braços lentamente.
Mais defesa do que postura.
— Então fala.
Pausa.
— O que você quer?
Direto. Sem espaço pra fuga.
Chan segurou o olhar dela por um segundo mais longo.
Como alguém escolhendo cuidadosamente as palavras menos perigosas.
— Limite.
Ela franziu levemente a testa.
— Trabalho é trabalho.
A voz dele saiu firme.
Controlada.
— O resto fica fora.
Aquilo atingiu.
Porque parecia simples quando dito assim.
Mas não era.
Hanna inclinou um pouco a cabeça.
— Você consegue fazer isso?
Pergunta limpa.
Mas carregada de coisa demais.
Chan demorou um segundo a mais do que deveria para responder.
Porque a verdade não era confortável.
— Consigo.
Mentira? Talvez. Necessidade?
Definitivamente.
Hanna soltou um pequeno suspiro pelo nariz e desviou os olhos por um instante.
— Então para de agir como se eu fosse uma estranha.
Ali.
Finalmente saiu.
O maxilar dele travou imediatamente.
— E o que você quer que eu faça?
Agora tinha emoção na voz.
Pouca. Mas tinha.
— Finja que nada aconteceu?
Hanna sustentou o olhar dele sem recuar.
— Não.
Pausa curta.
— Mas também não precisa agir como se eu fosse ninguém.
Silêncio.
Chan se reconstou na cadeira.
— Você foi embora.
Direto. Sem proteção.
Ela não desviou.
— Eu sei.
— Sem falar comigo.
— Eu sei.
— E agora aparece aqui… — ele soltou o ar devagar pelo nariz — como se desse pra simplesmente trabalhar comigo.
Ali estava.
Não era grito. Não era explosão. Era dor organizada. A pior de todas.
Hanna engoliu seco.
Mas permaneceu parada.
— Eu nunca disse que era fácil.
Pausa.
— Mas fugir de novo também não resolve.
Aquilo acertou diferente.
Porque ele percebeu.
Ela estava ali agora.
Ela não tinha ido embora dessa vez.
O silêncio voltou. Mais longo. Mais cansado.
Chan passou a mão pela nuca.
Exausto.
— Eu ouvi você outro dia.
Pronto.
Agora tinha aberto de verdade.
Hanna travou por meio segundo.
— Ouvi o que você falou pra eles.
O olhar dela mudou imediatamente.
— E você acha que eu o quê? — perguntou mais baixo dessa vez.
A resposta veio rápida demais.
— Que já passou.
Silêncio. E então…pela primeira vez desde que voltou para a Coreia…
Hanna falhou.
O olhar caiu. Só um pouco. Mas caiu.
— Não passou.
Baixo.
Quase um segredo escapando sem permissão.
Mas suficiente.
Chan ficou imóvel.
Porque aquilo ele não esperava ouvir.
Ela levantou os olhos novamente.
E dessa vez a máscara já não estava inteira.
— Eu só não sei mais como voltar naquele lugar pra explicar tudo.
Ainda não era toda verdade.
Mas já era mais do que ela tinha dado até agora.
O ar mudou outra vez.
Não virou paz.
Nem resolução.
Mas o gelo já não parecia tão sólido.
Chan respirou fundo lentamente.
— A gente não precisa resolver isso agora.
Pausa.
— Só precisa parar de deixar isso destruir o trabalho.
Hanna assentiu devagar.
Chan sustentou o olhar dela.
E dessa vez…não desviou.
— Então para de agir como se não tivesse feito diferença.
Silêncio.
Mas um silêncio diferente.
Menos cortante. Menos hostil.
Não era paz.
Nem perdão.
Era trégua. Frágil. Temporária.
Mas suficiente para continuar respirando no mesmo espaço.
E às vezes…isso já é muita coisa.
Os dias começaram a se encaixar.
Não perfeitamente. Mas o suficiente para funcionar.
A música crescia aos poucos.
Camada por camada.
Batida mais firme.
Vocal mais limpo.
Intenção mais clara.
E eles também mudavam junto dela.
Sem perceber.
Não era proximidade exatamente.
Mas também já não era aquele gelo duro dos primeiros dias.
Era convivência.
Daquelas que ainda machucam às vezes…mas já não sangram o tempo inteiro.
Hanna estava dentro da cabine de gravação, fones cobrindo os ouvidos enquanto revisava mais uma vez o refrão.
— Volta do “meu destino” mais suave — Han orientou pelo microfone.
— Menos força. Mais intenção — Changbin completou.
Ela assentiu em silêncio.
Fechou os olhos.
Respirou fundo.
A música começou outra vez.
E dessa vez a voz saiu diferente.
Mais baixa.
Mais íntima.
Mais honesta.
Do lado de fora da cabine, Bang Chan permanecia concentrado na mesa de produção.
Ajustando níveis.
Separando camadas. Tecnicamente impecável.
Mas ouvindo. Sempre ouvindo.
Quando a gravação terminou, Hanna tirou os fones lentamente.
— Não… ainda não encaixou.
Ela saiu da cabine passando a mão pelos cabelos, frustrada.
— A emoção tá certa — comentou enquanto caminhava até a mesa — mas o timing ainda tá brigando com a batida.
Parou ao lado dele.
Olhou diretamente para a tela.
Pensando em voz alta.
— Se puxar meio tempo antes do drop, talvez—
Então aconteceu.
Natural. Automático.
Sem defesa nenhuma.
— Chris, tenta isolar essa parte aqui.
Silêncio. Curto. Mas suficiente.
O tempo não chegou a parar.
Só tropeçou.
Os dedos dele travaram levemente sobre o teclado.
Quase imperceptível.
Mas ali…foi tudo.
Ninguém falou nada.
Han levantou os olhos discretamente.
Changbin também.
Eles talvez não entendessem exatamente o motivo.
Mas sentiram a mudança no ar imediatamente.
Hanna ainda observava a tela.
Nem percebeu no primeiro segundo.
Mas Chan…Chan tinha voltado para outro lugar.
Não para o estúdio.
Para o passado.
Para uma época em que aquele nome saía da boca dela sem cuidado nenhum.
“Chris.”
Do jeito antigo.
Do jeito íntimo.
Como se ele fosse casa.
Como se pertencesse a ela.
Ele engoliu seco discretamente.
Tentou esconder.
Ou pelo menos diminuir.
— Já tá isolado.
A voz saiu estável.
Controlada.
Mas o olhar já não era o mesmo de alguns segundos antes.
Hanna assentiu automaticamente.
— Obrigada.
Então virou levemente o rosto.
E percebeu.
A diferença. Pequena. Sutil.
Mas ali.
Foi nesse instante que caiu a ficha.
“Chris.”
Droga.
Aquilo não devia ter escapado.
Não naquele momento.
Não depois de tantos anos treinando distância.
O ar mudou devagar.
Quase silenciosamente.
Chan não comentou.
Mas também não conseguiu voltar completamente para trás da parede que vinha mantendo erguida há dias.
Ficou no meio do caminho.
Entre o profissional…e o homem que um dia pertenceu àquela versão dela.
E pela primeira vez desde o reencontro…o que apareceu entre os dois não foi dor.
Foi saudade. Silenciosa. Quente. Perigosa.
Hanna desviou os olhos rapidamente e voltou para o trabalho rápido demais.
— Vamos de novo.
A voz saiu firme.
Mas diferente.
E a música pareceu mudar junto.
Porque algumas palavras nunca são apenas palavras.
Algumas carregam memória viva dentro delas.
E quando escapam…não voltam mais para o lugar de antes.
O estúdio continuou funcionando.
Mas já não parecia o mesmo lugar.
Depois do “Chris”…alguma coisa tinha aberto entre eles.
E agora nenhum dos dois sabia exatamente como fechar de novo.
Hanna voltou para a cabine de gravação.
Fones cobrindo os ouvidos.
Postura firme. Profissional como sempre.
Mas por dentro…eco.
Do lado de fora, Bang Chan evitava olhar diretamente para ela.
E aquilo começou devagar.
Quase imperceptível.
Antes ainda existia confronto.
Olhares demorados.
Peso. Reação.
Agora? Desvio.
Toda vez que Hanna saía da cabine, Chan encontrava alguma outra coisa para focar.
A tela.
Os níveis de áudio.
Os botões da mesa.
Qualquer coisa.
Menos ela.
— Pode entrar no refrão de novo.
A voz dele saiu pelo microfone.
Sem usar o nome dela.
Só instrução. Só trabalho.
Hanna percebeu imediatamente.
Claro que percebeu.
Mesmo assim assentiu levemente, embora soubesse que ele nem estava olhando naquela direção.
A música voltou.
Ela cantou outra vez.
Só que agora a voz veio diferente.
Mais contida. Mais cuidadosa.
Como alguém andando sobre chão que já sabe exatamente onde quebra.
Quando terminou, veio a resposta dele:
— De novo.
Mesmo tom.
Mesmo vazio controlado.
Han franziu levemente a testa do outro lado da mesa.
Olhou discretamente para Changbin.
Aquilo já não parecia concentração.
Parecia fuga.
No intervalo seguinte, Hanna saiu da cabine pegando uma garrafa de água no caminho.
Passou ao lado dele.
Parou.
— Quer ajustar a segunda parte?
Direto. Neutro. Profissional.
Chan continuou olhando para a tela enquanto respondia:
— Pode deixar com eles.
Eles.
Não “com a gente”.
Não “comigo”.
A palavra caiu pequena.
Mas pesada.
Changbin respondeu imediatamente no lugar dele:
— A gente resolve sim.
Hanna assentiu devagar.
Mas não saiu imediatamente.
Ficou parada ali por mais um segundo.
Esperando alguma coisa.
Um olhar. Uma reação. Qualquer rachadura.
Mas não veio.
Chan abriu outro arquivo no computador como se ela já tivesse deixado de existir naquele espaço.
E aquilo machucou mais do que os dias de briga.
Porque agora não era raiva.
Raiva ainda olha.
Aquilo era afastamento consciente.
Escolhido.
Hanna respirou fundo lentamente.
Segurando tudo no lugar.
— Certo.
Então virou e saiu.
Passos firmes. Controlados.
Mas quando a porta fechou atrás dela, o silêncio dentro do estúdio mudou de peso.
Han soltou o ar primeiro.
— Cara…
Changbin foi direto como sempre:
— Você vai continuar ignorando ela assim?
Chan não respondeu imediatamente.
Mas os dedos dele pararam sobre o teclado.
— Eu não tô ignorando.
A frase saiu depois de alguns segundos.
Fraca até para ele mesmo.
Han balançou a cabeça na hora.
— Tá sim.
Silêncio.
Changbin apoiou os braços na mesa.
— E tá piorando tudo.
Pausa.
— Você tava melhor antes.
Aquilo acertou.
Porque era verdade.
Antes existia conflito.
Agora só existia distância.
E distância nunca resolve nada. Só adia explosão.
Chan passou lentamente a mão pelo rosto.
Cansado. Exausto de si mesmo.
— Eu só tô tentando não complicar mais.
Han soltou um riso baixo pelo nariz.
— Tá fazendo exatamente o contrário.
Silêncio.
Do lado de fora do estúdio, Hanna encostou lentamente na parede do corredor.
Fechou os olhos. Respirou fundo.
E finalmente entendeu.
Não era que ele tivesse deixado de sentir.
Era justamente o contrário.
Sentir ainda bagunçava ele inteiro.
Então Chan escolheu o único mecanismo que aprendeu durante anos: não chegar perto demais daquilo que ainda podia destruir ele.
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