Tudo o que não superamos

15 Aquilo Não Era Trabalho


Durante o intervalo das gravações do álbum, um evento importante aconteceu.

O evento parecia menos uma festa e mais uma vitrine de poder.

Luzes douradas refletiam nas taças de cristal.

Sorrisos treinados cruzavam o salão.

Gente importante fingindo naturalidade enquanto media cada palavra, cada gesto, cada olhar.

Aquele tipo de ambiente onde ninguém relaxa de verdade.

A JYP Entertainment entrou como quem conhecia aquele jogo há tempo demais.

E Hanna chamou atenção no instante em que apareceu.

Não de forma espalhafatosa.

Pior. Elegante.

O vestido desenhava as costas nuas com uma sofisticação silenciosa — daquelas que não pedem atenção. Simplesmente tomam.

Os cabelos presos deixavam o pescoço exposto.

Limpo. Delicado.

E no centro das costas… a joia.

Uma pedra azul profunda presa por fios prateados finos.

Fria. Hipnotizante. Perigosa.

O tipo de detalhe impossível de ignorar.

Algumas pessoas viraram discretamente.

Outras comentaram baixo.

Hanna já estava acostumada àquilo.

Mas costume nunca transforma exposição em conforto.

Bang Chan chegou alguns minutos depois ao lado de Seungmin.

Terno impecável.

Postura firme.

Olhar atento ao ambiente.

Até encontrar ela.

E travar.

Não por muito tempo.

Só o suficiente.

Porque, naquele instante, não era apenas Hanna parada do outro lado do salão.

Era lembrança vestida de luxo.

A mesma garota que dividia refrigerante e madrugadas de treino com ele… agora parecia inalcançável.

Seungmin percebeu imediatamente.

— Uau…

A reação saiu baixa. Sincera.

— Ela realmente não passa despercebida.

Chan não respondeu.

Mas também não desviou o olhar de imediato.

E aquilo já dizia mais do que qualquer resposta.

Alguns segundos depois, Hanna virou o rosto.

Encontrou os dois.

E, por um instante, o evento desapareceu.

Sem música.

Sem convidados.

Sem flashes.

Só história.

Mas ela sorriu primeiro.

Elegante. Profissional.

— Boa noite.

Seungmin respondeu imediatamente, leve como sempre:

— Você tá incrível hoje.

— Obrigada.

Simples.

Então ela olhou para Chan.

Silêncio curto. Controlado.

— Boa noite.

A voz dele saiu estável.

Mas o olhar… já não estava completamente vazio daquela vez.

Havia atenção ali.

Observação.

Algo vivo demais para ser confundido com indiferença.

O evento continuou ao redor deles.

Fotos.

Cumprimentos.

Conversas estratégicas.

Mas ambientes assim têm um problema simples: você pode se misturar à multidão… mas nunca consegue fugir de quem continua ocupando espaço dentro de você.

Em algum momento inevitável da noite, os dois acabaram lado a lado perto do bar.

Não exatamente por escolha.

Mais por insistência do destino.

Hanna segurava a taça com calma quando falou, em tom baixo:

— A música tá ficando boa.

Sem olhar diretamente para ele.

Chan assentiu quase imperceptivelmente.

— Tá.

Curto.

Mas ele também não se afastou.

O silêncio pairou entre os dois.

Hanna respirou fundo antes de falar outra vez:

— Você podia parar de me evitar.

Direto.

No meio de dezenas de pessoas.

Sem elevar o tom.

Chan soltou um pequeno riso pelo nariz.

Cansado.

— Aqui?

Ela virou levemente o rosto na direção dele.

Olhar firme. Sustentado.

— Não.

Pausa.

— Em geral.

Aquilo mexeu nele.

Porque Hanna não estava mais fugindo.

E, pela primeira vez em muito tempo, Chan percebeu isso de verdade.

Ele desviou os olhos para o salão por um instante.

Mandíbula travada.

— Não é lugar pra isso.

Hanna assentiu devagar.

— Eu sei.

Silêncio breve.

Então completou:

— Mas a gente ainda vai ter essa conversa.

Não soou como ameaça.

Nem pedido.

Soou como inevitável.

Chan olhou para ela de lado.

E, dessa vez… não desviou.

— Vai.

Baixo.

Aceitando.

Porque, no fundo, ele também sabia: algumas histórias podem passar anos em silêncio… mas nunca terminam no meio.

O evento continuava brilhando ao redor deles.

Conversas casuais demais para serem sinceras.

E, no meio de tudo aquilo, Hanna seguia chamando atenção sem esforço algum.

Homens se aproximavam o tempo inteiro.

Executivos.

Produtores.

Investidores.

Alguns discretos.

Outros interessados demais.

Ela sabia lidar com aquilo. Sempre soube.

Sorriso educado.

Distância elegante.

Controle absoluto do próprio espaço.

Até que aquele homem apareceu.

Mais velho. Presença forte.

O tipo de confiança de quem raramente escutava “não”.

Ele se aproximou devagar.

Olhar firme. Sorriso seguro.

— Hanna, certo?

A voz saiu baixa. Polida.

— Ouvi muito sobre você.

Ela virou na direção dele com educação impecável.

— Espero que coisas boas.

O homem sorriu imediatamente.

— Só as melhores.

Aquilo ainda era cordial.

Mas já não era neutro.

Era interesse claro. Adulto. Direto.

Ele diminuiu a distância entre os dois de maneira sutil demais para parecer acidente.

— Você não entrega só música.

Pausa breve.

— Você domina o ambiente.

Elogio bonito.

Pesado também.

Hanna sustentou o olhar dele sem recuar.

Sem incentivar demais.

— Faz parte do trabalho.

O homem inclinou levemente a cabeça, como quem discordava em silêncio.

— Não.

Os olhos dele percorreram o salão antes de voltar para ela.

— Isso aí não se aprende.

Pausa.

— Isso se tem.

Agora tinha ficado pessoal.

Do outro lado do salão, Bang Chan observava tudo desde o começo.

A aproximação.

A postura confortável.

O jeito como o homem olhava para ela.

Aquilo acendeu alguma coisa nele rápido demais.

Sem aviso.

Chan travou o maxilar.

Desviou os olhos.

Voltou a olhar.

Tentou ignorar.

Não conseguiu.

Porque não era apenas um homem flertando com Hanna.

Era alguém ocupando um espaço que, no fundo, Chan nunca teve coragem de abandonar completamente.

Seungmin percebeu imediatamente.

Claro que percebeu.

— Relaxa — murmurou baixo. — É só evento.

Chan soltou um riso curto pelo nariz.

Sem humor nenhum.

— Tô relaxado.

Mentira horrível.

Enquanto isso, o homem continuava falando com Hanna.

— Eu adoraria conversar com você com mais calma algum dia.

Pausa breve.

— Talvez jantar.

Agora já não existia dúvida sobre a intenção.

Hanna manteve o sorriso elegante.

Mas o olhar esfriou um pouco.

Mais distante. Mais seletivo.

— Minha agenda é complicada.

Resposta clássica. Educada.

Uma saída limpa.

Mas o homem não pareceu intimidado.

— Eu sei esperar.

Confiança demais.

E então Chan se moveu.

Antes de pensar direito.

Antes da razão alcançar o impulso.

Ele atravessou o salão em passos firmes.

Olhar fixo.

Parou ao lado dela perto o suficiente para quebrar completamente a distância que vinha mantendo nos últimos dias.

— Hanna.

O nome saiu baixo. Diferente.

Familiar demais.

Ela virou imediatamente.

E houve surpresa no olhar dela.

Porque fazia tempo que ele não dizia o nome dela daquele jeito.

Chan então olhou diretamente para o homem.

Educação impecável.

Postura calma. Mas firme.

— Precisamos dela por um momento.

Não foi exatamente um pedido.

Foi uma afirmação.

O homem arqueou levemente a sobrancelha.

Mas também não era idiota.

Leu a situação inteira em segundos.

Então apenas sorriu de canto.

— Claro.

E se afastou sem insistir.

Sem criar cena.

Mas entendendo perfeitamente o que tinha acabado de acontecer.

Silêncio.

Agora restavam apenas os dois.

Perto.

Mais perto do que estiveram em dias.

Hanna olhou diretamente para Chan.

— Precisava mesmo?

Pergunta leve.

Mas carregada demais.

Chan sustentou o olhar dela.

— Sim.

Curto.

Ela cruzou os braços devagar.

— Pra quê?

E ali… a verdade quase saiu.

Quase.

Mas ele segurou no último segundo.

Como sempre fazia.

— Trabalho.

Mentira.

E ela percebeu imediatamente.

Claro que percebeu.

Mas não pressionou.

Ainda não.

Porque o importante já tinha acontecido.

Ele atravessou o salão inteiro por ela sem sequer perceber que estava fazendo isso.

E aquilo definitivamente não era profissionalismo.

Era sentimento.

Mal resolvido. Ainda vivo.

E cada vez mais impossível de esconder.

O barulho do evento continuava preenchendo o salão.

Música ambiente.

Conversas atravessando o espaço em tons baixos e calculados.

Mas ali, perto deles… tudo parecia distante.

Abafado.

Os dois permaneceram lado a lado por alguns segundos.

Mais próximos do que tinham estado nos últimos dias.

Hanna virou levemente o rosto na direção dele.

Sem pressa.

Sem esconder tudo daquela vez.

— Obrigada.

Simples. Direto.

Chan não respondeu imediatamente.

Porque aquilo claramente não era só educação.

Ela tinha percebido.

Ainda reconhecia quando ele aparecia por ela.

Mesmo agora.

Ele desviou os olhos por um instante antes de respirar fundo.

— Não foi nada.

Resposta automática.

Rápida demais. Fraca demais.

Hanna inclinou levemente a cabeça enquanto observava ele.

— Foi sim.

Pausa breve.

— Você não precisava fazer aquilo.

Agora estava claro.

Ela tinha entendido exatamente o que aconteceu.

E, mesmo assim, não expôs ele.

Não transformou aquilo em provocação.

Chan soltou um pequeno riso cansado.

— Era trabalho.

A mesma desculpa. Pela terceira vez.

Hanna então deu um passo discreto na direção dele.

Sutil.

Mas suficiente para diminuir ainda mais a distância entre os dois.

— Não era.

Silêncio.

Chan finalmente olhou diretamente para ela.

De verdade.

E, naquele instante, ficou difícil demais continuar fingindo.

— Você complica as coisas.

A frase saiu baixa.

Quase exausta.

Hanna sustentou o olhar dele sem recuar.

— Eu só falo o que é.

Resposta limpa. Sem defesa.

O silêncio que veio depois já não tinha o mesmo peso dos anteriores.

Não era sufocante.

Era honesto.

Menos muro. Mais verdade.

Hanna respirou fundo antes de continuar:

— Eu não vou fugir de você de novo.

Aquilo acertou Chan em cheio.

Porque não parecia promessa bonita.

Parecia decisão.

Ele travou o olhar nela imediatamente.

— Você já fez isso.

Não havia agressividade.

Nem acusação.

Só verdade.

E talvez justamente por isso tenha doído mais.

Hanna assentiu devagar.

Aceitando sem tentar escapar.

— Eu sei.

Pausa.

— E foi um erro.

Agora sim.

Agora eles tinham chegado perigosamente perto do que nunca foi dito.

O mundo continuava normalmente ao redor.

Luzes.

Pessoas.

Risos.

Mas naquele pequeno espaço… o tempo parecia suspenso.

Chan passou a mão pela nuca lentamente.

Pensando.

Cansado.

— A gente não vai resolver isso aqui.

Hanna concordou com um pequeno movimento de cabeça.

— Eu sei.

Então completou, mais baixa:

— Mas a gente também não precisa continuar fingindo que isso não existe.

Ali estava o equilíbrio.

Nem passado enterrado.

Nem ferida aberta.

Só verdade.

Crua.

Entre os dois.

Chan olhou para frente por alguns segundos.

Processando.

E então… quase sem perceber… deu meio passo na direção dela.

Pequeno.

Quase invisível para qualquer outra pessoa.

Mas significativo demais para eles.

— Vamos terminar esse álbum.

Hanna deixou escapar um pequeno sorriso.

Discreto. Verdadeiro.

— Vamos.

Não era reconciliação.

Nem perdão.

Nem recomeço.

Era um acordo silencioso.

A aceitação de que algumas histórias sobrevivem até mesmo ao orgulho.

E, às vezes… isso já basta para mantê-las vivas.