Tudo de Mim

27 Só não o machuque.


Eu só conseguia pensar em uma coisa: se os pais do Lorenzo iriam gostar de mim. E porque isso importava tanto? Porque eu falhei da última vez. Os pais do Alexandre me odiavam e eu passei a não gostar deles também. Mas com o Lorenzo eu quero que seja diferente, mesmo que não sejamos um típico casal de namorados.

O que temos é bastante precioso para mim.

Eu fiquei o caminho todo pensando em como eu deveria agir ou que tipo de pessoa eu deveria ser diante deles. Não queria fazer feio. Queria impressionar. Mas só de pensar nisso por muito tempo, logo me dei conta de que fingir ser o que eu não sou seria estupidez demais. Essas coisas nunca dão certo. E além do mais, o Lorenzo gosta de mim do jeito que eu sou. Ele e meus pais sabem como eu sou de verdade. Seria muito estranho eu fingir ser outra pessoa perto deles só para me aparecer.

Seja você mesma.

Minha mãe também parecia muito interessada em impressionar os pais do Lorenzo. Pois ela ficou o caminho todo perguntando como eles eram, sendo que eu não sabia quase nada sobre eles. Apenas o pouco que o Lorenzo já tinha me contado. E quando eu não dava a resposta que ela esperava ouvir, ela ficava brava comigo.

Eu realmente espero que as coisas voltem ao normal quando a minha irmãzinha nascer. Porque eu adorava a relação que eu tinha como ela antes disso tudo.

— Você não disse que eles eram tão ricos! – Disse minha mãe de boca aberta, assim que estacionamos o carro em frente a tal casa onde tudo se iniciou para valer entre eu e o Lorenzo.

Lorenzo já estava lá, do lado de fora, esperando por nós com um sorrisinho e mais lindo do que nunca com seu jeans e suéter e o todo cabelo arrumadinho.

Nem esperei por meus pais e fui depressa em sua direção.

Me atirei em seus braços e ele me acolheu.

— Nós não estamos atrasados ou estamos? – Perguntou minha mãe assim que nos alcançou. O papai estava logo atrás, segurando a bolsa dela.

— De forma alguma. – Lorenzo cumprimentou meus pais rapidamente. — Vem, vamos entrar. Meus pais estão ansiosos para conhece-los. – E ele pegou a minha mão.

Meus pais foram na frente, maravilhados com tudo assim como fiquei quando coloquei meus pés aqui pela primeira vez naquela noite chuvosa.

— Você está tão linda. – Lorenzo disse no meu ouvido segundos antes de pisarmos os pés na cozinha, onde estavam seus pais.

Eu estava mesmo um arraso. Eu realmente caprichei para esse almoço. Optei em usar o vestido que a Fabi me deu no meu aniversário e que ela disse que era a minha cara. Eu me sentia um pouquinho desconfortável, mas estava conseguindo me acostumar aos poucos. Para os pés sapatilhas, pois não levo o menor jeito para saltos. No pescoço o colarzinho que a mamãe me deu. Os cabelos soltos sem nada de mais. As unhas pintadas. E uma make leve.

Os pais do Lorenzo não eram em nada como eu imaginava.

A mãe dele é uma mulherzinha baixa super simples, magra, cabelos escuros e olhos azuis. Ao contrário do que eu esperava, ela está usando um jeans normal, uma camisa, um blazer clarinho por cima e sapatilhas floral. Nada de joias preciosas, maquiagem exagerada, batom vermelhão, lábios cheios de preenchimento, vestidos de grife e saltos. Ela é bonita de uma forma muito natural e singela.

Primeiro ela se apresentou como Isadora e depois me deu um abraço apertado.

O pai do Lorenzo também é muito simples e bastante risonho. Ele é alto, pálido, tem cabelos grisalhos bem cortados e olhos azuis-acinzentados. Ele também está de jeans e suéter. E para os pés um crocs preto, o que foi bem inusitado.

Ele se apresentou como Rafael e me estendeu a mão.

— Pai, mãe, essa é a Luci. E esses são seus pais, Mariana e Fabiano.

Olhei para os meus pais com um sorrisinho nervoso e vi pelas expressão deles que eles estavam tão surpresos com tudo aquilo quanto eu.

Nesse momento minha mãe parecia muito tímida.

— Oh, não acredito! Vocês vão ter um bebê? – Antes que minha mãe pudesse dizer qualquer coisa, Isadora foi na direção dela e colocou as mãos em sua barriga.

Minha mãe pareceu ter relaxado.

Rafael levou o meu pai até outro cômodo, onde ele garantiu que tinha uma bebida ótima que ele iria adorar experimentar.

— Estou tão feliz que vocês tenham vindo! – Isadora disse com um sorriso de orelha a orelha. Eu ainda estava meio hipnotizada por ela. — O almoço está quase pronto. Sentem-se. – Ela apontou para a bancada. — Se sintam em casa.

E ela voltou para o que estava fazendo: cozinhar. Nem acreditei enquanto a observava discretamente. Ela parecia tão à vontade naquela imensa cozinha! E mesmo cheia de afazeres, ela continuou conversando com a gente sem parar.

— Senhora – chamei-a quando criei coragem. — Quer ajuda em algo?

Ela me olhou espantada, pois até então eu tinha dito muito pouco.

Minha mãe falou na maior parte do tempo.

— Não, querida. É muito gentileza sua. Mas já estou terminando. Eu só quero que vocês fiquem à vontade. – Ela calou-se e me olhou mais atentamente. — Bem que o Lorenzo disse que você era linda. Olha só para você! Parece uma boneca.

Eu quase me engasguei de espanto.

Boneca é a última coisa que eu pareço no mundo inteiro.

— Mãe, não deixe a Luci constrangida. – Lorenzo que estava ao meu lado, colocou a mão sobre o meu abraço e deu um leve aperto.

Sua mãe voltou a sorrir, graciosa.

Apesar de ela insistir em fazer tudo sozinha, Lorenzo e eu a ajudamos pôr a mesa. Depois todos nós nos sentamos e começamos a refeição. E puxa vida! Estava tudo muito gostoso.

Eu estava me contendo muito para não comer igual um dragão na frente de todo mundo.

— Coma mais, querida. Não ligue para a gente. – Isadora disse, quando fui uma das primeiras a limpar o prato.

Eu sorri para ela, agradecida por ela não se importar com a minha gula. Talvez ela perceba agora que eu não sou nada como uma bonequinha. Estou mais para um cavalo. E me servi mais um pouco porque estava mesmo tudo muito bom.

Mesmo após a refeição, nossos pais continuaram conversando muito: sobre trabalho, família, casa, despesas, viagens, negócios, politica, futebol.

Tudo muito chato, por isso eu estava tão entretida com a sobremesa.

— E então, Luci, você já sabe o que vai fazer no futuro?

Congelei.

Pergunta difícil essa. Porque eu não sou o tipo de pessoa que fica pensando muito nessas coisas. Eu prefiro evitar. E não criar muitas expectativas. Eu sei exatamente como eu sou: preguiçosa e nada muito inteligente. Então, corro o sério risco de não ter um futuro tão bem-sucedido com as pessoas esperam de mim.

Como eles costumam esperar de todo mundo que é mais jovem.

— Mãe, a Luci é ótima fotógrafa. Eu te contei, não contei? – Lorenzo deve ter percebido o meu desconforto e resolveu agir. — Ela tem um talento nato.

— Puxa! – Rafael pareceu surpreso. — É mesmo?

— Sim. Ela é ótima! – Lorenzo continuou, agora me olhando, como se eu fosse a Torre Eiffel ou algo tão bonito quanto. — Vocês precisam ver!

— Docinho, você trouxe sua câmera, não trouxe? – Mamãe resolveu entrar na história. — Você não a deixou no carro?

— Sim, eu deixei lá. – Digo, tímida.

— Vai lá buscar, querida. Mostre suas fotos a eles!

— Isso! Nós adoraríamos ver. – Isadora bateu palminhas, animada.

— Vamos lá. – Lorenzo pegou a minha mão. — Vou com você.

E nós fomos até o carro pegar a minha câmera. A que ele me deu.

— Você não precisa fazer isso. – Digo antes de voltarmos.

— Isso o quê? – Ela pergunta, com um sorriso de lado.

— Fingir que eu sou a pessoa mais interessante do mundo.

— Mas você é! Pelo menos pra mim, você é.

E ele me beijou.

— Você não precisa fazer isso. – Diz ele, ao pegar minha mão.

— Isso o quê? – Pergunto, sem entender.

— Fingir que você não é incrível. Porque você é!

Não consigo não sorrir.

Eu realmente mostro minhas fotos aos pais do Lorenzo e eles ficam impressionados. Chegam a dizer que pareço uma fotógrafa profissional.

Lorenzo e meus pais concordam.

Eu não esperava de repente virar o foco da conversa. Mas de uma hora para outra eu era o centro das atenções. E umas das coisas que eu mais temia aconteceu: resolveram perguntar sobre como era minha situação na escola. Felizmente, no momento atual, eu estava um pouquinho acima da minha média de costume. Afinal, todo o esforço que eu estava fazendo nas tardes de estudos com os meus amigos tinham que estar servindo para alguma coisa, não é mesmo?

— E você já sabe para qual faculdade você vai? – Isadora estava insistente naquele assunto.

Não achei ruim, apesar de não ter muitas certezas sobre meu futuro.

Ou nenhuma certeza.

Mas o interesse dela, de repente, me fazia querer pensar mais a respeito. Talvez já estivesse mais que na hora de eu me decidir em relação a isso: ir ou não para a faculdade. Ser ou não fotógrafa. Afinal, eu não podia passar o resto da vida socada na casa dos meus pais vendo séries. Não que isso seja um problema. Mas, sinceramente, de todas as coisas, não é isso que eu imagino para mim.

— Ainda não sei. Mas com certeza prestarei o vestibular e vou ver o que acontece.

Pelo incrível que pareça, essa resposta não pareceu deixa-la decepcionada. Mas foi o bastante para se encerrar o assunto

O foco agora era minha mãe e sua gravidez: quando ela ia ganhar o bebê, de quantas semanas ela estava, se o parto seria normal ou não, qual o sexo e o nome do bebê, se ela já tinha feito o enxoval.

— Vamos sair um pouquinho? Praticar um pouco? – Lorenzo sussurrou na minha direção e eu quase pulei no colo dele por ter adorado a ideia.

Saímos de fininho. Se notaram, ninguém disse nada.

Lorenzo nos levou de carro a um dos parques de sua cidade. Um desses parques cheio de árvores, onde se faz piquenique, anda de bike ou skate, pratica caminhada, passeia com o cachorro, brinca com as crianças e alimenta os patos.

Como não estava um dia muito bonito e ensolarado, o parque não estava assim tão cheio. O que na minha opinião era ideal para tirar fotografias de paisagens e vistas, sem ninguém para atrapalhar e ficar em cima, curiando o que a gente está fazendo.

Tiramos um milhão de fotos até começar a escurecer.

— Você quer voltar para casa? – Perguntou ele, quando íamos rumo ao estacionamento.

— Acho que ainda não. Meus pais não vão embora tão cedo. Eles adoraram seus pais! Porque não vamos tomar um sorvete?

Após escolher o sabor que eu queria, Lorenzo foi até o balcão fazer os pedidos e eu fiquei mais afastadas, apenas esperando encolhida no moletom que ele havia me emprestado. Foi quando fui surpreendida.

— Luci?

— Malena?

Nós nos abraçamos.

— O que você faz aqui? – Perguntou ela.

Olhei na direção do balcão.

Ela olhou também.

— Ah, então vocês estão mesmo juntos?

— Eu sinto muito. – E eu sentia mesmo.

— Ah, que nada. Vocês são fofos juntos! Eu já superei.

— Uau. Tão rápido? – Dei uma risadinha.

— Na verdade, não. – Ela riu também.

Nesse momento Lorenzo se aproximou e a cumprimentou com beijinhos.

— Lena, você quer um sorvete também?

— Não, não. Só estava de passagem. Obrigada.

Eles sorriram.

— Bom, aproveitem. Tchauzinho.

Ela se despediu e se foi.

Como estava um pouco friozinho demais para tomar sorvete, nós fomos até o seu carro e ficamos ali dentro longe dos ventinhos congelantes.

— O que foi? – Ele perguntou.

Desde o nosso reencontro com a Malena eu estava segurando uma risadinha por ele ser tão inocente. Por nunca ter notado a forma boba com ela olha pra ele.

— Você.

— O que tem eu? Fiz algo de errado?

— Não, bobo. É só que...

— O quê?

— Ela gosta de você. Você nunca percebeu?

— O quê? Do que você está falando?

— A Malena, tonto.

— O que tem ela?

Gente, que garoto lerdo!

— Ela gosta de você!

— Ah.... Ah! Ela te disse isso?

— É, mais ou menos.

— Mas eu não... Eu não sabia!

— E se soubesse – Fiquei séria. — Teria alguma diferença?

— Não! É claro que não!

— E porque não?

— Porque infelizmente, ou, felizmente, eu não gosto dela.

— Tem certeza?

— Mas é claro, Luci. Eu a conheço há um bom tempo. Eu saberia.

— Certo...

Virei o rosto e olhei o mundo lá fora, pela janela: muito frio e escuro.

Lorenzo deu uma risadinha.

— O que foi? – Virei-me para ele novamente, sem entender.

— Você ficou com ciúmes.

— O quê? Não! Sem chance.

Ele parou de sorrir e pareceu bem ofendido. Ou era tudo encenação.

— Nem um pouquinho? – Ele se aproximou.

— Nada.

— Tem certeza?

Sua voz ficava cada vez mais baixinha, conforme ele ia se aproximando.

— Total certeza.

— Poxa...

E quando seu rosto estava muito, mais muito perto do meu, ele voltou a sorrir e eu imediatamente sorri também.

— Ta bom. Talvez um pouco.

Isso pareceu anima-lo ainda mais.

— Eu gosto que você sinta.

E então ele me beijou profundamente e nós ficamos um bom tempo ali, dando uns amassos no carro até meu celular começar a tocar e termos que voltar para casa.

~*~

— Vocês têm certeza de que não querem passar a noite aqui? – Isadora perguntou aos meus pais.

Eu torci muito para que eles dissessem sim, porque eu queria mais do que tudo ficar e quem sabe dar umas escapulidas para o quarto do Lorenzo no meio da noite.

— É muito gentileza sua. Mas não. Fica para uma próxima, quem sabe. – Mamãe respondeu.

E eu murchei.

Mas também entendia o lado dela. Ela estava grávida. E provavelmente muito cansada, com os pés inchados, a barriga pesada. Ela queria a casinha dela, a caminha dela, o pijama dela. E ela merecia esse conforto que só nossa casa proporciona.

Só que eu não estou grávida e não preciso de nada disso. Pois qualquer lugar onde eu esteja com o Lorenzo ao lado será incrivelmente confortável para mim.

— Você quer ficar? – Perguntou ele baixinho, como se lesse meus pensamentos.

Nossos pais já estavam se despedindo.

— Eu adoraria.

E ficou decidido: eu ficaria. Meus pais, é claro, não se importaram. Eles são assim.

— Ainda é cedo. – Disse Rafael algum tempo depois ao consultar as horas do relógio em seu pulso. — Que tal sairmos e comer uma pizza?

Todos nós concordamos que seria muito bom.

E lá fomos nós.

— Eu não queria perguntar, mas a curiosidade fala mais alto. – Comentou Rafael de uma hora para outra enquanto esperávamos a nossa pizza em nossa mesa. — Afinal, o que é que rola entre vocês dois?

Dessa vez eu engasguei de verdade com o meu refrigerante.

Lorenzo deu tapinhas nas minhas costas.

— Querido, não seja tão abelhudo!

— Ué, e qual é o problema? Foi uma pergunta inofensiva.

Lorenzo e eu trocamos alguns olhares e rimos.

Por fim, eu apenas assenti. E ele assentiu de volta.

— Tudo bem. É o seguinte: nós somos e não somos um casal. Deu para entender? – Lorenzo tentava ser o mais claro possível.

— Parece complicado. – Isadora observou.

— Na verdade, é o contrário disso. – Resolvi dizer algo em nossa defesa. — É tudo, menos complicado.

— Tudo bem. Acho que entendi. Vocês se gostam, mas não querem estragar isso, certo? – Rafael perguntou e nós dois concordamos.

— Isso parece bom, mas eu tenho uma preocupação. – Isadora focou os olhos nos meus. — Você gosta do meu filho, Luci?

— Eu adoro seu filho!

— Então, seja lá o que vocês estão tendo agora, só não o machuque mais tarde, ta bom?

Eu sorri. Ela não estava sendo intimidadora nem nada. Ela só estava preocupada com o único filho. Eu no lugar nela, particularmente, agiria da mesma forma.

— Pode ter certeza: eu nunca o machucarei.

E por baixo da mesa agarrei a mão do Lorenzo e apertei de leve.

Ele sorriu pra mim. Parecia grato.

Notas finais
O próximo capítulo será um pouquinho tenso. Se preparem!