Tudo de Mim
25 Só amigos ou mais do que isso?
Como já era de se esperar a casa era imensa, tão grande e linda quanto a do Christian e também localizada em um bairro onde as casas eram todas muito bonitas e grandes. Só que diferentemente da do Christian, a decoração da casa do Lorenzo era muito mais minimalista. Muito mais clean. Toda composta por cores branca e preto.
Nada ali se parecia com o estilo da minha casa. Onde tínhamos vários porta-retratos, vasos indianos, plantas para todos os lados, recadinhos colados na geladeira, paninhos para cobrir a superfície dos móveis. Por ali, ao se olhar em volta, quase nem dava para sentir que pertencia a uma família de verdade. Porque não tinha nada de muito pessoal ali. Nada de muito intimo ou familiar.
Por mais que a mamãe tentasse manter a casa sempre limpa, ainda haveria um pozinho por ali que entrou pela janela ou uma chave esquecida sobre algum móvel, um pedaço de papel ou uma caneta. Mas ali na casa do Lorenzo não havia nada disso. Tudo tão branco, organizado e limpo. Nem um pozinho esquecido se quer.
Provavelmente vem alguém limpar esse lugar todos os dias. Sem dúvidas, todas as horas. Em segundo em segundo. Só para garantir que permaneça sempre assim. Mesmo que os pais do Lorenzo e ele próprio nunca estejam por aqui.
Lorenzo pegou uma toalha para nós, pois estávamos ensopados e não queríamos dificultar a limpeza para os empregados que só apareciam na segunda-feira pela manhã como ele mesmo me disse. E depois, ele me mostrou a casa. Deixando seu quarto por último. Porque primeiro iriamos comer algo. Ou eu iria cair dura a qualquer momento.
Na grande geladeira não encontramos muita coisa. Apenas ovos, leite e água. Mas isso já era alguma coisa. Melhor do que nada. E na dispensa ele achou óleo, farinha de trigo, sal e açúcar.
— Podemos pedir alguma coisa. – Lorenzo sugeriu, constrangido.
— Duvido muito que eles façam entregas nesse temporal e a essa hora da noite.
Já se passava da meia noite.
— Então eu posso fazer panquecas.
— Você sabe cozinhar? – Me surpreendi com a revelação.
— Eu sei fazer algumas coisas. – Ele sorriu, já preparando tudo sobre a bancada para começar suas panquecas. — Eu tinha que sobreviver de um jeito ou de outro em um país que não era o meu país de origem.
— Ah, legal. Agora eu estou muito envergonhada de mim mesma! A única coisa que eu sei fazer e que saí realmente boa é macarrão instantâneo.
Ele riu.
— Já um grande começo.
As panquecas não eram lá essas coisas, mas dava para comer. Eu tinha que admirar seu esforço. Depois de ajuda-lo a limpar as coisas, nós finalmente subimos para o seu quarto
Diferentemente do restante da casa, seu quarto era uma explosão de cores e informações. Mas também muito bem decorado, só que com um toque especial.
— Você também tem um mural de fotos? – Me aproximei quando vi.
— Pois é. – Ele se aproximou também e me contou um pouquinho melhor sobre a história de alguma daquelas fotos. Sendo muitas delas de lugares desconhecidos para mim. — É melhor você ir tomar um banho quente e tirar essa roupa molhada.
— É, pode ser.
— O banheiro fica logo ali. – Disse ele apontado para uma porta no canto.
— Eu sempre quis ter meu próprio banheiro!
Só o banheiro dele era quase do tamanho do meu quarto. E tinha uma banheira. E eu sou louca por banheiras. Mas é claro que hoje eu teria que dispensá-la.
— Tem toalhas no armário! – Gritou ele. — Quanto tirar as roupas jogue-as para fora para eu poder coloca-las na centrifuga lá em baixo.
Fiz exatamente como ele pediu. Mas fiquei com a calcinha, que nem estava molhada.
Tomei um bom banho demorado quente naquela ducha potente que me fez relaxar imediatamente.
Quando saí do banheiro enrolada em uma grossa toalha, o quarto estava vazio e sobre a cama tinha uma camiseta e uma calça moletom. Acho que para eu usar, já que minhas roupas ele levou para secar lá em baixo e eu não tinha outra.
O mais ideal é que o Lorenzo não é tão maior que eu, então suas roupas couberem certinho em mim. Só ficaram um pouquinho largas na cintura.
Quando ele enfim voltou eu estava secando o cabelo com a toalha e ele, pelo que parecia, já tinha também tomado seu banho e trocado de roupa.
— Você pegou o meu celular que estava no bolso da calça? – Perguntei.
— Sim. Ele está ali. Ao lado da cama.
Fui até ele e vi que eu tinha duas mensagens de texto da Fabi.
“Já estou em casa. E estou bem. Não se preocupe! Christian cuidou direitinho de mim e agora vamos dormir, porque eu estou acabada hahaha Espero que tenha aproveitado o resto da festa e tenha se safado daquele temporal. ”
Olhei pela janela e vi que ainda estava chovendo, mas bem pouco agora.
“Eu estava bêbada, mas vi tudo que rolou na festa. Vi que você e Lorenzo estavam mais próximos do que nunca e eu, sinceramente, fiquei feliz por você. Por vocês. Mas preciso voltar a dizer: não o machuque. Ele é tão maravilhoso! Assim como você, ele merece o melhor. Então se você ainda não tiver certeza de nada, não faça nenhuma besteira da qual se arrependerá depois. Um beijo e se cuida. ”
Bloqueei o celular e coloquei o de volta sobre o criado-mudo.
— Tudo bem? – Lorenzo se aproximou e tocou meu rosto.
Suspirei fundo, com as palavras da Fabi martelando na minha cabeça.
— Tudo. Era só a Fabi para dizer que eles chegaram bem.
— Que bom. – Ele sorriu, mas eu não. — Você deve estar cansada. Acho que deveria dormir agora. Amanhã cedo nós voltaremos para casa, ta bom?
Assenti e me sentei na cama, cabisbaixa.
— Vou dormir no quarto de hospedes. Você pode ficar com o meu.
É, esse seria o ideal. Que dormíssemos em camas separadas e de preferência em quartos afastados. Até porque não somos um casal nem nada. Somos amigos. Mas pensando bem... Amigos também dormem juntos. Não dormem?
Quando ele colocou a mão sobre o interruptor para apagar a luz eu o chamei.
— Lorenzo.
— Oi?
— Não vá. Você pode dormir aqui também, não pode? – Olhei para ele, esperançosa. — Sua cama é enorme! Cabe quatro de nós aqui.
— É, mas...
— Fica. Por favor. Eu não quero dormir sozinha.
Ele pareceu pensar sobre isso por alguns instantes.
— Tudo bem. Eu fico. – Ele apagou a luz, deixando apenas a luz fraca do abajur ligado e se aproximou, sentando-se ao meu lado.
Nos acomodamos lado a lado ao mesmo tempo.
Virei-me de costas para fingir que eu estava mesmo cansada e precisava dormir. Quando na verdade estava passando por uma batalha interna.
Eu só queria entender porque eu estava fazendo isso comigo e com ele.
— Luci? – Ele sussurrou em meio ao escuro algum tempo depois. — Já dormiu?
Eu poderia ter fingindo que sim e esperar ele cair no sono e meu coração se acalmar para eu dormir também, mas não foi o que eu fiz.
Eu me virei de frente para ele.
— O que foi? – Sussurrei de volta.
— É só que.... Eu não consigo parar de pensar em você. Ainda mais com você aqui do meu lado. Eu simplesmente não consigo! É demais para mim. – Ele se remexeu, inquieto. E virou-se de barriga para cima. — É melhor eu ir dormir no outro quarto.
Eu entendia muito bem o que ele queria dizer com aquilo.
Porque eu me sentia igual.
Quando ele fez que ia se levantar, eu o segurei depressa.
Ele me encarou, incerto daquele gesto.
— Não vai.
Olhei para ele e ele olhou para mim por longos segundos, até começarmos a nos beijar loucamente como se tivéssemos esperado uma vida toda por isso.
— Eu não consigo.... Eu não posso... – Ele afastou sua boca o bastante para dizer essas palavras. — Sei que a intensão era não estragarmos isso... Mas...
— Não diga nada. – Calei-o com meus lábios. — Só me beije.
E foi o que fizemos, até estarmos os dois ofegantes e desorientados. Eu sabia o que estava por vir a seguir. Não era boba nem nada. E sabia que ele queria tanto quanto eu e com urgência. Mas eu não pude levar isso a diante. Não com as palavras da Fabi gritando na minha cabeça.
— Não podemos. – Me afastei, sem ar.
— É. Não podemos. – Ele se afastou também.
Não dissemos mais nada, ambos tentando recuperar a consciência dos nossos atos.
— Eu amo outra pessoa. – Acabou escapando sem eu nem precisar pensar muito sobre isso.
— Eu sei.
O quê?
— Você sabe? – Levantei-me um pouco.
— Sim, eu sei faz algum tempo.
— Mas... Como?
— Bom, eu já suspeitava no começo. Mas ainda tinha minhas dúvidas. Então eu fui atrás de testemunhas: Fabi e Chris. Eles não quiseram dizer nada, só que eu insisti muito, dizendo o quanto aquilo era importante para mim. E então a Fabi acabou cedendo e me falou do seu recente término com seu namorado de anos.
— Lorenzo...Eu...
— Não. Tudo bem, Luci. Eu já sabia. Eu quis assim.
— Mas... Eu...
— Você deveria ter me contando a verdade em todas as vezes em que teve a chance, mas eu também entendia porque você não queria contar: você estava tentando superar. E de repente eu me vi com uma única obrigação: tentar te ajudar nisso.
— Mas você não tinha a obrigação de nada. – Olhei bem para ele. — Então porque quis ajudar?
— Porque eu gostei de você logo de cara! Eu sou assim. Ou eu gosto muito da pessoa ou eu não gosto nada. E conforme a gente foi se conhecendo, eu só fui tendo mais certeza de que estava certo sobre você: eu gosto de você. Gosto mesmo.
— Eu também gosto de você...
— Não foi amor logo de cara. E eu nem sei se é agora. Mas eu adoro o seu jeito: Adoro a sua risada, o cheirinho do seu cabelo, a cor da sua pele, como você se irrita fácil, como trata seus amigos, o jeito como você odeia estudar, habilidade que você tem para fotografar, o jeito torto com você sorri e revira os olhos quase sempre. E eu adoro principalmente estar com você, ser seu amigo, te surpreender, arrancar um sorriso seu, te abraçar, ouvir suas queixas.
Lorenzo se apoiou com o cotovelo e puxou meu rosto para mais perto.
— Luci, eu posso ser qualquer coisa para você. Qualquer coisa que você queira que eu seja: seu amigo, seu parceiro, seu namorado, seu amante, seu noivo. Não importa! Eu só quero ficar com você e aproveitar esse maravilhoso agora.
— É lindo tudo que você disse agora. – Me afastei para limpar as lágrimas que estavam prestes a escapar. — Mas tem certeza se é isso que você quer mesmo?
— Mas é claro que eu tenho! Eu só quero estar com você. Sinto que esse é o meu lugar agora. Pode ser que não seja para sempre, mas não me importo. É tudo que sinto agora. E eu quero isso mais do que qualquer outra coisa.
— Mesmo sabendo do tamanho da minha bagagem?
— Eu sempre tive consciência dela.... Então sim. Eu não importo nenhum pouco com sua bagagem. Se você precisa de alguém que te ajude a sustente-la, eu posso ser essa pessoa. Eu quero ser essa pessoa! A gente nem precisa se beijar, nem nada. Podemos continuar sendo amigos. Só amigos para mim é ótimo também.
Eu sorri.
— Não.
— Não o quê?
— Eu não quero ser só sua amiga também.
Ele abriu um largo sorriso.
— E que tal amigos que se beijam de vez em quando?
Fingi que pensava sobre aquilo, quando na verdade a resposta era óbvia.
— E que tal amigos que se beijam de vez em quando e não criam complicações, nem se desentendem, nem tornam tudo complicado sem necessidades? – Sugeri.
— Parece ótimo para mim. Mas e que tal amigos que se beijam de vez em quando e não criam complicações, nem se desentendem, nem tornam tudo complicado sem necessidades e nunca conversam sobre isso, apenas deixam as coisas acontecerem do jeitinho que elas tem que ser?
— Isso ainda parece ainda melhor para mim.
Voltamos então a nos beijar, mas sem pressa dessa vez. Beijamos e conversamos. Mas não sobre o que estava acontecendo e sim sobre outros assuntos variados, paralelos e aleatórios. E só por volta das três horas caímos no sono, abraçados.
~*~
Acordei no outro dia com a claridade do dia atingindo meu rosto.
Tive um sono leve igual aos bebês.
Comecei a abrir os olhos devagar e com um sorriso no rosto ao me lembrar da noite passada e tudo que aconteceu: todas aquelas palavras e aqueles beijos.
Eu me sentia nas nuvens.
Assim que abri meus olhos vi que o Lorenzo estava ali, de costas, não tinha me visto acordar, pois estava ocupado demais trocando de camiseta.
Fiquei olhando para as costas pálidas dele com algumas pintinhas e depois para seu bumbum e de volta para suas costas e senti meu corpo febril.
Não tínhamos feito nada noite passada além de nos beijado e conversado muito. Mas isso não quer dizer que eu não tenha desejado. Isso quer dizer que eu resolvi ir com calma, porque não queria estragar nada do que estava acontecendo entre nós agora.
Seja lá como se chama isso.
— Ei, porque você está me olhando assim? Como se você fosse uma leoa faminta e eu a pobre cervo inocente.
Eu ri.
— Não é nada. – Sorrio ao me levantar e passar por ele fazendo questão de encosta-lo um pouco. — Deve ser coisas da sua imaginação.
Fui até o banheiro jogar água no rosto e escovar os dentes com meu próprio dedo e um pouco de pasta de dente sabor menta.
— Sua roupa está aí em algum lugar. – Ele avisou.
E de fato estavam ali penduradas e secas.
Quando eu estava prestes a coloca-las de volta, pensei melhor e desisti.
— Será que você pode me dar uma ajudinha com o fecho desse sutiã?
Saí do banheiro só de calcinha para ver a reação dele.
— Ah, meu Deus! Isso é mesmo real?
Com um sorriso de orelha a orelha ele veio até mim, me pegou no colo e me colocou sobre sua cama, posicionando-se no meio das minhas pernas, enquanto beijava meu pescoço e depois desciam lentamente, só para provocar.
~*~
— Nossa! Pensei que não fosse voltar para casa nunca mais. – Comentou minha mãe assim que entrei em casa por volta das quatro da tarde.
Acontece que eu e o Lorenzo estivemos muito ocupados em seu quarto, mas acho que desse detalhe ela não precisa saber.
— Desde quando você monitora minhas entradas e saídas dessa casa? – Pergunto, de forma brincalhona. Vou direto para a cozinha pegar algo para comer.
Não comi nada a tarde toda. Estava muito, muito ocupada.
— Como foi o passeio? – Mamãe sentou-se na minha frente, com sua barriga cada vez maior. Eu tinha a sensação que ela ia estourar como um balão.
Por esse motivo não ficava olhando por muito tempo.
— Foi perfeito. – Respondo de boca cheia.
— O Lorenzo cuidou direitinho de você?
— Ele faz o melhor que pode.
Não pude deixar de sorrir ao dizer isso.
— Vocês estão finalmente...?
— Transando?
— Não! – Minha mãe levou a mão a boca. — Credo! Não quero saber desses detalhes.
— É, eu já imaginava. – Digo, rindo.
— Mas... Vocês estão?
Olhei bem para ela.
— Mamãezinha, não vamos conversar sobre isso, ta bom?
— É que você parece tão feliz!
— E eu estou!
— Então isso basta. – Ela se levantou e limpou a mesa.
Subi, fechei a porta e joguei-me em minha cama.
O celular tocou no bolso.
Lorenzo.
— Você não se cansa de mim não?
— Até o momento não. Mas e aí, o que está fazendo?
— Nada. Mas eu estava pensando em ver alguma série mais tarde.
— Eu posso ir aí ver com você?
— Mas já está com saudade?
— Um pouco, talvez.
— Você pode vir a hora que quiser.
— Seus pais não vão achar ruim?
— Acho que não.
— O.k. Avisa eles que vou levar algo para o jantar.
— Você está tentando, por acaso, ganhar pontos extras com meus pais?
— Você acha que funciona?
— Acho que você pode tentar.
As seis e meia Lorenzo chegou com sacolas de um restaurante chinês.
— Como você adivinhou? Eu estava com tanto desejo de algo assim. – Disse minha mãe contente, levando as coisas direto para a cozinha.
Meu pai estendeu a mão para o Lorenzo.
— É bom te ver de novo. – Disse ele antes de voltar para o seu jogo na tevê.
Fiz um sinal de positivo para o Lorenzo.
— Mãe, nós vamos assistir alguma coisa e depois descemos para o jantar. – Anunciei, antes de arrastar o Lorenzo para o meu quarto e beija-lo atrás da porta.
— Amigos que só se beijam de vez em quando, lembra?
Eu sorrio com ele.
— Ta bom. Eu vou tentar.
Assistimos então um episódio de Teen Wolf e descemos para comer.
— E quando é que vamos conhecer seus pais, Lorenzo?
— Mãe!
Que absurdo! Minha mãe nunca fez questão de conhecer os pais do Alex e agora estava me fazendo passar vergonha na frente do Lorenzo?
Mais tarde eu conversaria com ela sobre isso.
— Na verdade, creio eu que no próximo final de semana isso já seja possível. – Disse o Lorenzo, olhando para mim. — Recebi uma ligação deles logo depois que te deixei em casa e eles anunciaram que vão voltar para casa na sexta-feira.
Estou perplexa.
Não estou preparada para isso. Mas na verdade não estou preparada para quase nada nessa vida, mas veja só onde eu estou.
E se a mãe dele não gostar de mim como a megera da Ana Paula?
— Eles vão adorar você. – Disse ele, mais tarde, quando eu o acompanhei até o seu carro porque ele já estava de partida.
— Eles quem?
— Meus pais. Eu notei que desde que mencionei o assunto você ficou diferente. Mas não tem com o que se preocupar. – Ele segurou meu rosto.
Não tive escolhas a não ser olhar diretamente para ele.
— Não pense muito sobre isso, ta bom?
— Eu posso tentar. – Forcei um sorriso.
— E eu posso te ajudar.
— Como?
Ele abriu um sorriso.
— Assim.
E então ele me beijou delicadamente.
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