Tudo de Mim

26 Amiga conselheira.


Notas iniciais
Oi, oi. Vocês estão bem? Eu estou! Estou livre! Estou de férias. Ou quase isso haha

A loja estava surpreendentemente cheia hoje. Tanto é que saí dos fundos, onde geralmente fico fazendo a arrumação das coisas, para ajudar a mamãe no atendimento antes que ela surtasse.

Minha mãe grávida estava super instável como já era de se esperar. Uma hora ela chorava aparentemente sem motivos algum. Outra hora ela se irritava com simplesmente tudo. Até mesmo com uma colher suja esquecida sobre a mesa. Coisa que antes ela não dava a mínima.

Eu não levava para o pessoal, apesar de ficar bem chateada quando ela começava a gritar comigo. Ela não é de fazer isso. Mas aí eu suspirava fundo e lembrava que logo, logo isso iria passar. Em alguns meses tudo voltaria ao normal.

Ou será que não?

Pensar nessas coisas me deixa assustada.

— Luciana! – Ela berrou de trás do balcão, deixando alguns clientes assustados. — Seu celular está tocando! Atenda logo isso ou vou jogar na parede.

Dei um sorrisinho sem graça para as clientes e fui pegar meu celular antes que ele causasse mais problemas.

— Alô? – Digo no instante que piso meus pés na calçada.

Está um dia frio e cinza.

Noite passada choveu tanto que eu pensei que o mundo fosse acabar.

— Luci.

— Lorenzo!

Fazia alguns dias em que não nos víamos pessoalmente, apesar de estarmos sempre em contato por telefone. Ele estava ocupado resolvendo suas coisas e eu ocupada cuidando das minhas. Mesmo que não se comparem em nada com as dele.

— Preciso te ver agora.

Abri um sorriso.

Então ele também estava morrendo de saudade?

— Mas.... Agora? Estou ocupada na loja...

— Tem que ser agora. Por favor! Posso falar com a sua mãe se quiser.

— Não, tudo bem. Eu falo com ela. Mas você me deixou preocupada agora.

— Apenas venha me encontrar. Já estou aqui na frente da sua casa.

O.K. Isso realmente me deixou apavorada.

Assim que entrei de volta para a loja, corri até os fundos e peguei minha mochila. Pois eu tinha vindo direto do colégio para cá. Passei pela minha mãe voando.

— É o Lorenzo. Ele precisa de mim! Desculpe.

Eu podia estar sendo um pouquinho injusta com a mamãe. Mas convenhamos.... Eu a ajudei bastante hoje. Fiz muito mais do que eu estou acostumada a fazer.

Eu cheguei em casa tão depressa que fiquei surpresa comigo mesma. Não sou muito boa corredora, já que sou extremamente preguiçosa. Mas eu me esforço.

O carro dele estava realmente lá. Na frente da minha casa.

E ele estava encostado dele.

— Lorenzo! – Gritei, correndo até ele.

Quando me viu se aproximar ele abriu um sorriso largo e abriu os braços, como se previsse exatamente o que eu estava prestes a fazer: me jogar em seus braços.

A cena toda era muito ridícula. Como em um filme de drama.

— Você está doente? – Perguntei, olhando para ele atentamente.

— Não! – Ele riu. — Estou partindo.

Continuei olhando para ele ainda sem entender nada.

— Partindo? Como assim?

— Meus pais chegaram hoje. Lembra-se que eu comentei?

Assenti.

— Pois é. Então eu resolvi voltar a ficar na casa deles.

— Sua casa. – Corrijo-o.

— Casa deles. Lá não é o meu lugar. – Ele tocou meu cabelo com cuidado. — Mas sinto que devo estar lá com eles. Afinal, passamos tanto tempos distantes.

— Sim. É o certo a se fazer.

Eu o abracei de novo.

— Então você está de mudança? – Perguntei, ainda com a cabeça colada ao peito dele.

— Estou. E não vejo a hora de falar de você com eles!

— Não! – Me afasto, espantada. — O que você vai dizer? Nós nem somos um casal de verdade. Não sei se eles vão entender o que se passa entre a gente.

— Ninguém precisa entender. – Ele sorriu, gentil. — Eu só quero que eles saibam que eu conheci uma garota incrível. Uma amiga incrível na qual eu dou uns beijos de vez em quando.

Nós dois rimos.

— Isso será tão vergonhoso!

— Que nada.

— Hum.... Então, você quer entrar?

Ele verifica as horas no celular.

— Posso ficar por alguns minutos.

Entramos e subimos direto para o meu quarto, onde a gente se beija e conversa, se beija e conversa. Até dar a hora dele ir de vez. O que faz meu coração murchar um pouco. Mas sei que não tem nada com que se preocupar. Não é como se ele fosse voltar pra Europa ou coisa assim. Ele só está indo para a cidade vizinha.

— Vou vir aqui sempre que puder. E você pode ir me ver também. – Diz ele quando já estamos lá fora outra vez. — Posso vir te buscar.

— Mesmo assim vou ficar com saudade. – Eu o abraço mais forte.

Ele me abraça de volta.

Lorenzo está de costas para a rua, mas eu estou de frente. Estava com os olhos fechados, aproveitando aquele momento ao máximo. Mas de repente os abri e vi algo do outro lado da rua. Algo que não gostei nadinha.

Me afasto ele.

— Não, não, não. Não estou acreditando! — Digo, furiosa.

Alex está do outro lado da rua como se fosse a coisa mais normal do mundo. Posso não vê-lo agora, mas sei que ele está ali, dentro de sua lata velha que chama a atenção em qualquer lugar. E ele está nos espionando! Com certeza está.

Vou até lá, p da vida tamanha a ousadia do cretino.

Por um momento acho que ele vai arrancar com o carro e fugir, mas muito pelo contrário. Ele desce do carro antes que eu chegue até ele e se encosta nele.

— O que diabos você está fazendo aqui, Alexandre? – Eu grito, encarando-o.

— Ah, oi para você também. – Ele inclina a cabeça um pouco e olha além de mim. — Curtindo muito?

Olho para trás rapidamente e vejo o Lorenzo lá, plantando no lugar onde o deixei, olhando para nós intrigado.

— Não é da sua conta. Deixou de ser há muito tempo. Então, pare com isso. Pare de fingir que se importa. Pare de espionar a minha vida, seu idiota!

— Eu não estava te espionando! – Ele se defende. — Eu só estava passando por aqui por acaso quando vi o showzinho e resolvi parar para ver.

Uma chama de fúria sobe dentro de mim.

— Mentiroso! Você nem se quer mora mais aqui, Alexandre. Não estava aqui por acaso. Você veio de propósito! Veio me espionar. E para quê? Não estamos mais juntos há muito tempo. Minha vida agora não tem mais nada a ver com você.

— É, estou vendo. – Ele continua evitando meus olhos e continua olhando para o Lorenzo. — Bem que o Xavier disse que ele era bem bonito.

Olho feio para ele.

O que diabos ele está falando?

O que o Xavier tem a ver com isso?

E porque ele está usando esse tom debochado comigo?

— Saia já daqui. – Digo, firme.

— Desde quando a rua é sua? – Ele rebate.

— Sai daqui agora, Alexandre.

— E para que? Para você continuar agarrando outro na frente da sua cara? Para todo mundo ver que você superou seu ex-namorado bem rapidinho?

Me seguro para não dar um tapa na cara dele.

— Porque é isso que está acontecendo, não é?

Ele continua me provocando e quer saber? Não vou ficar aqui parada fingindo que essas coisas não me atingem. Porque elas atingem sim. E dói. Dói muito. E preciso fazer com que doa para ele também. Pois ele merece. Merece muito.

Começo a socar o peito dele sem parar. Com toda força que tenho.

— Você não tem o direito de vir aqui me confrontar a respeito de nada. – Digo, enquanto continuo socando-o e as lágrimas rolam pelo meu rosto. — Você me deixou. Você terminou comigo. Você fez essa escolha e não eu. E então eu descobri que merecia mais do que isso. E é por isso que estou tentando seguir em frente.

Depois desse breve discurso, começo a xinga-lo de vários nomes feios. E ódio que sinto dentro de mim só parece aumentar. E o pior de tudo é que ele não faz nada contra isso. Ele ainda está ali, parado. Sem dizer ou fazer nada.

Como se merecesse tal punição.

E nós dois sabemos que ele merece coisa pior.

— Luci, pare com isso. – É a voz do Lorenzo. — Vamos! Vem comigo.

Ele coloca as mãos em mim e me afasta.

E por um momento penso em enxota-lo dali e mandar ele cair fora, porque isso é entre mim e o Alex. Mas até eu sei que isso seria demais. Seria injusto e cruel. Pois ele só está tentando ajudar e fazer com que eu pare de surtar antes que os vizinhos resolvam chamar a polícia para mim.

Consigo me soltar do Lorenzo e saio correndo em direção a minha casa com olhos embaçados por conta das lágrimas.

Estou sozinha em casa agora.

Lorenzo nem se quer veio atrás de mim. Mas também.... Eu queria o quê? Ele teve ter ficado assustado com tudo que viu e resolveu cair fora dessa antes que eu fizesse coisa pior e mais vergonhosa. E ele tem esse direito. Eu sou maluca mesmo!

Assim que consigo respirar fundo e me conter, levanto e vou até a janela e vejo que os dois ainda estão lá. E estão conversando. Isso me deixa intrigada.

Não demora nem dois minutos o Lorenzo entra na minha casa.

— O que ele estava dizendo para você? Olha, se ele disse alguma bobagem, por favor, desconsidere. Ele é um animal! Ele não sabe o que diz... Ele...

Lorenzo se aproxima e segura meu rosto. Eu me calo imediatamente.

— Ele só perguntou se eu gostava mesmo de você ou se eu estava só curtindo. E então eu disse que gostava mesmo de você. Gostava muito. E estávamos bem e felizes. E então ele pediu para eu cuidar de você e foi embora. Foi só isso.

— Ele pediu pra você cuidar de mim?

— Pois é. – Ele deu uma risadinha. — Eu sei que parece maluco. Mas foi exatamente o que ele disse com todas as letras. E quer saber? Ele nem precisava pedir.

Eu sorrio e abaixo a cabeça.

— Me desculpe por aquilo. Eu surtei. – Digo, envergonhada. — Eu fiquei com ódio dele e mais ódio por ele ter dito todas aquelas coisas como se tivesse o direito.... Eu tive medo que você não me quisesse mais depois de ter presenciado aquilo.

— Isso não ia acontecer. – Ele ergue meu queixo. — Isso não vai acontecer.

Ele me beija docemente.

— Você precisa ir agora. – Lembro-me.

— Não. Eu posso ficar mais. Você precisa de alguém.

— É. – Eu sorrio agradecida.

Não quero ficar sozinha agora.

Ainda estou tremendo.

— Sabe, ele ama mesmo você. – Ele comenta, algum tempo depois. Estamos no sofá. Eu deitada com a cabeça no colo dele e ele mexendo no meu cabelo.

Já me sinto melhor.

— Não fale sobre ele. Tipo, nunca. Nunca mais fale sobre ele.

— Tudo bem. Eu só queria que você soubesse que não tem problema se você ainda amá-lo, apesar de eu concordar que ele seja um completo idiota.

Isso me faz sorrir.

— Mas eu estou com você. E é isso que eu quero agora. – Levanto-me e me inclino em sua direção para beija-lo. — Obrigada por ter passado o resto da tarde comigo. – Digo, olhando dentro dos olhos azuis dele. — Mas eu sei que você tem que ir agora. Então, sem problemas. Eu já estou muito bem. Sério.

Levo-o até lá fora.

O céu já está escurecendo e está começando a garoar.

— Nos vemos em breve. – Ele beija a minha testa e se vai.

~*~

— Não sei estou conseguindo entender essa história. – Comenta a Fabi, tirando os olhos das minhas unhas por um momento.

É uma manhã de sábado entre garotas. Coisa que nunca mais tínhamos feito. Pois ela está sempre ocupada com o Christian. Mas hoje ele saiu para jogar golfe com o pai e logo cedo ela me ligou, convidando-me para vir até sua casa.

Eu a convenci pintar minhas unhas, coisa que só ela consegue fazer muito bem. Mais tarde tenho um almoço muito importante na casa dos pais do Lorenzo. Ele me ligou ontem a noite dizendo que os pais estavam doidos para conhecer a mim e a minha família.

— É muito simples. – Eu digo. — Nós estamos juntos, mas ao mesmo tempo não estamos.

— Não, não é nada simples. – Ela balança a cabeça, confusa. — Para mim, ou as pessoas estão juntas ou não estão.

— Mas no nosso caso é diferente. Não somos pessoas normais.

— É, eu já percebi.

Ela continua pintando minhas unhas. Depois, enquanto elas secam colocamos a fofoca em dia.

— Preciso te dizer algo, mas prometa não rir de mim.

— Eu jamais faria isso! – Digo, já segurando o riso.

— Luciana! É sério!

— O.K. Fala logo!

Ela corre e fecha a porta do quarto para não correr o risco de ninguém ouvir.

— Lembra-se da noite da fogueira?

— Aquela que você ficou chapada? – Rebato.

— É. – Diz ela, envergonhada.

— Tá. E o que tem?

— O Chris me levou para a casa dele e cuidou e mim e tudo mais. Só que eu não estava muito bem. Como todos puderem perceber. – Assenti, para mostrar que eu estava ouvindo tudo atentamente. — E aconteceram umas coisas estanhas.

— Que tipo de coisas?

— Eu tenho quase certeza de que ele me viu pelada.

Caio na risada.

Não resisto.

— Mas vocês não são namorados?

— Tá. Mas eu não estava muito consciente aquela noite.

— E qual o problema? Por acaso ele se aproveitou de você?

Fico séria de repente.

— Não! É só que.... Não é meio constrangedor?

— Um pouco. Mas não é nada de mais, Fabi. É normal o namorado cuidar da namorada. Ele tirou sua roupa, depois te deu um banho e te colocou para dormir.

— Mas você acha que era mesmo necessário? Tirar minha roupa.

— Dar banho em um bêbado é fundamental.

— Sim, mas...

— Espera aí. Então quer dizer que.... Vocês ainda não...?

Ela me olhou, intrigada.

A tonta é lenta pra entender certas coisas.

— Oh... Não! Não! Esse é um outro assunto que eu queria falar com você.

— Não tem segredo, Fabi. Você quer e ele quer? Então vocês encontram um lugar seguro, transam, mas nunca, jamais esquecem de usar camisinha.

— Luciana!

— Ué, qual o problema? Você não quer?

— Não é isso! Eu quero muito, mas não sei se estou preparada, entende?

— Lição dois: A gente nunca está preparada para nada nessa vida.

Ela suspira.

— Ele te pressiona?

— Não! Nunca! Jamais! Ele mal toca no assunto.

— Ótimo! Isso quer dizer que ele é maduro o bastante para esperar o seu tempo certo.

— E qual é o meu tempo certo?

— E como é que eu vou saber?

Ela suspira de novo.

O.K. É melhor eu ser uma amiga melhor. Ela precisa disso.

— É o seguinte: não se cobre tanto. Esse tipo de coisa acontece. Simples assim. Não precisa ficar pensando o tempo todo. Ninguém nasce sabendo. Só.... Acontece. É quase automático. E natural. E Chris é um garoto incrível. Tenho certeza que ele vai te ajudar a lidar com isso. Seja aberta com ele. Diga o que você sente, o que quer, confesse seus medos. Não esconda nada dele e tudo se tornará mais fácil. Você vai ver.

— Eu só queria ser segura como você! – Ela protesta, feito uma menininha.

— Você vai ser um dia. Tenha paciência!

— Só para saber... Você e o Lorenzo já... ?

— Ah, sim. Com certeza. – Sorrio.

— Como você consegue?!

— Foi fácil. Porque ele é um gato! Você já olhou diretamente dentro dos olhos dele? São tão azuis e ao mesmo tempo é tudo tão cinza! É incrivelmente lindo.

Fabi dá risada.

— Ele é muito bonito mesmo.

Verifico as unhas: finalmente secas.

Verifico as horas: Meu Deus! Estou atrasada.

Levanto-me depressa.

— Preciso ir agora!

Ela se levanta também e me dá um abraço.

— Vai lá, amiga. E arrasa.

Dou uma risadinha.

— Estou tão, tão nervosa!

— Mas você é a garota mais segura que eu conheço! – Observa ela.

— Você tem razão. – Respiro fundo. — Tchau. E obrigada pelas unhas.

— Tchau. E obrigada pelos “conselhos”.

Notas finais
Comentem!!!