Tudo de Mim

29 Pensando no futuro.


Notas iniciais
Desculpem o atraso do capítulo.

Fui praticamente obrigada a participar desse tal intensivão para o vestibular que aconteceria em menos de um mês. Além de estudarmos todos os dias da semana agora, nós também fazíamos milhares de simulados para testar nossos conhecidos. E posso dizer que me saí melhor do que eu esperava em todos eles.

Mesmo assim, só de pensar no vestibular meu cérebro começava a ferver. Acontece que nunca fiz nada parecido antes. Nunca levei isso a sério. Fiz somente as provinhas de no máximo vinte questões no colégio. Fora isso, nada tão grandioso quanto uma prova que definirá o rumo do meu futuro. Mas que futuro, afinal?

Apesar de pensar muito mais nisso agora do que já pensei antes em toda minha vida, ainda não tenho uma resposta pronta na ponta da língua que definirá tudo. Ainda estou muito perdida e confusa. Me sinto sufocada, em um beco com poucas saídas.

A Fabi e o Chris, ao contrário de mim, sabem exatamente o que querem.

Fabi está doida para cursar Biblioteconomia e a faculdade que oferece esse curso fica muito, muito longe daqui, de casa. Mas isso não parece intimida-la. Muito pel contrário, ela parece animada em ter que finalmente sair dessa nossa cidadezinha.

Até então eu nem sabia que existia esse tal curso.

Nunca ouvi falar.

Mas pelo que ela me contou tem muito a ver com ela. E eu a apoio totalmente, porque sei que qualquer coisa que envolva livros e mais livros fará ela feliz em qualquer lugar desse mundo. E fazer o que a gente ama é a base de tudo, certo? Certo.

O Chris ainda está meio em dúvida entre algo que envolva Comunicação e Informática. Mas ele tem pesquisado muito sobre o assunto. E sei que na hora certa, ele saberá exatamente o que escolher e para onde ir.

Tudo que eu sei sobre mim é que amo fotografia e tenho que fazer algo que envolva fotografia. Não consigo me imaginar fazendo nenhuma outra coisa. Fotografia é certamente um dos meus poucos talentos. Mas essa não é a questão. A questão é: Para qual faculdade eu vou? Qual lugar? Será que estou pronta para sair de casa de vez? Morar em outro estado, por exemplo? Longe dos pais e amigos? Viver sozinha e recomeçar em um lugar completamente estranho e desconhecido pra mim?

Não quero nem pensar nessas coisas por enquanto.

— Sei que é difícil para você. Um momento de grande conflito consigo mesma, mas tente não pensar muito sobre isso agora. Você terá bastante tempo para pensar nisso depois, ta bom? – É o que meu pai diz sempre quando me vê tão perdida e apavorada.

— Olha, eu concordo com ele. – Fabi diz no outro dia, durante nosso horário de estudos. — Mas olha só – Ela vira a tela do computador na minha direção. — Você pode tentar se inscrever na faculdade que eu penso em entrar. Lá oferece um ótimo curso de Fotografia. Dá uma olhada!

E naquele momento, enquanto olho fixamente para a tela do computador, eu me animo instantaneamente.

— Já pensou se fossemos para a mesma universidade? E se morássemos juntas? Não seria tão esquisito assim. – Comento, sorrindo. — Seria mais um sonho!

— É verdade! – Ela abriu um largo sorriso. — Apesar de estar bem animada com tudo isso, eu tenho um pouco de medo e seria tão diferente se você tivesse lá comigo.

Já na sexta-feira à noite, quando o Lorenzo me pegou na estação de trem para eu passar o final de semana na casa dele, eu não consegui segurar as lágrimas.

Ele parou o carro.

— Me desculpe. – Digo, envergonhada.

— Mas porque você está chorando?

Não consegui responder de imediato. Eu estava muito sensível ultimamente.

— Não é nada. É só a TPM.

Ele abriu um sorrisinho bobo.

— Eu não acredito em você.

Suspirei, vencida. Limpei as lágrimas antes que a situação só piorasse.

— Eu não sei. É só que.... Eu fico pensando no meu futuro, no que vai acontecer no ano que vem, quando tudo isso terminar e eu tenho tanto medo de tudo dar errado e não ser nada parecido com que eu imagino ou espero.

Ele me puxou para um abraço.

— Eu não posso te garantir nada. Mas posso te dizer uma coisa: a vida pode ser bastante surpreendente. E mesmo que nada for como você imagina, pense positivo. Pense que pode ser muito melhor do que isso. E se não for, pense que você pode fazer com que seja. Tudo só depende de você. Da sua força de vontade de realizar as coisas que você deseja.

É tão maravilhoso o quanto ele me faz sentir encantada com tão poucas palavras.

— Obrigada.

E então ele me beija suavemente antes de prosseguirmos o caminho até em casa.

Passamos o sábado de bobeira, em seu quarto, vendo uns filmes ou jogando videogame. No domingo, acordei surpreendentemente mais cedo que ele e desci para procurar algo para comer, quando encontrei com a mãe dele na cozinha.

— Querida, que bom que você acordou. – Ela me deu um rápido abraço. — Só queria te avisar que hoje vamos fazer uma pequena festinha de aniversário para o Lorenzo lá fora, na piscina, com poucos convidados. Só os amigos mesmo.

— O quê? O aniversário dele é hoje? Meu Deus! Como eu não sabia disso? E porque a senhora não me avisou antes? Eu não comprei nada para ele!

Ela deu uma risadinha adorável.

— Eu tenho certeza que só sua presença aqui hoje já é o bastante para ele. – Ela pegou seu grande celular sobre a bancada. — Preciso dar uns telefonemas.

E então ela saiu e me deixou ali sozinha, com cara de assustada.

Olhei rapidamente em volta e pensei: e agora, o que eu faço? Eu só tenho quinze reais na carteira. Com isso não dá nem para comprar um bom chocolate. E eu não trouxe nada naquela mochila velha que deixei lá em cima do quarto de hospedes.

Ferrou.

Mas aí eu vi aquela mesa linda, coberta de coisas deliciosas: frutas, pães, bolachas, biscoitos, presunto, queijo, café, leite, iogurte, requeijão, suco.

Foi como se Deus tivesse enviado um sinal naquele momento.

É isso. Uma surpresa. Café na manhã na cama. Como se eu soubesse da importância do dia de hoje desde o princípio e tivesse preparado aquilo tudo sozinha.

Levei um tempinho para encontrar uma bandeja, mas quando eu a encontrei, coloquei nela um pouco de cada coisa, fazendo uma bela composição. Como se fosse para tirar uma linda foto e depois subi lá para cima. Mas antes deixei a bandeja sobre a minha cama e dei uma rápida passadinha no banheiro para dar um trato no rosto.

Lavei o rosto, escovei os dentes de novo e dei um trato no cabelo.

Pronto.

Lorenzo ainda estava adormecido. Entrei em seu quarto devagar, tentando não fazer muito barulho e me aproximei de sua cama. Onde ele dormia todo lindo, feito um anjo, o cabelo caído sobre a testa e os ombros expostos, com sua pele pálida e aveludada visível.

— Bom dia, dorminhoco.

Ele se remexe um pouco e abre os olhos devagar.

Quando me vê ali ele abre um sorrisinho.

— Café da manhã na cama?

— Mas é claro! Até porque hoje é um dia muito importante.

— Ah, é? – Ele senta-se.

Coloco a bandeja em seu colo para ele saboreá-la.

— Feliz aniversário, Lolo.

Seu sorriso desaparece e ele revira os olhos.

— Não tente estragar meu dia.

Dou risada.

Ele pega uma torrada e dá uma mordidinha.

— Uau! Está tudo lindo e delicioso. Você é realmente uma cozinheira de mão cheia.

Sei que ele está sendo sarcástico. Ele sabe. Eu sei. Todos sabem. Eu não sei cozinha. Não sei fazer nada de útil e isso não me ofende. Isso me fazer rir muito.

— Obrigada.

Quando termina de comer, ele coloca a bandeja de lado e me puxa para perto dele. Eu o envolvo em um abraço bem apertado e caloroso. Ele retribui.

— Acho melhor você se aprontar logo. – Comento. — Tem um festão te esperando lá em baixo.

— O quê? – Ele parece tão surpreso quanto eu. — Não! Fiz minha mãe prometer que não faria algo assim. Eu disse a ela que não precisava!

— Bom, pois parece que ela não te deu ouvidos.

Ele se levantou imediatamente, frustrado.

— Vou levar isso lá pra baixo. – Me refiro a bandeja. — E ver como estão o andamento das coisas e seus pais precisam de alguma ajudinha.

— Ah, não. – Lorenzo fez uma careta. — Fica aqui comigo só mais um pouquinho, ta bom? – Ele me puxa. — Meus planos para hoje era passar o tempo todo com você, mas agora, vejo que isso será um pouco difícil. Então – Ainda me olhando, ele abre um sorrisão. — Vamos aproveitar só um pouquinho.

Ele se deita por cima de mim e começa a me beijar de forma provocante.

— Lorenzo, a porta está aberta. – Observo, levemente apavorada.

— Ninguém entra sem bater antes. – Diz ele, baixinho.

As coisas realmente esquentam entre nós, até sermos interrompidos por uma batidinha na porta.

— Filho, os convidados estão chegando. – Anuncia sua mãe.

Eu voo para longe dele.

— Meu Deus! Eu nem tive a chance de me arrumar ainda.

— Você está linda assim. – Ele me olha de baixo para cima. — Eu, sinceramente, não me importaria nem um pouco de te ver te pijama de ursinhos na minha festa.

Dou um soquinho nele.

— Bobo.

Nos separamos, por forças maiores, para nos arrumarmos. Quarenta minutos depois estou pronta. Fiz o melhor que pude, que já como não sabia do evento de hoje, não trouxe nada muito extraordinário, além de um jeans novo, All Star e algumas blusinhas, sendo uma delas mais apresentável, sem nenhum furinho ou remendo.

Lorenzo já não estava mais em seu quarto, então tive que descer sozinha. E lá em baixo me deparei com muitas pessoas espalhadas pela casa. Dei um sorrisinho a todas elas, me sentindo muito sem graça. Pelo menos ninguém me olhou torto.

Lorenzo estava perto dos pais quando me viu atravessar o quintal em sua direção. Ele veio até mim sorrindo e pegou minha mão. Demos uma volta inteira na festa, onde ele me apresentou a várias pessoas. Sempre me olhando com muita admiração e falando de mim como se eu fosse uma Madona da vida ou algo assim.

A festinha até que foi muito agradável. Com muitas bebidas e petiscos. Uma musiquinha baixa. Pessoas conversando. Um solzinho agradável. Um céu lindo.

As nove da noite Lorenzo me levou até estação de trem. Ele insistiu em me levar para casa. Mas de carro seria muito mais demorado e eu não queria causar nenhum transtorno. Além do mais, ele bebeu um pouquinho durante a festa. Estava ainda muito animadinho.

Até o meu trem chegar, ficarmos ali por um tempinho, abraçados e trocando beijinhos.

— Você curtiu o seu dia?

— Certamente foi um dos melhores.

— Me desculpe por não ter dado nada.

— Você já me dá todos os dias.

Ele me beijou rapidamente. Meu trem estava vindo.

Cheguei em casa pouco tempo depois e fui direto tomar um banho e dormir, pois, o dia tinha sido longo e amanhã eu ainda tinha aula pela manhã.

~*~

— Preciso te contar uma coisa.

Fabi e eu estávamos indo direto para uma pastelaria depois da aula.

Christian ficou de vir depois, pois teve que ficar no colégio para falar sabe-se lá o que com alguns amigos e nós, aproveitamos, para vir na frente e conversar.

— O que foi?

Ela abriu um sorrisinho. Estava toda vermelha.

— Nós fizemos aquilo. – Diz ela, muito baixo.

— O quê? – Praticamente berrei, sem entender.

— Aquilo. Nós fizemos.

— Aquilo? Aquilo o quê, criatura?

Fabi me olhou feio.

— Sexo, idiota. Fizemos sexo.

Eu parei de andar.

— Não. Tô. Acreditando.

— Pois é. – Ela riu, tímida.

— Mas quando? Seus safados!

Ela continuou rindo.

— No sábado. Ficamos sozinhos por algumas horas e acabou rolando. Eu pensei em te ligar logo depois e te contar tudo, mas achei que seria muito estranho.

— Sim, seria. – Admito. — Mas e aí, como foi? Quero detalhes. Não todos, mas a maioria. Por favor.

— Bom, foi esquisito. – Continuamos andando, normalmente. — Eu não estava esperando. Tinha desencanado totalmente do assunto, como você me aconselhou. Aí olhamos um para o outro, começaram uns beijos mais intensos, umas pegadas mais fortes e de repente estávamos deitados na minha cama, entrelaçados.

Eu ri, achando graça naquilo tudo.

Era como se naquele momento, minha melhor amiga, tivesse acabado de me dizer que virou a nova rainha da Inglaterra.

— Nem tive tempo de ficar apavorada nem nada. Só aconteceu. No comecinho foi bem difícil, mas ele foi bastante atencioso. Perguntou se estava tudo bem, se estava incomodando, se eu queria que ele melhorasse de alguma forma. E por fim, não senti mais nada. Ou devo dizer: que senti tudo de uma só vez?

Caímos na gargalhada.

— Uau! Estou orgulhosa, mas, vocês usaram camisinha, não usaram? Eu não estou preparada para ser tia agora.

Fabi bufou.

— É claro que usamos, Luci.

— Ótimo.

Escolhemos um lugar na pastelaria e fizemos nossos pedidos.

Chris surgiu dez minutos depois, ofegante.

— Que bom que você não será papai dessa vez.

Ele inclinou a cabeça, me olhando como se eu fosse uma maluca.

Não me segurei e ri muito.

Fabi me deu uma cotovelada forte.

— O que está acontecendo aqui? – Ele olhou para nós duas. — Eu perdi alguma coisa? – Fabi não se aguentou e começou a rir junto comigo.

Éramos duas idiotas.

— Ah, já sei. Você contou a ela, não contou? Nem precisar me responder. Já sei que vocês contam tudo uma a outra.

— Basicamente, sim. – Afirmo.

— E ela contou também que eu sou muito bom de cama? – Perguntou ele, todo se achando.

Típico do Christian.

Fabi ficou vermelha de tanta vergonha.

— Na verdade, o que ela me contou foi muito diferente disso. Ela me disse que você é péssimo e nem sabia o que fazer. Estava tão perdido quanto ela.

Fabi arregalou os olhos.

Chris deixou o queixo cair.

— Vocês dois são tão patéticos! – Continuei rindo. — Não podem levar a sério tudo que eu digo. Francamente, pensei que já me conhecem bem.

Os dois pareceram aliviados ao mesmo tempo.

Nossos pasteis chegaram a mesa, junto das nossas bebidas.

— Você achou mesmo que eu fui péssimo? – Perguntou Christian a Fabi, meia hora depois, quando já estávamos voltando para casa.

Ele parecia muito preocupado.

Homens.

Notas finais
E pra quem adora uma dose a mais de Alex, tenham calma e paciência, que logo, logo ele está por aí de novo. Vou tentar parar de deixar vocês tão divididas e começar a traçar melhor o rumo da história. Mas não se esqueçam de comentar. É importante e ajuda muito!