Tudo de Mim

30 Vestibular.


Notas iniciais
Gente, está tão difícil escrever nesse frio. Parece que os dedos vão cair congelados!

Foi uma péssima experiência.

Não consegui dormir de tanta ansiedade. Acordei na manhã seguinte desejando ficar o resto do dia na cama. Me forcei a tomar um caprichado café da manhã mesmo com o estômago todo embrulhado. Ouvi meus pais dizerem que daria tudo certo. Fabi me ligou perguntando se eu estava pronta, pois ela estava mais do que nunca. Lorenzo me ligou para desejar boa sorte e dizer o quanto ele confiava na minha capacidade.

Fui fazer a prova mais tarde me sentindo horrível.

As horas pareceram passar lentamente, meu corpo se sentia exausto, os textos eram imensos, as alternativas muito confusas. A cadeira era desconfortável, o silencio em volta era assustador e para piorar havia alguma Luciana na minha sala cheia de outras Lucianas que não parava de tossir e fungar. Isso me desconcentrou muito.

De uma hora para outra tudo que eu havia estudado não fazia um pingo de sentido e eu depois de algumas horas passei a sentir fome e tudo que eu tinha levado era uma garrafinha de água e uma barra de cereal. Mais nada. Tive vontade de usar o banheiro de cinco em cinco minutos. Mas só fui uma vez para não perder muito tempo. Afinal, quanto antes eu respondesse tudo, melhor. Eu estava louca para ir para casa.

Fui a quinta Luciana a deixar a sala.

Papai já estava do lado de fora me esperando no carro.

— E aí, como foi? Arrasou?

— Provavelmente não acertei nem 10%.

Dei um profundo suspiro.

— Já sei do que você precisa: comida. Vamos comer alguma coisa.

Só de ouvir aquelas palavras eu me animei um pouquinho.

Enquanto comíamos, meu pai não tocou mais no assunto. Não falamos sobre a prova. Nem sobre as dificuldades e o que eu achei que estava fácil. Nós falamos de vários outros assuntos. Só nós dois. Como fazia tempo que não fazíamos.

Em casa, à noite, tomei um longo banho quente. Depois coloquei meu pijama e fui me deitar.

Eu não estava pronta para dormir ainda, pois sabia que a Fabi ligaria a qualquer momento.

— Ei. – Ela parecia eufórica.

— Oi. – Digo, desanimada.

— Como acha que se saiu?

— Mais ou menos. E você?

— Ótima. Eu acho.

Ela deu uma risadinha.

— Chris, eu e nossas famílias estamos numa pizzaria comemorando. Tá a fim vir?

— Não, obrigada. Não tenho nada que comemorar.

— Deixa de ser boba, Luci! Nós estudamos tanto!

— Eu sei, mas, de qualquer forma.... Obrigada. Mas estou exausta e prontinha para dormir.

— Uau, que surpresa. Você recusando comida...

— Pois é. – Me forcei a sorrir. — Divirtam-se.

E desliguei.

Deixei o celular de lado, mas no mesmo momento ele voltou a tocar.

Dessa vez era o Lorenzo.

— Você já estava dormindo? Me desculpe se te acordei...

— Não. Eu ainda não estava dormindo.

— Ah... Bom. E como você está?

Pensei seriamente em mentir, não queria preocupa-lo e nem deixar ele pensar no quanto eu era boba. Mas eu sempre me sentia confortável de falar com ele sobre tudo.

— Péssima.

— Porque?

— Não sei. Me sinto.... Insegura.

— Normal. Mas não deixe isso te abalar muito.

— Eu sei. Eu tento, mas é difícil.

— Olha, Luci, não tem problema se você for mal dessa vez. Coisa que duvido muito. Você é jovem, tem uma vida longa pela frente e várias outras oportunidades.

— Eu sei, mas...

— Você não quer se desapontar. Nem desapontar os outros.

— É, pela primeira vez, acho que é isso.

— Vamos fazer o seguinte? Não pense mais nisso. Deixe para se preocupar quando sair o resultado. Pense somente no quanto você quer me ver no domingo.

Dei uma risada. Verdadeira dessa vez.

— Você tem razão. Não vejo a hora.

— Domingo eu estarei aí e eu vou te abraçar um montão, até você esquecer tudo isso.

— Uau.... Isso parece ótimo. E que tal você vir agora mesmo?

Foi a vez dele rir.

— Eu iria se pudesse. Mas não acho que seus pais ficariam muito felizes de me receber só de cueca.

Eu ri de novo.

— Eles eu não sei, mas eu com certeza ficaria muito feliz.

Conversamos mais um pouco e depois desligamos.

E eu fui dormir me sentindo bem melhor.

~*~

Mamãe insistiu que eu fosse com ela no sábado à tarde ao shopping para pesquisar os preços dos berços para a minha irmãzinha.

Tivemos uma conversa noite passada sobre o quarto do bebê. Meus pais discutiram muito sobre isso. A mamãe queria que o berço ficasse no quarto deles nos primeiros meses, já meu pai achava que o bebê deveria ter um quarto só para ele desde os primeiros meses. E eu, perdida em meio àquela confusa, perguntei:

— Mas nós não temos um quarto extra.

Pela reação de surpresa deles, foi como se nunca tivessem pensando naquilo.

Vamos ser sinceros, nossa casa é modestamente pequena. Temos uma cozinha, uma sala, uma área de serviços em baixo. Em cima, temos o banheiro e dois quartos. E só. Como eles podem ter se esquecido desse grande detalhe?

— Certo. Então, é isso. Até resolvemos essa situação, o bebê vai ficar em nosso quarto.

Papai suspirou, vencido.

Eu entendia o lado de ambos. Mamãe queria o bebê por perto para cuidar, ficar de olho e mima-lo sempre que possível. O típico instinto maternal. Meu pai queria o bebê longe, pois precisava dormir tranquilo, para acordar cedo. Ele só não queria dizer isso em voz alta para não chatear a mamãe por parecer tão insensível e egoísta.

Eu, pela primeira vez, me coloquei no papel de irmã mais velha. Me sentindo muito mal com tudo isso. Tudo bem que o bebê fiquei no quarto deles por um tempo, mas e depois? Quando ela crescer vai precisar de um espaço só para ela, que tenha mais a ver com ela, onde ela tenha privacidade e total liberdade.

— Já sei. – Resolvi intervir.

Meus pais olharam para mim ao mesmo tempo.

— Depois ela pode ficar comigo, no meu quarto. Podemos dividi-lo.

Ou não, pensei em dizer. Até porque não sabia o rumo do meu futuro. E se eu fosse mesmo para uma faculdade longe daqui? Eu não precisaria mais do meu quarto. E se, sei lá, eu não passasse na faculdade, mas encontrasse um emprego e resolvesse morar sozinha? Não dava para saber. Mas eu tinha que arriscar.

— Tem certeza, Docinho? – Perguntou a mamãe.

— É, acho que sim. – Eu sorri.

Mamãe caiu no choro e me veio me abraçar.

— Oh, querida. Estou tão orgulhosa de você.

E cá estamos agora, no shopping, em busca do berço ideal e com um preço bacana.

Minha irmã já tem praticamente tudo: roupas, sapatos, tiaras, meias, fraudas, brinquedos. Mas falta o berço e vários outros detalhes que meus pais não pensaram antes.

— O que você acha desse? – Perguntou minha mãe uma centena de vezes.

E minha resposta era sempre a mesma:

— Eu gostei desse.

Eu tinha mesmo gostado da maior parte do que vimos, mas nesse momento já estava cansada de zanzar por aí sem decidir nada.

Custava muito ela ser um pouquinho mais prática e objetiva?

— Mãe, enquanto você se decide, vou me sentar lá fora, ta bom?

Ela apenas assentiu. E que bom que não ficou chateada com a minha desistência.

Encontrei um banco vazio no corredor e foi lá que me acomodei com o celular em mãos.

Mandei uma mensagem de texto para o Lorenzo

“Minha mãe quer me matar de fome e cansaço. ”

Eu tinha dito ele anteriormente quais eram os planos para hoje, então ele sabia exatamente onde eu estava agora.

“Se prepare. É só o começo. ”

“Não seja ridículo hahaha Eu serei uma ótima irmã mais velha. ”

“Eu não disse que não concordo com isso. ”

Era uma boa distração conversar com ele até a minha mãe resolver que já tinha encontrado o berço perfeito.

Olhei em volta, observando o grande movimento das pessoas andando pelo shopping e acabei vendo as últimas pessoas que eu esperava encontrar por ali.

Alexandre e Luiz.

Pelo visto eles tinham acabado de sair de uma loja de games e agora estavam parados no meio do caminho, conferindo tudo que tinha dentro da sacola.

Tentei não olhar muito para eles não perceberem que eu estava ali.

Não sei o que o Alex disse ao irmão caçula que o fez voltar para a loja, enquanto isso ele se sentou em um banco, apoiando os cotovelos no joelho e passou as mãos pelos cabelos, como se estivesse muito tenso ou alguma coisa parecia.

Fiquei preocupada. Não tinha notícias deles desde o que aconteceu aquela noite no hospital com sua mãe. De repente, senti que queria saber se eles estavam pelo menos bem ou se precisavam de alguma coisa.

Levantei-me e fui até ele.

— Oi. – Sentei-me ao seu lado.

Ele ergueu a cabeça e me olhou.

— Luci.

Sorri.

— Tudo bem?

— Ah, sim. Tudo. E você?

— Bem também.

Ficamos mudos, apenas um olhando um para o outro.

Toda a situação parecia tão desconfortável.

— O que está fazendo aqui, afinal? – Perguntou ele.

— Esperando minha mãe encontrar o berço perfeito.

— Ah. – Ele riu. — Isso parece divertido.

— Foi no começo. Até a buscar começar a parecer infinita.

Ele riu de novo.

— E você? – Olhei em direção a loja de games.

— Estou esperando o Luiz escolher o presente ideal de natal.

— Mas já? Falta quase dois meses ainda!

— Pois é. É que eu consegui uma grana adiantada.

— Hum, e, a sua mãe? Ela está bem?

— No momento, sim. Ela está internada numa clínica de reabilitação.

— Sério?

— É, ela mesmo decidiu que seria o melhor depois daquele dia.

— Uau. Nossa. Que bom!

Mais silencio constrangedor depois disso.

— Espero que ela se recupere logo.

— Eu também.

...

— Alex?

Olhei para trás e lá estava a mamãe. Alex se levantou no mesmo instante e deu um abraço apertado dela. Ela retribuiu, claro. Fazia muito tempo em que não se viam.

Depois que eles trocaram algumas palavras, resolvi me levantar e intervir antes que eu fosse obrigada a ficar mais longa horas ali, só esperando.

— Mãe, vamos?

— Sim. Vamos.

— Bom – Me virei para o Alex. — Manda um beijo para o Luiz.

— Pode deixar.

E sem que eu esperasse ele me deu um rápido abraço.

— Se cuida, Luci.

— Você também. – Digo, sentindo-me ruborizada.

Peguei a mão da minha mãe e a puxei para longe dali o mais rápido possível, antes que meu coração saísse pela boca.

— Ele parece ótima. Está tão mais bonito!

— Mãe!

— Ué, o que você quer que eu diga? É a verdade!

— Certo. Chega. Vamos embora.

~*~

— Você não vai acreditar. – Digo, de repente. Deitando a cabeça em seu peito, enquanto ele afunda os dedos no meu cabelo de forma carinhosa.

— O quê?

— A mãe do Alex está internada.

Não sei porque esse assunto veio à tona.

Eu só senti vontade de compartilhar com alguém.

— Sério? Parece o certo a se fazer.

— Sim! E foi ela que tomou a decisão.

— Eles devem estar muito felizes.

— Não sei. Mas vão ficar se ela se recuperar logo.

— Com certeza.

Voltei minha atenção ao filme.

— Tem uma coisa que preciso te dizer também.

Me afastei para olhar melhor para ele.

— O que? — Peguntei, curiosa.

— Lembra da Zoe? Ela me ligou essa semana.

— Não brinca! E porque você não me contou antes?

Só para relembrar: Zoe foi a garota que ele conheceu e por quem se apaixonou durante sua viagem e estadia na Europa.

— Ah, sei lá, não achei que fosse necessário.

— Mas e aí, o que ela disse?

— Nada. Só perguntou como eu estava.

— E?

— E ela está noiva.

— Nossa! E isso te deixou... Incomodado de alguma forma?

— Não! De jeito nenhum. Muito pelo contrário, eu fiquei feliz por ela.

— Isso é muito maduro.

Ele riu.

— É? E porquê?

— Não sei. Não é estranho para você? Você já a amou um dia!

— Sim. Eu já amei. Exatamente.

Pensei um pouco sobre aquilo.

— Você tem razão. Não tem nada de estranho. Eu que sou estranha.

Nós rimos juntos.

— Mas, sei lá, seria diferente no nosso caso. — Observei.

— Diferente como? – Ele parecia bem interessado.

— Você um dia me ligar só para dizer que ficou noivo. Não sei se eu reagiria bem a isso.

— Depende. Se você não me ama mais, não seria nada tão extraordinário assim. Mas se você ainda nutrir algo por mim, pode ser que seja mesmo estranho.

Com certeza seria bem estranho.

— E se o Alex encontrasse outra pessoa?

A pergunta dele foi um choque. Mas já era de se esperar. Mesmo assim fiquei paralisada. Sem reação. Me senti muito mal por de repente ter permitido que chegássemos a esse ponto. Até porque já tínhamos falado muito sobre isso. E já tínhamos até chegamos a uma conclusão: não importava o que eu sentia pelo Alex, tudo que eu queria agora era ficar com ele. Somente com ele.

— Acho que ficaria feliz por ele.

— Tem... Certeza?

— É, acho que sim.

— E porquê?

— Ah, não sei, acho que ele merece ser feliz. Se não for comigo que seja com outra pessoa.

— Então. Está vendo? É disso que estou falando.

Eu me aproximei ainda mais dele, tentando envolve-lo com meus braços.

— Obrigada por isso. Por me fazer entender certas coisas.

Ele beijou meus cabelos.

— Eu não fiz nada...

— Sim, fez. E eu amo isso em você.

Notas finais
O que eu posso dizer agora? Bom, a história já se está se encaminhando para o final e como já é de se esperar, terão muitos acontecimentos surpreendentes. Não se esqueçam de comentar. Um grande beijo e até o próximo capítulo!