Tudo de Mim

4 Dois grandes fiascos


Finalmente uma manhã ensolarada por aqui.

— Luci, olha lá! – Fabi me deu um cutucão na costela.

Lá estava o Christian mais dois amigos.

— Vou lá falar com ele. – Levantei-me do banco.

— Não. Tá maluca? Ele vai perceber de cara que você está falando de mim.

— Relaxa! Eu não vou falar de você ainda.

Sigo até Christian e faço um gesto para que os amigos dele se mandem.

Nunca me senti intimidada por garotos. Apesar de alguns deles serem bem provocadores em alguns momentos, por fora eu tento sempre passar confiança e segurança. E além do mais, o que eles poderiam fazer contra mim? Me morder? Posso muito bem morde-los de volta.

Pelo menos nesse caso.

— Oi, Chris. Tudo bem?

Sim, estou falando com ele como se fossemos amigos há anos.

— Oi. – Ele parece estranhar minha repentina aproximação, mas basta dar uma bela conferida em mim de cima a baixo para abrir aquele sorriso cretino.

Não gostei da atitude.

Mas o que eu poderia esperar?

Menos um ponto para o Christian.

— E você é....?

— Luciana, muito prazer.

Sento-me ao seu lado como quem não quer nada.

— Ah, sim. Luciana. Da minha turma.

— Exatamente! – Tento sorrir de forma mais amigável possível.

— E aí?

— E aí? – Repito. Não sei o que eu tinha na cabeça quando decidir me aproximar assim, sem nenhum plano em mente.

O que eu vou dizer a ele? Pensa, pensa, pensa.

— Você é muito gatinha, sabia? – Ele continua sorrindo.

— Oh, muito obrigada. Você também não é nada mal.

Você é burra Luciana?

O garoto vai pensar que você está flertando com ele, quando na verdade você deveria estar dizendo algo útil que possa ajudar a sua amiga.

Olho na direção da Fabi, onde estávamos sentadas até minutos atrás, mas por incrível que pareça ela não está mais lá. Deve ter ido se esconder no banheiro.

— Você... Hum... Por acaso tem uma... Namorada?

Seu sorriso se estende ainda mais.

— Eu nunca tenho uma namorada. – Confessa ele.

Poxa, Chris, menos um ponto.

Como posso leva-lo a sério dessa forma?

Bom, a Fabi não precisa saber disso, não é mesmo?

Até porque eu posso estar completamente enganada ao respeito dele. E se quando ele se apaixona para valer por uma garota fica disposto a namora-la e leva-la mais a sério? Nunca se sabe o que se passa na cabeça de um garoto de 17 anos.

— Hum... Que ótimo! Pois eu tenho uma amiga interessada em você.

Burra. Burra. Burra.

O plano era não falar da Fabi ainda.

— Uma amiga, é? – Ele parece muito interessado.

— Sim, uma amiga. Porque então você não me passa seu número?

— É claro!

Entrego meu celular a ele e ele coloca seu número na minha agenda.

Uau! Foi mais fácil do que eu esperava.

— Eu tenho que ir agora. A aula já vai começar!

— Tudo bem. Eu te acompanho então.

Merda, mas e a Fabi? Onde ela se meteu? Como vou falar com ela?

— Então vamos lá. – Tento sorrir, animada.

Pelo visto a Fabi vai ter que esperar até a hora da saída.

Percebo que o Christian fica me olhando durante as próximas aulas com aquele mesmo sorriso de antes e eu tento sorrir de volta, pois quem sabe assim podemos criar um laço e ficar próximos mais rapidamente. Que é exatamente o que eu quero.

Dessa vez é a Fabi que está me esperando na saída do colégio.

Ela me puxa pelo braço até o muro da escola que pode nos esconder.

— E aí, como foi? Me conta tudo! – Seus olhos brilham de empolgação.

— Ele é muito.... Legal e simpático. Eu consegui o número dele!

— Sério? Ai, não acredito. – Ela dá pulinhos de alegria. Uma fofa, com todo seu um metro e meio. — Ah, eu tive um plano! Vamos que eu te conto no caminho.

O plano dela é comprar um chip novo para o celular para poder conversar anonimamente com o Chris por mensagens até ela criar coragem de falar com ele pessoalmente. O plano parece muito maluco. Não sei se essas coisas dão certo no mundo real, mas dão certo na ficção, nos livros de amorzinho dela.

Tento apoia-la ao máximo, pois não é como se eu tivesse uma ideia melhor.

~*~

Ainda não consigo acreditar no que aconteceu nos próximos dias.

Christian sentou-se ao meu lado praticamente em todas as aulas e assim nós passamos a conversar e nos conhecer muito melhor. Descobri que ele era um garoto muito legal por sinal. Talvez um pouco confiante demais, mas isso não era exatamente um defeito. E eu, contei cada detalhe das nossas conversas para a Fabi.

Ela também estava evoluindo muito em seu plano anônimo. Ela e o Christian trocavam mensagem praticamente o tempo todo. E conforme ela ia o conhecendo melhor, ela parecia cada vez mais boba, apaixonada e envolvida por ele.

O que era ótimo.

Pois pelo menos uma de nós tinha motivos de sobra para sorrir.

— Você tem irmãos? – Perguntei ao Chris discretamente, enquanto a professora de Inglês enchia o quadro de explicações e eu tentava copiar rapidamente.

— Não! Eu pensei que já tivesse te dito isso.

— Não... Não disse. Pelo menos eu não me lembro.

— Tudo bem. – Ele soltou uma risadinha. — Pode perguntar o que quiser.

De repente a professora sugere que façamos um trabalho em dupla para ser entregue semana que vem. Sinto que essa será a chance de aproximar a Fabi do Christian de verdade, chamando o para fazer o trabalho comigo lá em casa.

— Demorô. – Responde ele.

Combinamos então na sexta-feira e quando conto isso a Fabi ela não sabe se surta de felicidade ou de pavor.

— Fica tranquila. Não tem como ele não gostar de você!

Isso parece fazer ela relaxar um pouco.

~*~

Na sexta-feira as duas e meia da tarde a campainha toca.

Fabi que estava assistindo a TV dá um pulo no sofá.

— Preciso ir no banheiro! – Ela sai em disparada.

Vou abrir a porta e recebo o Chris com um rápido abraço. Antes de entrar ele me dá um beijinho na bochecha e olha em volta, parecendo impressionado.

Exagero, até porque minha casa não é lá essas coisas.

Ou será que ele detestou tudo?

— Uau! Casa maneira. – Ele vira-se para mim. — Estamos sozinhos?

Resolvo não estragar a surpresa por agora.

Convido-o para sentar-se.

— Vamos começar?

Ao contrário do que eu imaginava, Christian não é o típico garoto popular, bonito e burro. Ele é muito inteligente. É impressionante. Não sei como ele consegue já que passa praticamente todas as aulas conversando ou olhando para os lados.

Talvez seja inteligente de natureza. Coisa que não sou.

Um ponto positivo para ele.

— Oi. – Ouço alguém dizer, bem baixinho.

É a Fabi de volta. Pensei que ela tivesse caído dentro da privada.

— Ah, Chris essa é minha melhor amiga, Fabi. – Resolvo apresenta-los de uma vez quando ele olha para ela espantando. — Fabi, acho que você já conhece o Chris.

Ela assente e se aproxima de nós, sentando-se no sofá oposto.

Chris não dá muita bola para a Fabi, coisa que eu não esperava dele. Já que no colégio ele dá bola para toda garota que aparece pela frente. Nesse momento, ele parece muito mais interessado no trabalho de inglês. A Fabi não consegue esconder a decepção enquanto finge se distrair com um programa qualquer na TV.

— Que tal a gente dar uma pausa? – Sugiro, me levantando. — Vou preparar alguma coisinha para gente. Porque eu estou faminta. Não sei vocês.

Antes de sair de cena lanço um olhar duro a Fabi, ordenando para ela ficar no lugar onde estar e não vir correndo atrás de mim feito um cachorrinho medroso.

Ela parece entender o recado.

Não sou muito boa na cozinha, mas sei me virar. Dessa vez preparado alguns sanduíches bem devagarzinho para dar tempo a eles, depois uma jarra de suco.

Será que quinze minutos foi o suficiente para ele agarra-la?

É melhor eu conferir.

Mas me decepciono com o que vejo quando chego na sala: a Fabi continua imóvel no mesmo lugar de antes, assim como o Christian rabiscando alguma coisa qualquer em uma folha em branco de seu caderno. Acho que eles nem se quer conversaram.

Qual é o problema deles, afinal?

Não vivem cheios de assuntos por mensagens trocadas por celular?

A Fabi também não colabora. Sei que isso é difícil para ela, mas se ela não tomar alguma atitude nunca vai sair dessa zona de conforto. E eu não poderia ajuda-la sempre. Algumas coisas só ela poderá dizer ou fazer para conquista-lo.

Um tempo depois, quando Chris e eu terminamos o trabalho, ele disse que precisava ir embora, pois tinha um compromisso muito importante.

Ele se despediu de mim com um beijo e da Fabi com um aceno tímido.

Seria isso um bom sinal ou um péssimo sinal?

Fabi foi para casa também, logo depois que ele saiu. Ela estava muito chateada consigo mesma por ter tido um momento a sós com ele e não ter aproveitado.

~*~

Eu passei as últimas duas semanas tão ocupada com a Fabi e o Chris que eu quase não pensei no Alex. E me dei conta de que ele não tinha me ligado nenhuma vez e nem mandando mensagem desde o jantar. Será que enfim tinha desistido de mim? Ou ele finalmente resolveu me ouvir e me dar o tempo que eu precisava?

Tanto faz.

Só sei que estou louca de saudade dele e nem tinha me dado conta por estar ocupada cuidando dos problemas dos outros. É claro que o Alex faz falta. Eu preciso dele. Preciso senti-lo, toca-lo, beija-lo, abraça-lo e estar no mesmo ambiente que ele. Está mais do que claro: eu não posso e nem quero viver sem ele. Ele é muito mais do que só um namorado. É meu companheiro, meu parceiro, meu cúmplice.

Precisamos resolver isso de uma vez por todas.

Ou eu vou enlouquecer.

Por mais que eu tente, por mais que eu me esforce e tente me convencer disso, não consigo ficar longe dele por muito tempo. Eu o amo. Amo tanto, tanto, tanto que isso faz de mim uma verdadeira maluca.

Resolvo ligar para ele.

— Alex?

— Oi, Luci.

Impressão minha ou ele estava em uma festa?

O som estava muito alto por lá.

— Alex, sinto sua falta.

— O quê? – Ele gritou. — Luci não estou te ouvindo muito bem.

— Alex, a gente precisa conversar.

— Luci, eu realmente não consigo ouvir nada do que você está falando.

A ligação estava mesmo ruim e cheia de chiados.

— Estou em uma festa com uns amigos. Me desculpe. Mas é melhor eu desligar.

E ele realmente desligou.

Todas as minhas esperanças de que iriamos finalmente nos entender morreram naquele mesmo instante.

Notas finais
Me contem: qual a primeira impressão de vocês do Christian? Acham que ele combina com a Fabiana? E a Luciana, deve ou não insistir no Alexandre? Comentem!