Tudo de Mim

5 A reconciliação.


Notas iniciais
Obrigada pelos comentários nos capítulos anteriores :)

Meus pais saíram pela manhã para caminhar.

Os dois são tão fofos! Estão juntos há tanto tempo e ainda se importam um com o outro. Vivem grudados, se respeitam, se cuidam, se completam.

Não são todos os casais que estão juntos há mais de onze anos que ainda tentam manter a chama acessa.

Quando o papai conheceu a mamãe ela só tinha 15 anos.

Eles se viram pela primeira em uma lanchonete que ela frequentava todas as tardes com suas amigas depois do colégio.

Meu pai sempre ia para lá para estudar. Era um lugar sossegado e que tinha o melhor milk shake de baunilha com morango do bairro.

Meu pai só esperou o momento certo para se aproximar. Depois disso eles se tornaram bons amigos e até passaram a estudar juntos. Só algum tempo depois foi que eles resolveram começar a namorar. Estavam perdidamente apaixonados. Mesmo assim viviam brigando constantemente, assim como eu e o Alexandre.

Os dois só terminaram mesmo porque o papai teve que se mudar com a família para outro estado. Apesar de tudo, eles ficaram arrasados. Mas também não fizeram nada para interver a situação. Acharam que seriam melhor assim para os dois.

E só quando a mamãe tinha 23 anos eles finalmente se reencontraram. Aconteceu por acaso, na mesma lanchonete em que se conheceram. Papai estava de passagem pela cidade visitando alguns velhos amigos. Depois desse acontecimento, eles nunca mais se separaram. Meu pai ficou de vez por aqui, eles se casaram e em poucos meses me tiveram.

Eles tiveram que sentir tudo isso na pele para descobrirem que eram muito melhor juntos do que separados.

Praticamente feitos um para o outro.

Hoje em dia é muito difícil ver eles brigando. Pois os dois estão muito mais ocupados se amando para se importarem com detalhes desnecessários.

Dá pra acreditar nessa história?

Parece até coisa de filme.

~*~

Eu não queria passar a manhã de sábado sozinha aqui em casa sem ter nada para fazer. Haviam muitas coisas se passando na minha cabeça nesse momento. E eu sentia que não fosse resolve-las agora mesmo, iria explodir.

Peguei algumas coisas e enfiei na mochila, depois calcei um All Star e me mandei.

Deixei um bilhetinho aos meus pais.

Cheguei ao prédio do Alex muito depressa. Ele mora em um desses conjuntos habitacionais oferecidos pela prefeitura a população carente. Não que ele precisasse, mas acabou comprando um apartamento mesmo assim de uma família que estava se mudando dali por ser um espaço muito pequeno. Na época ele não tinha encontrado nada melhor por um preço tão baixo e também estava com pressa para ir morar sozinho e sair logo de casa.

O prédio é bem simples, pintado em um tom claro de laranja. Tem apenas cinco andares, por isso não há elevador.

Alex mora no 4º andar. Quando chego lá quase sem folego devido ao meu sedentarismo, me deparo não somente com sua porta escancarada, como também a de sua nova vizinha. Aquela que ele vive de gracinha para o lado dela.

Ah, não. Não quero me arrepender de ter vindo aqui.

— Luci? O que tá fazendo aqui?

Quando ele surgiu de dentro do apê da vizinha parede surpreso em me ver.

Safados! O que eles estavam fazendo lá sozinhos?

A tal vizinha surge logo depois e para atrás dele, acho que na tentativa de esconder o shortinho minúsculo que ela está usando.

Ela não parece muito feliz por me ver.

E não é que a desgraçada é bonita?

Olho feio para o Alex, quero deixar bem claro o quanto estou brava com ele nesse momento.

Penso seriamente em ir embora agora mesmo, mas como eu adoro fazer papel de trouxa vou pisando forte até o apartamento dele e entro.

— Aconteceu alguma coisa? – Ele fecha a porta ao entrar por último.

— Você não tem vergonha na cara? – Disparo.

O ciúme e o descontrole sempre falam mais alto em momentos assim.

Começo então a gritar feito uma descontrolada, xingando-o e o acusado.

Ele permanece imóvel e assustado, apenas observando o meu showzinho.

— Terminou? – Pergunta ele quando enfim me calo.

— Você...

— Ei, ei. – Ele se aproxima e pressiona de leve meus lábios com o dedo. — Não aconteceu nada, Luci. Será que dá para você confiar em mim?

Difícil, mas não tem como não acreditar quando ele está me olhando desse jeito.

— Nossa. – Ele abre um sorriso. — Eu estava com tanta saudade de você.

— Não pareceu quando eu te liguei semana passada e..... Você nem retornou.

Tentei me afastar, mas ele não deixou.

— Desculpa, Luci. Eu ainda estava tentando lidar com o fato de que você não me queria mais. Do meu jeito, mas estava.

— Eu não disse que não te queria mais! Eu só pedi um tempo, Alex. Mas...

Abaixei a cabeça.

Como explicar que eu tinha mudado de ideia?

— Chega de tempo então? – Perguntou ele como se lesse meus pensamentos.

— Chega de tempo. – Disse, olhando profundamente para ele.

Alex chega ainda mais perto de mim e com as mãos nos meus quadris ele me arrasta até a parede mais próxima. Começamos então a nos beijar ardentemente.

— Alex?

— Hum?

Ele ainda estava com a boca colada na minha e com os olhos fechados.

— Tá tudo muito bom, mas... Preciso te dizer uma coisa.

Seus olhos se abrem no mesmo instante.

— Essa mochila nas minhas costas está me incomodando muito.

Ele suspira aliviado.

— Vem comigo. – Ele sorri e me puxa pela mão até o seu quarto.

Ele tira a mochila das minhas costas, joga em um canto qualquer, me deita com cuidado em sua cama e volta a me beijar na mesma intensidade que antes.

Agora sim, nada mais me incomoda.

Está tudo perfeito.

~*~

O apartamento do Alex é pequeno.

Quando se entra damos de cara com a sala de estar. Como ele optou por não ter quase nada de móveis, o espaço até que parece muito maior com apenas um tapete grande e fofinho na cor cinza no meio do cômodo, almofadas pretas e puffs escuros.

Isso é tudo.

A cozinha é um pequeno corredor, com um armário na parede, um fogão de quatro bocas, geladeira e um micro-ondas. Integrada com a cozinha, uma minúscula área de serviço com tanque e uma máquina de lavar roupas novinha em folha.

Voltando.... Tem um único banheiro e o quarto. No quarto há uma cama de casal, uma poltrona, escrivaninha, guarda-roupa e muita bagunça.

Não só no quarto, como também no apartamento todo. Mas não é algo que me incomode, já que eu sou tão bagunceira quanto ele.

A parte mais legal do apê do Alex – além do quarto onde passamos a maior parte do tempo – são as paredes grafitadas por um amigo dele. O cara mandou muito bem. Esse lugar só tem vida graças a arte.

Depois de passarmos a manhã toda na cama, Alex pede para eu ajuda-lo a lavar sua lata velha e eu aceito, porque essa é sempre uma tarefa muito divertida.

Principalmente em dias com sol como hoje, porque acabamos sempre muito molhados e cheios de sabão.

Pelo menos o estacionamento do “condomínio” é grande e tem uma vaga reservada para cada morador que possui um veículo. Quando necessário, o sindico do prédio sempre empresta a mangueira que com uma arrecadação eles compraram para uso coletivo.

Alex está do outro lado do carro, limpando os pneus. E eu fiquei com os vidros dessa vez. Cantarolava enquanto exercia minha função do dia e nem percebi quando dois garotos mais ou menos da minha idade se aproximaram.

— Nossa gata, mais tarde eu passo aqui pra você dar uma lavadinha no meu carro também. – Disse um deles e o outro apenas riu. Mas ambos me olhavam daquele jeito típico, como se nunca tivessem visto uma garota lavando um carro velho na vida.

Eu ia abrir a boca para dizer alguma coisa em minha defesa já que não sou o tipo de garota que escuta esse tipo de coisas e fica calada, quando o Alex surgiu de repente. Na certa ele deve ter ouvido o que o babaca disse para mim.

— O que foi que você disse? – Alex soltou o balde cheio de água no chão junto com a esponja que ele esfregava os pneus.

— Alex... Não. Por favor. – Pedi olhando diretamente para ele. Sabia que quando ele estava com aquela cara nada de bom iria acontecer.

Para o Alex era como se eu não estivesse ali. Nesse momento, só existia ele e os dois babacas sorridentes. Alex se aproximou ainda mais dos garotos e com os punhos cerrados os fuzilou dentro dos olhos. Era como assistir uma luta na TV.

— Peça desculpas a ela.

— Não, cara. – O garoto riu. — Eu não vou pedir. Foi só uma brincadeira!

— Peça desculpas a ela. – Alex disse ainda mais alto.

O garoto olhou para mim.

— Descul...

Ele não pôde terminar de dizer, pois Alex tinha acertado sua boca com o punho e na mesma hora sangrou. O outro garoto, o que apenas riu, arregalou os olhos assim como eu e saiu arrastando o amigo ferido para bem longe dali o mais rápido que podia.

— Você ficou doido?

— Você ouviu o que ele disse, Luciana?

— Sim, mas eu sei me defender sozinha, Alex! Não preciso que você me defenda.

— Eu não estava bancando o herói, Luci. Mas eu jamais iria presenciar algo assim e ficar parado sem fazer nada. Não é só porque foi com você. Eu faria a mesma coisa mesmo que fosse com qualquer outra. E você já deveria saber disso.

Dito isso ele voltou a lavar o carro normalmente. Eu tentei fazer o mesmo, mas não saia da minha cabeça o quanto eu tinha sido ingrata com ele agora a pouco.

Eu conhecia o Alex há tanto tempo, sabia das coisas que ele era capaz ou não de fazer. E mesmo com todos seus defeitos e qualidades eu o amava.

Não que eu precisasse de um herói o tempo todo para me defender dos perigos do mundo e de imbecis sem noção como aqueles dois garotos, mas deveria pelo menos ser mais grata que eu tivesse meu próprio herói e que ele sempre estivesse do meu lado, pronto para fazer qualquer coisa para me proteger.

— Obrigada. – Digo um bom tempo depois.

Já jogamos água no carro, já ensaboamos e já tiramos o sabão, agora estamos no processo de secagem.

— Não foi nada. – Ele sorri. — Eu faria qualquer coisa por você.

Inclinei para beija-lo ao mesmo tempo em que ele virou a mangueira na minha direção e jogou um jato forte de água gelada bem na minha cara.

Eu poderia ficar muito brava com ele por isso, mas optei por me divertir, como a gente sempre faz quando resolvemos lavar o carro.

Uma guerra de água e sabão se iniciou.

~*~

No armário do Alex só tem besteira: pacotes de salgadinho, bolachas recheadas, cookies, macarrão instantâneo, pacotes de pipoca de micro-ondas e de balas, manteiga, massas de bolo ou de macarrão e um grande pote de Nutella. E na geladeira não é muito diferente: muitas garrafas de água, uma jarra de suco de morango, maionese, barras de chocolate e uma garrafa vazia de refrigerante. Mas o que você nunca vai encontrar aqui é carne ou qualquer outra coisa de origem animal. Pois o Alex é vegetariano.

No início foi muito difícil lidar com isso. Eu ainda não tinha conhecido ninguém que fosse vegetariano. Só ouvido falar. E como eu gosto muito de comer besteiras gordurosas, principalmente tudo que envolva carne, Alex e eu tivemos várias discussões sobre isso. Mas com o tempo eu me acostumei e até aprendi a gostar de comer algumas coisas que antes só de olhar me dava náuseas.

Alex nunca tentou me obrigar a ser como ele. Mas nós já conversamos muito sobre isso, até porque é muito curioso. Eu queria saber todos os detalhes que o levaram a fazer essa escolha e as dificuldades encontradas. E eu também nunca tentei empurrar um pedaço de carne para ele comer. Acima de qualquer diferença, nós nos respeitamos e tentamos ao máximo lidar com isso, mesmo que do nosso jeito.

Como aqui raramente tem algo descente para se comer, nós saímos para almoçar fora. Alex e eu sempre optamos pelo mesmo restaurante. Aqui o cardápio é muito completo, tanto quanto para alguém como ele, como alguém como eu.

Alex pede uma salada grega e eu um espaguete à carbonara.

Já no final da tarde vamos para a minha casa.

Meus pais ficaram felizes da vida com a nossa reconciliação. Enquanto eles conversavam animadamente, subi para tomar um banho e me arrumar. Eu não estava muito apresentável depois do banho de mangueira. Alex me chamou para ir em uma festa com ele de uns colegas e como não tínhamos nada melhor pra fazer, eu aceitei.

Antes de entrar no banheiro resolvi ligar para a Fabi.

— Ei, você não quer ir uma festa com a gente? – Perguntei logo.

— A gente quem?

— Alex e eu.

— Então vocês voltaram? – Ela estava sorrindo, podia sentir.

— Nós nunca terminamos. – Revirei os olhos mesmo que ela não pudesse ver.

— Quando isso aconteceu?

— Hoje de manhã. Mas então, quer ou não ir com a gente?

— Você sabe que eu não posso, Luci.

Ah, é. Quase me esqueci. Os pais da Fabi são uns chatos. E ela também.

— Além do mais, tenho muita coisa para fazer por aqui.

— Tipo o quê? Ler a noite inteira?

— Ei! Assim você me ofende. Por acaso você tem algum problema com os meus livros?

— Tenho. Você vive muito presa a eles!

— Mas eu gosto! Você sabe que livros são minha verdadeira paixão.

— Eu pensei que sua verdadeira paixão fosse o Christian e eu não sei se você sabe, mas, ele vive no mundo real.

— O Christian não é a minha verdadeira paixão! Pelo menos não a primeira. Antes dele vem os livros, os estudos, minha família, minha gata, minhas...

— Tudo bem. – Interrompo-a impaciente. — Já entendi.

— Nossa, como você consegue ser tão chata?

— Você que é! – Defendo-me. — Nunca quer sair da toca.

— Eu até quero. Mas não posso, Luciana!

— Olha, sei que não é um dos melhores conselhos, mas eu também não sou uma das melhores pessoas... mas porque você não mente? Fala que vem dormir aqui em casa essa noite para gente ver séries. Meus pais podem confirmar a história!

— Eu não gosto de mentiras... E sim, poderia até ser uma boa ideia, mas é melhor não. Deixa para uma próxima, ta bom? Eu prometo que vou me esforçar mais da próxima vez. Mas hoje não vai rolar. Vá você e o Alex e se divirtam!

Ela desligou.

Dessa vez ela venceu. Mas só dessa vez.

Tomo um banho rápido, depois visto uma calça jeans preta com alguns rasgos e uma camiseta branca com um desenho maneiro um pouco maior do que eu normalmente visto. Mas pelo menos ela é leve e folgadinha. Do jeitinho que eu prefiro. Me sinto mais confortável assim.

Me esforço para acertar no delineador e por fim passo um batom escuro.

Estou pronta.

— Vamos?

Alex se vira na minha direção. E me olha de um jeito que eu adoro. Como se estivesse me vendo pela primeira vez. Bobo e apaixonado. Mas eu também não sou muito diferente. Nunca amei tanto uma pessoa como eu amo ele.

Ele se levanta, vem na minha direção e estende a mão.

— Tomem cuidado, crianças. – Pede a mamãe.

Meu pai vem até a gente e tira do bolso sua carteira.

— Tome isso, só por garantia. – Ele me dá uma nota de 50 reais.

Minha nossa! Nem precisava.

— Obrigada, pai. – Dou um rápido abraço nele.

— Cuide do meu docinho, Alex. – Mamãe grita da porta quando estamos quase chegando no carro, estacionado em frente de casa.

— Eu cuidarei. – Alex abre a porta e eu entro.

Depois ele contorna o carro, abre sua própria porta e se acomoda.

— Você está tão linda! Já estou com ciúmes.

Jogo a cabeça para trás e solto uma gargalhada.

— Alex, não começa.

Ele faz beicinha de uma forma bem teatral.

Me inclino em sua direção e pressiono meus lábios sobre os dele.

— Seus pais ainda estão olhando? – Pergunta ele.

Dou uma rápida espiadinha pela janela fechada.

— Não. Já entraram.

— Ótimo. – Ele dá um sorriso safado.

Não estava esperando que ele me puxasse para cima dele e começasse a me beijar dessa forma tão calorosa e feroz, com as mãos firmes em minhas costas.

— Alex, nós não temos que ir?

Já era noite. Umas sete horas. Não sabia ao certo.

— Não agora. Deixa eu ter você só pra mim só mais um pouquinho?

Tinha como dizer não?

Continuamos a nos beijar por um tempo. As coisas já estavam começando a sair do controle quando eu resolvi me afastar e voltar para o meu banco.

— Melhor irmos agora. — Brinquei, tentando ajeitar minha camiseta. — Até porque ainda estamos parados na frente da minha casa com meus pais lá dentro.

— Você tem razão. – Ele sorriu, ligando o carro e dando partida. — Ou então nós poderíamos voltar para o meu apartamento e...

— Alex! – Rindo, dei um tapa na perna dele. — Controle-se. A noite mal começou.

Notas finais
Próximo capítulo uma pequena surpresa.