Tudo de Mim
7 Briga entre amigas.
Como eu não tinha muito dinheiro, Luiz e eu demos uma rapidamente passadinha em um mercado de esquina não muito longe dali e compramos alguns pães, presunto e queijo e um caixa daqueles sucos horríveis industrializados.
Nós não conversamos muito durante o nosso passeio. Ele ainda estava muito tímido em relação a mim e eu muito receosa em relação a ele. Sabia que tudo era uma questão de tempo. Na hora certa ele perceberia o quanto eu posso ser uma boa amiga e que tínhamos muito mais em comum do que imaginávamos.
— Antes de irmos, você não quer levar algo em especial? – Perguntei enquanto caminhávamos rumo a um dos caixas desocupados do mercadinho.
Luiz ponderou a ideia por alguns instantes.
— Vou buscar. Já volto. – Ele saiu em dispara e sumiu em um dos corredores do mercadinho. Quando voltou, dois minutos depois, me estendeu um saco transparente com duas rosquinhas com cobertura de chocolate.
— Ótima escolha. – Sorrio para ele, admirada. — Você promete que vai pensar em divida-las comigo mais tarde?
— Não posso prometer algo desse tipo. – Disse ele com um meio sorriso. — Mas vou pensar no seu caso, tá? Depende muito do meu bom humor.
Esse é do meus.
Luiz fez questão de me ajudar com as sacolas mesmo que fossem só duas e eu fosse capaz de leva-las sozinha. Para não ter que discutir, levei uma e ele a outra.
Para minha surpresa, assim que entramos no apartamento, Ana Paula se levantou e pegou sua bolsa. Pelo que parecia ela já estava de saída.
Só estava esperando por nós.
— Você já vai? – Perguntei, surpresa. Eu pensei que pelo menos teríamos uma tarde de domingo interessante em família. Pelo visto me precipitei. — Mas eu e o Luiz trouxemos umas coisinhas para a gente comer...
— Pão com mortadela, por exemplo?
Meu Deus do céu, qual é o problema dessa gente rica e esnobe afinal?
O que tem de mais em comer pão com mortadela? É uma delícia!
— Não, nós...
— Não tem problema, Luci. – Alex me interrompeu. Percebi que ele não estava com uma expressão muito boa. Não posso nem imaginar o que aconteceu aqui desde que saí. Algo de muito ruim deve ter acontecido. É notável. — Deixa ela ir.
Sua mãe olhou para ele quase que ofendida.
— Vamos, Luiz.
— Não, mãe. Mas eu nem comi nada ainda!
— Filho. – Ela o repreendeu com um olhar severo. — Antes de irmos para casa podemos passar em um dos restaurantes preferidos da mamãe. Lá vende a melhor lagosta desse mundo, lembra-se? Você vai adorar. Vamos!
Luiz abaixou a cabeça, derrotado.
— Ele fica. Mais tarde nós o levaremos para casa. – Disse Alex.
No mesmo instante, Luiz voltou a sorrir, olhando para o irmão com certa admiração.
Ana Paula olhou para os dois filhos levemente aborrecida e por fim para mim. Ela sabia que eu e Alex, apesar de todas suas maldades, éramos irredutíveis.
A prova disso é que estávamos juntos há mais tempo do que ela achou ser possível, mesmo com todas nossas idas e voltas.
Por fim, ela deu um rápido beijinho no filho mais novo e saiu, sem ao menos se despedir.
— Você quer assistir alguma coisa, Luiz? Nós não temos TV, mas se você quiser pode pegar o notebook do Alex lá dentro, no quarto, e procurar alguma coisa.
A ideia pareceu ótima pra ele.
Eu realmente agia como se morasse aqui. Alex fazia com que eu me sentisse assim o tempo todo. Como se tudo que fosse dele fosse meu também.
Levei as sacolas com as poucas compras até a cozinha. Alex veio atrás.
— O que foi? – Perguntei a ele, preocupada. — O que aconteceu?
— Nada. – Disse ele, ainda estranhamente sério.
Ele mal olhava para mim, muito concentrando em tirar as compras das sacolas e depositar sobre a pia onde prepararíamos os lanches.
— Alex, não é verdade. O que foi que ela disse dessa vez?
Falava baixo por medo do Luiz ouvir mesmo sabendo que ele estava no quarto, se divertindo com as tralhas do irmão mais velho.
Ele já não gostava tanto assim de mim, não queria que ele soubesse que meu ódio por sua mãe era algo tão grande quanto o ódio que ela sentia por mim.
Enquanto esperava o Alex abrir o bico, fiquei encarregada de preparar o meu pão com presunto e queijo e o do Luiz também. Sabia que o único da família vegetariano era o Alex que já estava preparando seu pão com apenas maionese, tomate e algumas folhas de alface. Estranho? Sim. Mas, indiscutível.
— Alexandre Vargas, você vai ou não abrir a boca e me explicar o que está acontecendo aqui? – Parei tudo que estava fazendo e o encarei com certa dureza.
Finalmente ele resolveu me encarar de volta.
— Eu não quero te envolver nisso, Luciana.
Soltei a faca que usei para cortar os pães antes que fosse capaz de fazer alguma outra besteira.
Nesse momento eu não estava mais só preocupada, mas eu também estava P da vida com ele.
— Você não quer me envolver nisso? – Gargalhei alto, com frieza. — Como se você tivesse escolha, Alexandre. Eu nunca te pedi para me envolver nisso. Porque eu já estou envolvida desde o exato momento em que decidi ficar ao seu lado nos momentos bons e ruins. Então não me venha com esse papo furado.
— Não é tão simples assim dessa vez, Luci. Isso não tem a nada a ver com a gente. Mas sim comigo e com a minha família, você entende?
— Não! Claro que não entendo! Porque eu também sou a sua família. Sou ou não? Pensei que você confiasse em mim para contar qualquer coisa ou para compartilhar qualquer problema.
— E eu confio! – Ele se virou totalmente na minha direção com seu tom de voz também já alterado. — Poxa vida, Luciana. Não aja como se você não fosse a coisa mais importante e mais bonita que já aconteceu na minha vida.
— Mas então porquê... — Minha voz falhou e não pude terminar de concluir minha pergunta.
Ah, meu Deus. Eu ia chorar?
— Estou com fome. Nós vamos comer ou não vamos? – Luiz apareceu de surpresa e eu rapidamente virei as costas para enxugar as lágrimas.
~*~
Apesar de por muito tempo não conseguir tirar da cabeça que algo de muito ruim estava acontecendo com Alex desde a visita de sua mãe e que ele não queria contar para mim por algum motivo, Luiz parecia estar se esforçando muito para sermos mais próximos e isso me deixou novamente animada e eu até resolvi deixar os problemas de lado para dar uma chance a isso.
— Você não é muito novo para assistir The Walking Dead? – Perguntei quando me ofereceu um pedaço minúsculo de sua rosquinha.
— Puf... É claro que não! Tenho 13 anos ainda, mas já sou muito maduro para certas coisas.
— É, tô vendo.
— E você só é alguns anos mais velha que eu, então...
— Ei. Eu já sou quase adulta! Vou fazer 18 anos em breve.
Enquanto eu e Luiz discutíamos nossa maturidade, Alex estava sentando em um canto, imóvel e extremamente distante e pensativo. Não dizia uma se quer palavra, nem mesmo para nos advertir de que estávamos falando demais ao invés de assistir calados.
Resolvi deixa-lo em paz, pelo menos enquanto o Luiz estivesse aqui.
Eu não era muito fã de The Walking Dead, apesar de ser A Louca das Séries. No começo, eu até assistia. Mas depois acabei desistindo e deixando para lá para me ocupar com outras séries que eram mais a minha praia. Mas hoje, especialmente hoje, Luiz me convenceu do contrário e nós passamos praticamente o dia inteiro comendo as besteiras do armário do Alex e vendo The Walking Dead, a série preferida dele.
Depois que eu tomei um banho quentinho as nove da noite, Alex acho que já estava na hora de levar Luiz para casa. Até porque não só eu, mas ele tinha aula amanhã e sua mãe já deveria estar contando as horas para ele chegar e ir dormir cedo.
Assim que deixamos Luiz em casa, quase do outro lado da cidade, tentei pela última vez conversar com o Alex. No carro mesmo. Conversar numa boa, nada de discussões, gritaria ou xingamento. Mas ele resolveu continuar não colaborando comigo, o que me irritou ainda mais. Então pedi a ele que me levasse direto para casa.
— Amanhã eu vou te buscar no colégio. – Disse ele quando eu já estava quase saindo do carro.
— Não, é melhor não.
Sabe, eu tenho todo o direito do mundo de estar emburrada com ele mesmo sabendo que ele merece certa privacidade e espaço. Mas... Caramba! Eu sou sua namorada. Não a garota perfeita e ideal. Mas a garota que faz questão de ficar ao lado dele o tempo todo, não importa as circunstâncias. E ele está tentando me afastar.
Não parece justo.
— Eu vou de qualquer forma. – Ele parece convicto disso, então melhor não discutir.
Estou cansada por hoje.
Abro a porta e saio, mas ele me segura pelo braço e me dá um beijo rápido.
— Eu te amo.
Quando entro em casa, meus pais estão jantando. E eu me junto a eles, porque finalmente vou comer algo descente e sustentável. Mamãe quer saber como foi meu final de semana com o Alex.
Eu conto quase tudo, deixando de fora apenas os detalhes.
Já estou deitada em minha cama, no escuro, dando uma fuçada no Facebook quando o celular vibra, indicando que chegou uma nova mensagem.
Torço para que seja o Alex e que ele tenha criado coragem e vergonha na cara de me contar o que estava acontecendo.
Mas era só o Luiz.
“Quando vamos ter um próximo final de semana igual ao de hoje? ”
Sorrio involuntariamente.
”Em breve, mas só se você prometer que dá próxima vez assistiremos algo de minha escolha e que você me dê um pedaço maior de rosquinha.”
A resposta veio imediatamente.
”Acho que posso prometer isso hahaha”
Acho que ganhei mais um amigo.
Ponto para mim.
Luiz e eu ficamos trocando mensagens sobre séries preferidas por um bom tempo, até eu decidir que já estava ficando tarde demais para nós dois.
Então fui dormir me sentindo bem mais leve.
~*~
Essa manhã, nas duas primeiras aulas, Christian não veio se sentar perto de mim, nem mesmo me cumprimentou ao chegar atrasado na primeira aula.
Será que ele está com vergonha por causa do que aconteceu no sábado?
Resolvi que eu ia agir dessa vez. Então, só esperei o professor sair da sala para se iniciar a próxima aula e fui me sentar ao lado dele do outro lado da sala.
— E aí, Chris.
— Oi, Luci. Beleza?
Assenti.
— Olha, sobre o que aconteceu no sábado, na festa... – Decidir tocar logo no assunto antes que o próximo professor chegasse e nos impedisse de conversar durante a aula. — Vamos esquecer aquilo, ta bom? Foi um mal-entendido. Tudo que você precisa saber agora é que não estou afim de você. Até porque tenho namorado. Mas podemos continuar sendo amigos, para mim não tem problema algum.
— Ótimo! Porque para mim também não tem.
Impressão minha ou ele estava aliviado?
— E me desculpe pelo beijo. Eu estava um pouquinho alterado.
— Sem problemas. E me desculpe pelo tapa. Eu fiquei nervosa.
Nós rimos.
— Amigos, então? – Ele estendeu a mão.
Eu a apertei.
— Amigos.
Fiquei sentada ao lado dele durante toda a aula até o intervalo.
Pronto, já tinha resolvido meu probleminha com o Christian e foi bem mais fácil do que eu imaginava. Agora eu só precisava conversar com a Fabi e dizer que eu estava fora dessa trama.
Decidi que não ia aborda-la diretamente para não a assustar. Então, fomos primeiro até a cantina e compramos refrigerante e um brigadeirão, depois nos sentamos no jardim do colégio, em um banco de concreto, para aproveitarmos o solzinho fraco daquela manhã cheia de nuvens.
— Fabi, tenho uma coisa para te dizer. – Pausei e terminei de mastigar um pedaço do meu grande brigadeiro. Fabiana olhava para mim pasma, com seu brigadeiro parado ainda no caminho até a boca. — Decidi que não vou mais te ajudar com o Chris.
— O quê? – Ela praticamente gritou, com os olhos arregalados.
— Isso mesmo que você ouviu. – Dei um rápido gole do meu refrigerante para ajudar a descer o bolo que se formava em minha garganta.
— Mas, porquê? Não estou entendendo, Luci.... Não fui que te pedi ajuda. Você que disse que iria me dar uma forcinha e agora.... Resolveu desistir de repente. Porque? Aconteceu alguma coisa? Você descobriu algo? Fala alguma coisa, Luciana!
— Ei, calma. – Olhei para ela, atônita. Que descontrole todo era esse? — Eu sei o quanto você gosta do Christian e tudo mais. Eu só acho que não está dando certo. Tudo que eu faço, tudo que tento descobrir.... Não parece o bastante. Eu acho, sinceramente, que já está mais do que na hora de você ir falar diretamente com ele.
Ela soltou uma gargalhada alta e fria.
— Você só pode estar curtindo com a minha cara. Você sabe que eu não teria coragem disso. Pelo menos, ainda não... O que deu em você, hein? Porque está agindo feito uma estupida? Eu não entendo. Simplesmente não entendo. Pensei que estivesse disposta a me ajudar nessa.
— E eu estou, Fabi! Por isso estou tentando te aconselhar a agir. Sair um pouco da zona de conforto. Vocês não têm mil assuntos para conversar através de mensagens? Então! Basta você chegar nele e dizer algo que você sabe que ele gostaria de ouvir. Aposto que você já o conhece o bastante para isso. Não estou pedindo para você chegar nele e ir de cara se declarando. Não! Mas comece uma amizade, cara a cara, olho no olho. Eu garanto a você que é muito melhor pessoalmente do que por mensagens.
— Você não entende. – Diz ela baixinho. Ao contrário de segundos atrás, ela não parece tão mais brava comigo. Parece triste e desolada consigo mesma. — Eu não me sinto confortável nem comigo mesma, imagine só diante dele. Eu não saberia nem por onde começar, nem como agir ou o que dizer. Eu entraria em pânico!
Fabi suspira.
— Essas coisas não são tão simples pra mim quanto é pra você, Luciana. Você é linda, segura de si, determinada, destemida, corajoso, experiente...Olha só pra mim!
— Estou olhando! E sabe o que eu vejo? Uma garota linda, inteligente, responsável, madura, focada, estudiosa. Esse é o seu problema, Fabiana. – Levantei. Agora sou eu que estou brava. Não comigo. Mas sim com ela. — Você não consegue enxergar o que tem de melhor em você. Você é incrível! Todo mundo sabe. Mas você parece ser a única a não querer acreditar nisso.
Ela se levantou também e me encarou de frente, apesar de ser vários centímetros mais baixa.
Fabi estava vermelha de raiva. Pronta para me enfrentar.
Um pessoalzinho que estava por ali perto nos olhavam assustados e curiosos.
— É muito fácil pra você falar quando você não faz ideia do que se passa dentro de mim.
Depois de praticamente cuspir tais palavras na minha cara, Fabi virou as costas para mim e saiu pisando forte, com o cabelo alaranjado esvoaçante.
Exatamente como numa típica cena de filme dramático quando duas irmãs ou duas amigas têm uma briga feia.
Eu quis fazer ela parar e gritar e dizer o quanto ela estava sendo estupida.
E perguntar porque era tão difícil para ela aceitar a verdade quando estava estampada bem na frente dela.
— O que aconteceu entre vocês? – Quando olhei para o lado assustada, lá estava o Christian.
Só me faltava essa.
A culpa disso tudo era dele, somente dele. Mas se eu dissesse uma coisa dessas a ele, ele se ligaria na mesma hora e descobriria que a tal amiga misteriosa é a Fabi. Apesar de que, o Christian é meio lerdinho, pois ainda não tinha descoberto esse fato e não seria eu que iria fazê-lo enxergar a verdade.
Definitivamente estou fora dessa confusão toda.
A Fabi e ele que se entendam de uma vez por todas.
— Toma! – Empurrei o resto do refrigerante e do brigadeiro da Fabi a ele. — Faz um favor: fica com isso. Não gosto de desperdícios.
Não fui atrás da Fabi, mesmo sabendo que o único lugar que ela poderia estar agora era escondida dentro do banheiro. Chorando ou arrancado os cabelos.
Ela precisava desse tempo sozinha pra cair na real.
Todo mundo precisa ouvir umas verdades de vez em quando.
Na saída do colégio ela não estava lá esperando por mim. Apesar de eu já me sentindo muito melhor agora, acho que ela ainda estava com raiva de mim. E isso me deixou um pouco magoada e chateada, porque a gente não é muito de brigar desse jeito. Mas o Alex estava lá, como ele disse que estaria e mesmo que eu ainda estivesse com raiva dele por estar me escondendo as coisas, fui correndo em sua direção.
Eu o abracei forte.
Precisava muito dele nesse momento.
— Que carinha é essa? – Perguntou ele preocupado, analisando meu rosto.
— Fabi e eu brigamos.
Ele nem precisou perguntar porque, acho que na mesma hora adivinhou.
Alex é esperto. Eu sei que é.
— Sinto muito. – Ele estava mesmo falando sério.
Para me confortar ele me deu um beijinho delicado.
— Já sei. Vou te levar para comer. Aposto que isso vai melhorar um pouquinho o seu humor.
Consegui sorrir para ele.
— É, acho que vai ajudar.
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