Tudo de Mim
8 Um convite irrecusável.
Notas iniciais
Na quarta-feira, depois do colégio, fui direto para a lojinha de roupas da minha mãe. Eu estava precisando de um dinheirinho extra e ela de ajuda. Conclusão: precisávamos uma da outra. E mesmo eu não sendo muito boa com vendas, estava disposto a me esforçar e ajudar no que fosse necessário.
— Por acaso, você e o Alex brigaram de novo? – Perguntou a mamãe por volta das duas e meia da tarde.
Assim que o movimento baixou na loja, ela saiu para comprar nosso almoço.
Quando voltou, fechamos a loja para uma pequena pausa.
Agora estamos nos fundos da loja, sentadas em volta de uma pequena mesa e rodeadas de pilhas de caixas. Aqui nos fundos é uma mistura de copa com deposito.
— Não dessa vez. – Explico. — Eu só tô com essa cara de bunda porque a Fabi está sem falar comigo.
— Vocês brigaram? – Mamãe estava perplexa.
— Quase isso.
Eu sabia que ela ia perguntar de qualquer forma, então resolvi contar a ela o que tinha de fato acontecido na segunda-feira.
— Dê um tempo a ela. Ela é uma garota ótima e logo vai perceber isso. – Aconselhou minha mãe.
Eu queria acreditar nela, mas estava um tanto receosa quanto a isso.
Fabi e eu nunca ficamos sem nos falar por tanto tempo.
Mamãe e eu terminamos de almoçar e logo depois voltamos ao trabalho.
Como ela tinha mais experiência por fazer o que amava, ficou atendendo a clientela enquanto eu arrumava umas prateleiras e alguns cabides por ali.
Voltei para casa as sete da noite depois de ter deixado escapar que eu tinha dever de casa. Mas ao invés de fazer minhas obrigações, tomei um banho morno, coloquei um pijama velho e confortável e resolvi colocar minhas séries em dia.
Por volta das dez e quinze da noite, Alex ligou para saber como eu estava e para batermos um papo. No entanto, ele continuava relutante. Continuava sem querer compartilhar comigo os seus problemas. E eu, por mais difícil que fosse admitir isso, já estava começando a aceitar que ele tinha total liberdade de escolha quanto a isso.
Ou talvez fosse só uma questão de tempo. Como pra tudo nessa vida.
Acordei no outro dia sem um pingo de animo para ir ao colégio. O que não era nenhuma novidade já que eu nunca acordava disposta. Acontece que hoje, meu desanimo não era só por preguiça, mas sim porque eu sabia que a chatice do colégio seria ainda mais tediosa se a Fabi continuasse sem querer falar comigo.
Quando sem querer nossos caminhos sem cruzavam pelos correres, ela ia para o outro lado, tentando a todo custo me evitar como se eu tivesse uma grave doença contagiosa. Ou ela passava reto, fingindo não me ver com sua melhor cara de esnobe. No intervalo, ela nunca estava por lá. Provavelmente estava escondida no banheiro, seu lugar preferido em todo o colégio só para não ter que olhar para mim.
No início eu estava sendo paciente e dando um tempo a ela, mas agora estava começando a me desesperar. Pois a semana já estava chegando ao fim e... Nada.
Na sexta-feira quando ela não apareceu no colégio, eu decidi que ia tentar falar com ela. Mas quando cheguei em sua casa, foi sua mãe que me recebeu e ela não estava com uma expressão muito boa como o habitual.
— Posso entrar e falar com ela? – Arrisquei perguntar.
— Acho melhor não, Luci. A Fabi não está se sentindo muito bem.
E para piorar a situação, ela me olhava de uma forma que me fazia sentir verdadeiramente culpada por isso.
— Tudo bem então. Mas diga a ela que eu passei por aqui.
Fui embora sem muitas alternativas.
Apesar de tudo, queria que a Fabi soubesse que eu me importava muito com ela e que nada seria capaz de acabar com a nossa amizade tão facilmente.
Não fui para casa. Eu estava bem chateada com tudo isso. Por isso achei melhor fazer uma visitinha ao Alex que era o melhor companheiro que eu poderia ter em momentos assim. Ele sempre sabia o que dizer ou como agir para me fazer sentir um pouquinho melhor.
Encontrei o Alex em seu quarto, muito a vontade em sua cama e com seu notebook no colo. Ele estava apenas de jeans e seus cachos estavam molhados, indicando que não fazia muito tempo que ele tinha saído do banho.
Ele nem notou quando eu entrei.
De repente me senti muito mal por estar interrompendo.
O que eu tinha na cabeça ao pensar que tudo girava em torno de mim?
Alex, nem ninguém, tem a obrigação de parar o que está fazendo para ouvir os meus problemas.
— Luci? – O sorriso que ele deu na minha direção foi capaz de acabar com qualquer tensão que eu estivesse sentindo no momento.
Imediatamente joguei minha mochila de lado, tirei meu tênis e fui me aconchegar junto a ele.
Fiquei ali quietinha, apenas observando ele trabalhar.
Alex vem de uma família rica.
Seus pais têm um escritório de Decoração de Interiores.
Alex, assim como seu irmão mais novo, o Luiz, foi um garotinho de muita sorte. Pois sempre teve tudo que queria e um pouco mais. Mas nunca deixou isso subir a cabeça. Tanto é que olhando assim, nem dá para acreditar que ele poderia viver do luxo, mas acabou optando por viver da simplicidade, a sua própria maneira.
Sua mãe nunca concordou muito com isso. Quantas vezes eu a ouvi dizer que batalhou a vida toda só para dar do bom e do melhor a sua família?
Alex até poderia ter vivido cercado de mordomias, mas não enquanto a mamãe vivesse pegando no seu pé, exigindo que ele fosse tal coisa, fizesse aquilo ou isso, determinando como ele deveria viver, o que dizer, como pensar ou agir só para ela não ter que passar vergonha perante a alta sociedade em que vive.
E foi por isso que ele saiu de casa logo após completar maior idade, mesmo que para isso ele tivesse que deixar o irmãozinho para trás.
Alex sempre teve um jeito muito particular de pensar e encarar o mundo.
E foi por isso também que ele desistiu da faculdade de Administração que sua mãe queria tanto que ele fizesse para o bem dos negócios da família.
Apesar de sua mãe viver dizendo que aquilo era o certo a se fazer, não era com aquilo que ele se identificava.
Alex, desde seus 16 anos, teve muito interesse e facilidade por Design Gráfico.
Ele nunca se graduou na área, porque esse nunca foi um dos seus objetivos. Ele é do tipo de pessoa que acredita que você não precisa ter uma excepcional formação para ser uma grande pessoa. Você só precisa de competência e vontade. E principalmente gostar do que faz. E eu o admiro por isso. Pois ele está coberto de razão.
Tanto é que ele consegue viver numa boa com o dinheiro que consegue ganhar fazendo seus bicos na internet.
Alex aprendeu muito do que sabe por conta própria, através de livros e pesquisas na internet. Ele está sempre em busca de se aprimorar cada vez mais. E tem muitos amigos que atuam na área que o ajudam sempre que podem, até mesmo para indica-lo para outros amigos que estejam precisando de um trabalho que ele possa realizar.
Alex trabalha em casa e sempre esteve satisfeito com isso.
Se ele está satisfeito com sua vida, eu também estou. Eu o amo pelo que ele é e não pelo o que eu, ou as pessoas, gostariam que ele fosse.
E é bom saber que ele nunca precisou de nada ou ninguém para ser quem ele é.
Ele simplesmente é assim: um cara incrível por natureza.
Quando Alex terminou o que tinha para fazer e eu que estava cochilando ao seu lado só me dei conta disso quando senti a ponta dos seus dedos percorrer minha bochecha.
— Oi, Bela Adormecida. Quer conversar?
Não tinha muito o que dizer, apenas as mesmas baboseiras de sempre.
O que era um tanto vergonhoso, pois ele já era um adulto e lidava com problemas de adultos e eu ainda sou uma garota, lidando com problemas de garota.
Ainda assim, Alex parecia sempre disposto a ouvir qualquer coisa que eu tivesse a dizer.
— Sabe o que eu acho? Que assim como eu, você precisa de um tempo longe disso tudo. E quando você voltar, vai encontrar tudo melhor. O que você acha? Nós nunca mais viajamos juntos, só nós dois. Acho que merecemos esse tempo longe.
Alex não quis me dar muitos detalhes sobre a nossa viagem repentina, então eu não insisti muito. Gosto quando ele me surpreende. Ele melhor do que ninguém sabe como fazer isso.
Depois de jogar água no rosto e esperar ele por uma camisa e calçar os sapatos, nós fomos para a minha casa, onde ele me ajudou a prepara minha mochila para os dois dias que passaríamos fora.
Minha mãe chegou um pouco mais cedo do trabalho e se dispôs a preparar uma macarronada cheia de verduras e legumes, coisa que o Alex adora, já eu nem tanto. Ela sempre tenta, de todas as formas possíveis, agrada-lo. E ele, é claro, adora.
Enquanto a mamãe e o Alex discutiam sobre a nossa viagem de fim de semana, eu subi correndo até o meu quarto para pegar um comunicado do colégio que recebi aquela manhã. Era a respeito da reunião de pais que aconteceria na segunda-feira.
Mamãe fez careta quando leu o bilhete e eu soube exatamente porque. Ela detesta a enrolação dos professores nesses dias. No quanto eles falam sem parar sobre cada aluno, como se verdadeiramente os conhecesse melhor do que ninguém.
Minha mãe gostaria que fosse tudo mais prático: assinar a lista de presença, pegar o meu boletim e se mandar.
Meus pais nunca foram a essas reuniões esperando muito de mim. Eles sempre souberam como eu sou. Um tanto quanto preguiçosa e desinteressada. Minhas notas nunca foram grandiosas, mas também nunca tão a baixo da média.
Eu sou uma pessoa que conta muito com a sorte da pequena sabedoria do meu cérebro e com a ajuda da minha melhor amiga também. A Fabi quando quer, saber como pegar no meu pé. Parece até uma mãe mandona e exigente. Muito diferente da minha mãe de verdade. Que nesse requisito e em vários outros, nunca foi muito implicante.
Já era noite e meu pai tinha acabado de chegar do trabalho quando Alex e eu decidimos dar uma rápida caminhada antes de ele ir para casa arrumar suas coisas e descansar, já que acordaríamos muito cedo na manhã seguinte.
Nossa cidade é pequena e por aqui não temos muito lugares para lazer. Sim, temos algumas praças. Mas elas são tão sem graça e tão malcuidadas que quase sempre estão vazias ou tomadas por usuários de drogas, já que também não temos um bom policiamento.
Caminhamos de mãos dadas pela vizinhança muito calados, cada um perdido em seu próprio pensamento.
Hoje a noite está muito escura e sem nenhuma estrela ou a presença ilustre da lua. Pelo menos está fresquinho. Nem muito calor ou frio. Apenas ideal.
— Acho que devo ir para casa. – Alex para de repente e se vira de frente para mim. — Venho te pegar amanhã as cinco em ponto.
— Caramba! Tão cedo assim? É realmente necessário? – Protestei, fazendo beicinho igual a uma garotinha de cinco anos.
— Sim, pois teremos um longo caminho a percorrer. Nos afastaremos o máximo que pudermos desse lugar.
Senti, naquele momento, que Alex precisava mais daquela viagem do que eu.
Ele parecia tão cansado, tão preocupado, mas ainda não queria conversar comigo a respeito.
Alex depositou um beijo demorado na minha testa. Aproveitei a proximidade para abraçá-lo, desejando do fundo coração que essa viagem levasse o peso dos nossos corações.
Mais tarde, já na minha cama, um pouco antes de pegar no sono, pensei na Fabi e cogitei a possibilidade de lidar para ela. Mas, além de estar um pouco tarde, era provável que ela não me atendesse por ainda estar me ignorando. E eu não queria insistir e aborrece-la ainda mais.
~*~
Mamãe acordou tão cedo quanto eu no dia seguinte só para preparar o meu café da manhã especial que ela acha ser essencial para quem vai percorrer a estrada por muitas horas. Acho fofo sua preocupação, apesar de um pouco exagerada. Além do mais, ela preparou uma bolsa só com coisas de comer para eu levar. Apesar de eu ter quase certeza que o Alex já tinha cuidado disso. Ele sempre pensa em tudo.
Mamãe respeita muito o Alex e a escolha dele em ser vegetariano. Mas ela acha, apesar de não confessar em voz em alta, que ele é muito magrinho devido a falta de alimentação.
Alex chegou pontualmente na hora combinada. Ele está sorridente e cheio de energia e animo. O que era admirável, pois, apesar da minha empolgação, eu estava morrendo de sono e quase dormindo em pé em qualquer canto.
— Tome cuidado, Docinho. Qualquer coisa é só ligar. – Minha mãe me abraçou forte antes de eu entrar no carro.
— Você e o papai tomem cuidado também. Não aprontem muito enquanto eu estiver fora. – Pisquei, ela corou. Alex não resistiu e deu risada entendendo exatamente ao que eu estava me referindo. Ninguém é bobo por aqui. Somos todos adultos.
Por fim, ele acenou e deu partida.
Assim que entramos na rodovia, Alex ligou o som do carro. Skank é a banda favorita dele. E foi exatamente o que ele colocou pra tocar o caminho todo.
Apesar de estar bastante claro por causa do sol que aos poucos tomava o céu azul, eu estava quase pegando no sono quando senti sua mão na minha perna nua.
Ele a apertou de leve e sorriu lindamente para mim.
Estava tocando Sutilmente, a nossa um música segundo ele.
— Durma um pouco. Eu te acordo quando estivermos perto. – Seus olhos verdes pareciam duas pedras raras e preciosas de tão vibrantes que estavam.
~*~
Eu já deveria ter imaginado que ele nos levaria aonde tivesse muito verde e montanhas. Alex é muito ligado a natureza e tudo que esteja relacionada a ela. Estar aqui, rodeado de arvores e o canto dos pássaros, era como se fosse possível transforma-lo em outra pessoa: mais inspirado e motivado.
Fui correndo até o banheiro mais próximo enquanto ele cuidava da nossa hospedagem na pequena recepção do rancho. Nada de muito luxo. Alex não liga muito para essas coisas. Muito menos eu. Qualquer lugar que tenha uma cama e boa comida está ótimo para mim
O nosso quarto era uma espécie de chalé bem mais afastado, quase que dentro da mata. Era um cômodo razoavelmente pequeno e todo rústico. Com uma cama no centro, aparadores, abajur, uma TV de modelo antigo, uma poltrona, uma cômoda cheia de gavetas e um banheiro com.... Banheira?!
Ai. MEU. DEUS.
— Nem pense nisso. – Alex disse como se lesse meus pensamentos.
— Mas...
Eu nunca usei uma banheira em toda minha vida!
— Mais tarde. Vamos comer agora?
Ir comer é um pedido irrecusável.
Nem preciso pensar muito.
A banheira pode esperar.
Comer é a segunda melhor coisa depois de dormir. E a terceira coisa é usar uma banheira. Como eu sei? Não sei. Mas imagino que seja.
Fizemos nossa primeira refeição no refeitório do rancho. Tudo muito caseiro e com um cheirinho delicioso. Tudo me remetia o interior: pão caseiro quentinho, bolo de milho, panquecas, torradas, bolo de fubá, tapioca, manteiga, requeijão, queijos, sucos, leite e café.
Comi igual a uma desesperada.
Alex ficou assustadora.
Depois ele ficou um bom tempo conversando com o pessoal que trabalhavam por ali enquanto eu, de barriga cheia, descansava em um dos sofás de espera da recepção. Alex estava colhendo informações para elaborar nossa programação do dia.
Porque é claro que não iríamos ficar parados num lugar desses. Era essa a minha vontade. Ficar na cama o dia inteiro. Mas não era a vontade do Alex.
Trilha foi o que fizemos a seguir.
Assim como Alex, eu estava encantada com tudo a nossa volta. Era tudo tão calmo e tranquilo. O sol batendo na copa das arvores e os bichinhos silvestres pulando de galho em galho tão próximo da gente.
Por sorte levei minha câmera fotográfica para registrar cada detalhe. Minha mãe iria adorar! Ela e o papai suaram para me dá essa câmera dois anos e meio atrás, logo após perceberem que eu não era um caso perdido e tinha ao menos um talento para algo útil.
Desde então a minha câmera é como uma filha pra mim.
Alex ia na frente, falando sem parar sobre sua infância, quando no quintal de sua casa ele imaginava ser um explorador.
Eu estava mais atrás, escutando e dando vários cliques para todos os lados.
Dez minutos depois eu já não aguentava mais subir e descer, tropeçar em pedras e galhos, se picada por mosquitos e queimada pelo sol.
Eu também estava com muita sede, pois nossa água já tinha acabado e com as pernas e costas exaustas.
Conclusão: eu sou péssima companhia pra esse tipo de coisa.
— Alex, acho que estou morrendo. – Paro, ofegante e suada.
Ele que ainda estava muito animado, parou e olhou na minha direção.
— Mas não chegamos nem na metade ainda, Luci. – De longe ele me estendeu a mão e me ofereceu um belo sorriso. — Vem, vamos. Você será compensada no final. Terá uma surpresa. Você vai ver. Mas precisa continuar. Por mim. Por favor.
— Eu... Não... Consigo.
Eu queria muito continuar. Queria fazer aquilo por ele. Ir até o fim e ser surpreendida. Mas, realmente, não estava dando para mim.
— Eu te ajudo, então.
Não esperava que ele estivesse falando sério.
Alex quase me derrubou no chão quando se aproximou e me pegou no colo de maneira desajeitada e me jogou em suas costas feito um saco de batatas.
De início eu fiquei assustada e surpresa com sua força, até porque ele não é lá essas coisas de forte. A posição também não era nada confortável. Mas o gesto em si foi romântico.
Deixei então que ele me carregasse por alguns metros.
— Vamos lá. Continue! – Tentei incentiva-lo de alguma forma. Vi que a cada passo ele ficava mais cansado com todo o meu peso nas costas. — Estamos quase chegando. Vamos lá! Mais tarde, você será recompensado. Eu tenho certeza.
Acabamos rindo de toda aquela situação.
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