Notas iniciais
Demorei e teve gente que quase me matou. Apenas aproveitem :v PS: pra quem não lembra, o primo do Cody brigou com os pais e não tem pra onde ir, daí Cody e Lares vão pra Las Vegas buscar ele e participar de uma festa.

POV: Larissa Khouri

A estrada era longa. Meus joelhos estavam doloridos devido as mais de cinco horas sem nenhuma parada em direção a Las Vegas, a cidade onde as putarias rolam a solta. Mantive a velocidade a cem quilômetros por hora e assisti Cody dormir e babar em diversos momentos de congestionamento.

Quando paramos já era tarde da noite. As pessoas que andavam na rua estavam bem vestidas. As mulheres novas vestiam aqueles vestidos tubinho e tomara que caia, com alguma estampa de animal, botas de couro até o joelho e jóias que reluziam de longe; as mulheres de meia idade usavam vestidos com decotes nada comportados, saltos finíssimos e batons tão vermelhos quanto o que estava nos meus lábios naquele momento. Já os homens vestiam gola V e calças caras; muitos andavam com o cigarro na mão ou na boca e estavam sempre sorrindo. Todos pareciam estar constantemente alegres — ou bêbados.

Estacionei o carro diante do hotel que o primo do Cody estaria hospedado, e consequentemente o que estaríamos hospedados por uma noite também. A boate e cassino que iria acontecer a festa era na esquina do hotel, a apenas cinco minutos de caminhada.

– Codelícia, acorda — cutuquei o Cody.

– Bam... Nham... — ele resmungou. — Nha.

– Cody! — eu ri. — Acorda. Nós chegamos.

– Hmmm... Manhá nha.

– CODY!

– O que é? — ele resmungou irritado, abrindo os olhos. Tinha baba escorrendo pelo canto direito da sua boca.

– Nós chegamos.

– Me deixa dormir! — ele fechou os olhos novamente.

– Nós chegamos — repeti impaciente.

– Tome cuidado com sua traseira, Khouri — ameacei. — Tenho golfinhos e eles podem te estuprar.

Ele fez uma careta diabólica, comprimido o lábio superior e me lançando um olhar diabólico. Eu gargalhei deliciosamente e desci do carro cantando She Will Be Loved, a única música que eu julgava cantar com decência na frente dos outros. Ele também desceu e passou os braços pelo meu ombro enquanto entrávamos no hotel.

Eu me sentia a deusa das deusas. Vestia um vestido poderoso, um salto fodão e meu lindo batom vermelho, além de estar entrando em um hotel de mega luxo com o gato do meu melhor amigo ao meu lado. Eu estava em Las Vegas!

O saguão do hotel era luxuoso. Tinha um enorme tapete indiano vermelho no centro e acima dele, o lustre de cristal cintilava. O teto era espelhado de modo que eu podia ver meu próprio reflexo admirando tudo aquilo. Parei de cantar quando passei por um casal de louros que estavam conversando silenciosamente próximo ao sofá luxuoso cor de vinho. Aproximamo-nos do balcão onde um homem com a maior cara de quem dá o cu na esquina ergueu as sobrancelhas:

– Sim?

– Somos Larissa Khouri e Cody Okumura, visitantes de...

Me afastei porque todo aquele procedimento estava me entediando. Sentei no sofá ao lado de uma menina mais nova que eu, mas com certeza mais alta, que vestia um vestido de festa preto e estranhamente comportado ao comparar com os outros que esbarrei pela cidade. Ela tinha os cabelos cor de mel, mas as pontas eram mais claras que o resto dele. Ela começou a cantarolar Hey Jude, dos Beatles.

– Você canta bem — elogiei.

– Obrigada — ela agradeceu cordialmente.

Eu poderia puxar assunto, apenas para passar o tédio, mas não queria incomodar a garota. Ela continuou cantando e depois passou a cantar a música She Will Be Loved. Decidi abrir a boca:

– Essa é a única música que canto bem.

– Canta — ela pediu e eu fiz. — Agora canta outra música.

E eu cantei a música da Pequena Sereia.

– Você canta bem sim — ela falou. — Pare de dizer que não. Qual o seu nome?

– Larissa Khouri — respondi. — E o seu?

– Helena. Mas todo mundo me chama de Pontas.

– Pontas — repeti. — Apelido legal. O que faz neste humilde hotel em Las Vegas?

– Minha mãe é arquiteta e veio projetar a redecoração desse hotel. Vim junto, aproveitando o fim das férias. Daqui a pouco o primeiro de Setembro tá aí e... Acabou a moleza.

– Verdade — concordei. — Graças aos céus já terminei essa fase.

– Eu vou pro meu último ano.

– Meu amigo ali também — apontei para Cody.

– Quer um? — ela ofereceu. Olhei para o colo dela e vi uma caixa cheia de trufas de maracujá.

– Puta merda, trufas de maracujá! — exclamei. — Quase ninguém que eu conheço gosta. O único problema é a dor de barriga que dá, porque olha... Já passei uma hora inteira na privada por causa de uma caixa dessas.

Uni o dedo indicador e o dedão em um círculo, em um gesto que eu costumava fazer muito.

A Pontas apenas riu.

– Adorei conhecer você, deusa — falei. — Mas meu amigo ali é lerdo e está me procurando. Sério, às vezes dá vontade de bater no Cody.

– Tudo bem — ela sorriu.

– Cody! — dei um grito, erguendo a mão, chamando-o. Ele finalmente me viu e veio para junto de nós duas.

– Papel higiênico — foi o que ele disse quando se aproximou.

– É folha dupla? — perguntou Pontas com sua voz rouca.

– Tem que ser — ele respondeu. Eu ri e fui acompanhada pelos dois. — Vamos, Lares?

– Tá tudo certo?

– Tá.

– Então vamos. Tchau, Pontas, bom resto de noite e cuidado com a dor de barriga que pode ter com isso aí.

– Apenas ignore — aconselhou Cody, arrastando-me pra fora dali.

– Do jeito que você fala, a garota vai pensar que sou maluca.

– E não é?

– Maluco é você. Quem inicia uma conversa com “papel higiênico”?

– Eu. Algum problema com isso? — ele olhou o relógio no pulso. — Meia-noite. Faça uma confição! Eu sou gay.

– Isso é alguma novidade para mim?

Sem perceber já tínhamos chegado ao aglomerado de gente que esperava na fila da festa. Cody e eu decidimos nos separar. Mal tinha entrado na festa e um cara se esfregou no meu corpo dançando ao som de Feel This Moment. Eu me desvincilhei delicadamente — ou não — e fui para o bar.

– Me chama de Thalles que eu te mostro meu um metro e oitenta e seis de altura, sua linda — uma voz sussurrou no meu ouvido.

Eu não conhecia aquela voz, mas olha... Que voz. Era uma mistura de locutor de rádio, lenhador e atendente de motel. Era extremamente sexy, mas o dono dela me havia pego em um mau dia. Que tipo de cantada era aquela?

Ao me virar, encontrei um cara que indiscutivelmente tinha 1,86 de altura. Ele era gigante e humilhava os meus trinta centímetros a menos que ele. Vinte e oito, pra ser mais exata. Ele até que era bonito e tinha uma cara de “vou te peguei”, mas foi o que ele disse a seguir que me deu náuseas.

– Eu tenho dois gatos, o Migo e o Tigo. Se eu ficar com Tigo, tu fica com Migo?

Foi completamente desgostoso ouvir aquilo de uma voz tão bonita e um cara tão bonito, mas o conteúdo era uma merda. Ele segurava um copo de líquido verde e o levou a boca. Suas mãos eram grandes.

Hmmm, mãos grandes. Sei o que significa.

Sorri de lado com tal pensamento e falei com a minha melhor cara de desinteressada:

– Não vale a pena gastar saliva com você nem pra dar esse fora, quanto mais um beijo. Desculpa, deuso, que tal da próxima vez?

E saí de perto dele. Dancei com outros garotos da festa e bebi, mas não ao ponto de cambalear bêbada pelos cantos. Esbarrei com o garoto de um e oitenta e seis mais algumas vezes, mas não dei ouvido em nenhuma das vezes, considerando que o rapaz se encontrava bêbado. Ele era nojento.

Não ele em si, mas as cantadas, e provavelmente sua personalidade, eram nojentas.

Então esbarrei em um cara. Ele era louro e branco, mas não extremamente branco. Tinha um tom amarelo e pardo misturado em sua pele. Seus olhos eram extremamente azuis e brilhavam com tal sobriedade que eu acreditaria que não tinha uma gota de álcool em seu organismo.

– Perdão — ele pediu.

– Tá tudo ok — respondi.

Ele me pegou pela mão e começou a me conduzir ao som de uma música da Lady Gaga. Dancei junto ao corpo dele, suando ao ponto de a roupa já apertada antes ficar ainda mais apertada. Ao fundo, uma menina subiu no bar e começou a arrancar o vestido branco do seu corpo.

Eu me soltei do carinha e comecei a andar em direção ao balcão. Senti um gelado em minha roupa e quando procurei de onde viera a bebida despejada no meu vestido, encontrei o mesmo cara de um e oitenta e seis dançando com as mãos pra cima e em sua mão direita, um copo de líquido verde.

Só podia ser brincadeira.

Fiz cara feia pra ele, que parou de dançar instantaneamente e veio atrás de mim.

– Ei, qual o seu nome?

– Não te interessa.

– Se não interessasse pode apostar que eu não estaria perguntando. Falsidade não é comigo.

– Mas parece que estragar uma festa é exatamente com você. Qual a graça, em? — perguntei a ele, que estava tentando conter um sorriso.

– Desculpe, ok? Não vi que você tava passando, garota esquentada.

– Ah, vá tomar no cu.

E saí de perto; eu não era obrigada a ficar ali ouvindo aquele mimimi. Ainda bem que eu não era de Las Vegas. Seria irritante eu chegar no primeiro dia de faculdade e ele estar lá “olha, Lares, eu tenho 1,86 e te derrubei álcool no vestido”.

Revirei os olhos.

Eu não sabia mais onde estava o lourinho que dançava comigo, então fui apenas no banheiro. Quando bati os olhos na privada, apenas me ajoelhei de frente a ela e vomitei, contorcendo meus órgãos para colocar tudo que eu podia para fora.

Quando saí, peguei uma bebida da bandeja do garçom e fui até o balcão, mas antes que eu pudesse tirar a roupa, eu vi um cara coreano me forçando a descer dali.

– Você ta muito bêbada, Lares, não vou te deixar fazer isso.

– Eu te conheço? Mas você é bonitinho... — observei. — Me pega.

– Já peguei, mas agora vamos sair daqui — falou ele. Eu conhecia aquele cara.

– Quem é você?

– Cody Okumura, seu melhor amigo — ele informou e eu comecei a rir. — No momento, sou sua babá também.

– Vamos dançar, Cody!

O fim da festa veio sem muitas emoções. Eu e Cody dançamos juntos e fomos para o hotel, com Cody menos sóbrio do que quando eu o encontrei. Eu ainda levava a garrafa de uma bebida na mão quando Cody entrou no quarto de hotel. Tomei nota que precisava entrar logo no chuveiro e me afastar dele, caso contrário eu estava bêbada o suficiente, e ele também, para fazermos alguma besteira.

Deixei a garrafa cair quando entrei.

– O que esse cara ta fazendo aqui? — perguntei. Olhei pra cima, como se eu estivesse falando com alguma divindade superior, e gritei: — Qual a graça disso?

– Vocês se conhecem? — perguntou Cody.

– Sua melhor amiga é ela? — perguntou Thalles, o garoto de 1,86. — Oh, man, desculpa. Eu não sabia que era você. Ela me deu uns vinte e três foras hoje a noite.

– Quem é você? — perguntei.

– Eu sou Thalles — ele disse. — Primo do Cody.

Notas finais
E eu sou Thalia, filha de Zeus -q