Tudo Culpa dos Golfinhos
4 Batata-frita Com Um Ladrão
Notas iniciais
POV Thalles Figueiredo
– Primo... Primo do Cody? – Larissa Khouri perguntou, parecendo incrédula. Ou enjoada. Não tinha como saber, eu estava bêbado. – Ele é seu primo, Cody?
Ele assentiu vagamente e vomitou nos pés da amiga. Lares, que eu conhecia pelas diversas histórias compartilhadas pelo meu primo, fez uma cara de nojo e foi até o banheiro lentamente, arrastando os pés pelo chão polido do hotel.
Amparei Cody até o sofá vermelho e confortável mais próximo, ajudando-o a se recuperar e dando suporte ao seu corpo. Quando ele terminou, ele limpou a boca e virou pra mim:
– Estou feliz em ver você – ele sorriu torto, com o hálito misturando vômito e álcool. Deselegante.
– Também, man – dei dois tapinhas em suas costas e me levantei. Andei me arrastando até o banheiro e bati impacientemente na porta.
– Quem é? – a voz abafada de Lares passou pela porta.
– Eu, docinho – respondi. Olhei para trás de relance e vi que Cody havia adormecido.
– Quem é você? – ela perguntou e percebi que ela estava tão bêbada quanto eu. Ri. – Ah, vá pra o inferno.
– Nesse momento estou pensando em entrar aí – cantarolei.
Cambaleei até minhas malas, que estavam em cima da cama, mas antes que pudesse abrir alguma delas, apaguei.
Acordei na cama do hotel, numa posição nada confortável, fedendo mais do que deveria, me lembrando menos do que eu queria. Eu havia mesmo apagado e me lembrava de pouca coisa. Levantei-me devagar tentando ignorar a dor de cabeça, mas ela pulsava com tanta intensidade que era quase impossível.
Cody ainda dormia no sofá, babando e numa posição que renderia milhares de likes no Facebook; e Lares estava na cama, enrolada no lençol e dormindo tranquilamente. Suspirei, sabendo que teria que me desculpar com ela depois; mesmo que não soubesse como faria isso.
Timidez era o que me atrapalhava. Eu não fazia ideia de como fazer aquilo.
Fui até o banheiro e tomei um banho, mas não conseguia parar de pensar em como encararia Larissa Khouri nos minutos seguintes. Ao me sentar no sofá, decidi parar de pensar sobre isso e me concentrar em números. 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, 256, 512. Eu sabia o começo dessa sequência decorada, e quando não me lembrava da continuação, tentava somar mentalmente o mais rápido possível.
Lares começou a se mexer quando eu estava em 131072, então parei de pensar sobre isso e fui até a cama dela, sentando-me na beirada cauteloso. Ela abriu os olhos e soltou um resmungo.
– Nem comece tão cedo – ela pediu. – Eu estou de ressaca.
– Eu estava bêbado.
– Você é um tipo galinha que sai pegando todo mundo com sua cantada do 1,86 e voz sexy?
– Não – eu ri. – Bem o contrário disso. Eu realmente estava bêbado, me desculpe.
– Bem, você não pode fazer besteira e culpar o álcool depois.
– Não fui eu que quase arranquei a roupa em uma boate de Las Vegas.
– Nem eu que se envergonhou de ter bebido tanto. Eu assumo minhas responsabilidades.
– Ei, calma aí. Vim na paz – ergui as mãos.
Ela suspirou e resmungou, colocando a mão na cabeça e fechando os olhos. Sua expressão era de pura ressaca. Toquei cautelosamente em seu ombro e ela tremeu fraco. Tentei sorrir.
– Acordei do mesmo jeito que você. Por que não toma um banho? Pode ajudar – sugeri.
– Não preciso da sua ajuda – ela se esquivou do toque e fechou o olho para dormir.
Eu não tinha muito que fazer, então voltei a minha cama e vasculhei em minha mochila um dos meus cubos mágicos. Eu estava sempre procurando um meio de bater meu recorde de tempo montando aquilo.
– Ei, bro – chamou meu primo do outro lado do quarto. Levantei-me e fui até sua cama, abraçando-o afetuosamente. – Cothalles?
– Cothalles sempre – eu sorri. – Temos que recuperar nosso ship.
– É claro – ele assentiu. – E fazer muita gayzice em Sparks.
Eu sorri de lado e então me lembrei de algo que havia comprado para ele. Depois de três anos separados, eu estava realmente feliz em rever meu primo. Levantei dali e peguei um pacote azul e amassado de dentro da mochila e o entreguei. Ele lerdou por alguns minutos, mas então abriu o pacote.
– Uma caneca do Spider Man?! – ele gritou. – Eu te beijaria agora.
– Ei, guarde isso pra sua namorada.
Ele riu.
– Ninguém em mira, amigo – garantiu, mas o conhecia bem demais para saber que aquilo não era verdade.
Ele me contaria no momento certo.
– Sua amiga não quis me perdoar – contei.
– Chame-a para ir ao aquário ver os golfinhos – ele sugeriu. – Ela pode te perdoar se você pagar a entrada e comprar uma pelúcia pra ela.
– Hm... Acho que não me importo tanto assim – confessei.
– Ah, qual é, Thalles! Você deu em cima dela vinte e três vezes. Acho que ela merece.
– Com treze anos você era mais lerdo – observei. – Estou orgulhoso do desenvolvimento do seu cérebro. A cabeça de baixo também desenvolveu?
– 17,5 cm, amigo – ele contou triunfante e estufou o peito.
– Você tem descendência asiática, rapá – lembrei e ri. – Não é possível isso.
Ele gargalhou e ri junto. Talvez tenha tido um lado bom em ter brigado com meus pais.
– Preciso ir no banheiro – ele disse e se levantou. Observei Lares dormir por um tempo, perguntando-me se deveria chamá-la para conhecer o aquário. Decidi que sim, e fui até sua cama.
Cutuquei-a hesitante, afinal ela era meio instável, mas não desisti até que ela abrisse os olhos resmungando.
– Isso deve ser algum tipo de castigo, porque olha... – ela disse. Eu ri.
– Quero me desculpar – falei coçando o queixo. – Que tal conhecer os golfinhos de Las Vegas? Fiquei sabendo que de meio-dia jogam purpurina neles e eles fazem um show com Poker Face ao fundo. Deve ser divertido.
Lares sorriu de lado, mas manteve o olhar mortífero, erguendo sua sobrancelha esquerda. Abri um sorriso amarelo. Quando ela ia responder, ouvimos a descarga no banheiro e o grito do Cody:
– Tchau, cocô!
Não me contive e ri, assim como Lares. Ele apareceu lá como se isso fosse muito normal e comentou:
– Gente boa esse Robertinho. Sentirei falta dele.
– Será que ele vai ter uma boa vida no esgoto? – Lares entrou na brincadeira.
– Eu espero – ele disse.
– Então, Lares... O que me diz? – tentei voltar ao assunto.
– Tudo bem – ela respondeu e se levantou da cama. – Fico pronta em vinte minutos.
Assenti e montei e desmontei meu cubo mágico repetidas vezes, tentando sempre me superar, até os vinte minutos correrem. Cody estava bebendo todas as bebidas do frigobar do hotel em sua caneca nova do Spider Man, e sorrindo feito um retardado para cada lata nova que abria.
– Vamos logo, garoto 1,86, antes que eu me arrependa – ela falou. – Sabe, vou contar isso como a 24º vez que você dá em cima de mim.
– Pelo menos estou sendo educado.
Ela riu e eu também.
– Encontro vocês na Burger King – combinou Cody. – De três horas.
Seria só Lares e eu por três horas. Assenti e saímos do quarto de hotel. Fomos em silêncio a maior parte do tempo, mas tenho certeza que ela não notou isso. Pude perceber que seu olhar captava todo tipo de luz e tecnologia que sustentava Las Vegas, a cidade que não abandonava a mágica nem mesmo de dia.
Ao chegarmos no aquário, vimos todos os animais da água e como atração final, assistimos o show dos golfinhos rosas. Embora Lares tenha ficado indignada com a maldade de alguém ter pintado um golfinho de rosa – não pelo fato de terem pintado, e sim pela cor escolhida ter sido rosa -, tenho certeza que ela aproveitou o passeio.
– Não vai ser tão ruim morar em Sparks – comentei. – Tenho o Cody e agora uma amiga.
– Epa! Não sou sua amiga.
– Vai ser – dei de ombros. – Estarei sempre com o Cody. Uma hora ou outra você vai acabar cedendo.
Ela parou no meio da rua, e se virou para mim. Eu não podia ver seus olhos, já que ela usava um par de óculos redondos estilo John Lennon, mas sua boca estava comprimida e a testa, franzida. Parecia desconfiada.
– É só amizade? Que você quer?
Ponderei e decidi contar a verdade.
– Só amizade – confirmei. – Por enquanto.
– Thalles!
– É sério – eu ri. – Não tem como saber do futuro, mas atualmente... Espero que sejamos amigos.
– Então seremos amigos – ela disse no exato momento que um menino passou correndo por nós e roubou seus óculos.
Ele tinha cabelos pretos, pele branca, e mais ou menos 14 anos. Ele era rápido e enquanto se afastava, Lares continuou imóvel no lugar, sem piscar ou se mover.
– Nem terminei de pagar os óculos – ela sussurrou se lamentando.
O menino, mais adiante, voltou devagar. Não sabia o que o tinha feito mudar de ideia, mas ele delicadamente pôs os óculos no rosto da Lares de novo e se desculpou:
– Desculpe, moça. Não sabia que você era cega, não.
Ela balançou a cabeça levemente, tentando entender o que estava acontecendo. Eu fiz o mesmo. Então ela sorriu e começou a tatear o vento em busca da cabeça do menino.
– Muito obrigada, garoto – agradeceu quando encontrou seu nariz. – Andar por aí sem ele me deixa perdida.
– Onde vocês vão? Posso acompanha-los e garantir que ninguém os roube. Não de novo.
– Gente boa – sussurrei no ouvido dela, que assentiu. Falei em tom mais alto: — Burger King. Gostaria de lanchar conosco?
Ele assentiu e caminhamos. Cody estava lá, enfiando algumas batatas-fritas dentro do hambúrguer e fomos direto para fila, comprar nossos lanches. Paguei para o ladrão e pra Lares.
Fomos até a mesa que Cody estava e nos sentamos.
– Cody, esse é... Bem, qual o seu nome, garoto? — perguntei.
– As pessoas me conhecem como Bayer — ele contou. — Gabriel Bayer.
– Bem, o Bayer roubou os óculos escuros da Lares, mas achou que ela era cega e devolveu.
– Ela não é cega? — Bayer perguntou, confuso.
– Não — ela contou rindo.
– Mas por que ele achou que ela era cega? — perguntou Cody.
Contamos o que houve em meio as risadas e foi uma tarde legal no BK. Depois do lanche, nós tínhamos uma história para contar aos nossos filhos.
Afinal, qual a probabilidade de um ladrão voltar atrás em um roubo pois achava que a vítima era cega? E, em seguida, ambos sentarem juntos em uma mesa com batata-frita e rir dessa história como velhos amigos?
Fale com o autor