Tudo Começou em Letras

31 Capítulo 31 — Festa à Fantasia


Os dias seguintes vieram com uma leveza que Adam já não lembrava mais como era. Não era nada grandioso, não tinha música épica nem grandes declarações, mas tinha mensagens no grupo de amigos de novo, conversas jogadas fora no meio do dia, risadas sem aquele peso escondido por trás.

Finn voltou a aparecer.

Primeiro no sebo.

E, alguns dias depois, de volta ao dormitório.

Adam abriu a porta naquele fim de tarde e encontrou Finn jogando a mochila no canto, como se nunca tivesse ido embora.

— Eu acho que minhas costas esqueceram como é dormir nessa cama — Finn reclamou, se jogando na cama que costumava ser sua, reivindicando-a novamente.

Adam ficou encostado na porta, sorrindo sozinho por um segundo, só olhando a cena. Até que se jogou na própria cama, cruzando os braços atrás da cabeça.

— É bom ter você de volta.

Finn virou o rosto, encarando ele por um segundo.

— É bom estar de volta.

Havia um sorriso ali. Pequeno, sincero. E isso já dizia tudo.


***


Alguns dias depois, Isabelle apareceu no dormitório sem avisar, como sempre fazia. Ela abriu a porta sem bater.

— Eu nem vou pedir licença porque eu sei que vocês não ligam.

— A gente liga sim — Finn respondeu, sem nem tirar os olhos do celular.

— Mentira.

Ela entrou mesmo assim, largando a bolsa na cadeira e olhando de um para o outro com um sorriso enorme.

— Eu tô muito feliz — anunciou. — Tipo, muito mesmo.

Adam ergueu uma sobrancelha.

— Isso parece perigoso.

— O grupo tá inteiro de novo — ela disse, ignorando. — Vocês dois voltaram a se falar, ninguém tá brigado, ninguém tá estranho… isso merece uma comemoração.

Finn cruzou os braços.

— Lá vem.

— Lá vem, nada! — ela rebateu. — A gente vai fazer alguma coisa.

Adam inclinou a cabeça.

— Tipo o quê?

— Não sei ainda — Isabelle respondeu, já pegando o celular. — Mas a gente chama o Tyler. Ele sempre tem alguma ideia.

Finn fez uma careta.

— Isso é exatamente o que me preocupa.

Mesmo assim, Isabelle já estava ligando.

— Tyler, reunião de emergência — disse assim que ele atendeu. — Dormitório dos meninos. Agora.


***


Tyler apareceu pouco tempo depois, encostando na porta como se estivesse entrando num palco.

— Vocês me convocaram.

— Que drama desnecessário — Finn murmurou.

Isabelle cruzou os braços.

— A gente quer comemorar. Olha só, o grupo tá junto de novo. Precisamos da sua ajuda.

Tyler olhou entre eles, avaliando.

— Ok…

— Ideias? — Isabelle perguntou.

Tyler pensou por um segundo, então abriu um sorriso lento.

— Eu vi uma coisa esses dias.

Finn já suspirou.

— Eu já não gostei desse começo.

— É uma festa a fantasia — Tyler continuou, o ignorando. — Num bar aqui na cidade. Tema livre. Pode ir do que quiser.

Isabelle arregalou os olhos.

— Eu gostei.

Finn apoiou a cabeça na mão.

— Festa à fantasia… sério?

Tyler apontou pra ele.

— Você vai. E vai gostar.

— Eu duvido.

— Vai sim, eu sei que vai.

Adam já parecia animado.

— Eu topo.

Isabelle levantou a mão como se estivesse votando.

— Eu também.

Tyler olhou pra Finn, esperando.

Finn revirou os olhos.

— Tá. Eu vou. Mas se eu passar vergonha, a culpa é de vocês.

Tyler abriu um sorriso satisfeito.

— Vai ser ótimo.

Isabelle já estava praticamente pulando.

— Tá decidido então. Festa à fantasia. Vou avisar no grupo para o Min-su também ficar sabendo.

Adam encostou na cabeceira, olhando para os três, com um sorriso mais tranquilo agora.

— Finalmente… todos juntos de novo.

Finn soltou um riso baixo.

— Não fala isso alto, vai que estraga.

Tyler deu um tapinha no ombro dele.

— Relaxa. Agora é só caos organizado.

E, pela primeira vez em muito tempo, parecia mesmo que tudo estava no lugar certo.


***


A manhã do dia da festa chegou devagar, sem pressa.

A luz entrava pelas frestas da cortina, suave, desenhando linhas claras no quarto ainda meio bagunçado. O ar estava frio, mas a coberta e o calor dos dois resolviam isso com facilidade.

Adam estava deitado de lado, com a cabeça apoiada no peito de Vincent, completamente relaxado. Um braço jogado por cima dele, as pernas meio emboladas, como se já tivessem se acostumado àquela proximidade.

Vincent estava acordado há mais tempo.

Uma das mãos passava devagar pelo cabelo de Adam, fazendo um cafuné distraído, quase automático. Sem pressa, sem pensar muito, só repetindo o gesto, sentindo o peso confortável dele ali.

O quarto estava em silêncio.

Um silêncio bom.

Adam abriu os olhos aos poucos, sem se mexer de imediato. Ficou ali por alguns segundos, só sentindo. O toque. A respiração de Vincent. A calma.

Então virou o rosto, olhando para cima, na direção dele.

— Obrigado.

A voz saiu baixa, ainda meio sonolenta.

Vincent franziu levemente a testa, surpreso.

— Pelo quê?

Adam sustentou o olhar por um instante, com um sorriso pequeno se formando.

— Por ter se importado, e ter ido falar com o Finn.

O movimento da mão de Vincent parou por um segundo.

— A gente tá bem de novo — Adam completou. — Tipo… de verdade.

Vincent apenas o observou, absorvendo aquilo. Depois, um sorriso apareceu. Pequeno, mas sincero. A mão voltou ao cabelo dele, retomando o cafuné com a mesma calma de antes.

— É. Você parece mais leve.

Adam soltou um riso baixo, quase um suspiro.

— Eu tô.

Ele se ajustou um pouco, subindo mais no corpo de Vincent, ficando mais perto.

— Obrigado mesmo.

Vincent deu de ombros, de leve.

— Não foi nada.

Adam o olhou por um instante, até que se inclinou e o beijou.

Um beijo lento, sem urgência, carregado de uma gratidão silenciosa que não cabia só em palavras.

Vincent correspondeu na mesma medida, a mão subindo do cabelo para o rosto dele, segurando com cuidado. Quando se afastaram, ainda ficaram próximos, respirando o mesmo ar.

E, por um momento, não precisavam de mais nada.


***


O grupo combinou de se encontrar na frente do bar.

Adam foi o primeiro a chegar, ajeitando os óculos redondos do Harry Potter enquanto olhava em volta, um pouco inseguro com a própria fantasia, mas claramente se divertindo com a ideia. A capa preta balançava levemente com o vento frio da noite.

— Ok… — murmurou pra si mesmo — talvez eu tenha levado isso a sério demais.

— Para, você tá ótimo!

Ele virou o rosto e viu Isabelle se aproximando, o vestido amarelo fluindo enquanto ela caminhava, o cabelo preso de um jeito delicado.

Adam arregalou os olhos.

— Uau.

Isabelle girou levemente no lugar, sorrindo.

— Eu sei.

— Você tá… muito princesa da Disney. É a Bela?

— Sim! — ela respondeu, satisfeita. — E você tá fofo.

— Fofo? — Adam fez uma careta.

— Muito fofo.

Antes que ele pudesse retrucar, Finn apareceu.

Ele estava vestido de vampiro, de roupa preta, camisa meio aberta no pescoço, maquiagem leve destacando olheiras propositalmente dramáticas.

— Claro — Adam disse, cruzando os braços. — O Finn veio de vampiro. Que surpresa.

Finn deu um sorriso de canto.

— Eu tenho uma reputação a manter.

Eles ainda estavam rindo quando Tyler apareceu. E, por um segundo, ninguém falou nada.

Ele vinha andando com a maior naturalidade do mundo, como se não estivesse usando orelhinhas de coelho, delineador prateado marcando os olhos verdes e uma roupa preta com short que deixava as pernas à mostra. O tênis prateado brilhava levemente com a luz da rua.

Adam piscou.

— …ok.

Isabelle abriu um sorriso enorme.

— Tyler, caramba.

Finn soltou um riso pelo nariz.

— Eu não sei se eu tô impressionado ou preocupado.

Tyler parou na frente deles, abrindo um sorriso convencido.

— Eu sei que vocês estão impressionados.

Adam balançou a cabeça, rindo.

— Você tá… elegante.

Tyler levou a mão ao peito, teatral.

— Muito obrigado.

Finn levantou uma sobrancelha.

— Isso não é elegância. Isso é caos.

Tyler virou o rosto devagar pra ele.

— Isso é conceito.

— Isso é você querendo chamar atenção — Finn rebateu, seco.

— E conseguindo — Tyler respondeu, piscando. — Você claramente queria ter pensado nisso primeiro.

— Eu jamais pensaria nisso.

Isabelle já estava rindo.

— Ai, gente. Eu amo vocês.

Foi quando Min-su chegou.

Ele vinha mais discreto, mas ainda assim chamava atenção. Roupa escura bem ajustada, um ar quase enigmático, e a cartola completando o visual de “cara misterioso” perfeitamente.

Tyler foi o primeiro a notar.

O olhar dele parou em Min-su por um segundo a mais e o sorriso veio automático.

— Olha só… — ele disse, analisando-o de cima a baixo. — Alguém resolveu acabar com a competição hoje.

Min-su parou na frente deles, tirando a cartola por um instante, em cumprimento leve.

— Eu só fiz o básico. E aí, pessoal.

Tyler inclinou a cabeça, divertido.

— Básico? Você vai arrasar corações hoje.

Min-su sustentou o olhar dele.

Sem pressa.

Sem desviar.

Então deixou o olhar descer também, analisando Tyler com a mesma calma… passando pelas orelhinhas, pelo delineado, pelas pernas expostas.

Quando voltou para o rosto dele, havia um leve sorriso.

— Não sou eu que vou arrasar corações hoje.

Tyler soltou um riso baixo, entendendo perfeitamente o tom.

— Ah, é?

Por um segundo, o ar entre os dois mudou.

Nada explícito, mas carregado.

Finn revirou os olhos na hora.

— Ok, vocês dois podem parar com essa palhaçada?

Os dois olharam pra ele ao mesmo tempo.

— Que palhaçada? — Tyler perguntou, inocente demais.

— Essa aí — Finn gesticulou entre os dois. — Seja lá o que for isso.

Adam só observava, achando graça. Isabelle riu e falou:

— Vamos entrar logo, gente.

Tyler abriu um sorriso.

— É. Já estamos atrasados.

Finn saiu na frente.

— Vamos.

Isabelle foi logo atrás, puxando Adam pelo braço.

Min-su e Tyler ficaram um segundo a mais. Só um segundo.

O suficiente pra trocarem mais um olhar rápido, cheio de algo não dito e então entraram também.


***


O bar estava cheio, luzes coloridas cortando o ambiente, música alta o suficiente pra fazer o chão vibrar levemente. Eles conseguiram uma mesa depois de algum esforço, espremidos entre outras pessoas fantasiadas tão absurdamente quanto eles.

Tyler já chegou puxando uma cadeira, jogando o corpo nela como se fosse dono do lugar.

— Eu amo esse tipo de caos — comentou, pegando o cardápio só por hábito.

— Você ama qualquer tipo de caos — Finn respondeu, sentando ao lado.

Adam riu, tirando a varinha de plástico de cima da mesa pra não derrubar nada.

— Isso aqui foi uma ótima ideia.

— Concordo — Isabelle respondeu, feliz.

Min-su estava mais quieto, mas claramente confortável, observando o movimento, às vezes sorrindo com alguma coisa que alguém dizia.

As bebidas chegaram, e logo a mesa estava mais barulhenta.

Entre risadas, comentários sobre fantasias alheias e pequenas provocações, o clima ficou leve, aquele tipo de leveza que eles não tinham há um tempo.

Foi no meio disso que Tyler, já na metade do segundo drink, virou o rosto pra Adam com um brilho suspeito no olhar.

— Posso te fazer uma pergunta?

Adam estreitou os olhos.

— Isso nunca acaba bem.

— O que você tá achando — Tyler começou, casual demais — de transar com um francês?

Adam quase engasgou.

Literalmente.

Ele tossiu, levando a mão à boca, enquanto Isabelle arregalava os olhos e Finn já começava a rir.

— Tyler! — Adam conseguiu dizer, completamente vermelho.

Tyler levantou as mãos, rindo.

— Calma, Harry Potter.

— Não, sério, você não pode só… — Adam tentou, ainda sem saber onde enfiar a cara.

— Eu só queria saber sobre o intercâmbio cultural — Tyler continuou, completamente sério por um segundo. — Como está sendo a experiência internacional.

Finn já estava se dobrando de rir.

— Meu Deus…

Tyler ainda completou, olhando direto pra Adam:

— Ainda mais considerando que você provavelmente já transou em solo francês.

Adam cobriu o rosto com as mãos.

— Eu não vou responder nada disso.

— Covarde — Tyler provocou.

— Sem chance.

Isabelle estava rindo sem conseguir parar.

Finn apontou pra Adam, ainda rindo.

— Ele vai ficar vermelho assim a noite inteira.

Adam abaixou as mãos, ainda corado, mas rindo também.

— Eu odeio todos vocês.

— A gente sabe — Tyler respondeu, dando um gole na bebida.

Min-su observava a cena em silêncio, mas com um sorriso leve no canto da boca. O olhar dele passou por Tyler por um instante, mais demorado, antes de voltar pra mesa.

— Vamos dançar? — Isabelle perguntou de repente, se levantando.

— Agora? — Finn perguntou.

— Agora.

— Mas eu acabei de sentar.

— Então levanta.

Ela puxou ele pelo braço sem dar muita escolha. Tyler se levantou em seguida, já animado.

— Eu nasci pra isso.

Adam suspirou, mas acabou indo também. Min-su levantou por último, acompanhando o grupo.

E, no meio da pista, entre luzes piscando e gente dançando sem se importar com nada, eles simplesmente se soltaram. Rindo, se provocando, esquecendo de qualquer coisa que não fosse aquele momento.


***


A música mudava sem parar, as luzes piscavam, e o grupo já tinha se espalhado um pouco pela pista.

Em algum momento, Tyler se afastou.

Foi quase natural. Ele pegou mais uma bebida no caminho e acabou parando num canto, onde a música ainda batia forte, mas havia um pouco mais de espaço.

Ele começou a dançar sozinho, do jeito dele, sem se preocupar muito com quem estava olhando. Solto, provocativo sem esforço, com aquele sorriso fácil que parecia sempre convidar alguma coisa a acontecer.

E aconteceu.

Um cara se aproximou.

Min-su percebeu de longe.

Não dava pra ouvir o que estavam dizendo, mas dava pra ver o suficiente: o cara falando algo perto do ouvido de Tyler, Tyler inclinando a cabeça pra escutar, depois rindo. Um riso aberto, daqueles que ele dava quando estava confortável demais.

O cara disse mais alguma coisa.

Tyler respondeu, ainda sorrindo.

Min-su desviou o olhar por um segundo, como se não fosse nada… mas voltou. E continuou olhando.

Não era exatamente surpresa. Tyler era assim. Sempre foi. Chamava atenção sem tentar, atraía gente com uma facilidade quase irritante.

Mas ainda assim… incomodava.

— Olha só — a voz de Finn surgiu ao lado dele, leve, quase divertida.

Min-su virou o rosto.

Finn também estava olhando na direção de Tyler.

— Nem cinco minutos — ele continuou, sorrindo de canto. — E ele já conseguiu fazer alguém ir até ele. Como sempre.

Min-su soltou um riso baixo, automático.

— É…

Mas o sorriso não ficou.

Ele voltou o olhar para a frente, pegando o copo e dando um gole na bebida. Do outro lado, Tyler ainda conversava com o cara.

Min-su apertou levemente o copo entre os dedos, pensativo.

O homem ainda disse alguma última coisa antes de se afastar, dando um tapinha leve no braço de Tyler. Tyler respondeu com um sorriso educado, mas não o segurou ali.

Assim que ele virou as costas e desapareceu na multidão, Min-su já estava se aproximando. Passos firmes, mas tentando parecer casual.

— Popular hoje, não? — Min-su soltou a frase como quem não quer nada, uma indireta carregada de um peso que Tyler pescou no ar imediatamente.

Ele soltou uma risada anasalada, jogando o cabelo para o lado.

— Relaxa. Já dispensei o cara. Ele… não era bem quem eu tava querendo hoje.

O jeito que ele falou… tinha alguma coisa ali, sugestiva o suficiente.

O olhar demorou um segundo a mais no de Min-su.

A música mudou de novo, mais intensa, e Tyler estendeu a mão como se aquilo encerrasse o assunto.

— Vem.

Min-su não pensou muito antes de aceitar.

Eles voltaram a dançar, dessa vez mais próximos, sem a mesma distração de antes. As conversas ficaram mais soltas, fragmentadas entre uma música e outra. Comentários aleatórios, pequenas provocações, risadas fáceis, mas havia algo diferente.

Min-su se pegou observando Tyler com mais atenção do que deveria.

O delineado prateado destacando absurdamente os olhos verdes.

O jeito que o cabelo caía bagunçado.

As orelhinhas de coelho, agora levemente tortas depois de tanto dançar.

E as pernas expostas pelo short, se movendo no ritmo da música, despreocupadas, confiantes.

Era… difícil ignorar.

— O que foi? — Tyler perguntou de repente, percebendo o olhar.

Min-su demorou meio segundo pra responder.

— Nada.

— Esse olhar não foi “nada” — Tyler insistiu, sorrindo de lado.

Min-su soltou um ar leve pelo nariz.

— Você tá… bonito.

A frase saiu mais direta do que ele esperava. Tyler piscou, claramente pego de surpresa pelo tom de voz.

Por um instante, ele não respondeu. E aquilo era raro.

— Bonito? — repetiu, com um meio sorriso.

Min-su deu de ombros, mas não desviou o olhar.

— É. Bonito.

O silêncio entre os dois mudou de novo.

Tyler passou a língua pelos lábios, meio pensativo, meio afetado de um jeito que ele não demonstrava tanto assim.

— Você também não tá nada mal, Mr. Misterioso.

Min-su riu baixo.

— Eu sei.

Tyler empurrou de leve o ombro dele.

— Convencido.

— Aprendi com você.

Eles continuaram ali, dançando, próximos, como se o resto do bar tivesse diminuído um pouco ao redor.

Min-su o olhou de novo, dessa vez mais devagar.

Os olhos, o sorriso, o jeito solto… as orelhinhas tortas.

Ele soltou um riso quase inaudível.

— Tyler… — chamou, a voz quase um sussurro firme.

Tyler inclinou a cabeça, curioso, o meio sorriso ainda lá.

— Hm? O que foi?

Min-su respirou fundo, tomando a decisão que mudaria tudo.

— Você… quer ir lá pro meu apartamento hoje? Comigo?

A pergunta ficou no ar, simples, mas carregada.

Havia semanas que aquilo existia entre eles. Olhares, toques, beijos roubados sempre que podiam, escondidos entre momentos e lugares onde ninguém prestava atenção. Nunca tinham falado sobre, nunca tinham definido nada. E, ainda assim, nunca tinham cruzado completamente essa linha.

Era como se sempre parassem um passo antes.

Mas agora…

Tyler ficou em silêncio por um segundo. E, pela primeira vez naquela noite, ele corou. De leve, mas o suficiente pra quebrar aquela segurança constante que demonstrava ter.

Ele soltou um riso curto, passando a mão pela nuca.

— Você tá me convidando oficialmente?

Min-su sustentou o olhar.

— Tô.

Tyler mordeu o lábio inferior, sorrindo.

E assentiu.

— Então vamos.


***


Tyler se afastou da pista ainda com o calor da música no corpo, passando a mão pelos cabelos bagunçados enquanto procurava alguém conhecido no meio da multidão.

Encontrou.

Adam e Finn estavam encostados perto do bar, conversando mais tranquilos, longe do caos da pista.

— Ei — Tyler chamou, se aproximando.

Os dois olharam pra ele quase ao mesmo tempo.

— Já cansou? — Adam perguntou, sorrindo.

— Eu? Nunca — Tyler respondeu, pegando o copo de alguém na mesa e dando um gole sem nem saber de quem era. — Mas eu vou precisar ir.

Finn arqueou a sobrancelha.

— Já?

Tyler deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Tenho um encontro com um boy.

Finn soltou um riso pelo nariz.

— Você realmente não perde tempo.

Tyler sorriu, convencido.

— Eu otimizo meu tempo.

Adam riu, balançando a cabeça.

— Boa sorte então.

— Eu não preciso, mas obrigado — Tyler respondeu, piscando, antes de dar dois tapinhas no ombro de Finn e sair, abrindo caminho entre as pessoas.

Min-su ainda ficou mais alguns minutos.

Tentou.

Falou com Finn, riu de alguma coisa que ele disse, respondeu Adam quando ele comentou sobre a música… mas a atenção já não estava ali.

O olhar dele ia, inevitavelmente, para a saída. E não demorou muito pra ele desistir de fingir.

— Eu acho que vou indo também — disse, se aproximando dos dois.

Adam franziu a testa.

— Já?

— Tive um… contratempo no apartamento — Min-su respondeu, meio vago. — Preciso resolver uma coisa.

Finn cruzou os braços, olhando ele com um meio sorriso.

— Sei.

Min-su segurou o olhar.

— O quê?

— Você também vai sair com alguém, né?

Min-su deu de ombros, um sorriso pequeno surgindo.

— Quem sabe.

Adam riu.

— Vocês são impossíveis.

Finn apontou pra ele.

— Depois conta tudo.

Min-su só levantou a mão em resposta, sem olhar pra trás.


***


Do lado de fora, o ar frio bateu no rosto dele de novo. A música ficou abafada assim que a porta se fechou.

Ele olhou ao redor por um segundo… e encontrou.

Tyler estava parado na esquina, encostado de leve num poste, mexendo no celular como se não estivesse esperando ninguém.

Quando viu Min-su, guardou o celular no bolso. O sorriso veio automático.

Min-su caminhou até ele, parando perto o suficiente pra sentir o cheiro leve de bebida e perfume.

— E aí — disse, com um meio sorriso. — Como foi o encontro com o “boy”?

Tyler inclinou a cabeça, olhando direto pra ele.

— Tô olhando pra ele agora.

O silêncio que veio depois não durou muito. Porque dessa vez… nenhum dos dois estava com vontade de esperar.

Min-su ainda sustentou o olhar por um segundo, como se estivesse prestes a dizer alguma coisa, mas não disse. Em vez disso, simplesmente puxou Tyler pela gola da camisa e o beijou.

Não foi um beijo hesitante, nem cuidadoso. Foi direto, intenso. Tyler correspondeu na mesma hora, como se já estivesse esperando por aquilo desde que saiu da festa, as mãos indo para a cintura de Min-su, puxando ele mais pra perto, aprofundando o beijo sem pensar duas vezes.

O frio da rua desapareceu completamente, o barulho da música ao fundo virou só um eco distante, e por alguns segundos só existia aquilo, o contato, a urgência, o jeito que nenhum dos dois parecia disposto a se afastar primeiro.


***


Mais afastada, parcialmente escondida atrás de uma pilastra, Isabelle estava com o celular no ouvido, falando com a mãe de um jeito distraído, andando de um lado pro outro sem prestar muita atenção ao redor. Foi quando o olhar dela, quase por acaso, caiu nos dois.

Primeiro ela só registrou que Tyler e Min-su estavam ali, juntos, o que por si só não era exatamente estranho… até deixar de ser. O corpo dela parou no meio do passo.

— Aham… — respondeu automaticamente no telefone, mas a atenção já não estava mais na conversa. Porque agora não tinha dúvida nenhuma. Eles estavam se beijando. E não era um beijo qualquer. Era intenso.

Isabelle arregalou os olhos, completamente em choque por um segundo, a mente tentando acompanhar o que estava vendo enquanto a voz da mãe continuava falando do outro lado da linha.

— Mãe, eu… eu te ligo depois — disse rápido, quase sem pensar, desligando antes de ouvir a resposta.

Ela ficou ali, ainda meio escondida, observando enquanto eles finalmente se afastavam só o suficiente pra trocar um olhar, um sorriso cúmplice, antes de começarem a andar juntos pela rua, desaparecendo aos poucos na noite.

Isabelle soltou o ar devagar… e então começou a rir sozinha, levando a mão à boca.

— Eu não acredito nisso… — murmurou, balançando a cabeça, completamente surpresa.

E, ao mesmo tempo, achando aquilo tudo absolutamente maravilhoso. Um segredo novo, inesperado, e que fazia todo sentido agora que ela tinha visto com os próprios olhos. Ainda rindo baixo, ela se virou e voltou pra dentro do bar, guardando aquilo só pra si.


***


O apartamento de Min-su era pequeno, menor do que Tyler tinha imaginado. Um único cômodo que misturava sala e cozinha, com poucos móveis, tudo muito organizado dentro do possível, mas ainda assim apertado. Havia algo íntimo ali, quase escondido do resto do mundo.

Tyler entrou devagar, olhando ao redor com curiosidade genuína.

— Então é aqui que você vive… — ele comentou, dando alguns passos pelo espaço, observando os detalhes. — Você nunca trouxe ninguém do grupo aqui.

Min-su encostou a porta atrás deles, ainda com a mão na maçaneta por um segundo a mais do que o normal.

— Nunca trouxe mesmo.

Tyler virou o rosto pra ele, com um meio sorriso.

— Tô me sentindo importante agora.

Min-su sustentou o olhar por um instante, mais sério do que o tom leve da conversa pedia.

— Só alguém muito especial poderia entrar aqui.

O silêncio que veio depois não foi desconfortável, foi denso. Tyler riu baixo, meio sem saber o que fazer com aquilo, mas não desviou o olhar.

— Especial, é? — ele murmurou, se aproximando um pouco.

— É.

Não teve mais espaço pra brincadeira.

Tyler deu mais um passo, e dessa vez não teve hesitação. As mãos dele encontraram o rosto de Min-su, e o beijo veio rápido, quente, como se tivesse sido segurado por tempo demais. Min-su respondeu na mesma intensidade, puxando Tyler pela camisa, aproximando ainda mais os corpos.

O gosto ainda tinha traços de álcool, mas não era isso que deixava tudo mais forte, era a tensão acumulada de meses, de olhares, de “quase”.

O beijo não era mais só impulso. Era vontade.

Eles esbarraram na parede antes mesmo de perceber, rindo contra os lábios um do outro por meio segundo, sem realmente se afastar. Tyler passou a mão pela nuca de Min-su, puxando de leve, aprofundando o beijo, enquanto Min-su descia as mãos pelas costas dele, segurando firme como se quisesse garantir que aquilo era real.

Eles atravessaram o pequeno espaço tropeçando um pouco, esbarrando em móveis, rindo baixo entre um beijo e outro, até chegarem ao quarto, se é que dava pra chamar assim. Era praticamente uma extensão do mesmo ambiente, com uma cama simples, lençóis um pouco bagunçados.

Mas nenhum dos dois parecia se importar com isso.

Assim que chegaram, Tyler puxou Min-su de novo, derrubando qualquer resquício de controle que ainda existisse. Min-su caiu sentado na cama e o puxou junto, e o mundo lá fora simplesmente deixou de existir.

Não tinha pressa, mas também não tinha calma.

Era como se finalmente tivessem parado de fingir.

O apartamento estava mergulhado naquele silêncio morno, quebrado apenas pelas respirações apressadas e pelo som das roupas sendo deixadas para trás.

Sob a luz amarelada da luminária, Tyler parecia uma pintura abstrata. O delineado prateado já borrado nas pálpebras, o rosto corado, o short jeans largado no chão ao lado das orelhinhas de coelho.

Min-su o deitou na cama com uma reverência que Tyler raramente recebia do resto do mundo. Para todos os outros, Tyler era uma explosão de neon: atitude, deboche, o centro da pista de dança que não pedia permissão para brilhar. Mas ali, sob o corpo de Min-su, ele estava desarmado.

— Devagar... — Tyler murmurou, a voz rouca, os dedos traçando o tríceps de Min-su como se estivesse testando a realidade daquele momento.

Min-su assentiu, mas seu instinto gritava com a urgência acumulada de semanas. Quando ele finalmente se posicionou e adentrou, foi um choque de realidade para ambos. Min-su parou, segurando o próprio peso nos cotovelos, observando.

Foi ali que o contraste o atingiu com força total.

Aquele era o Tyler que desafiava olhares no bar, mas agora seus olhos estavam semiabertos, nublados pelo prazer e pela surpresa da invasão. O delineado prateado, antes uma linha afiada de defesa, agora estava completamente desfeito, espalhando brilho pelas têmporas e bochechas como se ele estivesse chorando luz. Era a imagem da ruína mais bonita que Min-su já tinha visto.

Tyler soltou um suspiro longo, entrecortado, que quebrou em um gemido baixinho quando Min-su começou a se mover. Aquele som... não tinha nada da audácia que Tyler projetava. Era um som cru, fino, uma entrega total.

Min-su observava a curva do pescoço dele, a pele macia que parecia tão propensa a quebrar sob pressão, a cintura fina que se encaixava perfeitamente em suas mãos calejadas. Ele era tão… delicado. A atitude que Tyler usava no mundo lá fora era uma armadura, Min-su percebeu.

— Min-su... — Tyler ofegou, a cabeça pendendo para trás no travesseiro. Os cílios prateados tremiam contra a pele corada, e a boca estava entreaberta, buscando ar, buscando mais.

A imagem de Tyler ali, desfeito pelo prazer, com o rosto borrado de brilho e gemendo seu nome, era de uma beleza quase dolorosa. Não era só desejo que Min-su sentia; era uma posse reverente.

O ritmo contido que Min-su tentava manter foi quebrado pela resposta do corpo de Tyler. Seus quadris subiam para encontrar os de Min-su com uma graça inconsciente, seus dedos cravavam nos ombros de Min-su com força, provando que, mesmo ali, a atitude dele ainda existia, mas agora voltada para o prazer mútuo.

Quando o clímax veio, foi em ondas que sacudiram o corpo delicado de Tyler. Ele arqueou as costas, um gemido mais alto e surpreso escapando de seus lábios, os olhos se fechando apertado, fazendo com que o resto do delineado prateado se misturasse à sombra suave ao redor de suas pálpebras. Min-su o seguiu logo depois, enterrando o rosto na curva do pescoço dele, o cheiro de suor e perfume barato do bar parecendo a fragrância mais preciosa do mundo.

No silêncio que se seguiu, com o peito de Tyler subindo e descendo devagar ao lado do seu, Min-su continuou a olhá-lo. O rosto dele ainda estava marcado pelo brilho borrado.

O Tyler cheio de atitude era incrível, mas o Tyler delicado, gemendo e desfeito na sua cama, era a coisa mais linda que Min-su já tivera o privilégio de ver.