Tudo Começou em Letras
32 Capítulo 32 — Caos e Estabilidade
Notas iniciais
Tyler acordou devagar, ainda preso naquele estado meio nebuloso entre sonho e realidade. Demorou alguns segundos para abrir os olhos completamente, encarando um teto que definitivamente não era o dele. Ele franziu o cenho, confuso, o corpo pesado, a cabeça latejando levemente pelo álcool da noite anterior.
Piscou algumas vezes.
E então veio.
Os flashes. A festa. A música alta. Min-su olhando pra ele daquele jeito. O beijo lá fora. O caminho até ali. As mãos. Os corpos. O jeito que ele simplesmente… se entregou.
Tyler soltou um ar pelo nariz, passando a mão no rosto, ainda meio jogado na cama.
— Ok… — murmurou pra si mesmo. — Uau.
Ele virou o rosto automaticamente, esperando ver Min-su ao lado, mas o espaço estava vazio.
Tyler franziu mais o cenho, se apoiando nos cotovelos e olhando ao redor. O apartamento era pequeno, dava pra ver praticamente tudo dali do quarto: a cozinha simples, a sala apertada.
Silêncio.
— Min-su? — chamou, a voz rouca.
Nada.
Ele ficou alguns segundos ali, processando aquilo, quando ouviu o barulho da porta sendo destrancada.
A maçaneta girou, e Min-su entrou, carregando uma sacola de padaria e dois copos de café.
Ele parou assim que viu Tyler acordado.
— Bom dia.
Tyler piscou, ainda meio grogue.
— Você sumiu.
Min-su levantou levemente o saco na mão.
— Fui buscar café da manhã. Não tinha nada aqui.
Tyler deixou o corpo cair de volta no colchão, abrindo um sorriso pequeno.
— Que fofo.
Min-su soltou um riso curto, meio sem jeito, fechando a porta com o pé e indo até a pequena mesa. Tyler passou a mão pelo cabelo bagunçado, e então decidiu se levantar.
— Eu vou… — ele fez um gesto vago — tentar parecer humano.
Min-su observou ele atravessar o pequeno espaço até o banheiro, encostando de leve na parede, ainda meio lento.
Segundos depois, veio o silêncio.
E então…
— MIN-SU?!
A voz veio de dentro do banheiro, indignada.
Min-su não conseguiu evitar o riso.
— O que foi?
A porta se abriu com tudo, e Tyler apareceu, olhando horrorizado.
— Por que você não me avisou que eu tô parecendo um panda?!
A maquiagem estava completamente borrada. O delineado prateado espalhado ao redor dos olhos, os cílios pesados criando manchas escuras. O efeito realmente… não era dos melhores.
Min-su cruzou os braços, encostado na parede, claramente se divertindo.
— Você estava dormindo. Eu não ia te acordar pra falar de maquiagem.
Tyler ficou encarando ele, incrédulo.
— Isso aqui é um crime.
Min-su deu de ombros, ainda sorrindo.
— Eu achei fofo.
Tyler levou a mão ao rosto, exasperado.
— Fofo?
— Uhum.
— Eu tô destruído.
— Continua bonito.
Tyler bufou, mas o canto da boca ameaçou subir.
— Você tem demaquilante?
Min-su fez uma cara pensativa por um segundo… e então negou com a cabeça.
— Não.
Tyler fechou os olhos, respirando fundo, tentando não surtar.
— Claro que não.
Min-su riu baixo.
— Água funciona, sabia?
Tyler lançou um olhar pra ele.
— Obrigado pela dica revolucionária.
Min-su apenas deu de ombros, ainda com aquele sorriso leve.
— Eu disse… você tava uma graça.
Tyler revirou os olhos, mas entrou de volta no banheiro, fechando a porta.
— Não fala isso.
Do lado de fora, Min-su soltou uma risada baixa, passando a mão pela nuca, ainda sentindo um certo calor no peito, uma mistura estranha de leveza e nervosismo.
Dentro do banheiro, Tyler encarava o próprio reflexo enquanto lavava o rosto, a água fria ajudando a acordar de vez.
Mas, por baixo da irritação superficial…
Ele sorria.
***
Naquela tarde, o quarto de Vincent estava com a janela entreaberta, deixando o ar frio entrar em ondas suaves que se misturavam ao cheiro leve de cigarro.
A fumaça subia em espirais lentas, quase preguiçosas, enquanto ele segurava as cartas com uma facilidade que denunciava prática. Laurent estava sentado à frente dele, inclinado sobre a pequena mesa de centro, os olhos atentos, um meio sorriso competitivo nos lábios.
— Você tá blefando — Laurent disse, jogando uma carta com mais força do que o necessário.
Vincent ergueu uma sobrancelha, calmo.
— Você quer que eu esteja, né?
Laurent soltou um riso curto.
— Eu te conheço.
— Esse é exatamente o problema.
O baralho bateu na mesa com um som seco quando Vincent jogou sua sequência, e Laurent soltou um palavrão baixo, passando a mão no rosto.
— Eu odeio jogar com você.
— Mas continua voltando — Vincent respondeu, levando o cigarro à boca.
Foi nesse momento que escutaram uma batida na porta.
Laurent olhou por cima do ombro, esperando alguma reação. Vincent nem se mexeu muito e disse:
— Pode entrar.
A maçaneta girou devagar, como se a pessoa do outro lado ainda estivesse em dúvida.
A porta se abriu, e Adam apareceu.
Ele parou ali por um segundo, ainda com a mão na maçaneta, os olhos indo de Vincent para Laurent, absorvendo a cena: o cigarro, as cartas espalhadas, a intimidade silenciosa entre os dois.
— Ah… — ele disse, meio sem jeito. — Oi.
Vincent virou o rosto, e o semblante dele mudou na hora, suavizando.
— Ei.
Laurent apenas o analisou com curiosidade tranquila.
Adam ficou parado na porta.
— Eu… não sabia que você tava ocupado. Posso voltar outra hora.
Laurent soltou um pequeno riso nasal.
— Eu não mordo, sabia?
Vincent riu junto, olhando pra Adam.
— Entra logo.
Adam hesitou mais um segundo, como se ainda estivesse avaliando se aquilo era mesmo uma boa ideia, mas acabou fechando a porta atrás de si e caminhando até uma cadeira perto da mesa, sentando-se com uma postura meio rígida.
— Estamos jogando belote — Vincent disse simplesmente, sem tirar os olhos das cartas.
Adam assentiu, mesmo sem entender muito.
— Parece… complicado.
— É — Laurent disse. — Mas ele joga como se fosse a coisa mais fácil do mundo.
Vincent deu de ombros, terminando a jogada.
Adam ficou observando em silêncio enquanto eles finalizavam a partida. Os olhos dele acompanhavam os movimentos, mas sem realmente entender as regras, era mais sobre observar Vincent ali, num contexto diferente.
E, ao mesmo tempo, Adam se sentia… um pouco deslocado.
Não de um jeito ruim. Só… fora do ritmo.
Quando a rodada terminou, Vincent juntou as cartas e olhou pra ele.
— Quer jogar?
Adam levantou levemente as sobrancelhas.
— Eu não sei jogar isso.
— A gente te ensina — Laurent disse, já embaralhando o baralho com habilidade.
Adam hesitou, mas acabou sorrindo de leve.
— Tá…
E então eles começaram.
No começo, Adam ficava confuso com as regras, perguntava coisas simples, se atrapalhava na ordem das jogadas. Laurent corrigia com uma paciência inesperada, e Vincent explicava com calma, às vezes repetindo.
— Não, você tem que seguir o naipe.
— Ah.
— Isso.
Aos poucos, Adam foi pegando o ritmo. Não exatamente bem, mas o suficiente pra começar a se envolver. E, quando percebeu, já estava rindo de uma jogada errada, relaxando os ombros, se inclinando mais pra frente.
— Ok, isso é mais difícil do que parece.
Vincent riu.
A partida seguiu leve, com pequenas provocações e comentários. Não era exatamente o ambiente mais confortável do mundo pra Adam, mas também não era mais estranho como no começo.
Quando terminaram, Adam olhou o celular rapidamente e soltou um suspiro leve.
— Eu acho que eu tenho que ir.
Vincent levantou o olhar.
— Já?
— É… eu só queria passar aqui rapidinho.
Ele se levantou, ajeitando a roupa de forma quase automática.
Vincent também se levantou. Eles foram até a porta juntos, enquanto Laurent ficava no quarto, recolhendo as cartas com um sorriso discreto, claramente entretido com a situação.
Adam abriu a porta, já meio virado pra sair, quando Vincent segurou de leve o braço dele e simplesmente se inclinou e deu um selinho rápido em seus lábios.
Simples. Natural. Quase automático, como se não houvesse nada demais naquilo.
Atrás deles, Laurent soltou uma risada baixa.
Adam congelou por um segundo, o rosto dele esquentando imediatamente.
— Eu… — ele começou, sem saber exatamente o que dizer, olhando de relance pra dentro do quarto, completamente vermelho.
Vincent só sorriu, como se nada tivesse acontecido.
— Te vejo depois.
Adam assentiu rápido demais.
— Tá.
E saiu praticamente no mesmo instante, fechando a porta atrás de si. Do lado de fora, ele encostou por um segundo no corredor, passando a mão no rosto, ainda sentindo o calor subir.
Dentro do quarto, Laurent olhou para Vincent com um sorriso enviesado.
— Que fofo.
Vincent pegou o maço de cigarros de novo, tranquilo, mas o leve sorriso no canto da boca permaneceu.
Laurent terminou de juntar as cartas com calma, batendo o baralho na mesa algumas vezes até alinhar tudo. O sorriso ainda estava ali, mas foi se transformando aos poucos em uma expressão mais curiosa. Ele ergueu o olhar para Vincent, que já tinha voltado a se encostar na cadeira, levando o cigarro à boca como se nada tivesse acontecido.
Por alguns segundos, Laurent só observou. Então franziu levemente o cenho.
— Como isso começou?
Vincent soltou a fumaça devagar, sem pressa.
— Isso o quê?
Laurent inclinou a cabeça, dando um meio sorriso.
— Não se faz de idiota. Você e ele.
Vincent ficou em silêncio por um instante, olhando para o nada, como se estivesse escolhendo o quanto queria dizer.
— Eu nunca imaginaria vocês dois juntos — Laurent completou, mais direto dessa vez.
Vincent soltou um pequeno riso pelo nariz, mais baixo.
— Nem eu.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável, mas carregado de alguma coisa mais profunda. Vincent passou a mão pelo cabelo, apoiando o cotovelo no braço da cadeira.
— Você sabe da minha história — ele começou, sem olhar diretamente pra Laurent. — Sabe como… tudo sempre foi meio… bagunçado.
Laurent assentiu, sem interromper.
— Eu nunca tive… — Vincent fez uma pausa curta, procurando a palavra — gente limpa perto de mim. Não limpa de um jeito moralista, mas… sem maldade. Sem jogo. Sem segunda intenção, sabe?
Ele deu de ombros, como se tentasse diminuir o peso do que estava dizendo.
— Sempre foi tudo meio… complicado.
Laurent continuava em silêncio, atento. Vincent finalmente virou o rosto pra ele.
— Aí apareceu o Adam. Eu acho que é raríssimo encontrar pessoas assim. Puras…
Ele deu uma pequena risada, quase sem humor.
— No começo eu nem sabia direito o que fazer com isso.
Laurent cruzou os braços, encostando-se na cadeira.
— E aí deu no que deu.
Vincent soltou o ar pelo nariz, um sorriso leve surgindo.
— É.
Laurent ficou olhando pra ele por mais um segundo… e então o sorriso dele cresceu, ganhando um tom mais provocativo.
— Então basicamente você viu alguém puro, tranquilo, sem bagagem… e pensou: “perfeito, vou trazer o caos pra vida dele”.
Vincent virou o rosto na hora.
— Não exagera.
— Ah, então eu tô errado? — Laurent ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa. — Quem foi que saiu dirigindo igual um maluco e quase se matou, hein?
Vincent fechou os olhos por um segundo, já sabendo onde aquilo ia dar.
— Aquilo foi algo atípico, tá?
Laurent soltou uma risada baixa.
— Claro. Super fora do padrão.
Vincent abriu os olhos, olhando pra ele com um meio sorriso, meio resignado. Laurent deu de ombros, ainda rindo e continuou:
— Eu só tô dizendo que o garoto mal chegou na sua vida e já teve que lidar com acidente, hospital, drama familiar… — Ele inclinou um pouco o corpo pra frente, apoiando os braços na mesa. — É… vocês se complementam.
Vincent arqueou uma sobrancelha.
— Explique.
Laurent deu um pequeno gesto com a mão, como se fosse óbvio.
— Você é um caos ambulante… e ele é… estabilidade. Ou pelo menos parece ser.
Vincent soltou um riso baixo.
— Eu não sou um caos ambulante.
Laurent só olhou pra ele, em silêncio.
Vincent sustentou o olhar por dois segundos… e acabou rindo de leve, cedendo.
— Tá. Um pouco.
Laurent sorriu, satisfeito.
Vincent apenas levou o cigarro à boca de novo, puxando devagar, os olhos perdidos em algum ponto distante, erguendo novamente um leve sorriso.
***
O pátio do campus estava relativamente cheio naquele horário, gente indo e vindo entre as aulas, alguns sentados na grama, outros passando apressados com café na mão. Tyler caminhava sem muita pressa, distraído no celular, quando levantou o olhar e deu de cara com alguém que não via há um tempo.
Ele parou quase automaticamente.
Charles estava ali olhando pra ele, como se tivesse ensaiado aquele encontro mil vezes na cabeça. Um meio sorriso apareceu, mas não era leve como antes.
— Tyler… oi.
Por um segundo, ficou aquele silêncio estranho de quem já teve intimidade demais pra fingir que é só mais um conhecido.
Tyler guardou o celular no bolso, meio sem saber onde colocar as mãos.
— Oi.
Charles respirou fundo antes de falar.
— Eu… posso falar com você um minuto?
Tyler já sentiu o desconforto subir no peito, mas assentiu.
— Pode.
Eles deram alguns passos pro lado, se afastando um pouco do fluxo de gente. Tyler cruzou os braços sem perceber, postura meio na defensiva, enquanto Charles parecia… nervoso. Mais do que ele esperava.
— Eu sei que já faz um tempo — Charles começou — mas… eu nunca entendi direito.
Tyler inclinou levemente a cabeça.
— O quê?
— A gente.
A palavra ficou no ar.
Charles passou a mão pelo próprio cabelo, frustrado consigo mesmo.
— Eu fico voltando nisso às vezes… e eu não consigo achar o momento exato em que deu errado. Ou o que eu fiz de errado.
Tyler soltou o ar devagar, já entendendo pra onde aquilo ia.
— Você não fez nada de errado.
Charles deu um sorriso pequeno, meio desacreditado.
— Sempre dizem isso.
— Porque às vezes é verdade.
Tyler descruzou os braços, tentando parecer mais acessível.
— Charles… você é incrível. De verdade.
Charles manteve os olhos nele, atento.
— Mas…?
Tyler hesitou um segundo, sendo honesto.
— Mas não rolou entre a gente.
Simples assim.
Sem drama.
Sem rodeio.
Charles abaixou o olhar por um instante, absorvendo. Depois voltou.
— Só isso?
Tyler assentiu de leve.
— É… — ele deu de ombros, com um sorriso mais suave. — Olha… isso não te faz menos interessante, nem menos desejável, nem nada disso. Só… não era pra ser comigo.
Charles ficou em silêncio por alguns segundos, e então soltou um riso baixo, meio resignado.
— Você fala isso com uma calma irritante.
Tyler apenas sorriu de canto.
Charles se aproximou um pouco, levantando a mão e tocando de leve o rosto dele, passando os dedos pela bochecha com um carinho que ainda tinha resquício de algo mais.
— Você é complicado.
Tyler não recuou, mas também não avançou. Só sustentou o olhar.
— Eu sei.
Charles sorriu de leve.
Foi nesse momento que um grupo se aproximou pelo pátio.
Finn foi o primeiro a notar.
— Olha só quem tá ali.
Adam, Isabelle e Min-su olharam na direção e viram Tyler e Charles, próximos demais para parecer qualquer coisa casual.
Min-su sentiu o corpo travar por um segundo, mas manteve a expressão neutra. Só que o olhar demorou… Tyler percebeu na hora. O sorriso dele vacilou quase imperceptivelmente.
Finn, por outro lado, não viu nada demais. Se aproximou já falando:
— Charles! Quanto tempo!
Charles se afastou um pouco de Tyler, voltando pra uma distância mais “social”.
— Finn — ele respondeu, sorrindo de verdade dessa vez. — Pois é.
Adam acenou com a cabeça, simpático.
— Oi.
Isabelle também cumprimentou, observando tudo com atenção demais.
Min-su ficou um passo atrás. Quieto.
— Oi — ele disse baixo, sem encarar muito.
O clima ficou meio estranho, mas só pra quem estava realmente prestando atenção. Tyler tentou agir normal.
— A gente tava só… conversando.
Finn deu de ombros, mas Min-su já não estava mais ali de verdade.
— Eu… preciso ir — ele disse de repente, sem olhar pra ninguém específico.
Tyler virou o rosto pra ele na hora.
— Já?
— Tenho coisas pra resolver.
A desculpa saiu rápida demais. E antes que alguém insistisse, ele já estava se virando e indo embora. Tyler acompanhou com o olhar, sabendo exatamente o que aquilo significava.
Isabelle também percebeu na mesma hora. Ela olhou de Min-su se afastando… pra Tyler… pra Charles… e ligou os pontos com uma rapidez quase irritante.
— Eu também vou — ela disse de repente.
Adam piscou.
— Ué?
— Depois a gente se fala.
E saiu, apressando o passo pra alcançar Min-su. Adam ficou olhando, confuso.
— O que foi isso?
Finn deu de ombros, completamente alheio.
— Sei lá.
E voltou a olhar pra Charles como se nada tivesse acontecido.
— Então… por onde você andou esse tempo todo?
Tyler ainda estava olhando na direção em que Min-su tinha sumido. E pela primeira vez naquela conversa… ele já não estava mais tão presente ali.
Fale com o autor