Tudo Começou em Letras
30 Capítulo 30 — Recomeços
O quarto estava quieto quando eles entraram.
A casa inteira parecia ter desacelerado depois da ceia. O barulho de pratos já tinha cessado, as vozes tinham se dissolvido pelos cômodos, e agora só restava aquele silêncio confortável de fim de noite, quebrado de vez em quando por algum som distante vindo do andar de baixo.
O quarto de Vincent estava frio, mas não de um jeito incômodo. Era aquele frio de inverno que convidava a se aproximar, a dividir cobertas.
Adam fechou a porta atrás de si enquanto Vincent já se sentava na cama, soltando um suspiro leve, cansado, mas tranquilo.
— Eu acho que nunca comi tanto na minha vida — Adam murmurou, tirando o casaco.
Vincent sorriu.
— Tava tudo muito bom.
Adam se aproximou da cama, tirou os sapatos e se deitou ao lado de Vincent, ainda meio desajeitado por ser uma cama de solteiro. Os dois acabaram se ajustando automaticamente, corpos próximos, pernas se encaixando sem muito esforço.
O frio ajudava.
Por alguns segundos, eles só ficaram ali, se olhando, como se ainda estivessem absorvendo tudo o que aquele dia tinha sido.
Vincent levou a mão até o rosto de Adam, afastando uma mecha do cabelo dele com cuidado.
O beijo veio natural.
Lento.
Sem pressa.
Adam fechou os olhos, deixando o corpo relaxar completamente pela primeira vez no dia. Havia algo diferente ali, mais calmo, mais seguro, como se estar naquele quarto, naquela cidade, com Vincent, fosse ao mesmo tempo estranho e exatamente onde ele deveria estar.
Quando se afastaram, ainda ficaram próximos.
— O Victor e a Charlotte… — Adam murmurou, a voz baixa — eles sabem?
Vincent arqueou levemente a sobrancelha.
— Sobre a gente?
Adam assentiu.
Vincent deu um meio sorriso.
— Sabem.
Fez uma pausa curta, olhando para ele.
— E se não sabem… é meio óbvio.
Adam soltou uma risada baixa.
— É, talvez.
Vincent encostou a testa na dele por um instante, depois o beijou de novo, mais rápido dessa vez, como um gesto automático.
Mas quando se afastou, o olhar dele ficou um pouco mais atento.
Mais sério.
Ele passou o polegar de leve pelo maxilar de Adam, pensativo.
— Sabe… às vezes eu sinto que você tá triste.
Adam franziu a testa, pego de surpresa.
— Como assim?
Vincent deu de ombros, sem tirar os olhos dele.
— Não sei explicar direito… eu só sinto.
O silêncio que veio depois não foi imediato. Ele foi se formando aos poucos, enquanto Adam processava aquelas palavras. Ele desviou o olhar por um segundo, encarando a parede, como se estivesse decidindo o quanto queria abrir.
— Eu… nunca te contei isso direito.
Vincent não interrompeu. Só esperou.
Adam respirou fundo.
— Quando a gente começou a se envolver… aquilo tudo… — ele fez um gesto vago com a mão — acabou virando um problema no meu grupo de amigos.
A voz dele não tinha acusação. Só cansaço.
— Eu não sabia lidar com o que eu sentia por você. Tipo… de verdade, eu não sabia mesmo. Então eu mentia. Dizia que tava saindo com outra pessoa, inventava coisas…
Ele soltou um ar pelo nariz, meio sem graça.
— Foi idiota.
Vincent permaneceu quieto, mas a mão dele se moveu, pousando no braço de Adam, num gesto silencioso.
Adam continuou, agora mais baixo:
— E… não foi justo com eles também. Eu meio que… não explicava nada direito. E quando tudo veio à tona… foi horrível.
Ele engoliu em seco antes de completar:
— Hoje tá… quase tudo normal de novo. Com o Tyler, com a Isabelle, com o Min-su…
Fez uma pausa.
— Mas não com o Finn.
O nome ficou no ar.
Pesado.
Adam fechou os olhos por um segundo.
— Ele foi a primeira pessoa com quem eu fiz amizade quando cheguei em Dublin. Tipo… o primeiro mesmo. — a voz dele baixou ainda mais — E agora ele nem olha pra mim.
Vincent suspirou devagar, o olhar caindo por um instante.
— Que droga…
Não havia julgamento na voz dele. Só um peso genuíno. Ele passou a mão pelo rosto, pensativo.
— Eu não queria que… — murmurou. — Que você perdesse pessoas por minha causa.
Adam virou o rosto na mesma hora, firme.
— Não foi por sua causa.
Vincent olhou para ele.
— Adam—
— Não foi — ele repetiu, mais calmo agora, mas ainda convicto. — Foi por minha causa. Pelas minhas escolhas. Pelo jeito que eu lidei com tudo.
Ele respirou fundo.
— Mas eu não me arrependo.
O silêncio voltou, mas dessa vez mais denso.
Mais sincero.
Adam sustentou o olhar dele.
— Eu me arrependo de ter mentido. De ter escondido as coisas. Mas não… — ele hesitou só um segundo — não de você.
Vincent não disse nada imediatamente.
Só olhou, como se estivesse tentando absorver aquilo sem estragar. A mão dele subiu até o rosto de Adam outra vez, segurando com cuidado, o polegar roçando de leve a pele.
— Eu também não me arrependo de você — disse, baixo.
E dessa vez, quando se beijaram, não tinha dúvida nenhuma no meio.
***
Os dias em Clermont-Ferrand passaram quase rápidos demais depois daquilo.
Entre conversas, risadas na cozinha e o frio constante que sempre acabava empurrando Adam e Vincent um para o lado do outro, algo entre eles parecia ter se assentado de vez. Não havia mais aquele cuidado excessivo, aquele medo de dizer a coisa errada. Era mais simples agora. Mais direto.
Quando chegou a hora de voltar, não houve grandes despedidas dramáticas.
Charlotte abraçou Adam com carinho, desejando boa viagem num inglês esforçado. Victor apenas assentiu, mas havia algo mais leve no olhar dele quando se despediu de Vincent. Menos peso, menos distância, ainda que não totalmente resolvido.
E então eles voltaram.
Dublin os recebeu com o mesmo vento frio de sempre, o céu cinza e aquela sensação familiar de rotina retomando o seu lugar.
O sebo reabriu, os corredores da universidade voltaram a se encher. Mas, para Adam, tudo parecia… um pouco diferente. Melhor, de alguma forma difícil de explicar.
Mais firme.
Mais certo.
E Vincent também parecia diferente.
Mais presente.
Menos disperso.
Como se aquela viagem tivesse fechado alguma coisa dentro dele.
Naquela tarde, Vincent deixou Adam na frente ao dormitório dele. Não disseram muita coisa, não precisavam. Adam encostou a testa na dele por um segundo antes de entrar, murmurando um “te vejo depois”.
Vincent apenas assentiu, com um meio sorriso.
— Te vejo.
Ele ficou ali por um instante, observando Adam desaparecer pelo quarto, antes de se virar e seguir pelo pátio.
Foi então que viu.
Marcel estava encostado perto de um dos bancos, com o celular na mão, distraído, completamente alheio ao movimento ao redor.
Vincent desacelerou o passo sem perceber.
Desde o acidente… eles não tinham se falado.
Nem uma mensagem.
Nem um olhar direito.
Só silêncio.
Por um momento, Vincent pensou em simplesmente continuar andando. Fingir que não viu. Deixar aquilo para depois, como tantas outras coisas mal resolvidas.
Mas não dessa vez.
Ele respirou fundo e mudou de direção.
— Ei.
A voz saiu simples, sem peso.
Marcel ergueu os olhos do celular, claramente surpreso ao vê-lo ali.
— …Oi.
O olhar dele percorreu Vincent rapidamente, como se estivesse confirmando que ele estava mesmo bem.
Houve um pequeno silêncio. Estranho, mas não hostil.
Vincent não deu tempo para aquilo crescer.
Deu um passo à frente… e o abraçou.
Sem aviso.
Sem explicação.
Marcel travou por um segundo, pego completamente de surpresa.
— Obrigado — Vincent murmurou, baixo, perto do ombro dele.
Simples assim.
Marcel demorou meio segundo… mas então retribuiu. Os braços envolveram Vincent de volta, e ele deu dois tapinhas leves nas costas dele, daquele jeito meio desajeitado de quem não sabe muito bem lidar com aquilo, mas também não quer afastar.
— Tá tudo bem — respondeu, meio rouco. — Relaxa.
O abraço durou pouco, mas foi o suficiente.
Quando se afastaram, nenhum dos dois tentou prolongar. Não era o momento para grandes conversas. Nem precisava ser.
Vincent assentiu de leve e Marcel fez o mesmo.
E então, sem mais nada, cada um seguiu seu caminho.
***
Alguns dias se passaram desde a volta.
A rotina tinha retomado o seu ritmo, mas Vincent não conseguiu ignorar completamente aquilo que Adam tinha comentado com ele naquela noite em Clermont-Ferrand.
Vincent às vezes notava o semblante triste. Não era algo constante, Adam sorria e parecia bem na maior parte do tempo, mas, às vezes, surgia. Um olhar mais distante. Um silêncio que durava um pouco mais do que o normal.
Vincent não comentava sempre. Não pressionava.
Mas via.
E, daquela vez, decidiu fazer alguma coisa.
***
Finn estava sentado sozinho em um dos bancos do pátio, com um café na mão e o celular apoiado na perna. O movimento ao redor seguia normal, mas ele parecia meio desligado, rolando a tela sem muita atenção.
— Finn.
A voz fez com que ele levantasse o olhar na hora.
A surpresa foi imediata.
— …Oi?
Era Vincent. Finn franziu levemente a testa, claramente sem entender o que ele estava fazendo ali.
Vincent parou na frente dele, mantendo uma certa distância. Não havia hostilidade no rosto dele, mas também não havia intimidade. Era direto.
— Posso falar com você um minuto?
Finn hesitou só um pouco, mas assentiu.
Vincent respirou fundo antes de começar, como se tivesse organizado aquilo na cabeça várias vezes antes de vir até ali.
— Eu não vou tomar muito seu tempo — disse, calmo. — E também não tô aqui pra… sei lá, te convencer de nada sobre mim.
Finn cruzou os braços, ouvindo, ainda meio em alerta. Vincent continuou:
— Eu sei que você não gosta de mim. E… tá tudo bem.
A sinceridade pegou Finn um pouco desprevenido. Ele não interrompeu.
— Mas não é sobre isso — Vincent completou. — É sobre o Adam.
O nome fez algo mudar no olhar de Finn. Pequeno, mas perceptível.
— Ele se importa com você — Vincent disse, simples. — Muito.
O silêncio entre eles se alongou por um segundo.
— Ele errou com você — continuou, dando um leve suspiro. — Ele me contou… mas eu vejo o quanto isso mexe com ele.
Finn desviou o olhar por um instante, encarando o café nas mãos.
Vincent não suavizou demais, mas também não atacou.
— Eu não tô dizendo que você tem que esquecer tudo. Nem que tem que fingir que nada aconteceu.
Fez uma pausa breve.
— Só… que talvez valha a pena dar uma chance.
O vento passou entre eles, leve, carregando o som distante das outras pessoas no pátio.
— Porque ele sente sua falta. — Vincent finalizou, mais baixo. — E isso é visível.
Finn não respondeu de imediato.
Ficou em silêncio, processando.
Os dedos apertaram levemente o copo de café, o olhar perdido por um segundo antes de voltar para Vincent.
Ele não parecia mais defensivo. Só… pensativo.
Depois de alguns segundos, assentiu de leve.
— Tá.
Foi simples.
Vincent sustentou o olhar dele por um instante, como se avaliasse aquilo, e então assentiu também e virou para ir embora, sem esperar mais nada.
Finn ficou ali. Parado. O café já quase esquecido na mão, enquanto observava Vincent se afastar pelo pátio.
Ele desviou o olhar, encarando o nada por alguns segundos, pensativo.
***
Alguns dias depois, numa tarde comum no sebo, o sino da porta tocou como sempre.
Adam estava atrás do balcão, organizando alguns livros recém-chegados, o cheiro familiar de papel antigo e café preenchendo o ambiente. Ele nem levantou o olhar de imediato.
— Boa tarde — disse, distraído.
— Boa tarde.
A voz fez tudo parar.
Adam congelou por um segundo.
Lentamente, levantou os olhos.
— …Finn?
Finn estava parado ali, com as mãos nos bolsos do casaco, meio sem jeito, mas com um pequeno sorriso no rosto. Não parecia tenso. Nem fechado como das últimas vezes em que tinham se cruzado. Só… normal. O que, naquele contexto, era quase surreal.
— Oi — ele disse.
Adam piscou, ainda tentando entender se aquilo era mesmo real.
— Oi…
Houve um pequeno silêncio. Finn deu alguns passos até o balcão.
— Posso falar com você?
Adam assentiu na hora, ainda meio atordoado.
— Claro.
Finn respirou fundo antes de começar.
— Eu… queria dizer que sinto muito.
Adam franziu levemente a testa, surpreso.
— Pelo jeito que eu lidei com tudo — Finn continuou. — Eu fui… duro demais. E talvez orgulhoso demais também.
Ele desviou o olhar por um segundo, passando a mão na nuca.
— Eu senti sua falta.
A frase veio mais baixa, mas sincera. Adam ficou imóvel.
— E eu sei que você não fez aquilo por maldade — Finn continuou. — Eu sei que você só… não sabia o que fazer. Com tudo. Com você mesmo.
O silêncio caiu pesado. Adam engoliu em seco, os olhos já ardendo antes mesmo de perceber.
— Finn, eu…
A voz falhou. Ele deu a volta no balcão sem pensar duas vezes e puxou Finn para um abraço.
Forte.
Apertado.
Como se estivesse segurando algo que quase tinha perdido de vez.
— Me desculpa — Adam murmurou, a voz quebrada. — Sério. Eu fui um idiota. Eu não devia ter escondido nada de você, devia ter falado…
As palavras se embolavam no meio do choro que ele nem tentou segurar.
Finn retribuiu o abraço sem hesitar, segurando ele firme.
— Ei… tá tudo bem — disse, mais baixo. — Já passou.
Adam riu entre as lágrimas, meio sem jeito, se afastando depois de alguns segundos e passando a mão no rosto.
— Eu sou péssimo com essas coisas.
Finn soltou um riso leve.
— Eu sei.
O clima, aos poucos, foi se assentando.
Eles ficaram ali por um instante, um pouco mais leves, como se algo tivesse sido finalmente colocado no lugar. Foi Finn quem quebrou o silêncio dessa vez:
— Pelo menos… o Vincent mostrou que tem caráter.
Adam piscou, confuso.
— Como assim?
Finn deu de ombros.
— Ele foi falar comigo.
Adam arregalou levemente os olhos.
— Ele foi?
A surpresa era genuína. Finn assentiu.
— Foi. Disse que você se importava comigo, que… talvez eu devesse te dar uma chance.
Adam ficou alguns segundos sem reação.
— Eu não sabia disso…
Um sorriso pequeno começou a surgir no rosto dele, quase involuntário. Finn deu um meio sorriso de volta.
— Ele parece se importar muito com você.
Adam abaixou o olhar por um instante, aquele sorriso ainda ali, mais suave agora.
— É… — murmurou.
E aquilo, de alguma forma, aquecia mais do que ele esperava.
O silêncio entre eles voltou, mas dessa vez leve.
Natural.
Adam respirou fundo, como se estivesse voltando completamente para o momento.
— Você tá com fome?
Finn levantou uma sobrancelha.
— Sempre.
Adam sorriu.
— Tem uma hamburgueria aqui perto. A gente pode ir lá… colocar o papo em dia.
Finn sorriu de verdade dessa vez.
— Bora.
Adam pegou o casaco, avisou rapidamente à Laura que ia sair e, poucos minutos depois, os dois estavam caminhando lado a lado pela rua, como se aquele espaço nunca tivesse existido.
Falando.
Rindo.
Recomeçando.
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