Tudo Começou em Letras
1 Capítulo 1 — Novas Raízes
O cheiro de papel antigo e o som abafado dos sapatos contra o chão de madeira da biblioteca antiga eram o único anestésico capaz de acalmar a mente de Adam Byrne.
Havia passado exatamente um ano desde que ele deixara para trás as colinas verdes e o ritmo arrastado de Ennistymon, uma pequena cidade no condado de Clare, no interior da Irlanda. Lá, o horizonte era definido pelo curso do Rio Inagh e pelo silêncio das ruas de pedra; aqui, em Dublin, o horizonte era moldado pelas torres majestosas e pelo peso acadêmico da Trinity College.
Adam ajeitou seus óculos, que teimavam em escorregar pelo nariz, e passou a mão pelos cabelos ruivos desalinhados, uma herança de família que parecia ganhar um brilho acobreado sob a luz filtrada pelas janelas altas. Seus olhos azuis, claros e atentos como o céu, percorriam as prateleiras com uma reverência quase religiosa. Para muitos de seus colegas, o primeiro ano na universidade tinha sido uma sucessão de festas e a descoberta da liberdade urbana. Para Adam, fora a materialização de um sonho que tinha desde a infância, quando se escondia no sótão de sua casa simples para escrever contos em cadernos de capa dura, fugindo da realidade através das palavras.
Ao atravessar o pátio central, o Front Square, ele sentiu a brisa fresca de Dublin tocar seu rosto. O granito dos prédios seculares parecia pulsar com a história dos grandes que por ali passaram, de Wilde a Beckett, e Adam nunca deixava de sentir um leve frio na barriga ao perceber que agora pisava o mesmo chão. Ele caminhou com passos tranquilos até o seu banco favorito, localizado estrategicamente perto do campanário, onde o movimento dos estudantes se tornava um borrão de fundo para seus pensamentos.
Embora vivesse o rigor das aulas e das entregas de ensaios, eram os momentos de solitude que realmente o alimentavam. Adam amava se perder pelos parques da cidade. Quando o campus parecia pequeno demais para suas ambições literárias, ele buscava refúgio no St. Stephen’s Green, observando os cisnes e os transeuntes, transformando cada rosto anônimo em um personagem em potencial. Outras vezes, caminhava até o Phoenix Park, onde a vastidão do verde o lembrava de casa, mas com a eletricidade da capital pulsando logo além dos portões.
Ele abriu sua mochila e retirou um dos livros clássicos que estava terminando de ler, mas antes de começar a leitura, permitiu-se apenas observar.
Um ano já havia passado. Ele não era mais apenas o garoto do interior que sonhava em ser escritor; ele era um habitante daquela cidade literária, um aprendiz. Enquanto abria a primeira página, Adam sentiu que, embora já conhecesse os atalhos da faculdade e os horários dos ônibus, sua verdadeira jornada em Dublin estava apenas saindo do prólogo.
A transição de Adam para a vida em Dublin teria sido muito mais solitária se não fosse pelo caos organizado que se tornou seu círculo de amizades. O destino, ou talvez apenas a administração da residência estudantil, tinha lhe dado Finn como colega de quarto logo no primeiro dia. Finn, um dublinense nato de cabelos castanhos bagunçados e uma energia inesgotável, foi quem arrancou Adam de sua concha. Enquanto Adam trazia o silêncio das colinas de Clare, Finn trazia o barulho das ruas de Temple Bar, e a amizade entre os dois selou-se em meio a pilhas de livros e caixas de pizza divididas no chão do dormitório.
Naquele dia, o banco de Adam perto do campanário não ficou vazio por muito tempo. O primeiro a avistá-lo foi Finn, que vinha atravessando o gramado com seu passo saltitante, acompanhado pelo restante do grupo que haviam formado na turma de Letras.
— Eu sabia que encontraríamos o bardo de Ennistymon escondido aqui — exclamou Finn, sentando-se ao lado de Adam sem pedir licença e passando o braço pelos ombros do amigo.
Logo atrás vinha Tyler, atraindo olhares de quem passava. Americano e dono de uma confiança inabalável, Tyler possuía uma beleza andrógina marcante; seus traços eram delicados, emoldurados por cabelos loiros que caíam suavemente até a altura do pescoço, e seus olhos verdes pareciam sempre estar analisando o mundo como se fosse uma obra de arte. Ao seu lado, Min-su, o estudante coreano que trocara a agitação de Seul pela névoa irlandesa, sorria de forma contida, ajustando a alça da mochila.
Fechando o grupo estava Isabelle, cujos cabelos ondulados seguiam o mesmo tom castanho profundo de seus olhos. Ela caminhava um pouco mais devagar, segurando um livro contra o peito. Brasileira e naturalmente mais tímida que os outros, Isabelle possuía uma gentileza silenciosa que a tornava o porto seguro do grupo. Embora falasse pouco em grandes rodas, suas observações sobre literatura eram sempre as mais aguçadas.
— Ele deve estar lendo há horas — Tyler comentou, parando diante de Adam com as mãos nos bolsos da jaqueta jeans. Ele inclinou a cabeça, os fios loiros balançando levemente. — Adam, meu caro, o mundo está acontecendo ao seu redor!
Adam fechou o livro, marcando a página com o dedo, e deu um sorriso contido.
— É para o próximo seminário, Tyler. Alguém precisa manter o nível intelectual desse grupo enquanto você desfila pelo campus.
— Touché — riu o americano, sentando-se no gramado aos pés dele.
— Ignore o Tyler, ele só está frustrado porque o Professor Gallagher praticamente o expulsou da sala uns dez minutos antes da aula acabar — Finn disse, dando um tapinha nas costas de Adam. — Falando no Gallagher, que homem insuportável. Eu juro que se ele citar a estrutura métrica de 'Beowulf' mais uma vez com aquele hálito de café velho, eu peço transferência para Contabilidade.
— O Gallagher não é tão ruim, Finn. Ele só é... rigoroso — ponderou Min-su, acomodando-se ao lado de Tyler. — Mas admito que a aula de hoje sobre literatura russa foi um teste de resistência.
Isabelle, que até então apenas observava com seu sorriso gentil, sentou-se na ponta do banco, ao lado de Adam. Ela estendeu o livro que carregava para que todos vissem a capa.
— Por falar em literatura russa, vocês já começaram a ler para o seminário do Gallagher? — perguntou ela. O título Crime e Castigo encarava o grupo com a gravidade de um tribunal.
Um gemido coletivo, liderado por Finn, ecoou pelo pátio.
— Dostoievski... — resmungou Finn, jogando a cabeça para trás. — Por que ele não podia escrever algo curto e alegre? Tipo um panfleto? "Raskólnikov decidiu não usar o machado e foi tomar um chá". Fim.
— É uma obra-prima, Finn — Adam interveio, sentindo o peso do seu próprio exemplar dentro da mochila. — A forma como ele descreve a culpa e o isolamento... é quase como se ele estivesse mapeando a mente humana em tempo real.
— Eu sinto que o castigo já começou antes mesmo de terminarmos o livro — Isabelle comentou, com sua voz suave e o sotaque brasileiro dando um tom melódico às palavras. — O Gallagher disse que não vai aceitar análises superficiais sobre a moralidade do crime. Ele quer que a gente "disseque a alma de Raskólnikov", seja lá o que isso signifique.
— Significa que vamos passar o final de semana trancados na biblioteca, nos sentindo culpados por não estarmos estudando o suficiente — Tyler suspirou, embora seus olhos verdes brilhassem com o desafio intelectual. — Mas, antes de virarmos mártires russos, eu voto por irmos atrás de algo menos denso. Comida, por exemplo.
— Sou obrigado a concordar com ele — Finn levantou-se num salto, puxando Adam pelo braço. — Vamos, bardo. O sol de Dublin é raro demais para ser desperdiçado com crises do século XIX.
Adam olhou para os amigos — a energia caótica de Finn, a elegância de Tyler, a calma de Min-su e a doçura de Isabelle. Ali, cercado por sotaques e histórias tão diferentes da sua, ele percebeu que a solidão das colinas de Clare era apenas uma lembrança distante. Enquanto caminhavam juntos em direção à saída do campus, o som de suas risadas se misturava ao badalar do campanário, selando mais um dia na construção daquela nova história.
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