Tudo Começou em Letras

2 Capítulo 2 — O Convite


O quarto que Adam dividia com Finn nunca era exatamente silencioso, mas naquela tarde ele parecia ter sido oficialmente tomado por Tyler.

Adam estava sentado na própria cama, as costas apoiadas na parede, o livro aberto sobre as pernas. As páginas já haviam sido manuseadas tantas vezes que as bordas estavam levemente onduladas, como se tivessem absorvido a umidade do ar dublinense. O Morro dos Ventos Uivantes repousava aberto em um ponto estratégico, marcado não por um marcador elegante, mas por um pedaço dobrado de papel arrancado de um caderno antigo.

Tyler, por outro lado, ocupava a cadeira giratória de Finn, falando e gesticulando.

— Eu só estou dizendo — começou ele, girando lentamente enquanto falava — que existe uma vida inteira acontecendo fora dessas paredes. Uma vida com música, pessoas interessantes, cerveja decente… e vocês dois estão aqui. Trancados. Voluntariamente.

Finn, estirado no chão entre a cama e a escrivaninha, mastigava alguma coisa indefinida retirada de um pacote amassado.

— Você faz parecer que estamos em prisão domiciliar — comentou, rindo. — Mas confesso que um pub agora cairia muito bem.

Tyler estalou os dedos, triunfante.

— Obrigado, Finn. Alguém sensato por aqui.

Adam não levantou os olhos do livro.

— Eu preciso terminar esse capítulo — disse, sem pressa. — Prometi a mim mesmo que avançaria pelo menos mais cinquenta páginas hoje.

Tyler girou a cadeira para encará-lo diretamente.

— Adam Byrne… você está lendo O Morro dos Ventos Uivantes numa sexta-feira à noite.

— É uma quinta-feira — corrigiu Adam, finalmente erguendo o olhar.

— Que seja.

Finn riu, apoiando os cotovelos no chão.

— Ele entra num modo estranho quando está lendo essas coisas. Da última vez foi Dickens. Passou três dias olhando pela janela como se estivesse esperando uma tragédia acontecer.

Adam fechou o livro com cuidado, como se estivesse protegendo algo frágil.

— Não é só “essas coisas”. É um clássico. E é um livro sobre pessoas intensas, escolhas erradas e consequências.

Tyler sorriu, inclinado para frente.

— Eu gosto desse livro — admitiu. — Sério. É um caos absoluto. Mas você não pode viver todas as emoções humanas só por meio de personagens mortos há mais de um século, Adam.

Ele se levantou, aproximando-se da cama de Adam.

— Em algum momento, você precisa… viver.

A palavra ficou suspensa no ar por um instante.

Adam desviou o olhar, passando o polegar pela lombada do livro.

— Eu vivo — respondeu, mais baixo. — Só não do mesmo jeito que você.

Finn se sentou, apoiando as costas na cama.

— Olha, ninguém está dizendo que você precisa virar uma criatura de pub, Adam. Mas uma noite fora não vai te matar. Prometo. No máximo, uma ressaca emocional leve.

— E você vai gostar — Tyler completou. — Nem que seja para observar as pessoas. Pense nisso como… pesquisa literária.

Adam arqueou levemente a sobrancelha.

— Você realmente acha que isso vai funcionar comigo?

— Funciona com a Isabelle — Finn disse, de repente.

Adam sorriu de lado.

— Funciona porque ela também nunca consegue dizer não quando vocês dois se juntam.

— Fazer o quê, né? — Tyler deu de ombros, olhando suas unhas bem cuidadas. — Ela não está aqui agora com a gente, mas vamos dar um jeito de arrastar todo mundo.

— Eu topo. — Finn completou. — Vou mandar mensagem pra ela. Ela vai reclamar por uns cinco minutos e depois aparecer de casaco e cara de quem preferia estar em casa.

Adam imaginou Isabelle naquele exato estado e sentiu uma pontada de reconhecimento confortável. Ele entendia perfeitamente aquela contradição: gostar de estar junto, mas preferir o silêncio.

— E o Min-su? — perguntou.

Finn fez uma careta.

— Turno noturno de novo. Bar cheio. Se a gente chamar, pode ser que ele apareça, mas não é certeza.

Tyler suspirou teatralmente.

— Um dia ainda vou libertar aquele homem daquele bar.

O quarto voltou a ficar em silêncio por alguns segundos. Adam olhou para o livro fechado, depois para Finn, depois para Tyler — impaciente, vivo, pulsando como a própria cidade.

Ele respirou fundo.

— Tá bom — disse, a contragosto. — Eu vou. Mas se for ruim…

Tyler abriu um sorriso largo.

— Eu aceito esse tipo de vitória.

Finn se levantou num pulo.

— Viu? Eu sabia. O bardo sempre cede.

Adam balançou a cabeça, rendido, enquanto guardava o livro na mochila.

Talvez, só talvez, uma pausa não fosse uma traição à sua rotina.

Talvez a noite tivesse algo a dizer também.

E, mesmo sem admitir em voz alta, uma parte dele estava curiosa para escutar.


***


As ruas de Dublin à noite tinham uma cadência própria, como se a cidade respirasse mais fundo depois do pôr do sol. As luzes dos postes refletiam no asfalto úmido, desenhando caminhos dourados que se desfaziam sob os passos apressados dos estudantes. Adam caminhava alguns passos atrás do grupo, o casaco fechado até o pescoço, observando.

Finn falava alto demais sobre alguma história da aula da tarde. Tyler gesticulava como se estivesse no palco de um teatro invisível. Isabelle caminhava ao lado de Adam, silenciosa, as mãos enfiadas nos bolsos, o olhar curioso passeando pelas vitrines fechadas.

— Eu ainda acho que o Min-su devia largar aquele emprego — Tyler dizia. — Ele claramente nasceu para algo mais sofisticado do que servir drinks para desconhecidos às duas da manhã.

— Fácil falar quando você não precisa pagar aluguel — Isabelle comentou, com suavidade, mas firme.

Tyler abriu a boca para responder, depois desistiu, rindo.

Adam sorriu de leve. Gostava desses momentos. Momentos que não exigiam nada dele além de presença.

O pub escolhido por Tyler ficava numa rua estreita, afastada do fluxo principal. A fachada era discreta, quase escondida entre dois prédios antigos, com uma placa de madeira escura pendurada por correntes de ferro. Havia música escapando pela porta entreaberta e um burburinho animado lá dentro.

— Esse lugar é ótimo — Tyler anunciou, já empurrando a porta.

Eles entraram juntos, engolidos pelo calor e pelo cheiro de madeira velha, cerveja e risadas acumuladas. Adam piscou, ajustando os óculos, enquanto seus olhos se acostumavam à iluminação baixa.

Foi então que ele os viu.

Marcel, Laurent, Miles e Vincent.

Eles pertenciam ao curso de Música, todos sabiam disso. Estavam no terceiro ano e carregavam aquela confiança típica de quem já dominava os corredores da faculdade, como se o campus lhes pertencesse por direito. Era um grupo conhecido, comentado, e profundamente detestado pelos estudantes de Letras, não apenas pela arrogância quase performática, mas pela forma como pareciam sempre flutuar acima das consequências.

Marcel estava encostado no balcão, rindo alto demais, o copo erguido como se estivesse sempre brindando a própria existência. Laurent ocupava o espaço ao lado dele com uma presença calculada, o sorriso fácil e os olhos atentos a tudo ao redor como quem avalia o ambiente antes de decidir se vale a pena. Miles permanecia um pouco afastado, apoiado na madeira escura do balcão, observando em silêncio, a expressão neutra. E, entre eles, Vincent.

Adam não saberia dizer exatamente por que seus olhos se fixaram nele primeiro. Talvez fosse o contraste — o cabelo escuro, a postura relaxada demais. Vincent não ria alto como Marcel, nem exibia o sorriso calculado de Laurent, tampouco parecia distante como Miles. Apenas escutava, a cabeça levemente inclinada, como se estivesse sempre captando algo que os outros não percebiam.

Finn parou abruptamente.

— Não — disse, baixo, mas carregado de certeza.

Isabelle seguiu o olhar dele e franziu levemente a testa.

— Sério?

Tyler fez uma careta teatral.

— Claro que eles estariam aqui. Porque o universo adora testar a paciência humana.

Adam sentiu o estômago se contrair.

— Vamos embora — Finn disse, já dando meia-volta. — Agora.

Ninguém discutiu.

Eles saíram quase tão rápido quanto haviam entrado, o frio da noite os recebendo de volta com um contraste brusco. Finn soltou um palavrão baixo assim que a porta se fechou atrás deles.

— Eu me recuso a dividir o mesmo espaço que aquelas pessoas — ele completou.

— Pessoas é uma palavra generosa — Tyler acrescentou. — Aquilo ali é um ecossistema próprio. Hostil.

Isabelle respirou fundo.

— Ainda bem que não pedimos nada. Não ia conseguir engolir um gole de bebida sequer sabendo que eles estavam ali.

Adam permaneceu em silêncio enquanto retomavam a caminhada. O som dos passos parecia mais pesado agora.

Eles nunca se esqueceram.

Nunca se esqueceram do que aquele grupo tinha feito com Finn. Mesmo sem reviver os detalhes, a memória permanecia como uma mancha difícil de ignorar. Não foi algo pequeno. Não foi algo perdoável. Foi o tipo de coisa que mudava a forma como se olhava para alguém e para si mesmo.

Adam olhou para Finn, que agora ria de alguma piada de Tyler, mas havia algo rígido em seus ombros, uma tensão que não se dissolvia completamente.

Algumas feridas não cicatrizavam. Apenas aprendiam a ficar quietas.

— Tem outro lugar perto do rio — Tyler disse, quebrando o silêncio. — Menos cheio. Menos… problemático.

— Perfeito — Isabelle concordou. — Hoje não é noite para lidar com esse tipo de problema.

Adam seguiu andando, o pensamento preso por um instante ao pub que haviam deixado para trás.


***


O segundo lugar era menor, mais apertado, mas carregava uma energia diferente. A música vinha de uma jukebox antiga encostada no fundo do salão, e as mesas estavam ocupadas por grupos misturados, gente falando alto, rindo sem cerimônia. Não havia ali o ar pretensioso do pub anterior, só barulho, calor e movimento.

Finn foi o primeiro a se soltar, puxando duas cadeiras e sentando-se em uma das mesas do local como se aquele espaço tivesse sido feito sob medida para eles. Isabelle se sentou ao lado de Adam, os dois observando antes de participar de fato da conversa. Tyler, no entanto, parecia já perfeitamente ambientado.

— Ok — ele disse, depois de um rápido escaneamento visual do lugar —, oficialmente aprovado.

— Pelo ambiente ou pelas pessoas? — Finn provocou.

Tyler sorriu, sem o menor constrangimento.

— Pelas pessoas. Definitivamente pelas pessoas. Vocês viram aquele cara perto do balcão? Ou aquele ali, de jaqueta escura? Dublin realmente não brinca quando o assunto é beleza alternativa.

Isabelle riu, balançando a cabeça.

— Você não perde tempo nenhum, né?

— Tempo é relativo — Tyler respondeu. — E eu pretendo sair daqui acompanhado. Isso é quase uma promessa.

Ele então se virou para Adam e Isabelle, apontando para a pista improvisada perto da jukebox.

— Vocês dois, inclusive, precisam parar de se esconder. Isso aqui é um ambiente social. Recomendo interação humana.

— Eu estou interagindo — Adam disse, calmamente. — Estou sentado numa mesa com vocês.

— Não é isso que eu quis dizer e você sabe — Tyler rebateu, rindo. — Você precisa se permitir um pouco mais.

Adam apoiou o copo na mesa, ouvindo, mas sem responder de imediato. Aquela conversa não era nova. Tyler e Finn sempre acabavam chegando ali, mais cedo ou mais tarde.

Ele nunca sentira aquela urgência que parecia mover os outros. Nunca entendera muito bem a pressa. Beijar alguém, ficar com alguém, tudo isso sempre lhe pareceu opcional, não essencial. Houve uma única vez, anos atrás, um rapaz de passagem por Ennistymon. Um beijo trocado mais por curiosidade do que por desejo, cercado por expectativas alheias que diziam que aquilo deveria ser marcante. Não havia sido ruim. Mas também não foi nada de mais. Nenhuma faísca, nenhuma revelação.

Se um beijo tinha sido assim, sexo parecia ainda mais distante. Nunca sentiu vontade de tentar, nem curiosidade suficiente para descobrir se seria diferente. Não falava disso com os amigos; havia um constrangimento silencioso em admitir que nunca tinha feito algo pelo qual todo mundo agia como se fosse indispensável. Em algum momento, apenas aceitou. Não ia se forçar a nada só para caber no que esperavam dele.

— Ele não é tímido — Finn disse, bebendo um gole. — Ele só funciona em outra frequência.

— Tudo bem funcionar em outra frequência — Tyler respondeu. — Desde que você não se tranque nela para sempre.

Adam ergueu os olhos para ele, encontrando um olhar sincero por trás do tom brincalhão.

— Eu não estou trancado — disse. — Só… não sinto a mesma necessidade que vocês.

Isabelle assentiu de leve.

— Eu entendo — falou, suavemente. — Nem todo mundo sente as coisas do mesmo jeito.

Tyler suspirou, rendido por um instante.

— Eu sei. E juro que não falo isso para pressionar. É só que… eu queria que vocês sentissem como é a sensação.

A frase ficou ali, pairando.

A música aumentou, Finn se levantou para buscar outra rodada, e Isabelle começou a comentar algo sobre a playlist improvisada. A conversa seguiu, animada, leve.

Mas, mesmo cercado de vozes e risadas, Adam sentiu aquele pensamento persistente se acomodar em algum lugar dentro de si.

Talvez se abrir não fosse sobre mudar quem ele era.

Talvez fosse apenas sobre permitir que algo inesperado o encontrasse.


***


Com o passar do tempo, a mesa foi ficando mais vazia. Finn havia desaparecido em direção ao balcão, determinado a buscar mais uma rodada, e Tyler já não estava ali havia alguns minutos. Adam só percebeu onde ele estava quando um movimento perto da jukebox chamou sua atenção.

Tyler beijava outro homem com uma naturalidade quase desarmante. O homem estava com uma das mãos apoiada na cintura dele. Tyler estava com o corpo inclinado, confiante, como se aquele gesto fosse apenas mais uma extensão de quem ele era.

Isabelle seguiu o olhar de Adam e sorriu de canto.

— Ele faz parecer fácil — comentou.

— Faz — Adam concordou, apoiando os cotovelos na mesa.

Houve um breve silêncio, confortável. A música preenchia os espaços sem exigir conversa.

Adam observou novamente a cena por um instante, depois desviou o olhar.

— Eu não conseguiria ser assim — disse, mais baixo. — Não desse jeito.

Isabelle virou-se para ele, atenta.

— Eu também não — respondeu. — E tudo bem, cada um é cada um.

Adam assentiu, mas a comparação já tinha se instalado dentro dele. Tyler se movia pelo mundo como alguém que sabia exatamente onde pisava. Adam, por outro lado, sempre sentiu que caminhava com cuidado, como se estivesse pisando em algo frágil demais.

Finn voltou à mesa carregando os copos, interrompendo o momento.

— Voltei! — anunciou, colocando as bebidas entre eles. Ele franziu a testa procurando por alguém, até que seu olhar pairou no local próximo a jukebox — Eita. O Tyler já tá… bem ocupado, né?

Isabelle riu.

— Bastante.

Adam pegou o copo, sentindo o frio do vidro na mão. Ao redor deles, o bar seguia vivo, pulsando, como se nada estivesse suspenso.

Ele tomou um gole lento, deixando o som da música e das conversas preencher o espaço.

Talvez ele nunca fosse como Tyler.

E talvez isso de fato não fosse um problema.