Tudo Começou em Letras
35 Capítulo 35 — Se Encontrar
O último ano passou com aquela mistura de intensidade e leveza que só existe quando tudo parece estar se encaixando, ainda que imperfeito. Houve risadas demais em noites que deveriam ser só rápidas, conversas profundas que começavam despretensiosas e terminavam horas depois, pequenas discussões que surgiam do nada e desapareciam quase do mesmo jeito. Nada grandioso o suficiente pra quebrar o que tinham construído. Pelo contrário… só parecia deixar tudo mais real.
Adam, aos poucos, também foi encontrando mais o próprio caminho.
Quando conseguiu o emprego na biblioteca da universidade, foi como se algo tivesse feito um clique dentro dele. O silêncio organizado, o cheiro dos livros, a sensação de pertencimento, tudo fazia sentido. Era o tipo de lugar onde ele se sentia parte.
Mas isso também significava se despedir do sebo.
No seu último dia de trabalho, ele passou mais tempo ali do que precisava. Organizou livros que já estavam organizados, ajeitou pilhas, limpou o balcão com uma atenção quase exagerada. Era a forma dele de ir se soltando aos poucos.
Laura percebeu.
— Você tá enrolando — ela disse, apoiada no balcão, observando.
Adam sorriu de canto, sem negar.
— Talvez.
— Não precisa fazer isso ser algo dramático, sabia?
— Eu não tô fazendo ser dramático.
— Tá sim. — ela deu um sorriso pequeno. — Mas eu deixo.
Adam riu baixo, parando finalmente o que estava fazendo. Olhou ao redor da loja, como se quisesse guardar tudo daquele lugar.
— Eu vou sentir falta daqui.
— Eu também vou sentir falta de você — Laura respondeu, simples, sem peso ou exagero.
Adam assentiu, engolindo em seco antes de dar um passo à frente e abraçá-la. Foi um abraço forte e demorado, daqueles que dizem mais do que qualquer despedida ensaiada.
Laura retribuiu na mesma intensidade, dando dois tapinhas leves nas costas dele no final.
— Você vai fazer falta, sabia?
Adam soltou um riso pequeno.
— Você também.
Ela se afastou um pouco, olhando pra ele com um orgulho tranquilo.
— Mas eu tô feliz por você. Você merece isso. Merece crescer, ir pra lugares maiores… — ela deu de ombros — alçar voo, como dizem por aí.
Adam sorriu, meio tímido.
— Eu ainda vou passar aqui.
— Eu espero que sim.
— É… não vai se livrar de mim tão fácil.
— Ótimo. Nem quero.
Eles sorriram um para o outro, daquele jeito leve de quem sabe que não é um fim de verdade.
Adam pegou a mochila, deu uma última olhada no espaço que por tanto tempo foi parte da rotina dele… e saiu.
Dessa vez, sem enrolar, mas levando tudo consigo.
***
Com o passar dos meses, cada um foi encontrando, quase sem perceber, um lugar mais firme dentro da própria vida.
Finn, que sempre foi organizado, atento aos detalhes e naturalmente crítico, começou a se destacar cada vez mais na editora onde trabalhava. O que no início era apenas um estágio foi se transformando em algo maior, pois ele passou a ser ouvido nas reuniões e suas opiniões começaram a ter peso. Não demorou muito até que viesse a promoção. Não era só reconhecimento pelo trabalho técnico, mas pela forma como ele entendia o que estava lendo, como conseguia enxergar potencial, ou a falta dele, com uma clareza quase incômoda.
Foi nesse contexto que Tyler voltou a insistir na ideia de trabalhar ali.
Desde sempre, ele dizia que aquele ambiente tinha tudo a ver com ele, e, de certa forma, tinha mesmo. Tyler sempre teve opinião forte, senso crítico afiado e uma facilidade quase irritante de transformar qualquer coisa em algo interessante de se ouvir. Mas Finn, por um tempo, hesitou. Não por duvidar da capacidade dele… e sim por saber que Tyler levava a vida de um jeito mais caótico, mais livre, e aquele tipo de ambiente exigia consistência.
Ainda assim, um dia, ele o indicou na editora e Tyler conseguiu o emprego.
Não exatamente na mesma área de Finn, mas era em um setor que parecia feito sob medida: publicidade e crítica. Ali, ele podia analisar, escrever, opinar, e, principalmente, ser ele mesmo. O fato de ser home office só tornava tudo ainda mais funcional para alguém como ele, que nunca se encaixou muito bem em rotinas engessadas. Pela primeira vez, Tyler parecia canalizar toda aquela energia dispersa em algo produtivo, sem perder a própria essência.
Min-su, por outro lado, trilhou um caminho mais silencioso, mas não menos significativo.
Depois de tanto tempo trabalhando no bar, enfrentando turnos longos, noites exaustivas e uma rotina que consumia mais do que entregava, ele finalmente conseguiu sair. Não foi uma decisão impulsiva, foi construída aos poucos, com planejamento, economia e, principalmente, coragem.
Quando surgiu a oportunidade de trabalhar como estagiário em uma escola em Dublin, auxiliando professores, ele não pensou duas vezes.
Era o tipo de ambiente que exigia paciência, presença e sensibilidade, coisas que Min-su sempre teve, mesmo que nem sempre fossem visíveis à primeira vista. Ali, ele encontrou um ritmo diferente, mais humano. Descobriu que gostava de ensinar, de explicar, de acompanhar o desenvolvimento dos alunos. Era desafiador, sim, mas de um jeito que fazia sentido. Pela primeira vez em muito tempo, ele não voltava pra casa exausto no pior sentido da palavra. Voltava cansado, mas satisfeito.
Era ali que ele queria ficar.
E Isabelle… Isabelle encontrou um tipo de paz que talvez nem soubesse que estava procurando. Trabalhar na biblioteca da cidade de Dublin não parecia, à primeira vista, algo extraordinário. Mas, para ela, foi.
O ambiente tranquilo, o contato constante com livros, a rotina organizada, as pessoas que iam e vinham em silêncio respeitoso, tudo aquilo encaixava perfeitamente com a forma como ela via o mundo. Isabelle sempre foi observadora, atenta aos detalhes, alguém que preferia a profundidade ao barulho. E naquele espaço, ela não precisava se adaptar. Ela simplesmente… era.
Com o tempo, passou a conhecer os frequentadores, a recomendar leituras e a organizar pequenos eventos literários. Criou conexões sutis, mas verdadeiras.
Se encontrou.
E, de alguma forma, todos eles se encontraram também.
Não no sentido de terem tudo resolvido, porque ninguém ali tinha, mas no de finalmente estarem caminhando em direções que faziam sentido para quem estavam se tornando.
***
O dia da formatura chegou com um peso diferente de todos os outros momentos que já tinham vivido juntos. Não era só mais um marco, era o fim de um ciclo inteiro.
O auditório estava cheio, famílias, amigos, professores… vozes se misturando, flashes, abraços antecipados. Mas, entre eles, havia algo mais silencioso também. Uma consciência compartilhada de que aquilo tudo, as rotinas, os encontros casuais pelo campus, as noites improvisadas, não iam mais existir do mesmo jeito.
Quando começaram a chamar os nomes, um por um, o grupo inteiro reagia como se cada diploma fosse coletivo.
Adam subiu ao palco com o coração acelerado, mas com um sorriso firme. Quando recebeu o diploma, olhou rapidamente para a plateia, e encontrou seus pais. Ele sorriu, acenando.
Logo avistou Vincent, presente e orgulhoso, exatamente como tinha prometido.
Mais tarde, já do lado de fora, depois de abraçar os pais com força e se despedir deles, sabendo que logo pegariam a estrada de volta para Ennistymon, Adam ficou por um instante parado no meio do movimento. Pessoas se encontrando, vozes altas, risadas, flashes… tudo meio caótico ao redor.
Mas ele nem precisou procurar.
Vincent já estava vindo na direção dele. E quando se encontraram, não teve hesitação.
Eles se beijaram, sem pensar em quem estava olhando, sem cerimônia. Só aquele momento, só os dois.
— Eu falei que ia estar aqui — Vincent murmurou, encostando a testa na dele.
Adam riu, emocionado.
Eles ainda ficaram ali por alguns segundos, próximos, até que uma voz conhecida cortou o momento.
— Ok, chega.
Tyler apareceu, surgindo praticamente do nada, com aquele jeito dele.
— Já deu de romance por hoje. Eu vim buscar o Adam.
Vincent arqueou a sobrancelha, divertido.
— Ah, é?
— É. A gente tem coisas mais importantes pra fazer. Tipo… comemorar juntos.
Adam riu.
— Calma, Tyler. Eu já tô indo.
Vincent deu um passo pra trás, assentindo.
— Vai lá. Depois a gente se encontra.
Adam segurou a mão dele por um segundo antes de soltar.
— A gente se encontra.
E foi.
***
Mais tarde, os cinco estavam sentados em um pub, o tipo de lugar que já tinha sido cenário de tantas outras noites deles. Nada muito sofisticado, mas cheio de história.
Os copos se acumulavam na mesa, as risadas vinham fáceis, as conversas se atropelavam.
— Eu não acredito que a gente realmente terminou — Adam disse em algum momento, ainda meio incrédulo.
— Terminou não — Finn corrigiu, apoiando o copo na mesa. — A gente evoluiu. Olha a maturidade.
— Cala a boca — Tyler respondeu na hora, rindo.
Isabelle balançou a cabeça, sorrindo.
— Ele só quer parecer adulto.
— Eu sou adulto — Finn retrucou.
— Você chora vendo comercial de Natal — Tyler rebateu.
— Isso não vem ao caso.
Todos riram.
Min-su, mais quieto, observava aquilo tudo com um sorriso leve, claramente absorvendo o momento.
Tyler em um certo momento ficou diferente, mais silencioso do que o normal.
Min-su percebeu.
— O que foi?
Tyler deu um gole na bebida antes de responder.
— Nada.
— Tyler…
Ele suspirou, olhando ao redor da mesa, como se estivesse tentando guardar tudo.
— Eu só… — deu de ombros, mas a voz saiu um pouco mais baixa — vou sentir falta disso.
O silêncio que veio depois não foi pesado, foi sincero.
Finn arqueou a sobrancelha.
— Dramático.
Tyler revirou os olhos.
— Vai se ferrar.
— A gente não vai desaparecer, Tyler — Isabelle disse, com calma.
— Eu sei.
— Só vai ser… diferente — Adam completou. — Mas vai ser bom.
Finn ficou olhando para eles por um segundo, mais quieto do que o normal, girando o copo entre os dedos.
— Tá… — ele disse, como se estivesse organizando o pensamento. — Então vamos todos prometer uma coisa.
Todos olharam para ele.
— A gente não vai sumir. — Ele deu de ombros, tentando parecer casual, mas não era. — Mesmo com tudo mudando… a gente vai se encontrar. De vez em quando. Não vamos deixar isso virar só “aquela época da faculdade”.
Adam assentiu na hora.
— Eu prometo.
— Eu também — Isabelle disse, firme.
Tyler levantou o copo, com um meio sorriso.
— Eu apareço até quando não for convidado.
— A gente sabe — Finn respondeu, seco.
Min-su apenas concordou com a cabeça, olhando pra cada um deles antes de dizer:
— Prometo.
Finn respirou fundo, como se aquilo bastasse.
— Então tá.
Eles levantaram os copos quase ao mesmo tempo.
— À nós — Tyler disse.
— À nós — repetiram.
Os copos se tocaram.
E, naquele pequeno gesto, tinha mais compromisso do que qualquer plano concreto.
Min-su, ainda com o copo na mão, virou o rosto e deu um selinho rápido em Tyler, natural, quase automático.
Finn arregalou os olhos na hora.
— Ah, não. — Ele apontou pros dois. — Eu não vim aqui pra isso não.
Tyler riu.
— Tarde demais.
— Eu vou cobrar adicional por demonstração pública de afeto.
— Ciúmes?
— Nojo — Finn rebateu, mas já sorrindo.
Adam riu baixo, Isabelle balançou a cabeça divertida, e Min-su apenas deu um sorriso discreto, ainda próximo de Tyler.
A noite seguiu leve.
E, pela primeira vez, o futuro não parecia assustador.
Só… aberto.
***
Alguns meses depois, a vida já tinha assumido outro ritmo, menos caótico, talvez, mas não menos intenso.
Naquela manhã de sábado, deitado no apartamento onde atualmente morava com Vincent, Adam ainda estava meio perdido entre o sono e a consciência. E então sentiu um movimento ao lado. Abriu os olhos devagar, o quarto ainda meio silencioso, a luz entrando pelas frestas da cortina.
Vincent já estava de pé e vestido, com uma energia suspeita para alguém naquele horário.
Adam franziu o cenho, a voz rouca de sono:
— Que horas são?
— Cedo.
— Isso não é uma resposta.
Vincent sorriu de lado, pegando a chave do carro.
— Levanta e se arruma. Vamos sair.
Adam puxou o travesseiro um pouco mais, cobrindo metade do rosto.
— Pra onde?
— Surpresa.
Adam deixou o travesseiro cair, olhando pra ele com uma expressão meio desconfiada.
— Eu deveria me preocupar?
— Provavelmente não.
— Isso não ajuda.
Vincent deu de ombros.
— Confia em mim.
Adam ficou alguns segundos em silêncio, encarando-o… e então soltou um suspiro, já se levantando.
— Eu confio.
E era verdade.
***
Algum tempo depois, estavam na estrada.
Adam encostado no banco do passageiro, usando óculos escuros, o vento entrando levemente pela janela entreaberta. O rádio tocava baixo, uma música qualquer que ele nem prestava muita atenção.
Ele virou o rosto um pouco, olhando Vincent dirigir, concentrado, tranquilo, e sorriu.
— Eu me sinto num filme.
Vincent soltou um riso curto.
— Um filme meio improvisado.
— Os melhores são assim.
Adam voltou a olhar pela janela, deixando o cenário passar, sentindo aquela sensação boa de não saber exatamente para onde estava indo, mas sabendo que queria estar ali.
***
Quando finalmente pararam, Adam saiu do carro sem muita pressa… até perceber onde estavam.
Ele deu alguns passos à frente.
E então parou.
O vento bateu primeiro e depois veio a vista.
Imensa.
Aberta.
O mar se estendendo até onde a vista alcançava, quebrando contra as falésias gigantes com uma força quase hipnotizante.
— Vincent…
A voz saiu baixa, quase sem ar.
Ele não precisava perguntar, mas perguntou mesmo assim:
— Aqui é…
— Cliffs of Moher — Vincent completou, olhando pra ele.
Adam ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo.
— É incrível — ele disse, ainda meio em choque.
— Demais.
Eles caminharam um pouco, lado a lado, o som do vento e do mar preenchendo tudo. Não precisavam falar muito.
Em um ponto mais afastado, Adam parou de novo e Vincent parou ao lado dele. Por um momento, só ficaram ali, olhando.
E então Adam virou o rosto.
— Obrigado.
Vincent sustentou o olhar.
— Pelo quê?
Adam deu um sorriso pequeno.
— Por me trazer aqui. Por… tudo isso.
Vincent não respondeu com palavras, só levou a mão até o rosto dele e o beijou.
O vento ao redor, o som do mar lá embaixo, o sol iluminando tudo, como se aquele momento tivesse sido construído com cuidado demais pra ser só coincidência.
Quando se afastaram, Adam ainda estava sorrindo.
— Ok… isso definitivamente é um filme.
Vincent riu.
— E ainda nem chegou na melhor parte.
Adam arqueou a sobrancelha.
— Tem mais?
Vincent deu um passo para trás, puxando ele pela mão.
— Sempre tem.
E eles continuaram caminhando, sem pressa. Como se o tempo, ali, pudesse esperar.
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