Tudo Começou em Letras
36 Epílogo
Um ano se passou.
Numa tarde tranquila, Adam estava sentado na pequena varanda do apartamento. O vento era leve, o céu limpo, e Dublin parecia mais silenciosa do que o normal.
Ele estava sozinho com um caderno aberto na pequena mesa.
A caneta deslizando devagar.
Era a parte final do seu livro.
Ele parava às vezes, olhando para o nada, como se estivesse organizando mais do que palavras, como se estivesse revisitando tudo.
Pensava em cada um dos seus amigos.
Min-su… que tinha aceitado um emprego no interior da Irlanda, finalmente dando aula como sempre quis. Um lugar mais calmo, uma rotina nova, e Tyler, claro, tinha ido junto. O trabalho remoto permitia, e no fundo ninguém ali acreditava que ele ficaria longe de Min-su por muito tempo. Os dois, do jeito deles, tinham construído algo firme o suficiente para atravessar mudanças.
Finn… imerso na editora, vivendo na correria que ele mesmo parecia gostar. Sempre com prazos, reuniões, decisões. Às vezes distante, mas nunca ausente de verdade.
Isabelle… vivendo a própria vida com aquela calma característica, encontrando beleza nas pequenas coisas, no silêncio, nos livros, nas pessoas certas.
E ele.
Ali.
Terminando algo que, de certa forma, era um pedaço de tudo aquilo.
Adam respirou fundo, apoiando a caneta por um instante, até que a porta da varanda se abriu atrás dele. Ele nem precisou olhar pra saber quem era.
Vincent apareceu, encostando de leve no batente antes de se aproximar. Observou-o por um segundo, em silêncio, como se não quisesse interromper. Depois puxou uma cadeira e sentou ao lado.
— Você tá quieto.
Adam deu um sorriso leve, ainda olhando para o caderno.
— Pensando.
— Isso é perigoso.
Adam soltou um riso baixo.
Ficaram alguns segundos assim, só dividindo o espaço. Então Vincent inclinou um pouco a cabeça na direção do caderno.
— Tá terminando de escrever seu livro?
Adam assentiu.
— Tô.
— Finalmente.
Adam virou o rosto pra ele, com um meio sorriso.
— Demorou, né?
— Um pouco.
Vincent apoiou os cotovelos nos joelhos, curioso.
— Então… você vai me contar agora sobre o que se trata?
Adam hesitou. Não porque não queria contar… mas porque aquilo era, de certa forma, íntimo demais.
Mesmo assim, respirou fundo e falou:
— É sobre um jovem.
Vincent arqueou a sobrancelha.
— Ótimo começo.
Adam revirou os olhos, sorrindo.
— O nome dele é Dylan.
— Hm.
— Ele é… meio perdido no começo. Cheio de ideias, cheio de sonhos, mas sem saber muito bem o que fazer com tudo isso.
Vincent ficou em silêncio, ouvindo de verdade.
— Aí ele entra na Trinity, no curso de Letras — Adam continuou, a voz mais calma — e começa a conhecer gente… pessoas que mudam a vida dele de formas diferentes. Amizades, conflitos… descobertas.
Ele pausou um segundo.
— E ele conhece um violinista.
Vincent virou o rosto na hora, com um sorriso surgindo.
— Ah, é?
Adam assentiu, agora um pouco corado.
— O nome dele é Pièrre.
— Pièrre — Vincent repetiu, claramente se divertindo.
— E… — Adam deu de ombros — esse violinista meio que vira o mundo dele de cabeça pra baixo.
Vincent deixou escapar um riso baixo.
— Que conveniente.
Adam riu também.
— Um pouco.
Ele olhou de volta para o caderno.
— Mas não é só sobre eles. Tem… outras histórias também. Das pessoas ao redor. Todo mundo passando por alguma coisa, mudando, errando, acertando… vivendo.
Vincent observava ele com um olhar diferente agora.
— Parece familiar.
O tom foi levemente irônico, mas havia algo sincero ali.
Adam apenas sorriu.
— Talvez.
Vincent então perguntou, simples:
— E o nome do livro?
Adam fechou o caderno devagar, pensando por um segundo, e então respondeu:
— “Tudo começou em Letras”.
Vincent repetiu em voz baixa, como se testasse o peso das palavras.
— Bonito.
Adam olhou pra ele.
— É meio… sobre isso, no fim.
Vincent assentiu, entendendo mais do que Adam havia explicado. Ele ficou alguns segundos ali, olhando Adam com aquele meio sorriso que misturava orgulho e curiosidade contida, como se tivesse mil perguntas, mas escolhesse não fazer nenhuma.
— Eu vou deixar você terminar — disse, com a voz baixa, quase respeitosa. — Acho que esse momento é seu.
Adam assentiu, ainda com o caderno apoiado nas pernas.
— É… é.
Vincent se inclinou e deixou um beijo leve na têmpora dele antes de se levantar.
— Quando você quiser me mostrar… eu tô aqui.
— Eu sei.
Vincent entrou de volta no apartamento, fechando a porta de vidro com cuidado, deixando Adam sozinho com o som leve do vento e o céu aberto de fim de tarde.
Por alguns segundos, ele não escreveu nada.
Ficou só ali, olhando a cidade, sentindo o tempo. Pensando em como tudo tinha mudado, e ao mesmo tempo, como tudo fazia sentido agora.
Então voltou a olhar para a página.
A caneta hesitou por um instante, não por dúvida, mas pelo peso daquele final.
Ele continuou a escrever devagar, com cuidado, como se cada palavra precisasse ocupar exatamente o lugar certo.
Quando terminou a última frase, ficou olhando para o papel por alguns segundos, absorvendo o que tinha feito.
Ficou olhando o próprio nome ali, no fim de tudo, como um ponto final… e, ao mesmo tempo, um começo.
Ele encostou a cabeça na cadeira, fechando os olhos por um instante.
Respirou fundo e sorriu.
Para quando a saudade voltar
Dizem que as palavras são definitivas, mas a vida nunca é. Dublin continuará viva, indiferente à nossa pressa, às nossas promessas sussurradas entre uma aula e outra.
As notas de um violino solitário ainda vão ecoar pelos corredores da universidade, como se o tempo não tivesse coragem de tocá-las. O cheiro de café e papel antigo no sebo vai permanecer, guardando histórias que não são nossas, mas que poderiam ter sido.
Mas nós… nós não ficamos. Nós nos desfazemos aos poucos, nos espalhamos em direções que nunca imaginamos seguir.
Escrevi estas páginas não para prender o tempo, até porque seria inútil tentar conter algo que nasceu para escapar. Escrevi para ter onde voltar quando a saudade apertar. Para que, se um dia a memória falhar, ou se a distância transformar tudo em algo quase irreal, eu possa abrir este livro e reencontrar cada instante como ele foi: intacto, vivo, pulsando.
Aqui, ninguém parte.
Aqui, ninguém esquece.
O sarcasmo que escondia um coração absurdamente leal ainda vive em cada linha, como um segredo mal disfarçado. O sorriso de um amigo que finalmente encontrou um porto seguro continua iluminando estas páginas, como se nunca tivesse conhecido o medo de perder. E aquele olhar… aquele olhar profundo, que me atravessava no silêncio dos dormitórios, ainda está aqui, suspenso no tempo, dizendo tudo aquilo que nem a mais perfeita das músicas ousou traduzir.
E talvez seja isso que mais me assusta e ao mesmo tempo me conforta. Saber que, ao abrir este livro, não encontro apenas lembranças… eu me encontro. Um eu mais jovem, inexperiente, quase ingênuo, que ainda não sabia o peso das despedidas, mas que teve a coragem de viver um amor imenso. Um eu que teve a sorte rara de cruzar o caminho de pessoas incríveis, daquelas que mudam tudo sem perceber, daquelas que deixam marcas que o tempo não apaga.
E, ainda assim, existe uma verdade silenciosa que nenhuma lembrança consegue desfazer: nunca mais seremos aqueles jovens descobrindo a vida juntos nos corredores da universidade, rindo sem medida, acreditando que tudo ainda estava por começar. Aquela versão de nós pertence a um tempo que não volta, e talvez seja justamente por isso que dói tanto… e brilha tanto.
Mas a vida não termina ali. Não termina em nós. Ainda há tanto a viver, tantos caminhos inesperados, tantas primeiras vezes esperando pacientemente por quem ousa continuar. Outros encontros, outras versões de nós mesmos que ainda não conhecemos, e que, de algum jeito, também merecem existir.
Porém, há dias em que tudo o que eu queria era voltar.
Voltar para as conversas sem hora, para as risadas que doíam na barriga, para os silêncios que diziam mais do que qualquer confissão. Voltar para a versão de mim que ainda não sabia que estava vivendo algo irrepetível, mas que, mesmo assim, viveu com tudo o que tinha.
Mas, se não posso voltar, eu guardo.
Porque, no fim, as pessoas seguem ritmos diferentes. A vida desafina, recomeça, se perde em novos compassos. Mas aquilo que um dia começou em Letras não se apaga.
Fica.
Resiste.
E, de algum jeito silencioso e teimoso… permanece para sempre.
— A.B Adam Byrne
*FIM*
Fale com o autor