Tu Viens Avec Moi?
3 Capítulo 3 - Je n'en attendais pas
Notas iniciais
Você deve saber como é o mundo desabar e se sentir sozinho no meio de sete bilhões de pessoas. Porque se você sabe, entenderá muito bem como eu me senti naquele momento. Apesar de sempre achar que minha mãe era a pior pessoa do mundo, eu a respeitava e a tinha com seu devido valor.
E simplesmente receber a notícia de que minha mãe estava mal, logo após a perda de minha irmã, surgiu como uma bomba para mim. Elisabeth garantiu que cuidaria de minha mãe e me daria as notícias necessárias. Isso soou que eu não receberia exatamente todas as notícias, entretanto não contestei. Quando desliguei o telefone, olhei para os lados e vi uma típica casa de família, aos sábados, pronta para receber algum parente. Enquanto ainda tinha Lucy e minha mãe, a casa estava sempre daquele jeito, elas faziam questão de deixar tudo em seu devido lugar, até mesmo quando não recebíamos visitas. Não sei por que diabos, eu sorri ao ver a casa daquela maneira, limpa e... Um pouco normal. Claro, tudo isso após muita limpeza e muito esforço de minha parte. Mas ainda faltavam duas coisas para completá-la, Lucy e minha mãe.
Fiquei por mais algum tempo em casa cuidando do jardim e até pensei em sair, mas meu rosto não estava em bom estado pra ficar à mostra, então fui organizar as compras. Quando entrei na dispensa com as sacolas, esbarrei em uma caixa no canto da prateleira. Ela parecia intencionalmente escondida atrás de outras caixas, mas a sua ponta fugia alguns centímetros do esconderijo.
Arrastei as outras caixas a ponto de alcançar uma boa parte dela e consegui tirá-la da prateleira. Ela parecia ter sido tocada recentemente e aquilo aumentou minha curiosidade. Levei até a sala e não tive dificuldade alguma para retirar a tampa dela, aliás, estava até fácil demais para uma caixa escondida daquela maneira. Quando abri, de início não houve surpresa alguma, mas quando retirei uma segunda caixa, percebi que aquilo não era apenas mais uma caixa, e sim pertences de minha mãe, não tão novos, porém tão velhos.
Eram tantas fotografias, documentos, cartas, discos, textos em francês e principalmente, fotos minhas (Nestas, eu poderia ter alguns dois anos e brincava com pessoas estranhas, mas que pareciam muito com Lucy). Não sabia exatamente por onde começar e, os textos em francês ainda eram incompreensíveis, apesar de meu francês praticado.
Minha cabeça girava e o resto do ambiente me parecia atordoado. Aquelas pessoas que tinham os mesmos traços de Lucy, mas eram estranhas, minha mãe com seu mesmo sorriso sereno e olhar ingênuo, mas sem seus sinais de envelhecimento, os dois homens que apareciam com minha mãe na maioria das fotos, mas também eram estranhos, e várias cartas em francês. Perguntei-me do por quê de minha mãe guardar aquilo tudo por dezessete anos. Eu não tinha resposta alguma.
E nas fotos, eram tantas pessoas com minha mãe, e agora, ela era completamente sozinha e nunca respondia alguma pergunta relativa aos parentes dela. Aquilo estava muito estranho.
“Você não tem ideia do quanto Donna fez por você, fez por sua vida e pela sua consciência.” “Ela sofre há dezenove anos” “Enfim, acho que você entenderá tudo a medida do tempo”. As palavras de Elisabeth não saíam de minha cabeça e, tudo aquilo só começou a fazer uma ligação, quando analisei as datas das cartas e das fotografias. Formaram vinte anos desde que as cartas foram recebidas por minha mãe, e então, minha mãe começou a sofrer há dezenove anos. Minha mãe sempre contou ser feliz em suas histórias, mas por tudo que entendi naquele momento, dezenove anos foram escondidos de mim e de Lucy.
Tudo bem, aquilo era pessoal de minha mãe, mas minha vida estava totalmente ligada a ela. As perguntas que tinha sobre minha vida, só podiam ser respondidas por ela, porém, já que ela nunca contara e até escondera muita informação, eu descobriria sozinha. Estava totalmente disposta a encontrar as saídas.
Guardei a caixa e levei apenas algumas cartas para meu quarto. Não havia risco nenhum de minha mãe saber daquilo ou até esconder a caixa fora de meu alcance, pelo que Elisabeth disse, ela não estava em condição alguma para ficar em casa alimentando a imaginação, enquanto sua saúde piorava.
Eu sabia que era errado, mas abri a primeira carta que vi, e comecei a anotar a tradução do francês em uma folha avulsa. Claro, precisei de uma ajuda do Google Translator, já que quando minha mãe tentou me ensinar francês, eu pensei que não mudaria minha vida e a ignorei. Agora sofria as consequências.
Não esperava encontrar tudo que descobri naquela carta, na verdade, eu descobri muito mais do que deveria. Só precisava de uma coisa: explicação lógica. Realmente, eu estava indo pelo caminho torto, só não sabia que naquele momento, quando peguei uma segunda carta para ler, eu estava escolhendo um novo rumo para minha vida.
“Cher Donna,
Il est difficile de choisir quelque chose d'aussi cruel que son départ, mais je sais qu'un jour je vais vous trouver. La mauvaise famille va prendre soin d'elle très bien, mais s'il vous plaît me donner des nouvelles”
Essas eram as primeiras palavras da carta, que traduzindo, se formaram:
“Querida Donna,
É difícil escolher algo tão cruel como sua partida, mas eu sei que um dia ainda irei te encontrar. A família errada cuidará dela muito bem, mas, por favor, me dê notícias”
A data era do mesmo ano em que eu nascera, mais precisamente, uma semana após o dia em que nasci, e aquilo tudo me transtornou. O pior que podia me passar, era a hipótese de eu ser mencionada nesta carta, o que viria a acontecer nas próximas frases.
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