Tsuki

2 Capitulo 2


Sabe aquela sensação de pisar em uma surpresinha especial?

Quando você está andando, descalço pela casa e aquele seu lindo cachorrinho marrento faz alguma coisa no tapete preto, uma armadilha invisível ao olho Nu. É a mesma coisa, até pensei que tinha pisado nisso antes de olhar para o chão e ver aquela poça vermelha.

Meus olhos se arregalaram no mesmo instante e só consegui pensar o pior. Fui tateando as paredes em volta com a visão, subindo bem devagar, até que finalmente voltaram ao normal, onde vi um vulto negro sair correndo de um dos Box.

E do Box que ele tinha saído, havia uma mão estirada no chão.

Não pensei duas vezes, meus instintos falaram mais alto que minha mente e com um salto para fora do box, corri atrás do vulto saindo do banheiro rapidamente e o perseguindo pelo corredor metálico do quartel desativado. Esse, definitivamente foi o meu segundo erro da noite.

Pelo pouco que pude ver, era um homem de altura mediana, usando um gorro, botas e luvas, completamente vestido de preto, andando entre os corredores que mais pareciam um labirinto.

Distrai-me por um segundo e quase não consegui pular um Sofá encostado em um dos corredores. Entramos na parte da festa, diversas pessoas bebendo e ouvindo uma musica com batida repetitiva, que me deixava desnorteado. Ele tentou me dispersar em meio a multidão, mas fui mais rápido e dei a volta por cima dos sofás, passando as pernas por entre os casais que se assustaram com aquela cena, sorte que não quiseram ir atrás de mim, apenas xingaram até que eu desaparecesse da frente deles.

Dei a volta pela parte que eu conhecia da festa, um dos pilares de cal que seguravam a estrutura do prédio e o Surpreendi em frente a saída. Ele parou no exato momento, e antes que eu pudesse o tocá-lo, deu alguns passos para trás e voltou. A parada foi rápida, já tinha visto aquilo, mas apenas na televisão, do pouco que eu sabia sobre lutas de boxe, aquilo não era um movimento de um amador.

Voltamos para aquele corredor, meu alvo estava fazendo o caminho de volta para o banheiro. Eu era ótimo em corridas com Obstáculo desde o exercito, e a cada passo eu estava mais perto dele, independente de quanto mais objetos ele jogava em minha direção: Mesas de jantar, cadeiras, apoios de microfone, caixas de som e bandejas com alimentos.

Quando estava prestes a pegar o pulso dele na corrida, que seria o bastante para pará-lo, ele jogou uma jarra de bebida em meus olhos, me deixando cego.

Limpei meu rosto na camiseta, enquanto meus olhos ardiam em chamas. A distancia era muito curta para ter desviado, não esperava por aquele golpe sujo, afinal, se fosse um objeto normal eu poderia bater com o braço e tira-lo da frente. Pouco a pouco fui abrindo meus olhos estreitos, enxergando quase nada.

Havia perdido o meu alvo. Para um soldado aquilo era como uma missão falha.

Ajoelhei no chão e fechei os olhos mais uma vez. E então aquela voz veio a minha mente, pela segunda vez. Dizendo exatamente onde eu deveria ir.

Abri a porta da cobertura.

A Lua estava clara e alta, bem acima de nos brilhando intensamente, parecendo aqueles biscoitos redondos de desenho animado. Era um espaço de 10 metros por 10, com duas ventilações que possivelmente saíram da cozinha do quartel. Toda a área era cercada por grades de ferro, que iam até mais ou menos meu peito.

Meus olhos já estavam bem melhores, fui ao banheiro antes de subir, aproveitei e tranquei a porta para que ninguém visse o homem morto, e estava torcendo para que ninguém já o tivesse visto. Lavei o rosto muitas vezes até ficar bom – Reparem que eu disse bom, não perfeito – E eu fui em direção a minha intuição, ou como eu chamava aquela voz que ecoava em minha mente.

No terraço havia uma garota de costas, de aproximadamente 1, 68 de altura, cabelos castanhos e enrolados, trajando um vestido vermelho rendado que ia até o chão. Sua pele era clara e parecia refletir a luz da lua enquanto olhava a paisagem. Fechei a porta, fazendo barulho de propósito e ela se virou.

Parecia ter alguma coisa em sua mão, que guardou rapidamente na bolsa que carregava ao lado do corpo.

– Desculpa se te assustei – Disse a ela, me aproximando enquanto coçava os olhos – Você viu um cara vestido de preto bem estranho por ai, ele causou o maior tumultuo na festa agora pouco . . .

Não esperava muita coisa da moça, ela tinha cara de confusa, tanto quanto a minha. Ao chegar mais perto, pude reparar que aquela visão dava direto para a floresta, tendo apenas um pequeno espaço com uma grade ali embaixo que fazia a divisão dos terrenos.

– Não vi ninguém não, senhor – Disse ela, cruzando os braços, tremendo de frio e olhando ao redor agoniada. Uma rajada de ar frio passava por nós como um tiro, estávamos no quarto andar, no mesmo nível das montanhas mais ao fundo, logo depois da floresta. O vento fez com que o seu vestido levanta-se um pouco, e eu senti um calafrio quando o vento o desceu novamente.

– Ah, desculpa ter lhe incomodado – Virei de costas e caminhei de volta para porta, encostei minha mão na maçaneta e a senti pesada. – É a foto do seu namorado moça? Desculpe perguntar, é que gosto de colecionar historias . . .

– É sim, nos acabamos de terminar . . . – Olhei por trás dos ombros e vi que ela havia voltava a olhar para a paisagem, encostando as mãos no parapeito.

– O Vestido era para impressionar ele? – Perguntei a ela, abrindo a porta, preparado para descer as escadas. Olhei para os exaustores enquanto isso, um deles estava desligado: Não girava e nem fazia a famigerada fumaça da cozinha sair como o do lado, ver coisas que não estavam funcionando me deixava apreensivo, dava um sentimento de nostalgia.

– Era sim . . . – Ela se conteve em apenas dizer essas palavras, e foi então que eu fechei a porta dali.

Esperei por alguns segundos para ver a reação dela, que novamente pegava aquela Fotografia da bolsa. Fixei o olhar nela como se não houvesse outra coisa no mundo.

Pouco a pouco fui me aproximando do Exaustor, sem que ela percebesse que eu estava ali e olhei por dentro da ventoinha. Fiz um sinal negativo com a cabeça e andei furtivamente na direção na garota, tentando expiar a foto. E como sempre, meu palpite estava correto.

– Posso ficar aqui em cima?

Disse, esperava que ela levasse um susto com aquilo, mas se limitou a guardar a foto na bolsa. Estávamos a menos de 1 Metro e meio de distancia. Ela se virou em minha direção e pude ver melhor o rosto dela. Os cachos pareciam ter sido feitos para aquela ocasião, nada naturais. Seus olhos eram azuis bem claro, sobrancelhas arqueadas, como sinal de desaprovação estavam bem postas em seu rosto. Sua pele branca estava contra a luz da lua, e sua feição apenas era iluminada por uma pequena luz vermelha que raramente piscava ali do lado, em um dos cantos presa no que parecia um mastro.

– Você não desiste fácil não é? – Disse com todas as palavras, enquanto subia no parapeito e se jogava, deixando à amostra as botas de couro negras que não puderam ser escondidas no Exaustor, com o resto das roupas.

Meu tempo de reação decaiu, não pude ver quando, talvez por ter estado tão longe, deveria ter me aproximado mais. Porém, quando eu me dei conta e tentei esticar meu braço, ela havia pulado do quarto andar de uma base militar. Levei um susto tão grande que fiquei em estado de choque. Não pude deixar de olhar para baixo e ver como ela estava, e pela minha surpresa, ela estava de pé, me encarando.

Não era possível!

Era algo sobre-humano, quem acreditaria vendo agora uma garota que parecia ser tão frágil? De todos os militares que já vi, nenhum jamais teria coragem de pular dessa altura, tão qual sobreviver à queda.

Olhei em volta e procurei algo que ela pudesse cair, e nada que parecesse mole o bastante, nenhum sofá colorido ou um pula-pula. A coisa mais macia estava a quase 4 metros de distancia de onde ela caiu, e era uma rama de arbustos.

Ela acenou carinhosamente para mim, e começou a andar na direção das grades.

Meu corpo se encheu de raiva, não era a primeira vez que alguém acenava para mim e me dava as costas, e novamente aquela voz que me fez subir na Cobertura completava o pouco espaço que faltava em minha mente. E ela dizia apenas uma coisa.

Olhei para os lados assustado. Jurava que havia visto um vulto em meio as sombras, desaparecendo enquanto a luz vermelha piscava em uma velocidade bem devagar.

Virei de costas e acelerei meu passo, indo na direção da porta. Ia sair e tentar achar ela na festa, mesmo achando impossível.

Pula!

Disse novamente a voz que ecoava pelo meu corpo, tão forte que me fez parar. Já havia desobedecido-a uma vez, e as consequências me fizeram pensar duas vezes. Apertei meu peito com uma das mãos, encarei as grades atrás de mim e analisei a cena. Por alguns instantes não via jeito de sobreviver, até que eu arregalei os olhos com a ideia que tive.

Andei mais alguns passos pesados, cheguei perto da porta, virei e encostei no parapeito. Agachei-me, apoiei um dos joelhos no chão e coloquei minha mão em frente ao corpo, tocando o piso gelado.

Dizia — concentre-se, White — para mim mesmo encarando a situaçãoe fechando os olhos.

Meu corpo borbulhava por dentro, era uma ansiedade louca que me fazia viajar para outro universo momentaneamente, era algo que superava qualquer experiência que alguém podia viver em sua vida.

Concentre-se, White. Contei até três, abri os olhos e disparei na direção da lua.

A sensação de estar voando é ótima, se compararia ao mesmo orgasmo que sentimos quando damos o nosso primeiro beijo. As pernas tremem enquanto está prestes a dar a partida, assim que pula sente-se mais livre, solto, e então aproveita a sensação de abraçar o céu, de crescer e se sentir único, até que a gravidade lhe puxe de volta a realidade. Todavia, eu não quero falar sobre a caída, que foi ligeiramente dolorosa, prefiro a sensação de estar nas nuvens, subindo cada vez mais para o alto.

Você pula de olhos fechados, com medo de encarar e se assustar. Sua respiração começa a ficar mais forte, enquanto o vento frio bate no seu corpo, arrepiando a espinha. Logo que o vento passa você abre os olhos e se depara com o céu cheio de estrelas lhe olhando, um céu iluminado sorrindo para você.

Você sente que pode fazer parte do céu.

Eu estava olhando para lua, deitado nos arbustos macios.

Estava cercado de folhas e mato, porém vivo. Eu ri para mim mesmo, soltei uma risada no meio da noite e pude jurar que estava ficando maluco. Havia voado alguns metros, talvez uns 5. O Prédio nem parecia ser tão alto quando eu levantei e olhei para ele, sorte que ninguém estava presente para ver aquela cena.

Quase que me esqueço da moça. Quando parei de rir olhei para trás e ela estava parada, imóvel, me encarando com cara de espantada. Ajeitei minha roupa, passei a mão no meu cabelo, tirando as folhas presas dele, ajeitei a coluna e dei o sorriso mais sacana que pude, junto de meu aceno de mão.

Avancei na direção dela e tentei a cercar, a prensando contra a mureta, mas meus músculos fraquejaram, parei por alguns segundos e levei uma rasteira. Quando levantei ela já tinha atravessado a grade de 3 metro e meio mais a frente. Eu preferi dar um chute na porta das grades e quebrar o cadeado, na terceira tentativa eu consegui.

Corremos por entre a floresta-jardim.

Logo no primeiro tronco a moça se desequilibrou e caiu, me dando tempo de alcançá-la. Quando percebeu que eu cheguei levantou e saiu correndo, tentando se esconder atrás das arvores.

Não foi tão difícil de achá-la, a Relva estava molhada e as pegadas de bota ficavam bem marcadas no chão. Imagino que de tanto andar naquele local acabou se perdendo, por que quase demos uma volta completa nas grades que cercavam o quartel. O segredo de se guiar em uma floresta a noite é olhar apenas para o chão, se focar em pequenos objetos, subir em arvores para marcar locais altos e continuar até chegar neles. Se andar apenas olhando as arvores e tentar diferenciá-las, será uma tarefa impossível sair vivo.

Meu corpo já estava quente novamente, apenas mantendo o ritmo da corrida. Quando passamos por uma clareira, decidi aproveitar o campo aberto para acelerar e pegá-la.

Agarrei-lhe o braço e a puxei para trás.

O vestido vermelho que ela estava usando rasgou, enroscou em uma arvore quando a puxei pelo. Ela aproveitou o tranco para me dar um soco com a mão livre, mas consegui pará-lo com a outra mão. A garota era mais baixa que eu, então levantei os dois braços, para que ela ficasse na ponta dos pés.

– Fim da linha, gostou da brincadeira?

Ela estava ofegante, não aguentava mais correr e nem tentou resistir. O suor brotava de seu rosto e ela mordia os lábios de raiva, mas logo parou e se acalmou.

– E como vai me prender? Me culpar? – Ela falava de forma estranha, com um sotaque acelerado – Em espertão?

Não pensei nisso quando comecei a correr.

Pra dizer a verdade eu não pensei em muita coisa. Minha visão ainda estava um pouco embaçada, meus músculos doíam e eu também estava ofegante, diria que agi mais com o corpo do que com a mente.

– Isso não importa, eu darei um jeito!

– Mal aguenta ficar de pé, Dara um jeito em mim? – Ela tentou me dar um chute no peito, utilizando os dois pés, todavia, fui mais rápido e a soltei a tempo. Enquanto tentava se levanta eu a segurei por uma das pernas e puxei.

– Olha quem fala, devia estar suplicando por clemência, afinal é você que está no chão! – Puxava ela para perto de uma arvore com diversos cipós, para tentar amarra La.

Peguei um deles, dei um nó simples com uma mão e me virei para amarra-la, e dei de cara com uma arma.

Tudo que passou na minha mente foi um sonoro Puts.

Como é que eu tinha esquecido que ela matou um cara? Se tinha sangue haveria algum tipo de instrumento no auxilio.