Tsuki
3 Capitulo 3
Já sentiu aquela sensação de querer ser um inseto?
Algo como uma mosca ou um besouro, algum ser que voasse ou que pudesse simplesmente desviar rapidamente do alcance de balas.
Naquele momento, também imaginei ser uma naja, para que meu bote fosse tão rápido quanto a capacidade de tiro da moça, porém, eu não era.
Nas aulas da faculdade, sempre imaginei qual seria a sensação de levar um tiro. Nunca tinha passado por isso, e nem queria, porém me chamava muito a atenção.
A primeira coisa que eu descobri é que segundo a lei do momento linear total, após levar um tiro de uma pistola ou revolver a pessoa dificilmente voará metros como é mostrado em filmes, levando em consideração que a energia acumulada pela bala em relação ao corpo não seria o suficiente para que ela fosse, por exemplo, jogada na parede, saísse rolando colina abaixo ou quebrasse o vidro do nono andar do prédio pelo impacto.
Caso o tiro fosse no coração, teria mais ou menos uns 15 segundos de oxigenação no cérebro, talvez o suficiente para pensar o quanto inútil foi minha vida e dar um sorriso sarcástico, daqueles que eu adoro.
Se o tiro fosse no cérebro, teria tempo o suficiente de não fazer nada, simplesmente morrer. A melhor escolha.
Em qualquer outro lugar não fatal, que eu tivesse chances, poucas chances, de sobreviver, sentiria uma queimação terrível vindo do lugar onde fui atingido, como se a ferida ardesse em brasa e logo depois uma dor enorme proveniente do contrair dos músculos.
Porém, do tiro que eu levei eu só senti uma coisa.
Dor nos malditos olhos.
Fiquei cego durante uns dois minutos, estava no chão gritando de dor no meio da clareira, apoiando as mãos nos olhos. As palavras que saiam eram o de qualquer cavalheiro que havia levado um flash nos olhos. Lembro-me de ter xingado um pouco a mãe, os tios, os avôs e até mesmo os primos de terceiro grau enquanto gemia no chão.
Quando recobrei o pouco da visão que ainda me restava, vi perto de uma árvore ali mais longe, um bueiro com a tampa aberta. Então era por isso que ela deu a volta na base.
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Entrei no túnel e depois de andar algum tempo no escuro, sentindo ratos e coisas até piores passarem por minhas pernas, sai na entrada de uma galeria que ficava atrás da linha do metro, cerca de 30 metros.
Em nenhum momento do percurso a voz da minha mente deu resposta, mesmo eu tendo pedido ajuda, ou melhor, suplicado por uma pista.
Entrei todo mal cheiroso no metrô, quase sendo barrado, pegando o trem mais rápido para o meu apartamento.
Liguei o chuveiro no banheiro e esperei a água esquentar, isso demorava em média 20 minutos graças ao mal funcionamento do prédio antigo, mas hoje valeria a pena esperar. Joguei as coisas em meus bolsos na minha escrivaninha e me esparramei na cama, olhando para o teto por tempo o bastante para refletir os feitos da noite. Comecei voltando aos poucos:
Uma garota havia matado um cara dentro do banheiro masculino. Até ai eu havia entendido.
Uma garota com uma arma de Flash me cegou. Nessa parte eu travei, não consegui entender o porquê de ela ter uma arma dessas, qual seria a funcionalidade? Quem havia produzido? Fala sério, por que deixar o cara cego sendo que poderia ter matado? A não ser se quisesse sair sem matar. Mas, ela já havia matado, então por que não me matar?
Talvez a arma de fogo tivesse ficado nas roupas que ela trocou, as roupas no terraço do prédio. Pergunto-me se daria tempo de voltar e verificar, assim que meus olhos estivessem bons novamente.
Não tinha percebido até agora, mas não acendi a luz do quarto, estava andando no escuro desde que cheguei. Respirei fundo, fui com meu braço até a cômoda ao lado da cama, abri a gaveta e peguei meus óculos escuros.
Os coloquei e permaneci no escuro, o tempo necessário para o banho esquentar.
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Acordei no dia seguinte com o corpo renovado, mas com os olhos ainda em estado grave. Pensei em ir ao médico para checar se eles estavam tudo o.k., mas decidi apenas aplicar um colírio que tinha no armário do banheiro e ficar em casa deitado. Fiquei em casa o dia inteiro e permaneci com os óculos escuros enquanto a luz do sol entrava pela janela do prédio.
Nessa situação de repouso, lembrei dos meus escritores favoritos, e o quanto eles não poderiam me ajudar a solucionar esse mistério.
Existe um livro tocante que sempre que lembro acabo me sentindo na mesma embriagues de emoções cativantemente deploráveis que o homem sente por ficar o dia inteiro deitado em uma cama, sendo que a frase mais bela dele é Bellum omnium contra omnes, que traduzindo do latim ficaria Guerra de todos contra todos.
O fato é que o homem está em um mundo onde o seu maior rival é o seu próprio igual, e ele nunca ficará em paz.
Isso me faz pensar em outras coisas, e outras coisas, e sempre as coisas acabam se tornando diferentes a cada momento, a cada pensamento. Por isso eu odeio ficar sentado na cama, isso me faz pensar demais.
Um dos maiores males, e também feitos do homem, é sua maneira única de pensamento que chamamos de filosofia. Infelizmente, como os antigos da era clássica acreditavam, era necessário você ser um desocupado rico para ser um pensante, afinal de contas, alguém ai consegue trabalhar o dia inteiro, chegar a noite em casa e ainda filosofar junto de sua esposa e filho as razões existenciais da sociedade, o dever da família, a coexistência dos elementos da natureza e a grandeza do universo?
Se eles no mínimo jantarem juntos eu já ficaria extremamente feliz.
A noite chegou, tirei meus óculos e olhei a lua.
Era domingo, não sei qual era o dia e nem que horas eram, porém senti que era o tarde.
As vezes eu achava, quando era menor, que esse era o horário sagrado da noite.
O momento onde a lua está mais alta no céu, onde as estrelas brilham mais forte e onde as vozes que ecoam em minha mente falam em um tom mais baixo, quase imperceptível, e eu ficava feliz por aquilo. Depois de algum tempo eu descobri o por que: Meia noite, era a mudança de um dia para o outro, a mudança de uma Era antiga para uma Era nova.
A mudança de um dia para o outro não é muito grande para os humanos, porém, para os insetos era muito valorosa. Passar da meia noite era algo mágico, especial para eles, levando em conta que muitos não chegavam a 24 horas de vida.
Não estou falando de borboletas.
Muitos se enganam se acham que ela vive apenas essas horas, algumas espécies podem viver de seis meses a um ano, sem levar em consideração os predadores naturais das mesmas. Estou me referindo sim ás Mariposas, parentes das borboletas que, agora sim, em algumas espécies vivem até menos que 24 horas.
Se um dia eu vir uma mariposa de noite, farei questão de fazer uma saudação, por ser a grande mariposa sortuda que durou a transição dos dias, a mariposa de dois dias.
Pena que não dá para saber se essa Mariposa é de vida curta ou não somente a olhando.
Infelizmente, esses pensamentos tristes me deixam pior, porque a sensação de que nossa existência seria para as estrelas, o mundo, o universo, apenas a de mais uma Mariposa de vida curta.
Apesar de tudo isso, a única coisa que me preocupava era Voltar ou não voltar à ativa.
●
No dia seguinte eu me troquei normalmente para ir a faculdade. Odiava as roupas brancas, mas era aquilo que indicava que eu fazia Medicina. Imagino o que aconteceria se eu não fosse com aquelas roupas, seria engraçado a cena do segurança me barrando só por não me reconhecer sem essas roupas.
Meus olhos estavam ruins, precários, então tive de sair de óculos escuros hoje. Peguei minha mochila e caminhei para fora do prédio. Havia dois homens trajados de macacão laranja arrumando o elevador, e um sorriso me veio ao rosto.
Parei em uma padaria da esquina para comer um pão doce, enquanto pensava como iria proceder. Eu acredito muito que se deve pensar antes de agir, afinal de contas, se não fizer isso pode acabar cego andando pelos esgotos da cidade.
Porém, os meus planos foram jogados no lixo quando cheguei à universidade, e presenciei aquela inigualável cena tocante.
Diversas viaturas policiais rodeando-a enquanto vários alunos estavam desesperados andando de um lado para o outro. Reconheci alguns carros de pais estacionados, aquilo era um campus e os pais deviam estar no mínimo na cidade vizinha, parece que a repercussão da festa estava bem maior do que eu imaginava.
Passei por algumas pessoas na entrada, uma pequena multidão aglomerada e entrei pela catraca da faculdade. Olhei para trás e vi o rosto das pessoas: Reconhecia algumas da televisão, e outras da internet, todas elas com câmeras na mão.
Na sala de aula meus colegas explicaram a história por cima sobre tudo o que aconteceu ontem.
As forças militares estavam envolvidas no caso, aparentemente o homem que foi assassinado na festa era de um projeto do governo, e os documentos do mesmo poderiam cair em mãos erradas.
Aquela era a coisa mais estúpida que eu havia ouvido na vida, por que diabos ele estaria em uma festa de adolescentes? Estavam escondendo algo, mas todos na sala estavam muito atordoados com o acontecimento que nem pensavam o obvio.
Fui a enfermaria logo no segundo bloco e esperei até a aula acabar. Deitei em uma das camas, e quando a enfermeira começou a fazer perguntas eu tirei os óculos e mostrei para ela meus olhos.
A enfermeira apenas respirou fundo, deu de ombros e pôs um colírio em meio peito. Ela estava acostumada com minhas visitas de segundo bloco.
– Suas feridas já se curaram não é mesmo? — Eu estava deitado na cama quase caindo no sono quando ela finalmente falou alguma coisa, a primeira vez que ouvia uma frase saindo da boca dela que não tinha um nome de remédio no meio.
Era uma garota jovem, possivelmente recém formada, porém era muito inteligente para quem se iniciava no trabalho. Tinha cabelos avermelhados presos em um coque, era magra e branquinha, com algumas sardas no nariz que as vezes disfarçava com maquiagem, mas estava tão acostumada com minha presença que nem ficava mais tímida, como da primeira vez que a vi sem maquiagem.
Seu jaleco estava pendurado na cadeira e enquanto ela estava escrevendo um relatório em sua escriba, virei minha cabeça para o outro lado da sala e o sol já tinha se posto a dormir na janela.
– Quanto tempo eu dormi? – Pensar em excesso faz o tempo passar, acho que dormi de olhos abertos.
– Se dormiu eu não sei, mas está aqui a bastante tempo, as aulas já terminaram . . .
Provavelmente ela estava fazendo as anotações de fechamento do diário da enfermaria. Era a segunda vez que eu estava vendo aquela cena, a primeira vez foi no meu primeiro dia na escola onde eu cai do segundo andar, não houve nenhum osso quebrado, nenhuma fratura, mas passei o dia inteiro em observação.
– Desculpa, de novo.
– Se desculpando por ficar doente?
– Não foi por hoje, por tudo.
– Você é a razão de eu ainda ter um emprego aqui, então tudo bem. – Ela não olhou para mim nem por um segundo, estava vendo por baixo dos óculos, meus olhos estavam bem melhores, não sei se ela sabia disso.
– O que você prefere, Borboletas ou Mariposas? – Perguntei.
– Borboletas
– Por que? – Era uma pergunta de praxe, eu já sabia a resposta, era sempre a mesma . . .
– Por que as Borboletas são mais bonitas.
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