Tsuki

1 Capítulo 1


O Barulho do Trem era ensurdecedor.

No começo tentávamos falar, mas chegou um momento em que o silencio, ou melhor: os estrondos do trem, preencheram aquele vagão por completo.

Encostei minha cabeça no vidro gélido e desisti de tentar convencer minha irmã mais nova de não ficar próximo de mim como parente, de uma forma bem inútil, pois ela insistia vigorosamente. Sempre dizia a mesma coisa, as mesmas preocupações: Sabia que meu pai não gostava de minha pessoa, mas sabia que se ela se aproximasse, ele se aproximaria, mesmo se for com e apenas, investimento financeiro.

O segundo motivo era minha doença desconhecida, que me fazia passar muito mal, sempre quando eu menos esperava.

O Terceiro e ultimo, era a saudade que ela sentia de seu irmão mais velho, e como fazia falta um ser social presente em sua vida, que não fosse o motorista do carro e a senhora que ordenava serviçais.

Eu não era parecido com ela.

Littlepink era uma garota forte, rica e extremamente generosa, nunca a vi ficar irritada nem brigar com alguém, mas ela sabia impor sua opinião, sabia como convencer as pessoas de que estava certa.

Menos eu.

Eu ainda vivia meus 18 anos de idade, mesmo já estando neles há muito tempo. Minha vontade de viver já havia se dispersado aos meus 20 anos, agora aos 22 estava enterrado debaixo do mar, junto com todos aqueles lindos ex-dinossauros que usamos para abastecer nossos carros.

Mas uma coisa não mudava: jamais queria ver aquele homem novamente. E se não fosse pela minha doença, não aceitaria nenhum centavo, não continuaria na faculdade e não iria preocupar tanto Littlepink.

Ela estava com a cabeça em meu peito, dormindo. Não sei ao certo quando ela dormiu, tinha parado de ouvir o que ela falava.

Quanto tempo se passou? Não sei. Falando em tempo, ele escurecia rapidamente, o céu estava nublado, choveu a manhã inteira e a tarde ameaçou desabar, mas permaneceu de pé, apenas nos surrando com os ventos fortes vindos do sul, estragando a visita de minha irmã ao parque de diversões, estragando a única visita que ela me faz no ano.

Ora! Nunca fui crente em deuses, mas ai já é mancada comigo mãe natureza!

Paramos na estação do Aeroporto. Chacoalhei-a até acordar, e em um suspiro forte, levantou o corpo pesadamente e pôs a mochila nas costas. Seu rosto estava acabado, o seu cansaço era muito mais mental do que físico, muito mais sentimental do que corporal, tanto que, com os pequenos feixes de luz que brotavam das nuvens negras refletindo seu rosto, ela se parecia comigo.

– Até ano que vem, White. — Disse ela, enquanto eu, só pude acenar antes das portas do trem fecharem.

●

Havia passado algum tempo desde que meu celular despertava pela milésima vez naquele quarto escuro e imundo. As únicas luzes entravam pelas frestas da persiana e batiam na minha cara, impedindo que eu continuasse com meu lindo sono.

Segunda-Feira, o melhor dia da semana.

Levantei a contragosto, lavei meu rosto, escovei os dentes, arrumei minha roupa e minha mochila, enquanto fazia o café. Aparentemente, um dia completamente normal, sem mudança alguma no cotidiano.

Eu já sabia o que fazer o dia inteiro, a rotina era cansativa e monótona que o tédio já se extinguiu há muito tempo, restando apenas o vazio, cujo era impossível de se preencher. Meus pais são pessoas muito renomadas em suas áreas, e por terem tanto compromisso e dinheiro, esqueceram de me dar atenção e amor, por isso eu sou um garoto tão revoltado com o mundo que só precisa de uma dama em sua vida para florescer.

Soltei uma leve risada enquanto pensava nessa mentira que contei a mim mesmo. Sim, eu sou muito irônico com meus próprios pensamentos.

Para não ficar de vadiagem como eu fazia antigamente, meu pai me botou em uma faculdade de medicina, com a grade curricular aumentada em dois anos.

Medicina, e eu achando que não podia ser pior. . .

Pelo menos, graças há esses anos extras, poderei ter matérias relacionadas a ciência criminalística, uma área que me interesso.

Depois de vestido sai do meu querido terceiro andar e desci as escadas do apartamento. Uma coisa peculiar é a falta de elevador no local. Não que não exista elevador, que por sinal tem mais de um, o problema é a falta de funcionamento daquela coisa. Graças às crianças sapecas do quarto andar, houve pequenos acidentes, que levaram a manutenção do elevador por apresentar perigo de vida aos moradores que excedessem 200 Quilos na viagem.

Os donos até deixariam o elevador funcionando, se não fosse uma linda velhinha esquecida que quase pôs em risco, ou melhor, pôs em risco a vida do Sindico com meia dúzia de sacolas de compras.

A faculdade ficava a algumas estações de Trem do apartamento, acho que umas cinco ou seis, eu sempre durmo um pouco e nunca sei. Apesar de haver alojamentos na faculdade, eu prefiro manter distancia de tudo que é alegre e tenha bebidas. Nas primeiras semanas que vim para a cidade eu frequentei os dormitórios, mas depois de não conseguir dormir durante algumas noites, particularmente as sextas e sábados, decidi me mudar.

O trem era entediante, jamais passara tanto tempo em um local que nunca gostei. As horas somadas nesse trem já passavam de meses. E olha que estou apenas no terceiro semestre da faculdade. Minha única salvação era meus fones de ouvidos tocando minhas musicas preferidas. Disso eu não me cansava.

Aulas entediantes. Não havia outro jeito de definir os primeiros quatro anos da faculdade, a coisa só ficaria interessante nos próximos. Eu não achava isso, eu tinha certeza absoluta. Desde a minha época de trabalho, eu era bom em descobrir as coisas óbvias que grande parte das pessoas deixam passar. O famoso decoreba é algo extremamente fixado no ensino publico, então não me assustei de ver isso em uma universidade.

Graças ao meu histórico de vida, já tinha estudado aquele tipo de coisa, motivo que só aumentou meu desgosto pela faculdade. Mas como diria um filosofo famoso qualquer, o esforço é a água que rega a semente do sucesso.

Primeira aula, segunda aula, terceira aula, intervalo . . .

É significativo ver como os professores já formados conseguem se exibir em frente aos alunos, não conseguem nem ao menos falar três frases sem citar sua formação. E olha que nem é uma formação tão elevada, apenas duas das sete pessoas do corpo docente tem doutorado.

Meus nervos estavam a flor da pele, era como se algo estivesse errado, senti um enjoou enorme, como se meu coração fosse saltar para fora, de tanto que ele queria fugir daquele lugar. Era quase 4 horas da tarde, sentei-me em um vão do muro que iluminava o corredor da passagem para os dois prédios.

Eu já havia sentido isso antes, era o sinal de perigo, medo, angustia, um sexto sentido de super herói, mas ao invés de um simples Plim na cabeça, era como se a gravidade me puxa-se para baixo, para cair do prédio.

Eu com certeza já havia sentido isso antes, naquela época . . .

Meus pensamentos subitamente foram cortados quando a dor parou e um rapaz da minha sala chegou perto de mim, abaixando o rosto para ver dentro de meus olhos.

– Você está bem?

– Apenas uma falta de ar, sou asmático – Menti, não queria que ele se preocupa se com isso.

– Ei, você é o White da nossa sala não?

– Isso mesmo. – Me levantei da beira daquela janela, olhei para trás e percebi que estava no terceiro andar, isso me deu um certo frio na barriga.

– Ei, esta afim de ir na minha festa?

Eu travei novamente, mas dessa vez foi em um tempo muito curto. O que eu senti foi diferente de antes, em vez de me puxar para ficar, me empurrou com todas as forças possíveis para cima daquela proposta, e não pude dizer nada além de um sim.

●

Vesti minha melhor roupa: Camiseta negra com desenho de uma banda qualquer, calça Jeans, botas do exercito bem lustradas e minha bolsa de acampamento, porém, deixei ela em casa no ultimo momento. Acabei me esquecendo de que ia para uma festa, e não acampar, um dos meus hobbies.

Eu sou um cara de muitos hobbies. Infelizmente eu andei me afastando de tudo por desmotivação. Antes eu era um grande atleta, acampava todo final de semana, praticava Judô e ainda tinha tempo para o treinamento do exercito,

Voltei dos meus pensamentos quando a pia do banheiro transbordava. Estava fazendo minha barba e me cortei com a gilete, de vez em quando, esses pequenos flashbacks acontecem, tentando me levar cada vez mais ao passado, mas eu ainda resisto. A algum tempo atrás, eu tive um acidente de trem na Inglaterra, e isso acabou literalmente quebrando meu espírito, mas nem foi a pior parte.

Coloquei um band-aid em meu queixo, abri a gaveta de minha escrivaninha e puxei sem querer meu Revolver. Pelo que me lembrava, ele estava debaixo do colchão, escondido de todas as formas de tudo que respirava nesse prédio, mas mesmo assim ela apareceu em outro lugar, ela sempre aparecia. No cano havia um grande risco que ia até Tambor, o cabo era mais pesado que o normal e estava completamente sem bala.

Puxei ela e verifiquei o tambor como de costume, e me enganei. Tinha apenas uma bala, que eu não sabia da onde tinha vindo.

Devolvi ela a gaveta e peguei minha carteira, aquilo estava a muito tempo ali, talvez nem dispare, mas é melhor precaver do que remediar.

Desci as escadas rapidamente, acabei me atrasando para pegar o trem das nove. Agora não iria descer no final, acho que umas três estações antes. Percebi que alguns homens de amarelo estavam mexendo no elevador, finalmente aquela velha chata poderá parar de encher o saco dos outros com suas compras.

Na saída, quase cai em cima da mesma, parece que saiu de meu pensamento: Diversas compras, o taxista fugindo, a velha vestido roupas antigas, segurando apenas duas sacolas e sorrindo para mim.

Imaginei se não poderia atropelá-la e acabar com o problema do condomínio de uma vez, mas meus extintos foram mais rápidos, e consegui pular para a esquerda antes do choque, isso sem perder a velocidade. Fingi que estava com Fones de ouvido e continuei correndo.

Sendo que eu nunca sonharia, que perder tempo com essa velhinha poderia me tirar de tudo que iria me envolver. O meu primeiro Erro da noite.

Encontrei-me com os colegas de faculdade sem saber onde era o local da festa até eles me falarem.

– Como assim a festa é em um Quartel do Exercito Desativado? – Perguntei.

Fiquei surpreso por ninguém se impressionar com aquele pequeno fato. Tentei imaginar que eles deixaram o local disponível para eventos, porém, essa ideia não entrava em minha mente depois das pessoas sorrindo assim que perguntei.

– Aquele local está abandonado a alguns meses, era o ponto de uso de drogas dos narcóticos, mas com a patrulha policial aumentada e as pressões do governo eles foram expulsos. Já que o prédio estava vazio, falamos com alguns amigos e eles ajudaram no esquema.

Tinha ouvido falar daquela operação ridícula da policia. Sou a favor de uma cidade mais limpa, no quesito de meu dinheiro continuar em meu bolso, mas infelizmente os interesses políticos superam o coração quente do ser humano e, ao invés de ceder o prédio para alguma ONG ou coisa parecida, o mantém desocupado grudando poeira.

Parece piada, mas nessa cidade, grande parte dos edifícios são de empresas privadas que simplesmente não o usam, uma cidade fantasma feita propositalmente.

Tive de ficar aguentando as musicas bregas da moda dos jovens, sempre me gorando, esperando que aquelas coisas impulsivas de meu espírito não me fizessem repetir aquela cena. Pensava que eu estava controlado, mas ultimamente, os impulsos ficaram mais fortes, minha respiração ofega sempre que eu acordo, sempre que eu saio de um sonho daqueles, cujo eu vejo o passado. Ser Social.

Chegando a estação da festa, cerca de duzentas pessoas estavam lá. Era incrível como aquele cara era popular. Cumprimentei a contra gosto a maior quantidade de pessoas que eu pude, mas logo eu parei e olhei para baixo no parapeito, perto da catraca.

Consegui ver em meio a uma floresta densa um forte de aço gigantesco, onde luzes se implodiam e mesclavam os céus. Era mais que uma festa Rave, eu quase consegui ouvir as sirenes em minha mente, imaginando um fugitivo correndo pela mata perseguido por cães raivosos, tropeçando em todo tipo de ser noturno que me fazia sorrir.

Mas logo vi um monte de gente caindo na bebedeira e perdi meu interesse.

Era um complexo de 1.600 metros com uma enorme floresta tropical como jardim. Um prédio principal contendo cinco andares e diversos alojamentos para os soldados ficarem. A festa ficava em um pátio largo, cercado em todas as pontas por sofás coloridos e uma caixa d água cheia de uma bebida roxa, gosmenta e borbulhante.

Ta, devo ter exagerado na parte da bebida, todavia, aquilo me dava nojo só de chegar perto.

Como a vida é cheia de fazer piadas com nossas faces, um colega de sala me trouxe uma jarra cheia e me deu para beber. Puis minha parte em um copo, aproximei de meu rosto e o cheiro me deu vontade de vomitar.

●

Despejei toda a jarra dentro da privada, torcendo para que ela não corroesse o solo do banheiro, ultrapassando a água da privada e indo parar em minhas botas. Pelo pouco que sei de bebidas, devia estar com a taxa de álcool em 70%, era tão forte quando Absinto em sua versão mais potente.

Enquanto via a jarra se esvaziar, pensava pela primeira vez o porquê de eu estar aqui.

Vamos fazer uma pequena viagem sobre o meu subconsciente: Um garoto fora do eixo, que seus pais mandaram estudar bem longe deles para terem sossego, repleto de fobias e antissocial, ate ai tudo bem, a maioria era assim, mas não um cara que tem um histórico de vida cheio de tragédias como eu, aquele cara que sempre é olhado torto pelas outras pessoas que dizem Nossa, é ele mesmo?.

Abri a porta do Box para sair, mas minha calça ficou presa ao suporte do rolo de papel higiênico, como se já não estivesse de péssimo humor. Era uma projeção de metal em forma de garra que brotava da parede do banheiro. Fechei a porta novamente, para que ninguém me visse, coloquei a jarra de bebida no chão e comecei o trabalho sujo. Depois de alguns minutos tentando retirar a garra sem dilacerar o frágil tecido da minha jeans eu desisti e retrocedi aos anos 80 rasgando a parte do joelho da calça.

Respirei fundo, olhei para o chão e contei até o quanto lembrei que existia, por fim abri a porta.

E meu Primeiro passo, foi em uma poça de sangue escarlate.